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Nas Pontas dos Dedos

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O que eram sonhos? Bruno Buccellati sempre se sentia perplexo quanto aquilo. Pedaços da realidade, desejos, esperanças? Talvez nada disso, na verdade. Algo mais misterioso, que a mente humana não poderia conceber.

Algo… Especial. Maravilho, como doloroso.

Como viver. Como…


A vida após a morte era uma mistura do que Bruno imaginava e algo mais.

Abaixo de seus pés, nuvens fofas, douradas em um tom reconfortante, macio. Em volta, uma vastidão que, estranhamente, não o perturbava – o clima era dos mais pacíficos, tocando seu interior de uma maneira majestosa.

Bruno não pensava em vida que teria essa luxúria, a possibilidade de, quando morresse, ele não estaria inundado por algo que não culpa, remorso – esses eram os sentimentos que se mesclavam dentro de si por muito tempo.

Até seu encontro fatídico com Giorno Giovanna.

Bruno sorria, cabeça apoiada em uma árvore brilhante como reconfortante naquele infinito. Giorno… Talvez ele devesse agradecer àquele homem por tudo isso. Em seu tempo ali, ele tinha encontrado rostos conhecidos, que o faziam se emocionar de tantas maneiras. Seus companheiros de equipe, seu pai… Uma paz sem limites o inundava e ele sabia que nem mesmo suas últimas palavras ao novo chefe da Passione seriam o bastante para dizer o que havia em seu peito.

Líder da Passione. Bruno sorria, contentamento em seus traços. De onde ele estava, ele poderia observar tudo o que acontecia no terreno mortal. No início, aquilo foi um tanto estranho, mas com as explicações de seus amigos e de seu pai ele se acostumou com aquela estranheza – o vislumbre de vidas que eles não podiam tocar, não da forma de antes.

No começo, Bruno dedicou muito do seu tempo – este, tão imerso, sem a contagem usual de relógios – ao seu pai. Nos primeiros encontros, ele se sentiu envergonhado perante ele – tudo o que ele fez, sem resultado, tantas mortes, tanta dor… A expressão de seu pai, sempre em sua memória tão sisuda se amaciou, lhe sorrindo como ele ainda fosse um menino em seus braços, ao qual ele contava histórias sobre a vida de pescador, com um pouco do Bruno sonhador e esperançoso ainda vivo.

Meu filho.” Ele disse, acariciando o rosto de Bruno. “Eu lhe entendo. Tudo que você fez, tudo que passou… Foi complicado estar aqui, sem poder lhe ajudar diretamente, mas eu sempre estive com você, mesmo que você não se recorde agora.”

Aquilo o confundiu, de início, mas como um enorme quebra cabeças que falta somente uma peça, tudo se encaixou. Memórias, de uma vida não vivida, de um estado sentindo apenas em breves momentos, esquecidos a um mero mortal, vieram a tona.

Bruno se lembrava de sonhar com seu pai muitas vezes, mesmo que a memória do que tinha se passado não pudesse ser relembrado. Enquanto vivo, um sentimento de angústia vinha ao seu peito sempre quando acordava desses sonhos, sentindo que algo precioso fora perdido.

Mas ele se lembrava também de um acalento, algo que afagava sua alma de certa forma que ele não sabia como explicar.

Seus amigos o contaram sobre sua experiência. “Aqui, de certa forma, você pode ter contato com os vivos, mesmo que eles não se lembrem depois.” Abbacchio disse, com um pacífico Narancia ao seu lado. “Depois que eu morri, memórias do meu companheiro de polícia vieram e ele me contou que aquilo foi possível por meio dos sonhos.” Ele dissera, com Bruno a organizar aquilo em sua mente.

Então...” Bruno disse, vendo a expressão tão tranquila em Abbacchio, coisa rara de ser vista em vida. “É possível contatar os vivos?”

Aquilo não fazia muito sentido – mas, aos poucos, fazia. Bruno se lembrou dos abraços que seu pai o dava nos sonhos, que pareciam tão reais. As palavras dele, que diziam que ele estava a se tornar um homem que ele poderia admirar, tão orgulhoso dele…

Era curioso – somente agora, Bruno conseguia ver tudo aquilo com clareza. A forma que, mesmo que silenciosamente, seu pai o apoiara, nos momentos mais difíceis. O espaço que eles habitaram agora o permitiu dividir mais momentos, relembrando pouco a pouco tudo que tinha se passado enquanto ele dormia, sem saber o que de fato ocorria.

