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My Girl

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850

INVERNO


           Fumaça saia por meio das costuras da bota de couro marrom enquanto Porco pacientemente a observava sentada na cadeira destinada para clientes da loja de sua familia, Pieck estava calada dês de que ele a colocou para dentro e assim ficou mesmo depois dele perguntar se ela estava bem, seu rosto estava congelado em uma seriedade que ele viu pouquissimas vezes, o que o fazia se sentir ainda mais idiota.
           Imaginou que após seu convite levaria alguns dias antes de se verem novamente, desde que a garota virou Guerreira e ele um ajudante no comércio do pai se viam muito pouco, menos ainda que quando Marcel ainda estava lá, agora a encontrou duas vezes no mesmo dia, ela literalmente caiu diante dele, a resgatou duas vezes e isso inflou seu ego, mas agora no silêncio torturante ele se sentia muito estupido em convida-la para sair.
           Quando ele chegou a certa idade e começou a notar que garotas eram interessantes, Pieck se mostrou mais atrativa que qualquer uma das outras meninas da mesma idade, chegando a ser tema de uma das últimas conversas que teve com seu irmão.
-Marcel, é impressão minha ou a Pieck está mais bonita?
-Para mim é a mesma de sempre, talvez você é que a esteja vendo mais bonita
           Sim, estava mais bonita, seu rosto era delicado e amável, mesmo zangada, ele gostava de como o espaço entre suas sobrancelhas ficava enrugado quando a irritava, também a maneira como infla as bochechas para lhe dar uma bronca.
           Ambos saíram dos pensamentos que os cercavam quando o som da sineta da porta ecoou, uma cliente entrou já cumprimentando o rapaz enquanto apontava para um par de sapatos na vitrine.
-Se quiser pode subir-Porco sussurrou perto da guerreira enquanto ia até o estoque procurar um sapato para a cliente-Espero que não tenha esquecido o caminho
           Pieck não respondeu, mas aceitou a oferta, mancando e usando as paredes como apoio entrou pela porta lateral atrás do balcão onde sabia ficar uma escada que ia para a residência da família Galliard. Se segurando firme no corrimão ela conhecia aqueles corredores do segundo andar com precisão, o quarto dos meninos ficava na penúltima porta à esquerda.
           Havia anos que não entrava naquele quarto, desde que ela e os meninos pararam de brincar e começaram a correr pela vaga de guerreiros. Era um quarto grande, mas parecia pequeno por ser dividido igualmente em dois espaços, a esquerda havia uma cama, uma prateleira e uma escrivaninha, tudo completamente arrumado, os pertencer de Marcel organizados perfeitamente, não só por ele no momento estar em uma missão, mas porque sempre foi tudo impecável daquela forma. Já do lado direito outra cama de solteiro estava amarrotada, no lugar da escrivaninha havia uma cômoda onde algumas peças de roupa estavam penduradas para fora das gavetas meio abertas, na parede um cartaz de recrutamento estava pregado com um alfinete perfurando a madeira.
           Se sentou na cama de Marcel enquanto encarava o cartaz, queria saber o que os pais dele achavam disso, mas quando subiu para o segundo andar anunciou sua presença e não obteve resposta, tudo estava quieto, então eles provavelmente não estavam em casa. Flexionou o tornozelo, ainda doía e a fumaça continuava a sair, sua regeneração era lenta e isso testava sua paciência às vezes, mas era muito mesquinho reclamar de tal habilidade quando a maioria das pessoas precisam de um tempo indiscutivelmente maior para se recuperar de ferimentos.
           Infelizmente a janela do quarto não dava direto para a rua, e sim para a parede lateral do prédio ao lado. Queria verificar se Zeke ainda estava do lado de fora esperando, quando entrou viu que ele pretendia abordá-la, ou resgatá-la, passando lentamente em frente a loja e a encarando pela vitrine enquanto Porco lhe levava até a cadeira.
           Se sentia enganada, envergonhada, imaginou-se andando pelos corredores do quartel, passando ao lado de alguém que ouviu a gravação, alguém que sabia que ela e Zeke haviam chegado a tal grau de intimidade, cochichando que o Chefe de Guerra havia usurpado a virgindade da Guerreira. Toda a situação, fechar os olhos para as atitudes de Zeke, tentou ignorar suas ações, um erro que ela sabia estar cometendo, mas decidiu fingir que não porque preferia mentir para si mesma.
           Deitou na cama, sentindo cheiro de lençóis limpos mostrando que a senhora Galliard trocava com frequência a roupa de cama, como se para deixá-la sempre preparada para o retorno repentino do filho mais velho. De todos eles justo ela ficou, justo ela e Zeke, imaginou se não seria melhor terem sido separados, mas tal pensamento foi condenado logo em seguida, ela teve o privilégio de ficar, de aproveitar os anos restantes ao lado do pai, poder voltar para casa depois da batalha e ter o conforto do próprio lar, não iria deixar a raiva repentina por Zeke fazê-la desprezar a sorte que teve, ainda mais quando estava deitada na cama de um colega que era muito amado pela família, onde a saudade era dolorida e espera torturante, se alguém poderia impedir Porco em sua aventura suicida de entrar para o exército esse alguém era Marcel, mas ele estava na ilha, esperava que pudesse voltar a tempo de ao menos encontrar o irmão caçula vivo e inteiro.
-O que está pensando?-ergueu levemente o rosto para ver Porco parado na porta do quarto, tinha a sensação de que ele já estava lá havia um tempo, mas não poderia ter certeza
-Marcel e nos outros-voltou a encarar o vazio-As vezes sinto muita saudade, mas claro, não tanta quanto você
-Quando ele foi lembro que fiquei feliz em ter o quarto só para mim-o rapaz sentou na própria cama-Mesmo que agora pareça vazio demais e muito grande para apenas uma pessoa
           O rapaz observava a amiga de infância deitada, ela parecia perdida nos próprios pensamentos, estava com ciúmes, queria que lhe desse um pouco de atenção, ela estava em seu quarto deitada na cama, estavam sozinhos, como poderia pensar em qualquer outra coisa além disso, quando a situação ecoava incansavelmente na mente do jovem?
           Infelizmente naquela época Porco ainda não sabia que não importava o que fizesse, Zeke Yeager sempre iria reaver a atenção da portadora do Titã Carroça.
           Pieck ainda sentia o impacto da porta contra suas costas quando ele a empurrou, a sensação de não conseguir respirar corretamente ao ter sua boca tapada, o esforço que fez em vão ao tentar se desvencilhar. Nunca imaginou que Zeke agiria dessa forma com ela, tudo apenas pela perspectiva de dizer algo que poderia comprometê-lo, isso aguçava ainda mais sua curiosidade sobre o que ele escondia, não era algo sem importância, mas algo que certamente o colocaria em risco, as possibilidades que vinham em sua mente eram tantas e cada vez iam piorando, seu segredo era algo que caso viesse a ser conhecido por Marley teria consequências terríveis, disso ela tinha certeza.
-Aconteceu alguma coisa?
           O rapaz enfim se atreveu a perguntar, depois do que parecia muito tempo apenas se deliciando em observar a garota.
-Muita coisa na cabeça, Porco, às vezes parece que vai explodir
           Colocou a mão na têmpora sentindo uma enxaqueca se aproximando.
