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Different Life

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Era uma manhã nublada e com poucos vestígios de raios solares. Harry dava certo desconto para o clima, afinal, ainda eram por volta das cinco da manhã e ele realmente não estava esperando um tempo firme no frio Reino Unido. Com roupas pesadas para se proteger e o nariz levemente avermelhado, ele caminhava solenemente para o último lugar queria ir no momento. Mesmo assim era preciso; em um de seus bolsos, encontrava-se dois artefatos de uma história antiga que acabou tornando-se um conto para dormir. Um dos artefatos lhe pertencia como uma herança de família e o outro iria voltar de onde nunca deveria ter saído.

 

Harry perdera a conta de quantas vezes admirou tal objeto mágico com certa nostalgia e temor. Há poucos dias havia decidido que a varinha das varinhas voltaria para as mãos de seu dono antecessor: Albus Dumbledore. E este era o maior motivo para o menino-que-sobreviveu estar caminhando em uma manhã nublada nos arredores da sua antiga escola, local onde sorriu e chorou. O local onde ganhou tudo e este mesmo tudo foi retirado de si. 

 

Se encolheu em seu casaco e sua toca na cabeça que cobria os cabelos negros bagunçados. Um caos, assim como a vida de Harry nos últimos dias. Nunca havia suportado atenção e agora, deveria lidar com o dobro dela. Os males de ser o salvador da magia. Era cercado por pessoas que mal o conheciam e formavam algum tipo de imagem fantasiosa do mesmo. O herói dos bruxos, a esperança da magia. Grande coisa! Harry tinha sorte, um pouco de determinação e talvez ele fosse um tanto imprudente, sem contar aquela natureza heróica que carregava consigo.

 

Entretanto, seus defeitos que davam certo não estavam sendo utilizados no momento. Naquela manhã, dali a algumas horas, haveria um julgamento. Harry havia sido convidado pelo próprio ministro para assistir sentado ao juri, contudo, o pobre rapaz não tinha coragem suficiente para encarar a família Malfoy depois de tudo. E com esse sentimento, a lembrança de que ainda estava em posse da varinha de Draco o pertubava. Imaginava como ele deveria estar: um bruxo puro-sangue sem a tomada de sua magia. Harry ainda podia se lembrar dos detalhes que formavam o objeto: pilriteiro e pelo de unicórnio. Vinte e cinco centímetros. Riu quando, bobamente, lembrou-se que leu algo sobre a madeira referente a varinha à alguns dias. Uma árvore cheia de espinhos, indomável e briguenta, assim como o próprio Draco. Ele era como o maldito espinho de sua vida.

 

Não sabia se teria coragem de ir ao julgamento para ver seu antigo inimigo de escola e os pais do mesmo serem mandados à Azkaban. Não suportaria vê-los perder tudo, inclusive a dignidade. Dignidade essa que estava sendo jogada aos ventos assim que Harry recebeu um pergaminho de Lucius com um pedido de ajuda. O Malfoy-pai queria que o salvador revelasse algum depoimento que salvasse pelo menos a Narcisa e Draco. Harry se admirou com tal pedido, mas não sabia como fazer para atender. Optou pelo silêncio, sabendo que as esperanças dos três haviam sido esmagadas pela falta de respostas.

 

Finalmente parou e seus pensamentos com os Malfoy se foram assim que deslumbrou o túmulo de mármore. O nome em dourado lhe de trouxe lembranças e Harry não as queria ter no momento, mas era inevitável. Pegou do bolso do casaco a varinha que ele devolveria ao lugar, desenrolando-a da capa da invisibilidade que agora lhe era útil para fugir de flashes e perguntas. Com um suspiro, a varinha das varinhas em mãos e sentindo o frio do dia, o Potter começou a falar o que havia treinado:

 

— Acho que agora eu entendo o quão poética é a morte. — falou e riu pelo nariz. — Ela é calma, quieta... a vida é mais agitada. — lamentou. — Eu vim... eu vim devolver a varinha das varinhas ao seu dono. E talvez ter uma de nossas conversas? Eu não sei...

 

Se aproximou devagar, se sentando no chão e ignorando a friagem da grama.