Olhando para o mundo debaixo agora, seu semblante tomava um franzir. Ele tinha perguntado, em alguns desses momentos ao seu pai, como ele tinha lidado com aquilo – ter contato com um ser amado, mas não poder realmente fazer algo de concreto. Seu pai o olhou calmamente, passando a mão pela sua bochecha, expressão mista em seu semblante.

É uma escolha. Talvez difícil, talvez sem sentido. Mas eu queria estar ao seu lado de qualquer maneira. Talvez fosse um pouco insensato?” Seu pai disse, sorrindo finamente, passando a mão pela franja dele. “É difícil de explicar, Bruno. Um dia, ouvi você me chamando então não pude evitar de tentar te confortar.”

Sentado nas nuvens, Bruno observou o mundo abaixo outra vez. Uma escolha. De onde estava, Bruno podia ver todos seus amigos que continuavam suas vidas, mesmo após de tudo. Vê-los o trazia certo conforto – Trish, a ter uma vida normal, como ela tinha direito. Fugo, que depois de um tempo, acolheu seus sentimentos de culpa sobre todo ocorrido, tendo certa paz e Giorno…

Giorno era tão brilhante como ele tinha pensado que ele seria, tendo o trono da Passione. Ele via como ele tinha a destreza, a determinação – Bruno se admirou, sorrindo com certo orgulho, como o loiro conseguiu destruir os pedaços restantes de Diavolo na organização, aniquilando com aquilo que tinha os unido, a princípio. Era somente um sonho naquela época – uma realidade, agora. E Bruno se sentia feliz, tão contente…

Até aquele primeiro sonho.

No lugar onde ele estava, não havia diferença entre o dia ou a noite. Ele passava a maior parte do tempo com seus companheiros, com seu pai, vendo alguns rostos conhecidos, se pacificando de sentimentos de culpa que esvaeciam com o tempo. Mas, então, um lamento o chamou, enquanto ele admirava o céu por cima de sua cabeça, uma dor que o cortava como se ele ainda estivesse vivo.

De início, Bruno não entendeu muito o que acontecia, o porquê daquela sensação. Olhando para o reino dos vivos, ele viu as luzes cintilantes da cidade e, quanto mais ele olhava, seu foco se concentrava mais naquele chamado, por ele.

E então ele viu Giorno, em meio aos seus lençóis, a tremular.

Um golpe no peito, algo difícil de assimilar. Era como se ele estivesse sentindo o que o outro sentia, e ele não compreendia aquilo, como o brilhante Giorno dos dias se tornou aquele que ele olhava se debater em seus lençóis. Já tinha se passado um ano depois de aquilo e, para ele, Giorno não poderia estar mais feliz do que no agora, tendo tudo o que queria, mas, mas–

Buccellati.” Seu nome, chamado, o fazendo sentir algo em seu peito. “Buccellati, eu...”

A experiência durou apenas alguns segundos e Bruno, sem entender bem o que tinha se passado, colocou uma mão no peito, sentindo-se como se vivo novamente.

Vivo – como naqueles dias. Ao ter sua alma liberada e chegar àquele lugar, Bruno só teve um sentimento, mesmo com outros contrastantes – uma paz que o engolia, fazendo tudo que sentia se desprender aos poucos. Ele imaginava que era um processo normal, o desligamento de tudo aquilo que o ligava ao mundo ao qual ele pertenceu por vinte anos. E ele permaneceu naquele estado, absorvido por algo calmo, completo. E, por algum motivo, que ele colocava em sua cabeça ser possivelmente o lugar que ele estava, certos sentimentos que se apegaram em seu coração nos seus últimos dias de vida tinham se amaciado, se tornando algo apenas do passado.

Mas lá estava ele, coração que parecia saltitar, uma dor, como dos últimos dias, ao ver aquele olhar, aquele semblante. De repente, tudo que tinha se esmaecido voltava com força, o fazendo reviver emoções que ele pensava ter deixado em seu coração mortal.

Seu encontro com Giorno Giovanna tinha o despertado inúmeras coisas no seu mais íntimo. Na rapidez da missão, daqueles dias tão fortes, que passavam com um turbilhão, algo tinha crescido dentro dele. Bruno não tinha pensado muito nisso – nem mesmo no passado, antes de tudo aquilo, quando ele tinha tempo, ele se deixava aprofundar no que sentia, um certo temor daquilo se agarrar a ele, o tornando imóvel a tudo que sentia. E foram assim também seus últimos dias. Entretanto, era inegável, naqueles breves momentos em que sua cabeça não se apossava de como agir, de como cumprir a missão e proteger seus companheiros, Trish–

E Giorno. Um aliado, um companheiro. Amigo? Algo o negava, se debatendo dentro de si. Algo maior, sem explicação. Algo que o fazia se sentir… Vivo. Realmente, vivo.