-Sabe o que seria bom?-ela continuou-Sair e me divertir um pouco, o que acha?
           Imaginou que ela estivesse falando sozinha, até que aqueles grandes olhos escuros se viraram aguardando uma resposta dele, o deixando um pouco perdido.
-Sair?
-Sim, que eu me lembre recebi um convite mais cedo-um sorriso cansado e suplicante o fez corar
-Hoje?
           Afirmou com a cabeça.
-Sim, claro, onde quer ir?-não conteve a animação na voz
-Não sei, que tal você escolher?

 

           Ficar aguardando no meio da rua começou a parecer estupido depois de meia-hora parado do outro lado da calçada da loja de sapatos, e seu cigarro estava acabando. O loiro refez o caminho até seu apartamento, subindo muito lentamente cada degrau, percebendo só no corredor que havia deixado a porta aberta, sorte que seu prédio era quase morto.
           Pisou no cigarro apagado que caiu em meio a discussão, olhando em volta tentando entender como o apartamento conseguiu ficar tão escuro e pesado de repente. Arrastando os pés pelo piso de madeira andou até o maldito trofeu que ganhou anos antes, queria atira-lo contra a parede, despedaça-lo em mil pedaços entre os dedos assim como fazia com as pedras antes de joga-las contra os inimigos. Logo que o recebeu entendeu o que tinha dentro, confirmado tempos depois ao desaparafusar o tampo da base e encontrar um pequeno e muito moderno sistema de escuta transmitido sem fio com uma bateria que parecia infinita, ele sempre a verificava e ela estava sempre ativa. Sim, ele colocava a escuta ao lado da saída de som do rádio, mas nunca soube o quanto conseguia ser interferido pelo barulho.
           Aprendeu a viver com aquele empecilho, de início sentiu raiva, depois incômodo, agora estava acostumado, afinal, a única pessoa que recebia lá era sua avó, não havia com que se preocupar além da falta de privacidade, quando queria se sentir mais confortável ligava o rádio, mas Pieck, bom, eles foram bem sonoros noites antes, e ficou implícito ela ter ido a sua casa e saído na manhã seguinte, o que quer que tivesse sido ouvido não interferiria na interpretação que seria feita por quem o vigiava, ele poderia entender sua mágoa.
           O pior era a sinceridade, honestidade com a qual aquela noite foi conduzida, a sensação e satisfação que sentiu, todo o carinho entre os dois, aquilo foi muito maior que qualquer coisa que já vivenciou, talvez infelizmente a menina não fosse perceber, afinal era sua primeira experiência, mas diferente dela, Zeke sabia muito bem o envolvimento que houve entre ambos. E isso dava medo, ele não poderia se apegar, não poderia se distrair, se Pieck se colocasse em seu caminho não poderia hesitar em perdê-la, ou eliminá-la, ainda assim ele queria desesperadamente se desculpar e tentar explicar a situação.
-Por que eu me importo tanto?-perguntou a ninguém especifico enquanto se servia de um copo cheio de whisky para aquecer o corpo depois de tanto tempo da rua
           Duvidava realmente que Pieck fosse denunciá-lo ou tentar prejudicá-lo, não poderia dar motivos ou razões concretas para isso, digamos que ele seguia seus instintos e conhecimentos sobre a menina, ainda assim ele já se livrou de algumas pessoas por muito menos que isso.
           Zeke tentou se distrair pelas horas seguintes, lendo, ouvindo rádio, até fez alguns exercícios procurando esvair a mente, mas mesmo pendurado no batente da porta, sentindo o suor começar a cobrir a própria pele enquanto erguia o corpo em movimentos precisos, só conseguia pensar em Pieck. Aquelas lágrimas mesmo que não caídas, a maneira como ela pareceu machucada, por sua culpa.
           A noite chegou, e com ela uma ansiedade preocupante, sabia que não seria capaz de ter uma noite de sono ou fazer qualquer coisa que fosse sem vê-la, talvez já estivesse mais calma e disposta a ouvi-lo, por isso Zeke tomou um banho e se vestiu para ir atrás da garota, mas não imaginou encontrar aquilo quando bateu na porta dela.
-Pieck não está em casa, saiu com o filho dos Galliard-disse o pai quando o loiro surgiu inesperadamente
-Saiu?
-Sim, acho que foi um encontro-o homem lhe entregou um sorriso cheio de cumplicidade-Claro que ela não falou assim, mas ele veio buscá-la todo arrumado e ela também estava muito bonita para sair com ele, o rapaz estava mais vermelho que nossa braçadeira e gaguejava como se tivesse acabado de aprender a falar
           Enquanto descia as escadas sem saber ao certo o que fazer, Zeke sentiu uma crescente raiva, ficou a tarde toda se culpando enquanto Pieck estava tendo um encontro com outro. O relacionamento deles nunca foi algo que achou precisar de rótulo, ele era dela, e ela era dele, ainda assim, bastou um primeiro desentendimento para ela se arrumar e passear com outra pessoa?
           Não haviam muitos lugares onde poderiam ter ido, a praça da Zona de Internamento era o único lugar que ele imaginou ser possível ter um encontro, às vezes via casais passeando, sentados nos brancos e conversando, mesmo no clima frio e congelante o lugar estava movimentado, casais de todas as idades, famílias tentando se divertir a medida que era possível dentro daqueles muros miseráveis, não demorou muito para encontrar Pieck e Galliard, o pai dela tinha razão, ela estava linda, mesmo não parecendo arrumada demais, ele podia ver um grampo de cabelo azul brilhante entre as mechas negras, exibindo seu rosto pálido e vermelho de frio enquanto soprava uma bebida quente que Galliard havia comprado para ela aguentar ar gélido do final da tarde.
           Parecia estar se divertindo, rindo de alguma coisa idiota que o rapaz falou, isso quase aqueceu o coração de Zeke, vê-la sorrindo mesmo que não fosse por causa dele.
           O loiro decidiu se afastar antes que o vissem, desviando das crianças correndo enquanto inconsciente, apertava os punhos até sentir as unhas machucarem suas palmas.

 

           Ficou surpresa ao admitir que Porco havia salvado seu dia, a confortando com uma gentileza que era novidade para ela, era seu primeiro encontro, estranho pensar isso já que ela havia feito tudo o que tinha direito com Zeke, mas o portador do Bestial sempre preferiu mantê-la às escondidas, Pieck nunca notou que gostaria de ter tido um encontro até realmente estar em um. Perdeu a despreocupação da infância cedo, tinha outros tipos de ambientes, ela não frequentava o colégio, pela manhã passava por meninas da sua idade indo para a aula enquanto ela ia para o quartel, não convivia com pessoas da sua idade e não sabia bem o que era ser adolescente, mas agora andando pela praça onde vários casais jovens iam para passar o tempo ela notou como gostaria de ter isso em sua vida com mais frequência.
-Você está linda
-Obrigada, já é a terceira vez que me diz isso-sorriu enquanto escondia o rosto envergonhado no copo, usando o calor da bebida para aquecer os dedos
-É verdade, quero dizer, você está sempre linda
           Uma leve risada da jovem chegou como uma linda canção aos ouvidos do rapaz, Pieck ainda tentava entender as intenções dele, era estranho sair em um encontro com o amigo de infância, principalmente depois de anos com ele adorando provocá-la e irritá-la, agora parecia muito hipnotizado com sua presença, queria saber quando aquilo começou, quando Porco realmente pensou nela como uma garota, mas não iria enchê-lo de perguntas e questionamentos.