 

— Minha vida está um caos, Senhor... eu conseguir derrotar Voldemort, mas dessa vez parece ser pior. Com o líder derrubado, os seguidores das trevas parecem estar perdidos. — disse. — E ainda temos os dementadores que parecem apreciar fazer ataques aos trouxas. E todos esperam que eu resolva os problemas, mas eu... — abaixou a cabeça um tanto decepcionado consigo mesmo. — Dez dias atrás, o Ministério capturou um dos Comensais da Morte e chamou-me para ver seu julgamento. Era Theodoro Nott, o mesmo garoto quieto da Sonserina. O mesmo garoto que eu via pelos corredores em meus tempos de escola indo para Azkaban totalmente enlouquecido.

 

Harry olhou a varinha das varinhas na sua mão. Ficou algum tempo em silêncio, tentando formular algo coerente em sua mente.

 

— Hoje será o julgamento dos Malfoy e eu estou com medo de assistir. Medo do esperado. — contou. — Uma mentira para Voldemort ou aquela cena de Draco entregando sua varinha para matar o Lorde podem ser suficientes? Eu não sei... há tantos crimes. Ele tentou matá-lo! E Lucius fez coisas terríveis! — lamentou em meio à brisa fria. Harry fechou os olhos. — E então, há o luto. Eu enterrei Colin, Lavender, Fred, Tonks, Remus... eles mereciam uma vida depois de tudo que passaram. — ele fez um rosto dolorido. Sua próxima fala veio cheia de rancor e dor. — As vezes, eu queria que Voldemort jamais chegasse a existir...

 

Apertou a varinha das varinhas com certa força. Não chegou a ver a brisa gelada levar consigo uma linha brilhante que havia saído da mesma. Era dourada, como um fio de ouro, e contornou o corpo de Harry antes de desaparecer no nublado das nuvens. O rapaz, entretanto, não viu o manifesto mágico. Estava de olhos fechados em um silêncio torturante. Talvez esperasse uma frase sábia ou uma mensagem, porém, nada além da brisa e do balançar da grama vieram. Finalmente ele abriu os olhos e, silencioso, moveu a varinha para abrir o túmulo. Não teria coragem de ver o corpo em decomposição do ex-diretor, por isso, depositou a varinha por cima do caixão. Retirou sua própria do bolso e novamente fechou o túmulo.

 

— Espero que esteja bem, Diretor Dumbledore. — murmurou. — Eu vou tentar me manter vivo. Acho que é o que você quer que eu faça...

 

Virou-se de costas e guardou sua varinha, encolhendo-se nas roupas de inverno e voltando a caminhar para fora dos arredores do que havia sobrado de Hogwarts.

 

Harry não queria admitir, mas estava fugindo das lembranças que lhe faziam sentir aquela nostalgia de antes da guerra. Paredes que carregavam histórias demais e um peso tremendo em seus ombros. Não voltou à Rua dos Alfeneiros ou a Mui Antiga Mansão Black; nem ao menos aceitou o convite de ir para A Toca. Harry também estava evitando Ginny, que já havia lhe enviado cartas ofensivas demais para eles poder contar, porém, a última correspondência da ruiva estava recheada de desistência e mágoa, com frases que machucavam seu espírito.

 

"...herói ou o homem que eu amo? Acho que sempre foi admiração, nunca teve paixão."

 

E ele concordava.

 

Harry abriu a porta do pequeno apartamento em uma parte isolada de Londres e entrou, trancando-se no lugar e suspirando aliviado. Ele não aguentava mais ser seguido e tinha consciência de que haviam encontrando seu pequeno "esconderijo". Se virou para dentro e viu em cima do seu sofá, empoleirada entre os travesseiros, uma coruja parda com uma carta no bico. A assinatura de Hermione estava visível e o olhar do menino-que-sobreviveu foi-se para o relógio-cuco que havia ganhado da velha professora Trewlaney: eram exatos meio dia. Harry ficara fora por horas e havia perdido o julgamento.

 

Andou até a coruja, sentando-se no sofá e fazendo um leve carinho no animal, que soltou a carta em seu colo e piou alegre. Harry sorriu fracamente se lembrando de Edwiges. Ainda com a mão acariciando as penas da coruja, ele abriu a carta e leu-a com cuidado:

 

Harry,

 

Infelizmente não conseguimos fazer muito. Lucius Malfoy e Draco acabaram sendo sentenciados a Azkaban e Narcisa a prisão domiciliar por não ter a marca negra. Foi uma cena terrível, vê-los sendo arrastados pelos aurores... eu me pergunto aonde você estava, Harry. Se estivesse aqui, talvez conseguisse impedir.