Ele tinha dito isso a ele, no final. Na liberação de sua alma, Bruno se sentiu livre de revelar aquela verdade, mesmo que tivesse pouco tempo para o dizer, confronto entre Diavolo a ainda ocorrer entre aqueles que sobreviveram. Ao desapegar dos sentimentos terrenos, Bruno encarou Giorno sorrindo, tentando dizer em seu olhar algo que ele sabia não poder ter tempo de dizer. E, talvez, errado de se revelar.

Seus sentimentos por Giorno eram… Complicados. De início, um inimigo. Momentos depois, alguém que ele depositava sua confiança, mesmo que não inteiramente. Depois, depois de tanta coisa…

Bruno o olhava das nuvens, vendo o semblante perfeito de sempre no rosto do loiro. Ele suspirou, acreditando que aquele chamado fosse mera ilusão, algo passageiro – se ele tivesse sobrevivido, Bruno sabia, ele também teria noites assim, chamando pelos companheiros perdidos. Se ele estivesse no lugar de Giorno–

Os dias terrenos passaram e nada daquilo voltou a ocorrer, acalmando Bruno um pouco. Todos tinham momentos de fraqueza e ele sabia, imaginava, racionalizava, que sua morte tinha afetado Giorno de alguma maneira. Era normal– Ele era humano, mesmo por trás de toda aquela resolução e ímpeto. Não aconteceria mais, Bruno pensava.

Até que aconteceu. De novo, e de novo.

Bruno sentia– sentia muito. Uma dor, sofrimento. Ele não entendia, vendo o loiro se debater em seu sonho. Como era possível? Por que – por que Giorno estava assim? Por que–

Por que a dor do outro o afetava tanto?

No fundo, Bruno sabia a resposta exata daquilo. Mas a resposta o deixava sem ar, mesmo no pós-vida. Ele não deveria se sentir assim – lá estava ele, num lugar que coisas como aquela não o afetavam – não deveriam o afetar. Aqueles sentimentos, no qual ele tinha lutado para não se fazer transparecer. Algo tão fino, frágil… Especial, que não deveria acontecer.

Bruno não gostava de sentir tanto – desde menino, ao ver os sorrisos de seus pais, o sofrimento dos mesmos, Bruno achava aquilo uma falha, algo defeituoso em si. Ele ouvia de seu pai numa conversa com sua mãe, escondido atrás da porta de seu quarto ainda criança, que sentir demais era muito perigoso – e toda sua experiência o tinha revelado que seu pai estava certo. Quando sua mãe decidira partir, quando seu pai tinha sido atacado… Bruno colocava o que sentia de lado, pensando no que era melhor para situação. Ficar com seu pai, assassinar aqueles que tentaram o matar no hospital. Ele seguira assim, ao entrar na máfia, ao ganhar mais confiança dos membros da Passione. Sentimentos– ele não conseguia os evitar, mas aquilo não o afetaria.

Mesmo que, de fato, o afetasse muito.

Sua decisão de apoiar Giorno vinha de seus sentimentos, do seu ódio pelas drogas. Sua escolha de trair o chefe, para proteger Trish… Mesmo antes disso, muitas vezes seus sentimentos o guiaram, mesmo que ele soubesse que aquilo não era o melhor a fazer.

Uma batalha, que ele pensava ter deixado de lado quando sua alma partira do corpo de Diavolo, livre–

Liberdade.” Seu pai o disse, o encontrando na profundeza de seus sentimentos. “É um conceito que cada um percebe de maneira diferente. Você, filho, tem que fazer sua escolha. E eu sei que já fez.”

Ele falava de outras coisas, Bruno ponderava. Do seu passado, do caminho que tinha trilhado. Mas–

Bruno sorria melancolicamente, ouvindo seu nome outra vez na voz do outro. Seu pai poderia não demonstrar sentimentos, e, Bruno, agora pensava, que talvez aquilo fosse pelas mesmas motivações das dele. Ele não era um homem que se aprofundava em palavras, mas desde pequeno Bruno sabia como ele o lia como um livro. E talvez ele tivesse compreendido aquilo que o afligia, mesmo que ele também não o colocasse em palavras.

E então Bruno se deixou fluir, para um espaço que poderia o conectar com o outro, com aquele homem que tinha, além de o fazer se sentir vivo novamente sentir algo, nutrir algo tão bonito como trágico.


Na primeira vez, Bruno só pode observar.

Giorno estava na mesa do Libeccio, como naquele primeiro encontro com a gangue. Seus amigos o rodeavam, suas vozes baixas ao seu ouvido e Giorno não dizia nada, apenas encarando a cena em sua volta.

