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My Girl

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841

 

           Seu pai nunca a incentivou a entrar para o Programa de Guerreiros, diferente de seus colegas, o homem não tinha tal ambição para a filha "Vá para a escola, estude, tenha uma vida tranquila e um trabalho honesto", foi o que ele disse quando ela surgiu com a ideia naquela tarde depois do oficial de Marley apresentar diante dos alunos da precária escola na zona de internamento a oportunidade de terem fama, prestigio, dinheiro e acima de tudo, se tornarem marleyanos honorários. Porém, tal perspectiva não sairia de sua cabeça mesmo que as ruas dentro daqueles muros não estivessem repletas de cartazes, não somente ela, mas seus parentes teriam o mesmo beneficio, foi isso que fez Pieck desejar se candidatar.
           Muito nova percebeu precisar ajudar seu pai, o homem que com o passar do tempo desenvolvia problemas de saúde e não muito futuramente ficaria impedido de cuidar da filha se permanecesse levando o corpo ao limite, Pieck viu isso acontecer com sua mãe, estava na beira da cama quando a mulher deu o suspiro final, e logo ocorreria o mesmo com seu pai se não pudesse impedir. Eram apenas os dois, a família foi trazida para Marley de um campo de eldianos no estrangeiro, os demais parentes ficaram para trás, Pieck estava enrolada em uma manta cor-de-rosa quando cruzou pela primeira vez o portão da zona de internamento e de início tudo parecia promissor, e foi nos primeiros anos. Se ao menos tivesse alguém para cuidar de seu pai, ajuda-lo a criar a filha, talvez o homem não se forçasse tanto.
           Quando ele assinou a autorização para a filha, e a acompanhou para a primeira etapa rezava para ela ser logo eliminada, o que não aconteceu. Pieck nunca o deixou ciente do verdadeiro objetivo por trás, mesmo após sua morte, o pai teria assistência do governo de Marley e não perderia os benefícios, era o melhor que uma criança conseguiria, eldianos não tinham muita expectativa de futuro, não era possível enriquecer, mesmo profissões prestigiadas se viam subjugadas e se tornar guerreiro era a única forma viável de ter conforto. Via com seus próprios olhos como os atuais guerreiros eram tratados pelo povo de Marley, exibindo suas braçadeiras carmins, notava que não só eles como seus parentes tinham mais fartura, quando passava alguma mulher com a cesta repleta de alimentos não precisava verificar a cor da braçadeira, era obvio que veria a estrela de nove pontas brilhando no céu de sangue.
           Ciente de suas habilidades e pontos-fracos, Pieck sabia que não iria ter chance em testes de aptidão física, por isso no dia do exame de intelecto ela foi com tudo, estando muito acima de qualquer outro.
           O grupo inicial era composto por dezenas de candidatos, e assim foram sendo eliminados gradualmente, agora não poderia contar somente com seu cérebro, correu o máximo que podia, tirou força de onde não sabia existir, treinou pontaria no tempo livre, até começou a ler sobre o patriotismo para enfiar na cabeça dos demais que fazia isso por Marley e somente por Marley.
           A primeira vez que viu Zeke foi quando o grupo tinha pouco mais de vinte, ele se apresentou a todos e disse ser o futuro portador do Titã Bestial, ela não ficou imune a admiração, o mesmo com os demais colegas, e conforme o grupo ficava menor ele se aproximava mais, talvez para não ter muito contato com aqueles que no final não serviriam para nada.