-Acho que está na hora de voltarmos-ele disse olhando a torre do relógio diante da praça-Prometi ao seu pai levá-la no horário que ele disse, não quero desobedecer logo no primeiro encontro
           Pôde ver uma tristeza nos olhos dele, nunca foi do tipo que escondia os sentimentos, era muito expressivo e sincero, Pieck desejou que certa pessoa também fosse assim.
-Tenho apenas algumas semanas antes de ir-disse enquanto caminhava de volta a casa da garota-Se pudermos marcar algo novamente antes disso...
-Adoraria
           Foi um bom passeio, mesmo que para ela fosse mais um tempo livre de diversão com um amigo que um encontro em si, condenando a si mesmo durante o caminho quando guardou a mão dentro do bolso no momento que sentiu que Porco estava sorrateiramente tentando segura-la, ela não queria andar de mãos dadas com ele, não queria beijá-lo, mesmo que pela maneira como o rapaz ficou em expectativa diante do prédio parecia tomar coragem para dar o primeiro passo.
-Quer que eu suba com você?
-Não precisa-ela respondeu enquanto abria a porta do prédio-Gostei muito, podemos ver outro dia
-Claro, sim, seria ótimo-seu rosto corou em expectativa
           Tinha que admitir que ele era bonito, e muito fofo, principalmente quando parecia afetado com a presença dela, algo que só percebeu agora.
           Fechou a porta atrás de si, deixando o rapaz sozinho na calçada, Pieck deu um longo suspiro, queria ter se divertido mais, foi ótimo, mas sentiu que não usufruiu da essência de um encontro, mesmo que durante alguns instantes tenha conseguido esquecer dele.
           Andava os poucos passos necessários entre a porta de entrada e a escadaria para os andares superiores quando notou escondido nas sombras do corredor escuro do térreo uma figura alta, o reconhecendo imediatamente, seu coração pulou conforme ele se aproximava, deixando a única lâmpada ao lado da escada mostrar seu rosto.
-Se divertiu?-não gostou daquele tom de voz
-Sim, me diverti bastante-ficou de frente para ele, tentando parecer indiferente
           Se encararam por alguns instantes que pareciam horas, quando Zeke decidiu esperar Pieck se preparou para encontrá-la mais zangada do que parecia no momento, seus olhos transmitiam irritação, mas ela ainda estava ali a sua frente, ao invés de sair andando ou atacá-lo.
-Fiquei surpreso ao saber que tinha ido a um encontro com o Galliard
-Série Zeke? De tanta coisa que poderíamos falar no momento, vai falar sobre isso?-cruzou os braços
-Acho que fui substituído com mais rapidez que imaginava
           Pieck abriu a boca para dar uma resposta malcriada, mas o som de passos descendo a escada a pararam, a dupla foi mais para o fundo do corredor, aproveitando a pouca iluminação para se esconder enquanto um vizinho passava por eles sem notar sua presença, saindo pela porta da frente e deixando para trás um silêncio pesado que atingiu o casal.
-Me desculpe, embora não saiba bem porque você ficou tão zangada
           Ergueu o rosto tentando ver se ele estava zombando dela, ela tinha várias razões para ficar zangada.
-Ter uma escuta no seu apartamento não é suficiente?
-Provavelmente tem uma no seu também-rebateu
-Mas se tem eu não sei, não sei onde fica, ou mesmo tenho certeza de sua existência, mas você sabia, e não pareceu se importar, não é como se tivéssemos bebido chá e conversando sobre o clima naquela noite-abaixou o rosto constrangido-Qual a diferença entre eles terem escutado e termos um grupo de pessoas no quarto olhando enquanto transamos? Para mim existe uma diferença muito tênue
-Com o rádio ligado muito dificilmente eles escutaram
-Mesmo assim, eu me senti exposta, envergonhada, só conseguia pensar em andar pelos corredores do quartel e passar ao lado de alguém que sabia que eu dormi com você aquele dia, sempre quis que fossemos discretos, mas isso foi totalmente o oposto
-Discretos quero dizer sem mãos dadas, demonstrações em público, além disso seria um saco se nossas famílias descobrissem, sabe que eles iriam criar fantasias sobre nós dois quando na verdade não podemos, saber o que quero dizer
           Sim, sabia, conversou o suficiente com a senhora Yeager para saber que a única coisa que queria era um bisneto, alguém para ficar com ela depois que Zeke se fosse, uma companhia e lembrança não só dele como do filho, ela temia cada vez mais o dia em que o neto chegasse a "validade" imposta por Marley, estava velha, mas dizia com animação e melancolia que ainda poderia cuidar de outra criança, dessa vez uma que pudesse crescer de maneira pacata.
           Seu pai também, ele queria que a filha pudesse ter uma vida normal, seu maior arrependimento era ter permitido que ela entrasse no programa de guerreiros, abrindo mão de ter a própria família, com marido e filhos, onde poderia seguir em frente após a morte dele.
           A avó dele amava Pieck, e o pai dela admirava Zeke, saber que haviam saído da amizade para algo mais íntimo seria como uma alegria imensurável que se seguiria de pura angústia.
           Mesmo assim um desejo egoísta chegou na garota, lembrando dos adolescente passeando e tendo vidas normais, dando discretos beijos quando pensavam que não havia ninguém olhando, imaginou que durante as tardes de primavera ou noites quentes de verão seria ainda mais cativante a ideia de um encontro, só que dessa vez com a pessoa que ela gostava.
-Não somos proibidos de ter relacionamentos-disse sem pensar
-Mas eu quero mantê-la escondida, só para mim
           Sentiu um arrepio quando ele alisou seu cabelo, brincando com a presilha azul que usava para tirar os fios rebeldes do rosto, de tantas pessoas no mundo, por que justo ele?
-Não gosto que você minta para mim
           Tentou encará-lo, mas tanto a falta de iluminação quanto os óculos a impediam de ver aqueles olhos azulados. Suspirando de exaustão por aquela constante atitude de preferir ignorá-la quando questionado, Pieck decidiu que era melhor ir embora, ir para casa e passar o resto da noite tranquila, porém logo que deu o primeiro passo um braço apareceu a sua frente, viu então que estava presa entre Zeke e a parede. Desviou do braço, passando por baixo dele em direção a escada, mas sentiu a mão grande e forte a puxando de volta.
-Zeke...-o advertiu
           Não pareceu ouvi-la, inclinando-se em sua direção, ainda não poderia ver com clareza seus olhos, mas ele estava a encarando fixamente, para a infelicidade do homem não viu a candidez adorável que a menina expunha toda vez que ele fazia isso, havia uma expressão de cólera irritada, mas ainda assim ela era muito encantadora.
-Me desculpe por tê-la deixado triste-deixou suas testas se tocarem, procurando naqueles olhos negros um sinal de compaixão-Prometi para mim mesmo que faria o possivel para lhe dar um pouco de alegria em meio a esse inferno, mas a primeira lagrima que vi em você foi por minha culpa
-Posso suportar várias coisas Zeke, menos mentiras
           Estavam tão próximos que suas palavras fizeram cócegas no rosto do loiro.