Bruno não entendia – ele jurava ter ouvido seu nome ser dito pelo loiro, mas lá estava ele, em silêncio ao ver os outros interagirem, expressão calma e ponderada que ele tinha visto muitas vezes naqueles dias juntos.

Até que Giorno voltou o olhar até ele, uma lágrima correndo livre em seu rosto.

Bruno ficou sem ar, por um momento, sentindo algo muito doloroso em seu peito. Giorno ainda o encarava, olhar fixo, como se realmente o vendo.

O sonho se desfez, com Bruno a voltar a sua nova realidade.

Aquilo era tão confuso, tão

Ele tentou conversar com Narancia e Abbacchio sobre isso. Os homens simplesmente o sorriram, sem dizer muita coisa.

Você vai entender.” Narancia disse, ao lado do outro. “Na hora certa, você vai entender.”


Na segunda vez, Bruno também não pode fazer nada além de ser um mero espectador.

Giorno estava sentando em um jardim, que Bruno identificava como ser o de sua base agora como chefe da Passione. O loiro colhia algumas rosas, as colocando em um vaso, uma expressão serena no rosto.

Bruno sorriu àquilo, se sentindo aliviado. Ele tinha novamente ouvido o seu chamado, se deixando ser levado por aquilo. Giorno parecia tranquilo, a cuidar de seu jardim, um fino sorriso em seus lábios.

O loiro se agachou próximo a uma petúnia, sorriso a se tornar mais fraco.

- Me pergunto se você gostaria delas, Buccellati.

O sonho se desfez como na última vez, resquícios de sentimentos em seu peito a permanecerem nele. Bruno ainda não entendia muito bem tudo que se passava, mas imaginava, que, talvez, o outro pensasse nele naqueles momentos, o impelindo em seu adormecer.

A expressão no rosto do loiro permaneceu em sua mente, e Bruno se sentiu aliviado, imagem daquela lágrima ainda a corroer algo em sua mente.

Talvez… Seja apenas seu desejo de dividir coisas comigo. Bruno pensou, sorrindo um pouco. Giorno, eu… Também queria poder dividir essas coisas com você.


Na terceira vez, o mesmo sonho da primeira vez. Giorno estava novamente na mesa, rodeado dos companheiros de equipe, olhar distante de todos. Bruno apenas observava, sentindo novamente aquele mesmo sentimento no peito.

Outra vez, Giorno o encarou, mas dessa vez apenas o fitou, semblante a se esmaecer em um sorriso.

- Buccellati… - o loiro dizia, mão a se estender em direção a ele. Seu sorriso, algo como frágil e mesmo assim forte, era somente a ele. - Você morreu feliz, não é?

Bruno o fitou, sem poder se mexer. Em sua boca, palavras que queriam confirmar a verdade da fala do outro, mas lábios que simplesmente não podiam se mexer.

Novamente, uma lágrima rolou na bochecha do outro, o fazendo tremer.

- Isso é verdade, não é, Buccellati? - a expressão do outro se contorceu em dor e Bruno sentiu aquilo em si. - É verdade não, é? Buccellati, eu…

O sonho se desfez e Bruno se viu de novo, no lugar de sempre. Em seu peito, um misto de emoções, doloridas como também…


Na quarta vez, Giorno estava no iate de Capri, seu olhar ao mar, infinito, a frente deles. Desta vez, Bruno estava sentado ao lado dele.

- Sabe, Buccellati. - Giorno disse, uma certa alegria na voz. - Essa foi nossa primeira viagem, não é? Eu nunca tinha viajado de barco. - o loiro dizia, olhar a frente, sorriso e serenidade em seu rosto. - Me disseram que se pode ficar enjoado, mas eu não fiquei.

Bruno ouvia tudo, imóvel. Gaivotas voavam por cima deles, mesclando o som de seus gritos com as vozes dos companheiros de grupo ao fundo.

- Sabe, eu me lembro de uma coisa em particular nessa viagem. - Giorno comentou, passando a mão por alguns fios de cabelos, remexidos pela briza do mar. - Você me chamou quando eu fui pego pelo stand inimigo, não é? - ele dizia, colocando uma mão a frente, como se sentindo o ar. - Naquele momento, com tanta coisa acontecendo, eu não pensei muito naquilo. Mas hoje em dia… - o sorriso se tornou maior, toques de gentileza neles. - Ouvir você chamando meu nome… É tolo, mas eu sempre me recordo disso. Da sua voz. - ele disse, se voltando a ele, expressão suave no rosto. - Sua voz, dizendo o meu nome… Eu sinto falta disso.

Outra vez, tudo desapareceu. Bruno, sentando como no sonho, sentia. Algo doce, um calor…

Era bom. Era ruim, também.