           A primeira conversa veio dias depois, uma das vantagens de ser recruta era o acesso (limitado) a biblioteca do quartel de treinamento, a bibliotecária foi muito enfática no que ela poderia e o que não poderia ler, a seguindo pelos corredores e resmungando quando a menina parava diante de um livro que ela definitivamente não tinha autorização. Nunca a deixavam levar o livro, por isso todo dia lia um pouco antes de ir para casa, sentando em frente a uma janela, a vista da recepção, como a maioria dos livros que conseguia sendo curtos, às vezes lia todo o conteúdo de uma vez, às vezes a leitura era tão hipnotizante que só saia de lá na hora de fecharem, memorizando o título e numero da pagina para no dia seguinte ir direto naquele.
           Como aquele, que contava a respeito de um ladrão que encontrou uma lampada magica e agora um gênio lhe concedia três desejos. Porém, diante de um parágrafo sentiu-se observada, ou melhor, sentia que alguém estava realmente perto.
           Pieck olhou para cima, onde acima de sua cabeça estava um adolescente loiro, lendo com ela a aventura daquele ladrão honesto e sortudo.
-Lembro de ler esse livro aqui quando era mais novo, acredito que foi esse mesmo livro-lhe concedeu um sorriso gentil diante do silêncio-Um dos meus preferidos. Está gostando?
-Sim
           Pensou que ele iria ir embora, mas puxou uma cadeira e se sentou ao seu lado.
-Está biblioteca é muito boa, pena que você é a única que vem aqui
-Meus colegas não parecem ser muito fãs de livros
-Mas creio que você já faz valer por todos-colocou na mesa o livro que trazia consigo-Vem todos os dias
-Eu já li todos os livros que tenho em casa, então...
           Sorriu sem graça, tanto por admitir seu entusiasmo, quanto por ele revelar notar sua presença constante ali.
-Nunca vi o senhor aqui, na verdade
-Só venho escolher o livro-mostrou a capa-dura azul, pelo título deveria ser algo histórico-Vou te contar uma coisa
           Quase que instintivamente se afastou quando ele foi se aproximando, mas não o fez, não queria parecer indelicada.
-Quando você já tem uma vaga garantida como guerreiro, eles te deixam levar os livros para casa, e liberam qualquer livro, não ficam mais limitando nossas escolhas
-Mesmo?-seus olhinhos negros brilharam, haviam tantos que ela adoraria ler
           Zeke abriu a boca para dizer algo, mas foram interrompidos pela bibliotecária que apareceu ao lado da mesa, como sempre mal-humorada e os olhando com nojo, Zeke nutria um desprezo por ela tão grande quanto ela tinha por ele, mas precisava ser educado, então sorriu falsamente a sua presença.
-Boa tarde Eugenia, cortou o cabelo?
-Estamos fechando-ignorou Zeke, já o aturava havia muito tempo para saber quando ele era sarcástico
-Já?-Pieck olhou para o relógio pendurado na parede, ainda faltavam algumas horas
-Sim, estou fechando e não posso deixar vocês aqui-puxou o livro diante de Pieck, fechando-o pesadamente-E você, vai levar o quê?-perguntou à Zeke
-Posso pegar minha mochila?-a pequena garota perguntou
           A rabugenta bufou, e deixando Zeke sentado sem aguardar uma resposta para a pergunta, foi até o balcão, tirando de lá a mochila surrada da menina, não a deixavam juntasla lá dentro por medo dela esconder algum livro.
-Foi um prazer senhor Zeke-se levantou e fez uma breve despedida
-Igualmente...-notou como ele ficou sem graça-Desculpe, eu sou horrível em nomes
-Pieck, Pieck Finger
-Pieck-gostou de como soava-Pode me chamar só de Zeke, ainda sou muito novo para o "senhor"