-Me conte Zeke, por favor
-Não posso-torceu a mão em punho, desejando socar a parede de frustração
-Não confia em mim?-a garota deixou as mãos percorrerem o abdômen do homem, acariciando-o por cima da roupa e tentando lhe passar segurança e conforto
-Isso não, eu simplesmente não posso
-É algo que faria Marley precisar tomar providências? Algo que seria considerado grave suficiente para matá-lo?
           Um silêncio, Pieck achou que ele fosse ignorar sua pergunta como sempre fazia, até que sentiu o homem segurar a mão que ela mantinha bem acima do coração dele, mantendo as duas ali.
-Sim
           A respiração de Pieck engatou, ela não esperava por isso, não que ele enfim fosse admitir, era mais do que ela tinha antes, considerou um progresso.
-Será perigoso para você e seu pai se eu contar-enlaçou a mão dela, trançando seus dedos com os dela-Apenas não pergunte mais sobre isso
-Não tem medo que eu conte?
-Sim, mas eu não quero que continue zangada comigo
-Meu estado de espírito é tão importante assim para você?
           Riu levemente, ainda nervosa pela informação que acabou de receber, estavam apoiados um no outro, ela não conseguia olhar em seus olhos, sabia que ele a encarava, mas estava fixada nos botões da camisa dele, não queria encará-lo, agora era ela quem estava evitando, sua cabecinha a todo vapor tentando saber o que fazer. Zeke pacientemente aguardava ela terminar de raciocinar, sabia que estava ponderando entre fingir ignorância ou denunciá-lo.
-Sabe, se você me entregar, deve receber algumas recompensas, além disso, como a única guerreira em Marley te promoveriam a um cargo superior. Eles provavelmente me dariam de jantar para o Grice, e com os outros em Paradis, você assumiria a liderança dos guerreiros
-Por que está me falando isso?-tentou puxar a mão que era segurada por ele, mas foi impedido pelo forte aperto
-Quero que você saiba de todas as vantagens agora e tenha uma decisão definitiva, sem riscos de mudar de ideia depois
           Fechou os olhos e tentou se concentrar, podia ouvir a respiração dele, os passos nos apartamentos ao redor, o som de uma criança brincando no andar de cima, vozes de pessoas que passavam pela rua, tudo, menos os próprios pensamentos porque sua mente ficou em branco.
-Marley tem uma lista enorme de atos que vêem como incriminados, alguns são tão ridículos que parecem piada, como não sei o que é, não posso julgá-lo
-Está arrumando desculpas para me acobertar?-não precisou olhar para saber que ele estava sorrindo
-Sim, não ache que estou feliz com isso
           Ao abrir os olhos o ambiente parecia mais escuro que antes, e silencioso, era engraçado como a escuridão nos faz querer enxergar melhor, mesmo que a falta dela nos faça ouvir mais claramente.
-Alguém vai morrer?
-Como assim?
-Esse seu plano envolve a morte de alguém?
           A eutanasia não iria matar os eldianos, apenas os impediria de ter filhos, nenhuma vida seria perdida, a não ser dos que se metessem em seu caminho, não planejava nenhuma morte, ele poderia acessar a coordenada silenciosamente, nem iriam notar o que aconteceu. Quanto tempo levaria para as pessoas notarem que não estavam nascendo mais eldianos? Impedir o nascimento era diferente de causar uma morte.
-Não, eu não pretendo matar ninguém
-Promete?
-Sim
           Apertou a mão dele, retribuindo naquele ato toda a segurança que o loiro precisava. Com a mão livre, Zeke segurou seu rosto e a puxou para um beijo, o beijo mais sincero que tiveram, ele não precisava mais prendê-la entre seus braços, ela não iria fugir.
-Sabe que esse não é o único problema que temos no momento-ela parou o beijo para pontuar aquele detalhe
-Eu sei, mas só me deixe beijá-la por enquanto
           Por alguns instantes achou que a tinha perdido, e isso foi tão desesperador, como estar afundando em mar aberto, agora ela estava ali, e não pretendia deixá-la ir.
           Suspirou quando ele deixou sua boca e dedicou em traçar beijos pelo pescoço, inalando um aroma diferente. Perfume? A puxou para mais perto, sentindo o novo cheiro que ela carregava, muito suave e doce, preferia o cheiro natural dela, e não aquela essência engarrafada. Pieck cheirava como a chuva do verão, a mel, maçã e chocolate, livros novos e banho quente, conseguiu achar seu aroma natural em um ponto entre a orelha e a nuca, sem nem perceber que a garota arfava em seus braços, preocupada em serem pegos, mas apreciando o risco.
-Você está tão bonita-disse enquanto dava uma leve mordida em sua pele macia-Isso me deixa irritado
-Não gosta que eu esteja bonita?
-Você está sempre bonita, mas não foi para mim que você se arrumou
-Ciúmes?-não deixaria passar a oportunidade de provocação
-Como aquele merdinha do Galliard se atreveu a levá-la para um encontro?
           Apertou com firmeza a cintura dela a pressionando contra a parede, Pieck quase reclamou pela forma áspera, mas estava se divertindo com aquela atitude atípica dele.
-Alguém tinha que fazer isso, além disso as intenções dele eram melhores que as suas
           Zeke parou imediatamente, se afastando e encontrando no rosto dela um sorriso malvado, isso despertou algo dentro dele que nunca havia vivenciado.
-Ele tentou alguma coisa?-em sua voz havia um pouco de nervosismo, um pouco de raiva
-Que tipo de coisa?-estava brincando com fogo
-Ele tentou te beijar, Pieck?-aquela voz dura e áspera naquela situação era incrivelmente excitante
-Não, mas...-desviou o olhar
-"Mas" o que?
           Segurou o rosto dela e a obrigou a encará-lo, mesmo com sua rispidez foi delicado em tal movimento.
-Se ele tivesse tentado, seria indelicado recusar, não acha?
           Viu um brilho sombrio nos olhos de Zeke, bem como um sorriso afetado, querendo acreditar se ela realmente teve coragem de falar aquilo para ele.
           Sua cabeça bateu na parede quando ele a atingiu com um beijo voraz, sem deixá-la entender o que acontecia, Zeke enfiou a língua dentro dela, explorando cada centímetro sem nem lhe dar a chance de respirar. Pieck notou uma brutalidade no beijo, a maneira como queria deixar claro que ela era dele, e parecia errado ela estar gostando.
           Engasgou quando sentiu as mãos dele possessivamente agarrando suas coxas, tentando entender como ele chegou lá, sorrateiro por baixo da saia, alisando o tecido de algodão, tentou parar o beijo, mas ele não deixou, rapidamente deixando os dedos irem para a barra do tecido, ele sentiu-a suspirar em sua boca, parecia prestes a ceder, mas o som de uma porta batendo em algum lugar do prédio ecoou até eles, chegando aos ouvidos dela como um choque.
-Zeke...
           Se desvencilhou de seus lábios, mas ele foi rápido em usar a outra mão para desabotoar os primeiros botões do casaco azul que ela usava.