Mesmo que eu não chame seu nome. Bruno pensou, passando a mão em seu peito, aquele sentimento intricado bem ali. Eu sempre tenho ele em mente, Giorno.


Na quinta vez, mais acostumado com tudo aquilo, mesmo que ainda estranho a ele, Bruno se viu em um campo de flores, colorido e imensamente bonito, fragrância adocicada no ar.

Havia alguns dias que Giorno tinha viajado para negócios e Bruno tinha visto aquele cenário do alto, vendo o semblante tranquilo do outro enquanto Mista e Fugo o reportavam sobre a missão.

Giorno passeava pelas flores, passando delicadamente as mãos nas pétalas de cada uma. Dessa vez, Bruno conseguiu se mover, o seguindo pelo campo florido.

A expressão no rosto de Giorno era semelhante a de seus dias naquele lugar – composta, controlada. Bruno conseguia ver os traços mais firmes a surgir no rosto do outro, sorrindo por ele ter tido a oportunidade de viver – amadurecer era algo que Giorno sempre tinha, já bem colocado nele, Bruno sabia. Não era como seus traços tivessem mudado tanto também. Seu cabelo loiro, brilhante, seus olhos verdes, como a grama em seus pés. Cada traço fazia Bruno respirar, mesmo que não precisasse. Sentir, mesmo que fosse…

- Eu nunca soube ao certo se você gostava de flores. - Giorno disse, ainda a caminhar. - Talvez você tivesse preferidas? Talvez sua cor favorita para elas fosse branca, que nem sua roupa. - ele disse, sorrindo, pegando uma flor em particular. - Ou azul, que nem o mar da sua cidade natal. - ele continuou, mais silenciosamente. - Sabia que eu descobri mais sobre ela? - ele disse, semblante a se suavizar. - Mas eu não tenho coragem de ir lá, ainda hoje. Um covarde, não é? - ele disse, se virando para ele. Em seu olhar, traços de dor, que o cortavam outra vez.

- No final das contas, eu sou um covarde…

A cena se apagou e Bruno se viu com a mão erguida em direção ao outro, expressão ainda fresca em sua mente que o fazia querer alcançá-lo, dizer o quão errado ele estava. Bruno não tinha conhecido alguém mais corajoso que Giorno Giovanna, mais certeiro que ele, que conseguia o que parecia impossível.

Em sua garganta, Bruno sentiu algo que há muito tempo ele não sentia. A alcançando, ele sentiu o nó nela aumentar, sem resolução.

Giorno, eu…”


Na sexta vez, Bruno se viu num escuro quarto, desconhecido a ele.

Ao olhar em volta, se sentindo perdido, ele encontrou Giorno, agachado perto de um berço, sentado, abraçando suas próprias pernas, expressão vazia em seu rosto.

Da onde ele estava, Bruno descobriu muitas coisas. Sobre onde seus amigos tinham escolhido o deixar descansar, das visitas de sua mãe a aquele lugar… Ele descobriu outras coisas também, quando uma senhora parou Giorno na rua e um olhar tão frio e sem emoção se direcionou a ela, da parte do loiro.

Ele se aproximou do loiro, que parecia não olhar em nada particular. Se sentando ao seu lado, Bruno o encarou, minutos a fio, silêncio a os acompanhar naquele lugar.

Aquele Giorno parecia muito o mesmo que tinha o fitado, surpreso, com sua revelação que ele estava morto. Foi só uma escapulida, segundos perdidos a qualquer um que não se atentasse àquilo. Mas–

Bruno sorria melancolicamente. Cada detalhe sobre o homem ao seu lado – uma parte toda especial nele, somente a isso.

Os minutos se passaram e o olhar de Giorno foi até o berço, expressão a endurecer no rosto do outro.

- Não poder demonstrar o que sinto… - Giorno disse, apertando suas mãos contra si. - Como eu te odeio. Até isso você me roubou. No passado, eu pensei que isso era irrelevante, inútil, mas…

Bruno sentiu, novamente, aquele nó em sua garganta. O loiro, erguendo uma de suas mãos, a abriu, revelando um objeto bem conhecido a Bruno.

- Nem chorar por ele eu posso. - Giorno disse, tom amargo, inaudível na sua vida terrena. - Nem demonstrar a dor da perda dele…

Outra lágrima, solitária, naquele rosto que somente deveria ser adornado de pura felicidade.

- Porque só aqui eu consigo fazer isso… - Giorno disse, esfregando a bochecha com força. - Já vão fazer três anos e…

Um lamurio, como o primeiro, tão horrível o quanto.