           Respondeu com um sorriso antes de ir embora, pegando sua mochila e seguindo os corredores até a saída, ouvindo seus passos ecoarem solitariamente pelos corredores bem iluminados, descia as escadas para o térreo quando ouviu passos apressados vindo em sua direção.
-Pieck!
           Gelou entre um degrau e outro, nunca era bom alguém gritar seu nome naquele lugar, rebobinou qualquer coisa que tenha feito que pudesse ocasionar em uma punição, mas às vezes eles não precisavam de motivo. Olhou para trás cheia de receio, mas quem vinha era Zeke, carregando uma bolsa carteiro pendurada no ombro, com seus cabelos esvoaçando conforme ele pulava dois degraus de cada vez.
-Aqui-revirou a bolsa até achar o livro purpura, entregando para a menina que não entendia o porque dele estar ali-Por favor, cuide dele, tem que devolver no final da semana
           A menina não se mexeu, apenas ficou encarando a capa onde o título brilhava em letras douradas.
-Ei, não se preocupe-aproximou o livro mais ainda-Eu posso pegar os livros que quiser, e não tem nada que me impeça de deixar outra pessoa ler
           Pensou mais um pouco antes de pegar o livro, nunca foi uma pessoa muito expressiva, mas a linha de um sorriso trançou seus lábios.
-Obrigada
           O guardou na mochila, entre seus cadernos e roupa extra que levava.
-Está indo para zona de internamento?
           Afirmou com a cabeça.
-Sozinha? Não deveria fazer isso, é perigoso
           Os outros candidatos sempre faziam questão de irem em grupo, atravessar Libério já era muito incomodo, sem eles se tornava uma prova de fogo, mas ela não conseguia resistir a biblioteca, pior era quando precisava fazer isso a noite, marchando em passos largos, o mais rápido que suas perninhas curtas conseguiam.
-Vamos
           Seguiram lado a lado pelas ruas, era preciso certa prudencia, mas Pieck nunca se sentiu tão segura naquelas ruas como naquele dia, e com Zeke pela primeira vez não precisou ter medo, ele transmitia proteção, como um irmão mais velho muito legal que uma criança intimidada usa para se defender dos valentões.
-Sei que é grosseiro perguntar isso a uma senhorita, mas quantos anos você tem?
-Sete
-Ah sim, então tem a mesma idade dos demais, sempre pensei que fosse mais jovem, porem parece mais madura que todos juntos
-Acho que sim-corou levemente pelo elogio
-Quero dizer, você então deve ter total ciência do que ser um guerreiro significa, e o que acontece quando portamos um titã
-Tenho sim
           As frases de ambos eram ambíguas, e isso ficaria no ar para sempre, porque nenhum deles, hoje ou daqui a vários anos, iria se atrever a despir o real significado de suas palavras.
-Que bom encontrar uma jovem que sabe o privilégio que é poder se tornar guerreiro
           Havia acabado de lhe conhecer, mas Pieck sentiu que ele não era totalmente sincero, não havia nada que denunciasse isso, suas palavras pareciam verdadeiras, ou era somente um rapaz que dês de cedo precisou aprender a ser muito convincente em suas mentiras.
-É uma honra-a garota respondeu enquanto soprava um fio de cabelo que prendia em seus cílios
           Ficaram em silêncio até o final do percurso, Zeke sempre julgou que a idade que o governo escolhia para recrutar candidatos a guerreiros era muito prematura, crianças de sete anos não sabem o que isso significa, e em sua maioria eram ilusos pelos pais e forçados por eles para terem sucesso e vencerem a corrida a caminho da vitória, assim como aconteceu com ele, jovem demais para pensar em outra alternativa fora a que seus pais escolheram, ingenuo demais para perceber que ele poderia ter um destino diferente. Pieck realmente parecia saber, o que o fez se perguntar, o que levou aquela menina a querer morrer cedo e lutar uma guerra que não era dela.