-Zeke, estamos no meio do corredor
           As palavras foram ignoradas quando o homem afastou o tecido da calcinha para chegar ao ponto mais doce dela, sorrindo ao sentir a umidade embeber seus dedos.
-Me fale Pieck-chan-fez questão de olhar diretamente para o rosto da garota enquanto falava-Isso é para mim, ou foi ele quem te deixou assim?
-Você, só você consegue me deixar assim-pensou, não iria dar essa satisfação a ele
-Me responda
           Exigiu enquanto enfiava um dedo, entrando com facilidade, ela estava realmente molhada.
-Zeke...-precisava conter-se, ou alguém iria ouvir
-A última vez foi naquela noite, correto? Ou você tem se divertindo sem mim?
           Talvez ela tenha feito isso algumas vezes durante o banho e antes de dormir, mesmo não tendo dito nada Zeke pareceu entender apenas pela reação dela.
-Adoraria olha-lá fazendo isso
           Mais um dedo, agora eram dois que realizavam movimentos rápidos e firmes para dentro dela, podia ouvir o som que estavam fazendo, molhados e escorregadios.
-Pare, alguém pode ver, meu pai pode ver-disse entre suspiros timidos enquanto segurava o braço dele, tentando fazê-lo parar, mas ele era forte e determinado
-Então é melhor eu te fazer gozar rápido
           Desistindo, Pieck decidiu se entregar, mordendo os lábios para evitar que qualquer som saísse, desejando que nenhuma das portas ao redor deles se abrisse subitamente, prestando atenção em passos que poderiam vir das escadas ou alguma chave abrindo a porta da entrada, havia tantos caminhos de onde poderiam vir pessoas para flagrá-los.
-Olhe para mim-ordenou
           Ela o fez, Zeke ostentava faces rosadas, tão intensas que mesmo o escuro e a barba não poderiam esconder, ele a desejava, muito, pensou que durante aqueles dias que sucederam a primeira noite juntos tivessem despertado nele algum tipo de desinteresse em tê-la novamente, mas não, ele a desejava, talvez mais do que ela.
           Inseriu o terceiro dedo, se divertindo em como ela tentava conter e impedir qualquer tipo de som, com o polegar começou uma massagem intensa e firme contra o clitoris, a garota precisou se pressionar ainda mais contra a parede a procura de apoio para não cair diante das pernas cada vez mais fracas.
-Parece que agora já aguenta três dedos-sussurrou contra a orelha da jovem antes de dar uma leve mordida
           As pernas dela tremiam, inconscientemente acabou afastando as coxas e lhe dando mais caminho para continuar, queria ter durado mais, resistido mais, porém já estava sentindo os pulsares de antecipação do orgasmo.
-Zeke, eu...
-Vamos, goze para mim
           Por que quando ele dizia essas coisas ela gostava tanto? Estava cansada de frases polidas e formais, adorava quando ele escolhia aquele palavreado.
           Suas pernas tremeram e perderam a estabilidade, ele a segurou com a mão livre enquanto a outra era apertadas pelas coxas da jovem, que segurou seus ombros enquanto tentava continuar quieta, foi rápido, ela mesma se surpreendeu, a ousadia pelo lugar onde estavam só aumentou o prazer. Ele foi retirando os dedos lentamente, a deixando vazia e completamente vestida, nem fez questão de abaixar a calcinha que agora torta para o lado.
-Você é deliciosa-chupou os próprios dedos apreciando o sabor
-Não acredito que fizemos isso aqui
-Se quiser podemos fazer mais
           A deixou sentir a ereção contra seu corpo, Zeke parecia ter um problema e ela estava muito disposta a ajudar, mas antes que ela pudesse alcançá-lo ouviram o som e uma porta se fechando no andar de cima seguido de passos.
           O loiro se escondeu nas sombras enquanto Pieck tentava se recompor, encontrando descendo a escada justamente seu pai, que parecia não tê-la notado até chegar ao último degrau.
-Pieck, o que faz aí parada?
-Acabei de chegar-sua voz ainda estava um pouco sem fôlego-O senhor está de saída?
-Sim, vou encontrar uns amigos, tudo bem?
-Claro, divirta-se
           O homem estava abrindo a porta da frente quando se virou rapidamente para a filha que permanecia parada esperando-o sair.
-Zeke esteve aqui te procurando
-Mesmo?
           Tentou esconder um sorriso presunçoso, adoraria ver a reação dele ao saber que ela estava em um encontro, principalmente porque agora ele deveria estar em meio às sombras ouvindo.
-Sim, disse que você saiu, tinha algo a tratar com você, mas não era importante
-Depois pergunto a ele o que era, embora não imagine o que tenha vindo fazer aqui
           Conhecia Zeke o suficiente para saber que ele estava com aquela expressão carrancuda diante do seu cinismo.
-Preciso confessar, ele pareceu um pouco ciumento-se aproximou um pouco da filha-Acho que a minha filha faz mais sucesso do que eu imaginava
           Pieck tentou achar uma resposta engraçada e despretensiosa, mas realmente não sabia como responder a isso, por isso apenas lhe entregou um sorriso simplório antes de se despedir novamente.
           Sentiu quando Zeke voltou a se aproximar, sabia o que ele iria sugerir, sabia o que ele pensava, por isso ao invés de se virar e encará-lo, a jovem começou a subir as escadas sem olhar para trás, sentindo que ele a seguia.
           Abriu a porta do apartamento a deixando aberta ao passar, seguindo direto ao próprio quarto, acendeu a luz do cômodo no mesmo momento que o som da porta da frente sendo fechada chegou até ela.
           Zeke nunca havia entrado no quarto de Pieck a não ser no dia em que ajudou na mudança, por isso levou alguns segundos para analisar tudo, as paredes azuis com prateleiras brancas suspensas ao lado da cama de ferro, onde haviam alguns poucos brinquedos da infância, entre eles a boneca que ela ganhou que havia sido esquecida na memória dele, mas agora parecia muito recente. Uma escrivaninha onde além de uma máquina de escrever com papel meio digitado havia um frasco de perfume âmbar que imaginou que foi o que ela usou, logo ao lado uma caixinha de joias aberta mostrando diversas opções de brincos e prendedores de cabelo, na cadeira diante do móvel estava pendurada uma longa saia plissada rosa. Do outro lado do cômodo a porta do armário estava aberta, mostrando do lado de dentro um espelho oval preso na parte interna e ao redor várias fotos e cartões postais.
           Se aproximou para ver melhor, e o que chamou atenção foi uma foto deles com os outros guerreiros, na época onde ele ainda não tinha barba nem óculos, e ela só tinha dez anos; não era uma foto montada, foi algo bem espontâneo, mas ele não prestou atenção em como todos pareciam relaxados e felizes diante do que deveria ser uma tarde típica de treinamento, só duas coisas passavam pela sua cabeça; que o sorriso dela era lindo, e que sua mão estava no ombro de Pieck, ele realmente nunca a enxergou de maneira diferente até alguns anos depois, mas ver uma foto em que tocava nela naquele instante quando a mesma mão ainda podia sentir o calor que ela tinha entre as pernas o fez se sentir culpado e errado.
-Zeke?
           Ela já estava somente com a roupa de baixo, um conjunto branco de calcinha e sutiã, de joelhos na cama ela olhava para ele em expectativa, as pernas ligeiramente separadas mostravam a umidade entre suas coxas.