- Buccellati… - Giorno disse, colocando a mão com o pequeno zíper em seu peito. - Eu sei que é egoísta da minha parte, mas… Mas você… Eu… O que eu sinto…

A cena foi abruptamente interrompida e Bruno respirava com dificuldade, encontrando lágrimas a correr pelo próprio rosto. Um sentimento que o engolia, maior do que qualquer coisa em toda sua vida. Era pior que quando vivo – emoção tão a flor da pele que o rasgava.


Por algum tempo, Giorno não o chamou mais em seus sonhos, e Bruno não sabia o que fazer com aquilo.

Não eram sensações agradáveis – Bruno não gostava de lembrar daqueles eventos, mas, naquele mundo em que ele estava era como se tudo fosse sentindo em seu total – tudo que ele não se permitia em vida, vinha como uma onda agora em sua morte.

Ele não dividia aquilo com ninguém. Como entenderiam– Como ele poderia se explicar? Não era mera dor por um aliado de dias difíceis, Bruno reconhecia, no silêncio daquele carro em Roma, bem antes de estar ali. Um segredo, só dele, que ele, em seus momentos finais, não sabia ao certo se era seu dever dividir com mais alguém… Principalmente com ele.

Aquilo tinha florido, tão magicamente como magistralmente. Como a habilidade do outro. Incrível, impossível– Dar vida a algo sem isso. Giorno tinha o dado em seu encontro, em seus momentos divididos. Algo tão inalcançável em toda sua vida, algo que ele considerava não merecer, ao brincar com a vida de inocentes em sua participação na Passione…

Quando menino, ele via aquilo como algo tão especial… Que se desmoronou, como um castelo de cartas com a separação de seus pais. Se nem eles mesmos, Bruno pensava, tinham conseguido aquilo, como ele, um pecador, alguém que ajudava a espalhar aquele mal pelas ruas, contra os inocentes, teria aquilo? E Bruno tinha se conformado, vivendo uma vida voltada as regras, as certezas que poderiam ser atingidas. A proteger seus companheiros, seus amigos.

Pequenina palavra, tão pequenina como o primeiro botão a nascer em seu peito. Quase imperceptível, até que não fosse. Pétalas tão bonitas, uma cor tão vibrante, como o que ele sentia, em silêncio. Como uma flor num rochedo, aquele sentimento…


Na sétima vez, Giorno admirava o céu estrelado, cheiro de mar em suas narinas.

- Depois de anos… - Giorno disse, sorrindo ironicamente. - Aqui estou eu. E, é, era como eu pensava. - ele disse, pegando a areia sobre seus pés com força. - Muito pior que qualquer coisa.

O cenário era dolorosamente familiar a Bruno. Em tanto tempo depois de sua partida, ele reconhecia tudo a sua volta. A casinha, próxima ao mar. O pequeno barco, próximo a eles, tinta desgastada de tantas viagens, de tantas memórias.

- Eu nunca vim aqui e… - Giorno riu, som doloroso aos ouvidos de Bruno. - E cada parte me lembra você. Como isso é possível? - Giorno murmurou, soltando a areia, a olhar o horizonte, cheio de sentimentos em seu rosto.

- Buccellati… - ele disse, miudamente, lábios a tremerem. - Buccellati… Eu sempre chamo seu nome aqui, mas não quando estou acordado. É… Difícil. Tanto para os outros como para mim. Sua memória é tão viva… - Giorno riu de novo, e novamente, lancinante, ele viu as mesmas lágrimas rolarem o rosto do outro. - Eu sinto tanto, tanto sua falta… Tanto, Buccellati. - novamente, a expressão de sofrimento, que o fazia, insensatamente, querer estar vivo para que ela não existisse. - O que eu tenho aqui, guardado em meu peito… Eu não sei o que fazer com isso… Eu pensei que, com os anos, tudo se tornasse mais fácil, mas…

Com uma força que Bruno sentia mover mundos, ele foi até Giorno, o abraçando. Bruno sentiu o outro se tensionar e ele simplesmente o abraçou com mais força, trança do cabelo loiro do outro a tocar seu rosto, rosto apoiado no ombro a tremular… Braços que o apertavam contra si como ele tanto queria poder ter feito em vida.

- Buccellati…? - Giorno disse fracamente e Bruno agradeceu aos céus por não precisar ver a expressão do outro, abraçando-o ainda mais as costas do outro. Ele agradeceu, também, pelo outro não poder ver sua expressão, cheia de tantas coisas. Anseios, sonhos. Sentimentos grandes demais, que o marcavam, até hoje. - Bucc–

- Giorno. - o moreno disse, o abraçando ainda mais forte. - Giorno, Giorno. Giorno.