 

           No dia seguinte se viu incontinentemente a procura de Zeke enquanto treinava, estava curiosa, precisava admitir, ele sempre pareceu um rapaz legal, mesmo assim sua gentileza a havia surpreendido.
-Está meio avoada hoje-Porco fez questão de salientar
           Treinamento de combate era o que Pieck menos gostava, não importava o quanto tentasse, nunca vencia, porque era todos no mínimo meio palmo mais altos que ela, sempre acabava no chão e estar suja de terra com os joelhos e cotovelos ralados em um dia de sol escaldante nunca a deixava de bom humor.
-Posso ir ao banheiro?-ergueu o braço enquanto ainda estava caída após ser derrubada por Annie
           O homem serio e parrudo que os instruía no treino apenas acenou com a mão, a menina realmente precisava se refrescar, nunca gostou de calor, o verão a deixava molenga e nem mesmo as sombras das árvores aliviavam o ar abafado que era soprado pelo vendo fraco.
           Se arrastou pelos corredores até o vestiário, tomaria um banho se pudesse, mas precisaria resistir a tentação, por mais que as gotas escassas do chuveiro parecessem tentadoras. Se tivesse entrado no vestiário cinco segundos antes, não teria visto Zeke saindo da porta do lado do vestiário masculino, ele também a viu, e sorriu logo que a notou.
-Oi Pieck-chan-a analisou dos pés a cabeça, pingava de suor e seus joelhos ralados indicava que a haviam colocado para alguma atividade que não foi muito agradável-Dia puxado?
-Luta não é meu treinamento preferido
-Preciso admitir que o meu também não, eu treino no pátio leste, suponho que seria muito desanimador para os candidatos me verem levando uma surra dos meus superiores
           Tentou ver através de suas expressões se ele estava brincando ou não, parecia não condizente com Zeke não ser nada menos que bom em tudo o que fazia. Um pensamento chegou a sua mente, a fazendo arfar levemente.
-Pode esperar um instante? Já volto
           Entrou correndo no vestiário feminino, deixando Zeke parado a aguardando no corredor, sorrindo em como ela parecia fofa ao mostrar um pouco de emoção naquele rostinho cansado. Retornou rapidamente, como o prometido, segurando o livro como um escudo diante do peito, o estendeu em meio a uma reverência.
-Obrigada pelo livro, eu realmente apreciei muito poder ler em casa
-Já terminou?-recebeu o objeto-Devo ter levado dois dias inteiros lendo
-É que eu não consegui dormir até terminar-corou
-Você lê muito para alguém da sua idade
-Não é como se tivesse muita coisa legal para fazer fora daqui
-Então-lhe direcionou um sorriso jovial-Quais seriam seus três desejos?
-Meus desejos?
           A pergunta a pegou desprevenida, pensou que fosse apenas algo para ser deixado no ar, mas o loiro a ficou encarando aguardando uma resposta. "Desejo que meu pai seja saudável", "Desejo viver para ler todos os livros que eu quero", "Desejo...", não, não tinha mais nada, só queria duas coisas, nem usaria todos os pedidos, coisas simples, não estava pedindo muito.
-Não sei, não pensei nisso-mentiu-Quais eram seus desejos?
           Por um segundo o rosto de Zeke perdeu o brilho, como se lembrasse de algo muito ruim, ou assim como ela percebesse que o que queria não iria se realizar. Na mesma rapidez ele se recompôs, voltando a sorrir.
-Desejo que a Pieck-chan seja uma guerreira forte por suas próprias habilidades-afagou sua cabeça, não era possível bagunçar seus cabelos mais do que já estavam-Agora preciso ir e você também, e se alguém te derrubar não deixe de se levantar o mais rápido que conseguir
-Sim, tchau sen...Zeke
-Tchau, Pieck-chan

 