           Olhou mais uma vez para a foto antes de fechar o armário, começou a tirar as roupas enquanto ia se aproximando da cama para se juntar a ela.

 

           As pernas entrelaçadas, os braços dela lhe acolhendo, o rosto dele perdido entre os cabelos negros e macios, essa foi a visão do casal após gastarem todas as energias, deitados um de frente para o outro, suados e cansados.
           Os olhos de Zeke acompanharam a própria mão enquanto que se deixava a pele macia, a cintura fina e quadril largo, apreciando como sua palidez parecia brilhar no escuro, achando graça de como ela ainda era tímida suficiente para pedir que ele apagasse a luz, mas ousada o bastante para não se importar com os vizinhos ouvindo seus gritos.
           Ela tinha um corpo lindo, perfeito, era uma pena que sempre o escondesse, usasse roupas que nos ocultava suas curvas, mas ele sabia que a causa era o receio de chamar atenção, Pieck vivia em meio a marleyanos, não poderia arriscar chamar a atenção deles para seu corpo e no pior dos casos, essa pessoa usasse de sua superioridade diante dela e tentar se impor a ela em sua posição como eldiana.
           Roupas planejadas para se esconder, desfeminilizar, saias longas, camisas largas e um casaco por cima só para garantir. Parecia que aquela inocência de anos antes, quando não se importava em entrar nas tendas alheias havia se esvaído, e isso era triste, já que, se um marleyano a achasse atraente tudo o que poderia fazer era rezar para que ele fosse decente o suficiente, ou preconceituoso o bastante, para deixar qualquer desejo ou atração por ela ser algo apenas no próprio íntimo.
-Não olhe para eles, não os encare, não sorria, isso pode ser tido como um convite
-Convite para quê?
-Algo que é melhor você não saber
           Foi o que disse a ela quando tinha treze anos e decidiram que deveria participar das reuniões e ter contato com outros oficiais além de Magath.
           A dádiva de serem apenas os dois guerreiros em Marley tinha seus contras, se estivesse muito ocupado não poderia estar com ela, e imaginar Pieck andando sozinha pelo quartel cheio de marleyanos era um temor que ia crescendo com o tempo, ela sabia se defender, mas não tinha voz para lutar.
           Todas essas lembranças e medos surgiram de uma vez, o que o fez apertá-la em seus braços querendo mantê-la ali para sempre.
-Zeke, não consigo respirar-sua voz saiu abafada
-Desculpe-afrouxou o aperto-Só estou pensando
-Não gosto quando você pensa, às vezes você pensa demais e eu nunca sei o que passa pela sua cabeça
-Estou pensando em como você é linda
-Mentiroso
           Uma risada leve saiu dos lábios de Zeke, depositou um leve beijo no topo da cabeça da garota que ainda estava encolhida contra seu abdômen.
-Como soube que eu iria concordar em esconder seu segredo? Não que eu saiba o que é, mas o que sei é suficiente para se iniciar um inquérito-disse baixinho
-Não sabia
-Então se eu não aceitasse, o que faria? Me matar?
-Não, eu jamais poderia fazer isso, nunca-penteou os cabelos com os dedos, desfazendo os nós que se formaram pelo atrito dela contra a cama minutos antes-Digamos que eu apostei
-Pelo visto você ganhou
-Ainda não-a puxou para um beijo-Os dados ainda estão rolando, vamos ver se vai ter o mesmo pensamento quando eu for embora
-Se eu mudar de ideia, o que vai fazer?-o encarou
-Vou me deixar ser condenado, é o que merecem todos os idiotas que se deixam levar por uma garota bonita
           Agora foi a vez dela rir, embora ainda tivessem muitos assuntos a tratar.
-Não me esqueci das outras coisas, Zeke. Por mais que você tenha o costume de querer me distrair e mudar de assunto quando se sente desconfortável com algo
-Pieck...
-Deveria ser um neto mais presente, na verdade isso foi o que me deixou mais zangada que qualquer coisa, mas acabou juntando tudo de uma única vez
-Por favor...
-Ela se culpa muito Zeke-se afastou dele, o olhando nos olhos e mostrando o quão séria estava sendo sobre suas palavras-Se culpa por ter deixado seu pai sair de casa aquele dia com a irmã, de não ter percebido que as aulas de dança eram um pretexto para fazer reuniões escondidas, por ter deixado as coisas chegarem ao ponto em que você precisou denunciar os próprios pais, e se não o tivesse feito que fim todos teriam
-Prefiro não falar sobre meus avós e meus pais enquanto estamos pelados na cama
           Se desvencilhou de seus braços, se sentando rapidamente na cama para sair de perto dele, mas o loiro segurou os braços dela com firmeza e a puxou de volta para a cama, gostando de como ela lutou um pouco para se livrar, mas logo estava mais uma vez presa no poder dele.
-O que quer que eu faça?
-Que entenda que você é a única coisa que ela tem, mesmo que não por muito tempo
           Suspirou de cansaço, sentindo toda a leveza de antes ir embora.
-Não vai me deixar em paz em relação a isso, certo?
-Nem um pouco
-Se eu prometer melhorar, que tal?
-Você não é a pessoa mais verdadeira do mundo
-Mas eu já quebrei uma promessa que fiz à você?
           A menina pensou um pouco, não é como se suas promessas tivessem sido muito sérias e importantes, mas não estava errado em relação a isso.
-Pieck, cheguei
           A voz do homem entrando no apartamento alertou o casal, Pieck se desvencilhou dos braços do loiro e pulou da cama, indo até a porta do quarto e a trancando lentamente para seu pai não ouvir o som da chave, ela se virou para Zeke, o encarando em pânico, o homem parecia muito tranquilo, permanecendo deitado na cama, talvez um pouco irritado por terem sido interrompidos.
           Vestindo-se rapidamente, Pieck pegou as roupas dele largadas no chão e jogou no rosto do loiro.
-O que eu faço?-perguntou desesperada
-Eu posso só sair, falar que estávamos conversando no seu quarto sobre algo confidencial-sugeriu enquanto vestia a cueca
-Acha que ele vai acreditar?
           Não, o quarto cheirava a sexo, o calor produzido pelos corpos em movimento transformou o comodo em uma sauna. A expressão de descrença no rosto de Zeke foi suficiente para a garota entender que era melhor arrumar uma maneira de fazê-lo sair sem ser visto.
-Pieck?
           Ouviu as leves batidas na porta diante dela, o olhar que direcionou ao loiro dizia:
-Se vista e fique quieto, vou arrumar uma maneira de te tirar daqui
           Destrancou a porta e saiu do quarto, percebendo como o resto do apartamento estava frio em relação ao seu quarto, o homem mais velho estava logo à sua frente, com as faces tão rosadas quanto da filha, mas certamente por outra razão.
-Chegou cedo
-Cedo? Fiquei horas fora
           Percebeu então no relógio da parede marcar mais de meia-noite, iria reclamar com o pai a respeito do toque de recolher da Zona de Internamento, mas estava mais espantada pelo tempo que ficou com Zeke, não é a toa que estivesse dolorida.
-Nem percebi o tempo passar-sorriu sem graça-Já vai dormir?