 

Até mesmo Ron está triste. Nunca o vi ter pena de Malfoy, mas ele estava horrível. Eu juro, tentei de tudo, mas o Ministério ainda está infestado de mentes primitivas.

 

Responda minha carta quando puder. E me diga como foi a entrega da varinha ao túmulo de Dumbledore.

 

Com amor, 

 

Hermione J. Granger.

 

 

Harry permaneceu por um longo tempo olhando a carta. A culpa lhe abateu e ele apenas se deixou cair ainda mais no sofá, assustando a coruja que levantou voo e foi para sua cozinha. O moreno suspirou, a imagem de Malfoy pedindo por ajuda veio a sua mente. Como ele era um imbecil! Um covarde de merda que não conseguiu encarar novamente aquelas tempestades nas orbes do inimigo. E ele era o maldito raio, não era? O que temia nas tempestades? O arrependimento? Os sentimentos? Harry não sabia responder.

 

Jogou a carta de lado e se deixou cair no sofá, esticando o corpo e implorando para não pensar. Ele não queria lembrar de nada. Ele queria ser um grande vazio. Fechou os olhos e respirou fundo, fugindo das imagens de sua mente. Ao menos notou aquele mesmo fio dourado rodeando-o, tomando-o como seu. Harry sentiu seu corpo flutuar e ser levado por um sono solto, sua mente se esvaziar e o alívio vir como um prêmio depois de todas aquelas semanas. Seu corpo estava confortável entre lençóis e um cheiro de café veio para suas narinas como um presente divino. Harry sorriu em seu sono.

 

Mas sua mente pareceu estranhar aqueles fatos: café, lençóis e um espaço muito maior do que seu sofá. O moreno abriu os olhos levemente e se espreguiçou, tateando ao seu lado em busca de seu óculos. Um despertador tocou, Harry sentou-se, colocando o óculos e finalmente enxergando o lugar onde estava.

 

Aquela não era sua sala e muito menos o seu sofá. Não era nem mesmo o seu quarto. Ele franziu o cenho: estava louco? Será que aparatou durante o sono em algum descontrole de magia? Isso era possível? Harry estava prestes a se fazer mais questionamentos quando notou uma movimentação ao seu lado.

 

— Harry, desligue esse despertador. Vai acordar o Scorp... — a sonoridade rouca lhe causou arrepios. Ele não conhecia aquela voz tão adulta. Seus olhos focalizaram cabelos platinados escondidos entre os cobertores. Sua corda vocal falhou quando a pessoa se virou para ele.

 

Era Draco Malfoy. O mesmo Draco que deveria estar em Azkaban naquele momento.

 

— Malfoy? — perguntou com a voz um tanto grogue de sono e muito confusa. O platinado sorriu de canto, espreguiçando-se como um gato e fitando Harry com a sombrancelha arqueada. 

 

— Esse meu sobrenome, espertinho. — disse em um tom brincalhão. Com um movimento rápido, as pernas do loiro rodearam a cintura de Harry e o fizeram cair. O choque veio logo que os lábios do homem tocaram os seus e uma risada brincalhona em seguida contemplou seu rosto assustado e sua boca entreaberta. — Desligue o despertador, amor.

 

E Malfoy saiu da cama como se nada tivesse acontecido. Harry ficou estático no mesmo lugar, o despertador tocando como antes. Mas seu desespero cresceu quando ele ouviu um latido, seguido de algo quebrando, um grito infantil e um choro de um bebê. No banheiro do quarto, Malfoy gritou:

 

— Scorpius acordou, Harry! Merlim! Eu sabia que ele acordaria com esse barulho. — e magicamente, o despertador parou de tocar, mas o choro não cessou.

 

Potter se sentou na cama novamente e colocou as mãos na cabeça. O choro do bebê não ajudava-o a raciocinar e, para piorar, algo em seu dedo enrolou-se ao seu cabelo e ele olhou para sua mão rapidamente. Não gritou, mesmo que seu corpo pedisse pela ação como um modo claro de demonstrar horror. Havia uma aliança de casamento ali. E em verde, o nome Draco cintilava no prateado do anel lustrado.

 

Algo estava errado. Muito errado. Mas antes, ele urgentemente precisava fazer aquele choro cessar.