           Mudar um habito era difícil, principalmente quando estava se sentindo muito realizada por burlar o esquema securitário da bibliotecária grosseira que logo que a viu ergueu a grossa sobrancelha grisalha.
-Aqui novamente?
           Pieck franziu a testa, sem entender o que ela queria dizer, ia la diariamente, então acreditou que suas visitas já eram esperadas.
-Li rápido demais
           Se virou rapidamente, dando um pulo pela voz inesperada que surgiu atrás de si, Zeke conseguia ser sorrateiro quando queria.
-Vai levar mais hoje?
-Claro que sim-sua resposta foi feita olhando para a menina a sua frente, que logo entendeu o que ele queria dizer
           Andava pelos corredores com a bibliotecária em seu encalço, propositalmente tocando a capa dos livos nas estantes que sabia que não poderia ler, recebendo uma bronca, mas não se importando, logo atrás, Zeke recolhia aqueles que ela tocou, e para disfarçar, enquanto Pieck se sentou no lugar de sempre com um livro qualquer, Zeke largou no balcão a pilha de livros.
-Pra que tantos?
-Sou um leitor fervoroso, Eugenia
           Precisou contar uma risada ao ouvir a resposta que ele deu, mas Pieck estava de costas, passando os olhos pelas linhas sem ler. Ao sair da biblioteca algum tempo depois, bem menos do que costumava ficar, foi até o pátio leste, onde estava certa de encontra-lo, fumando, com sua bolsa ao lado que parecia bem pesada.
-Obrigada mais uma vez-se sentou ao seu lado, guardando os livros na própria mochila quando ele os entregou
-Quando quiser-se levantou e jogou o cigarro no chão, o apagando com a sola da bota-Vamos?
           Sua mochila estava tão pesada que ao colocar nas costas quase caiu para trás, recusando a oferta de Zeke para carrega-la até o gueto, voltaram juntos para a zona de internamento, e os dias restantes ela voltou com o grupo de cadetes, não precisava mais ir à biblioteca, tinha sua própria lista de leitura a aguardando em casa.

 

842

 

           Um ano se passou com os dois realizando seu 'trafico' literário, criando estrategias para despistar a bibliotecária que notou a falta de visitas da garota a biblioteca, sempre surgindo com o loiro que levava uma grande pilha de livros, e após a criança ler quase nada também ia embora. Agora algumas coisas haviam mudado, Pieck estava ditando seus dados para a muito inconformada Eugenia que preenchia uma ficha para colocar em seu arquivo, finalmente a jovem teria seu cartão de biblioteca, já tinha uma garantia quase certa entre os próximos guerreiros, e quem a acompanhava era Zeke, que mantinha os olhos nos pequenos pés calçados com coturnos, se equilibravam na ponta do calçado para olhar por cima do balcão, o queixo apoiado na madeira fria enquanto via seu cartão ser preenchido com os dados do primeiro livro que levaria em seu próprio nome.
-Como se sente?
-Realizada
           Pieck abraçava o livro como se fosse o seu bem mais precioso, Zeke não entendia como uma criança de oito anos poderia estar tão interessada em um romance de quinhentas paginas sobre um marinheiro que persegue um cachalote.
-Guarde na sua mochila depois venha comigo, preciso ter uma conversa com você e os outros
           Depois de uma passada no vestiário, Zeke incumbiu uma preciosa missão a Reiner, o mais animado do grupo de futuros guerreiros, que havia acabado de sair do vestiário vizinho como que um sinal, lugar certo na hora certa.
-Me faça um favor-aquela frase fez o menino dedicar total atenção as seguintes palavras-Chame todos os outros e me encontrem no pátio leste
           Viram quando o loirinho saiu correndo muito animado, tinha certeza que ninguém mais faria tal tarefa com tanto fervor quanto ele. Assim Zeke pôde seguir tranquilo pelos corredores, sem precisar se apressar, esperando chegar com o grupo já reunido a sua espera, mas um ronco que pareceu retumbar por todo o prédio lhe tirou dos pensamentos onde citava um pequeno e inspirador discurso que daria a seus ouvintes. Pieck segurava o abdômen, corando e sabendo ser impossível a manifestação de seu estomago não ser percebida, por mais que desejasse que fosse.
-Está com fome?
           Para alguém que parecia tão diligente, Zeke tendia a gostar de testar pequenos limites, como uma forma de rebeldia tipica de um adolescente de dezessete anos, Pieck não sabia que isso tendia a acontecer quando estava na sua companhia. Entrando com tanta casualidade na cozinha, onde Pieck nunca foi, e saindo de lá com as mãos nos bolsos da bermuda sem parar, andando direto e rapidamente, a menina precisou acelerar o passo, e quando pararam longe o suficiente da cozinha, Zeke tirou duas maçãs dos bolsos, entregando a maior e mais vermelha para Pieck.
-Agora vamos antes que eles se matem
           A maçã era crocante e doce, do tipo que só se encontra do lado de fora da zona de internamento, como haviam duas, pensou que ele iria comer também, mas não o fez.