-Vou fazer algo para comer
-Tão tarde?-o seguiu para a cozinha
-Estou com fome
-Eu faço
-Não precisa
           A garota ficou nervosa, a área da cozinha era aberta e se Zeke passasse em direção a saída seria visto, poderiam esperar o pai dormir para mandá-lo embora, porém Pieck queria se livrar do loiro o mais rápido possível.
           Começou a sentir os fluidos corporais secando por baixo da roupa, sabia que deveria estar com um cheiro bem característico que logo seria notado, porém seu pai agora estava se atrapalhando na cozinha. Deveria ter bebido uma ou duas cervejas, atitude que era condenada pela filha, o médico o proibiu de beber, mas como ela poderia brigar com ele se estava escondendo um homem dentro do quarto?
           Pieck ouviu o som da porta abrir, olhando em direção ao seu quarto e vendo o brilho dos óculos de Zeke, só o olhar da menina deveria ter sido suficiente para amedrontá-lo, visto que rapidamente fechou a porta.
           Precisando encontrar uma solução para tirar seu pai dali apenas o suficiente para Zeke sair, a jovem entrou no banheiro e analisou o próprio reflexo no espelho, rosto rosado e cabelo desgrenhado, que não era tão incomum, notou que haviam marcas de beijos e mordidas leves no pescoço, agradeceu seu pai não ter percebido, então, como uma lâmpada se acendendo sobre sua cabeça, a garota foi até a banheira e girou o registro no caminho contrário o mais forte que conseguiu.
-Deve servir
           Respirou fundo antes de sair do banheiro e voltar para a cozinha, onde seu pai se aventurava.
-Pai, não consigo abrir a torneira, pode abrir para mim?
-Ah, sim
           Parecia tentar disfarçar que havia bebido, falhando miseravelmente, ao mesmo tempo que o homem mais velho ia para o banheiro, Pieck correu até o quarto abrindo a porta e encontrando Zeke com um sorriso divertido.
-Que tal aproveitarmos que estou preso e passar a noite aqui?-sugeriu assim que a viu
-Nem pensar, pode ir embora
           Enquanto o loiro ia saindo silenciosamente, Pieck conseguiu ouvir o pai reclamando como a torneira parecia ter emperrado, acompanhando o portador do Bestial até a porta, Pieck lhe dava leves tapas com a ousadia que o loiro tinha em tirar proveito da situação e tentar irritá-la com beijos e uma mão boba que tentava lhe segurar.
-Um beijo de despedida-exigiu diante da porta aberta
-Zeke, vai logo
-Ou me beije ou vou ficar aqui até conseguir
           Bufando irritada, e um pouco divertida, ficou na ponta dos pés para alcançá-lo, mas Zeke a segurou firme nos braços e capturou seus lábios em um beijo profundo e tentador, sim, tinha que admitir que adoraria que ele ficasse mais, porém era totalmente impossível. Apreciou a língua dele explorando sua boca, mas assim que ouviu o som da água corrente vindo do banheiro ela o empurrou com força pela porta aberta, jogando o loiro para fora do apartamento antes de fechar a porta rapidamente.
-Pieck?-seu pai saiu do banheiro encontrando a filha encostada na porta fechada-Tudo bem?
-Sim, só pensei ter ouvido alguém bater na porta
-Já abri a torneira
-Obrigada, vou tomar um banho
           Passou correndo por ele se trancando no banheiro, sentindo o coração bater em excitação e adrenalina.


           Na manhã seguinte ela acordou ao som do despertador, enrolando um pouco entre as cobertas ainda sentindo o calor de Zeke na cama, nem conseguindo acreditar que ele esteve ali, às vezes gostaria se não ter o fator de cura dos titãs e poder traçar as lembranças que deixou em sua pele na noite anterior, mas seria muito embaraçoso ter que explicar às pessoas, principalmente seu pai, que pelo o que poderia imaginar, já estava acordado e provavelmente lendo o jornal.
           Levantou da cama sentindo o chão frio nos pés descalços, se arrastou para fora do quarto e como esperava, seu pai estava sentado no sofá com uma caneca de café e o jornal da manhã, até se sentia um pouco culpada por tê-lo enganado, mas ele havia bebido, então estavam quites. Isso não impedia o homem de seguir sua rotina e acordar logo cedo e ser um dos primeiros clientes do jornaleiro da esquina, preferindo uma manhã pacata de um homem de quarenta anos.
           A garota se aproximou sorrateiramente, não tendo sua presença notada até surgir diante do artigo sobre o aumento do preço dos alimentos que era lido pelo pai.
-Pieck? Cuidado, o café está quente
           Alertou o homem erguendo a caneca enquanto a filha arrumava um espaço em seu colo, se encolhendo nos braços do pai sem se importar em estar atrapalhando.
-O que aconteceu?
-Nada, não é como se eu não gostasse de ficar assim com você-se empoleirou como um gato
-Não desde que tinha uns seis anos e já se achou adulta demais para seu pai-brincou enquanto continuava equilibrando o café em uma mão e o jornal na outra-Vai acabar se atrasando
-Só quero ficar um pouco assim
-Tudo bem então
           Colocou a caneca no braço do sofá e voltou a ler o jornal, apreciando a tranquilidade em fingir que a vida deles era aquela, onde Pieck se atrasaria para o colégio e não o quartel, e seu pai, mesmo se tivesse problemas de saúde, pudesse ter um tratamento médico adequado e humano. Estava fazendo isso por ele, mas era tão difícil imaginar que o tempo que tinham juntos tinha um limite programado, enquanto outras pessoas, Zeke, nem se importavam em apreciar o tempo com aqueles que ficariam para trás e sentiriam sua falta.


850

PRIMAVERA


           As primeiras flores começavam a desabrochar em algum lugar fora da zona de internamento, mas Pieck podia sentir a diferença ao sair aquela manhã de casa, com o cabelo amarrado em um rabo de cavalo bagunçado e volumoso com um laço verde ela andou pelas ruas vazias da manhã, cedo demais para estar na rua a não ser que fosse por um motivo muito específico, e Pieck tinha um. Encontrando um grupo com dezenas de famílias eldianas diante dos portões se despedindo de seus filhos que iriam para o exército, isso apertou um pouco seu coração, mas ela não se deixou abalar, precisava ser otimista.
-Pieck!
           Porco exclamou de alegria ao vê-la se aproximar, os Galliard estavam sorrindo orgulhosos, um grande contraste em relação aos outros, claro, o alistamento do caçula foi voluntário, diferente dos demais que não tiveram escolha a não ser seguir a vida de isca, como familiar de um guerreiro ele estaria dispensado desse tipo de tarefa.
-Pensei que não fosse conseguir me despedir de você-ele confessou envergonhado
-Jamais poderia te deixar ir sem desejar boa sorte
           Precisava admitir que ele ficou bem com o uniforme, substituindo a braçadeira vermelha pela boa e velha branca, talvez para evitar confusões em meio a batalha. Parecia animado, orgulhoso, inflava o peito diante da garota para tentar parecer mais atraente, achando que ela não notou que estava se exibindo como um pavão, mas achou divertido. Tiveram poucos oportunidades de conversar desde o encontro, mas ele parecia ansioso por uma nova chance, visível ao prometer sem constrangimento diante dos pais que assim que voltasse a chamaria para outro encontro, em uma estação com clima mais favorável, porém todos sabiam que poderia levar um mês, cinco meses, um, dois anos até ele voltar, se voltasse.