Um nome, que o fez vivo uma vez. Que o fazia sentir transcender qualquer coisa, mesmo agora.

O loiro abraçou seus braços com os deles, a leve briza do mar os tocando. Bruno sentia o retumbar do peito de Giorno, no mesmo ritmo que o dele, mesmo aquilo fosse impossível.

- Giorno. Giorno. - ele dizia, sentindo o calor do outro, a fragrância de flores sempre presente nele. - Eu estou aqui, com você. Enquanto você quiser, eu…

O sonho se desvaneceu e Bruno se viu de braços vazios, sem aquele ser tão–

Bruno cobriu o rosto com suas mãos, se sentindo mais vulnerável que em qualquer situação anterior. Ter o tocado, o sentindo, tão perto de si. Aquilo era tão...


- Sentimentos, meu filho. - o pai de Bruno disse, minutos de silêncio depois da confissão de seu filho, que não sabia como encarar o pai. - Sentimentos são…

- Eu sei que esse é o meu maior defeito. - Bruno disse, finalmente o encarando. O semblante de seu pai era como de sempre – um tanto rígido, mas suavizado, como ele o encontrara naquele lugar. - E eu sei que…

- Uma vez. - o homem disse, olhar a ir ao alto. - Eu ouvi sua mãe me chamando. - ele disse, e Bruno o encarou surpreso. - Acredito que ela tenha descoberto a minha morte depois da sua. Sei que você não a informou e acho que foi o certo, mas…

Uma expressão de arrependimento, que Bruno nunca pensou ver no rosto de seu pai. Dor e remorso e amor, tão viscerais como nunca.

- Eu a amava tanto… - o homem disse, voltando o olhar abaixo. - Ainda a amo. E vejo como fui um estúpido por não lutar pelo amor dela. Ela… - ele sorriu levemente. - Mesmo casada, ela chorou por minha morte e quando ela me chamou nos sonhos dela, eu…

O homem, tão rústico, tão pintando em sua mente como sem emoções, chorou.

- Quando a consegui tocar, eu… - ele balançou a cabeça, encarando Bruno. - Bruno, eu passei pelo mesmo quando você me chamava. Em meu coração, eu sentia que não era certo fazer nada a não ser observar, mas…

- Pai… - Bruno disse, vendo o homem acariciar sua bochecha com afeto.

- Quando eu te abracei pela primeira vez em seus sonhos… - o pai de Bruno disse, passando o dedo pela bochecha do filho. - Doeu, demais. Eu fiquei me perguntando se, no final das contas, se aquilo era algum tipo de penitência, talvez. Mas eu descobri que não. - ele disse, colocando seus braços em volta de Bruno. - De alguma forma, de algum jeito, eu sabia que aquilo seria bom para nós dois. Eu sei que isso soa egoísta, mas ver você, chamando meu nome, sem poder fazer nada–

Bruno o abraçou, o agarrando contra si como um menino outra vez. - Pai, você fez o certo. - ele disse, sentindo demais. - Eu, de alguma forma, mesmo sem entender… - Bruno suspirou, o abraçando com mais força. - Você me deu forças.

- Bruno. - a voz embargada de emoção fez lágrimas caírem do rosto de Bruno. - Meu filho querido.

Momentos após isso, Bruno e seu pai se sentavam, lado a lado, a olhar lá em baixo. Giorno organizava contratos, negociando com facilidade e altivez, nenhum traço do loiro em seus sonhos.

- Por mais fortes que as pessoas aparentam ser. - o pai de Bruno disse, tocando a mão do filho. - No fundo, sempre sentimos. Sentimentos são…

- É. - Bruno disse, segurando a mão de seu pai contra a dele. - Eu sei, pai.


Na oitava vez, Bruno se viu novamente no restaurante.

A cena era igual às das últimas vezes. Abbacchio, Mista, Narancia, Fugo, sentados na mesa e Giorno. Giorno...

Giorno o encarava, expressão honesta como ele não via nele no seu presente. Aberta, como ele teve a chance e o privilégio de ver, em seus tempos juntos.

- Buccellati… - outra vez aquela mesma voz, aquela dor que ele reconhecia refletir o sentimento do outro, que ele só poderia liberar nesses momentos. - Buccellati–

Bruno o puxou da cadeira, e Giorno, surpreso, foi tomado pelos braços do outro, que se deixou liberar também sentimentos escondidos, pensados como proibidos, destruidores do futuro brilhante que o outro teria pela frente.

- Giorno… - Bruno disse, se separando um pouco e a tocar a bochecha do loiro com delicadeza, com amor. Amor, que ele sentiu naqueles dias, que ele sentia agora, cheio de força, inabalável. - Eu morri feliz, porque te encontrei.