           A reunião não foi como ele esperou, queria um sentimento de companheirismo, mas isso era difícil quando tinham cinco titãs e seis candidatos, decepcionado, mas não surpreso. Era o esperado quando se coloca crianças para crescerem antes do tempo, mesmo sendo filho onico sabia ter uma regra que os adultos seguiam, se não tem para todos não tem para ninguém, porque é difícil para um menino de oito anos entender que mesmo que estejam ao seu lado, por mais que tenha passado pelos mesmos treinamentos, enquanto os colegas eram recompensados, você iria ficar sobrando.
           Estava tendo um bom dia até aquele momento, não deixaria ser estragado por uma briga de meninos.
-Vamos Pieck-chan
           Seguiu para longe daquilo, se eles têm idade para decidirem morrer, tinham idade para aprender serem civilizados, era por esse tipo de atitude que os maleyanos os tratavam como animais, às vezes acabavam agindo como uns.
-Pobre Reiner-Pieck comentou enquanto subiam os degraus até o segundo andar, não sabia para aonde iam, só seguia Zeke-Ele se esforçou mais que todos
-Se esforço definisse quem tem ou não capacidade de se tornar guerreiro, precisaríamos de muito mais que os nove titãs originais
           Não respondeu, ele não parecia muito contente pelo rumo que acabou tomando sua reunião, por isso Pieck optou por ficar em silêncio e continuar andando, mais um lance de escadas. Nunca foi até o terceiro andar, exatamente igual o segundo, mas parecia diferente, porque um lugar onde não podemos ir é sempre mais interessante que o restante. Zeke abriu uma porta e entrou, a deixando aberta atrás de si, cumprimentou alguém que estava lá dentro, uma voz masculina que chegou até os ouvidos de Pieck que continuou parada no corredor, seu constante convívio com proibições a fez sempre pensar bem antes de interagir com algo novo.
-...está é Pie...-Zeke olhou para trás, acreditando que a menina estava junto, mas voltou até a porta, a encontrando parada como uma estatua-O que foi? Vem
           Esperou-a entrar antes de fechar a porta, a pessoa com quem falava era um homem de óculos, sentado em uma poltrona, vestindo terno e usando pantufas, havia uma cama desarrumada no comodo e o lugar mais parecia um pequeno apartamento.
-Como ia dizendo, está é Pieck, uma das futuras guerreiras
-Pieck, então é você quem tem feito companhia ao Zeke dês de que eu fiquei inútil?-levantou da poltrona, se inclinando em direção a menina-Meu nome é Tom Xavier, sou o atual portador do titã bestial, por enquanto, só estou esperando o garotão ali estar pronto para passar meu posto
-Pieck Finger-deu um sorriso tímido, ele parecia bem velho, ou apenas exausto
-Que fofinha, não se preocupe, eu não mordo, só quando estou no formato de titã
-Ei, velho, sai de perto-Zeke o empurrou levemente para longe de Pieck, sabia do seu estado de saúde, era preciso cuidado
-Desculpe, é que faz muito tempo que não vejo um rosto novo, ainda mais um rosto jovem, são sempre as mesmas pessoas que vem me ver
           Havia ouvido falar de um guerreiro que se encontrava residindo no quartel, aparentemente o uso dos poderes de titã havia deteriorado seu corpo mais rapidamente que o esperado, mas era apenas uma lenda urbana que surgiu recentemente entre os cadetes.
-Estava pensando em fazer um chá, se puderem me acompanhar
-Acho que a Pieck precisar ir logo para casa-o loiro disse tentando impedir o homem, que se arrastava para um fogão elétrico e pegou a chaleira, pronto para enche-la
-Na verdade não, adoraria um chá
-Viu Zeke, ela quer chá-desviou das mãos do adolescente, que tentou assumir a tarefa de encher a chaleira-Se quiser ir, pode ir, Pieck me fara companhia
-Como se eu fosse deixar ela aqui com você
           Sabendo onde ficava tudo, Zeke abriu uma prateleira e tirou vários potes com folhas secas de chá. Aquela tarde, Zeke permaneceu em silêncio enquanto o senhor Xavier apontava para um dos livros em sua prateleira e comentava o fabuloso mundo que haviam naquelas paginas, e a menina ouvia tudo com verdadeiro interesse.
-Depois venha aqui com o Zeke para escolher quais você quer, não vou mais precisar deles mesmo
           Zeke nunca mais conseguiu sentir o aroma de chá fresco de mate sem lembrar daquele dia, foi a última vez que apreciou a presença do senhor Xavier, na vez seguinte que se viram foi pouco antes de Zeke injetar em o soro de titã, a imagem de Tom acorrentado em um pedestal era cruel, não havia necessidade disso, mas todo portador de titã morre em um último estado de humilhação, ele não parecia assustado ou triste, ao contrário, estava sorrindo enquanto via diante de seus olhos, Zeke se transformar em titã momentos antes de o devorar.