-Estarei esperando-foi a única coisa que poderia dizer sem estar mentindo
           Quando o oficial marleyano os chamou, a caravana de eldianos marchou para fora dos portões, Porco abraçou os pais e deu um leve aperto de mão em Pieck antes de acompanhar os outros, assim como na despedida de Marcel a senhora Galliard segurava o lenço de seda para enxugar as lágrimas e seu marido tinha os olhos brilhando de orgulho, mesmo que ao redor parecesse existir uma nuvem de melancolia e desesperança.
           A guerreira se afastou com uma despedida tímida antes que a senhora Galliard a enchesse de perguntas a respeito do tipo de relacionamento que ela tinha com o caçula, passou as últimas semanas fugindo dela para evitar ser interrogada, seu pai lhe alertou.
-A senhora Galliard ficou quase uma hora tagarelando sobre você e Porco estarem namorando. Vocês estão?
           Não, seria mais fácil se fosse ele, mas infelizmente a pessoa que ocupava os pensamentos da garota era muito mais difícil e complexa. Ir todos os dias ao quartel sabendo que Zeke escondia algo se tornou incomodo de inicio, depois ela até esquecia durante alguns momentos, mas sempre em alguma ocasião se lembraria.
-Onde vai a essa hora Pieck-chan?
           Ele surgiu como um fantasma ao seu lado usando as mesmas roupas do dia anterior quando se despediram na saída do trabalho, não a acompanhou até em casa dizendo que precisava resolver um assunto importante, mas ela não comentou no momento e não o faria agora.
-Vim me despedir do Porco, ele foi para batalha
-Garoto idiota, poderia ficar aqui e viver tranquilamente-deu um trago no cigarro
-Vai para casa?
-Sim, estou exausto-estalou as articulações do pescoço, duvidava que tivesse dormido
-Posso ir com você?
           A pergunta o pegou desprevenido, ela não havia ido a sua casa depois daquela briga, pensou que seria uma decisão silenciosa em evitar e ignorar o incômodo que sentiu naquele dia, mas ficou feliz em saber que ela queria voltar para lá.
           O casal andou pelas ruas pouco movimentadas, fazendo todo o caminho em uma conversa tranquila sobre coisas sem importância, até que ela decidiu comentar um assunto que ainda não teve a oportunidade.
-Fui ver sua avó alguns dias atrás para tomar chá, ela me disse que você apareceu lá perguntando se precisava de alguma coisa
-Estava de passagem-deu de ombros fingindo indiferença
-Acho que é um progresso
           Subiram os vários degraus do prédio, como sempre Pieck tinha a esperança de encontrar um vizinho no corredor, mas cada vez que ia lá se perguntava se haviam outros moradores. Zeke destrancou a porta e logo que ambos entraram a garota o puxou para um beijo, o desejo que sentia por ele aumentava tão ardentemente que se perguntava como conseguia passar dias entre um encontro e outro, como conseguia vê-lo diariamente e não lhe encher de beijos e carícias a cada instante.
-Onde está?-sussurrou contra seus lábios
           Não foi preciso especificar sobre o que falava, Zeke a levou até o troféu, brilhante e exagerado ao lado do rádio onde sempre esteve, o segurou sentindo o peso excessivo, era óbvio que havia algo lá dentro, imaginou se os marleyanos foram estúpidos demais ou ingênuos o suficiente para acreditar que mais cedo ou mais tarde aquele prêmio não pareceria suspeito.
-Por que nunca ganhei um troféu?
           O loiro pareceu espantado com suas palavras, mas decidiu segui-la.
-Quando se tornar Chefe de Guerra vai receber um
-Mas eu sou líder de batalhão, deveria ter ao menos uma medalha, isso é muito injusto
           Abriu lentamente o tampo do fundo do troféu, notando que já estava desparafusado, tirando a pequena escuta e vendo uma luz bem fraca acesa indicando estar ligado. Largou a escuta no chão, ela fazendo um barulho pesado e firme.
-Merda, Zeke desculpe, acho que amassou...
           Entendeu então onde ela queria chegar, se aproximou.
-Não fique mexendo nas coisas dos outros se não vai ter cuidado
           Tirou a escuta da mão dela, procurando o botão que tantas vezes já quis apertar.
-Foi sem querer
-Me devolva isso
           Agora foi a vez dele deixar a escuta cair no chão, logo em seguida apertando o botão que desligava a luz. Foi estranho, então haviam desligado? Não tinha mais ninguém escutando?
           Por quase um minuto o casal ficou parado encarando a escuta que antes emitia um som muito baixo e vibrante, mas só notaram agora que ele parou.
-Sabe que podem ter mais, não é?
-Sim, mas se não souber, não faz mal a ninguém, não é esse seu conceito das coisas?
           Certo, ele mereceu a alfinetada. Voltaram a guardar a escuta dentro do troféu, os parafusos estavam logo ao lado, mas Zeke faria isso depois, agora o que chamou sua atenção foi a garota andar decidida até o quarto.
           A abraçou por trás, sentindo o contorno de suas curvas com o corpo.
-Acho que quer dizer que está do meu lado
-Não Zeke, não estou do seu lado-segurou as mãos que estavam lhe abraçando-Não posso estar do lado de alguém se não sei quais são as intenções, mas estou com você
-Qual a diferença?-começou a tirar o casaco que ela vestia
-A diferença é que se não confia em mim, não posso confiar em você, mas não posso te virar as costas
-Então por que veio?
           Ainda atrás dela, procurou pelos botões da camisa, desabotoando um por um, sentindo por baixo do tecido a pele macia e quente.
           Não respondeu, ao invés disso se virou para encará-lo, havia tanta coisa que queria falar, mas tinha medo de espantá-lo, não queria perder o que tinham, por mais que a enchesse de culpa. A camisa aberta chamou a atenção do loiro para o sutiã que ela usava, os seios firmes e protegidos pela armação. Levaram um ao outro em meio a um beijo caloroso até a cama onde parecia ser o único lugar onde poderiam fingir que nada mais existia.


           Chegou ao orgasmo com um grito timido enquanto o apertava internamente, sentindo entre as pernas a figura de Zeke imponente e forte pairando sobre ela, seus olhos se encaravam, negros e brilhantes contra os azuis faiscantes. O loiro diminuiu dolorosamente o ritmo, querendo aproveitar o rosto sedento e corado da garota, os cabelos formando um arco ao redor de seu rosto em contraste aos lençóis brancos.
           Pieck levou a mão até o rosto dele, acariciando a barba macia, o puxou para mais perto os unindo também em um beijo calmo cheio de palavras não ditas. Zeke procurou a outra mão dela, a enlaçando contra a sua enquanto voltavam a mover o quadril, com calma, com desejo que aquilo durasse para sempre. Suas mentes repletas de palavras não ditas enquanto viam no rosto do outro a mesma cumplicidade.
-Você é uma ameaça, mas não posso me livrar de você...
-Sei que esconde alguma coisa, mas não posso denuncia-lo...
-...por que...
-...por que...
-....
-...você é a melhor parte da minha vida