- Buccellati, mas–

- Giorno. - ele sussurrou, lábios que ele não tinha permitido em vida a se aproximarem dos do outro, sentindo o doce ar a sair deles. - Se há algo que eu me arrependo… - ele disse, passando a mão pelos cabelos, macios, tão belos como o homem que ele se apaixonara. - É de não ter dito o quanto amava você. Até agora, mesmo que pareça impossível… - ele se aproximou mais, vendo o olhar do outro somente nele. - Eu te amo.

Lábios, que não puderam ser tocados na vida, foram selados agora. E era tão doce, tão doloroso…

- Buccellati… - Giorno suspirou, lábios separados por um segundo. - Eu também queria ter dito isso a você. Te amo tanto que dói…

- Meu amor. - Bruno disse, beijando as bochechas, o nariz... Cada pequeno traço tão amado por ele. - Dói também daqui, mas…

Outra vez. Um beijo, suave como as nuvens sobre seus pés, como a paz que ele, finalmente, reconhecia ter adquirido, realmente. Mesmo depois que o momento se desvaneceu, Bruno sorria, feliz, finalmente livre, no sentindo real da palavra para ele.


Na vigésima e quinta vez, Giorno e ele ficaram de mãos dadas, no balcão da varanda de um hotel nos Estados Unidos.

- Eu sei que é um sonho. - Giorno disse, cabeça recostada no ombro do outro, mãos atadas, polegares a fazerem carinhos nos dedos um do outro. - Mas eu fico feliz, mesmo assim.

- Tenho notado você mais feliz. - Bruno disse, a beijar as laterais da cabeça do outro, que ria suavemente. - Pelo que ouvi por aqui, não é normal os vivos terem a noção disso após os sonhos, mas…

- Somos diferentes. - Giorno disse, se virando para ele. Aquele tom altivo, forte– Real. Bruno sorria enquanto Giorno passava a mão pelos traços de seu rosto. - Nós já sabia desde o começo, não é?

- Giorno, Giorno. - Bruno disse em tom divertido, beijando a ponta dos dedos do outro, vendo o outro sorrir, feliz, como fazia na sua vida diária mais vezes. - Como você é tão…

- Certo? - Giorno disse imperiosamente, o beijando suavemente nos lábios. Bruno retribuiu o beijo, se sentindo sublime, como nem o paraíso poderia sentir. O loiro se afastou, colocando a mão livre em sua nuca. - Sabe, tenho um pressentimento que estaremos juntos em breve.

- Você é mais perspicaz do que qualquer pessoa. - Bruno disse maciamente, acariciando o rosto do loiro, que fechou os olhos, expressão de deleite. - Mas você vai tentar impedir que isso aconteça, não é? Que seus parentes fiquem a salvo, que seu pai–

- É claro. - Giorno disse, abrindo os olhos. Determinação e certeza, vivas, que faziam Bruno completo. - Mas algo em mim diz que talvez nem eu possa impedir. Estamos perto de onde eles estão, mas…

- Vamos nos encontrar. - Bruno disse convicto e Giorno acenou, olhar firme nele. - De qualquer maneira, de qualquer forma…

- Talvez na próxima vez que nos encontrarmos… - Giorno disse com a mesma delicadeza de seus dedos, que tocavam a boca de Bruno. - Nós não precisemos de sonhos para dizer nossos sentimentos. A realidade…

Bruno o beijou e ambos se abraçaram, intensidade do amor entre eles tão infinita como nada no mundo.

- De qualquer forma, de qualquer jeito… - Bruno murmurou, testa colado no outro, proximidade que ele somente conseguiria definir como a única certeira no mundo. Juntos, assim, nos braços do outro… - Nós vamos nos encontrar...

- E nos amar. - Giorno completou, outro beijo, como inúmeros outros, cheios de afeto naqueles momentos entre eles. O desvanecer começou e Bruno e Giorno sorriam, mesmo assim.

Sonhos poderiam não ser concretos, dando e roubando algo em seu final, cortando parte de algo adorável como terrível. Era como viver. Maravilhoso, único, especial.

Como amar. Passando por qualquer muralha, atingindo o possível com o impossível, unindo pessoas que poderiam estar em distâncias que não podiam ser simplesmente calculadas.

Sentimentos tão frágeis, tão doloridos. Mas belos, brilhantes. Viver e amar, dor e felicidade, ao mesmo tempo, mesmo que não parecesse possível.

Mas simplesmente era e com o calor dos lábios de Giorno ainda em seus lábios, Bruno sorria.

Sonhar. Amar. Um toque de almas, completo.