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843


           Nunca se importou pela maneira como as pessoas o tratavam, ou as piadas que recebia, porque mesmo ele sendo um eldiano, os superiores, aqueles que valiam a pena, consideravam sua opinião, lugar de fala era algo tão raro para seus semelhantes que a primeira vez que foi convidado para falar diante dos oficiais ele achou ser algum tipo de teste ou cilada.
-Não acha que eles dão muita atenção pra esse moleque?-era definitivamente a voz da titã Blindada, ela era a líder da atual geração, afiada como sempre-Estamos aqui a muito mais tempo, mas eles nos tratam como mercadoria velha
           As respostas eram quase todos concordando com sua opinião, com comentários maldosos dos demais, exceto por um.
-Ele vai liderar a próxima leva de guerreiros, é esperado que o queiram entre eles-o Mandíbula argumentou
           Estava sentado em um banco fumando embaixo de uma janela aberta em um dia de verão, a conversa flutuou até ele pelo vento quente. Nunca se sentiu parte daquela geração de guerreiros, mas dois fatores o levaram a ser introduzido prematuramente entre eles: o desejo dos oficiais de treina-lo para um cargo de liderança, e a deterioração da saúde do senhor Xavier, ocasionando no medo dele sucumbir antes do tempo e o titã bestial ser perdido.
           Estar sozinho ali era mais solitário que estar sozinho em qualquer lugar, não havia espaço para amizade com os militares maleyanos, e aqueles onde poderiam ter algum companheirismo o tratavam como um intruso, por isso ele se acostumou e aceitou. Havia acabado de voltar de sua primeira missão, foram longos três meses lutando pela primeira vez com seu titã, estava exausto, mais mentalmente que fisicamente, e dês de que se tornou portador, infelizmente se viu divergente aos caminhos da única pessoa que sentiu saudade nesse período.
           Nunca foi sua intenção criar vinculo com alguém, menos ainda com candidatos que amanhã poderiam ser eliminados, mas quando ele viu aquela garota, a menor dentre as crianças que fingiam ser adultos, diariamente sentada na grande cadeira da biblioteca mergulhada entre as paginas de um livro ele sentiu que ela era tão solitária quanto ele, mas a diferença é que ela se sentia muito bem com isso.
           Foi por impulso pegar o livro para ela, em casa aquele dia ficou pensando se fez o certo, teve certeza ao ver seu rostinho alegre e agradecido, então se tornou corriqueiro.
           Pieck era uma companhia agradável, poderiam não dizer nada, apenas ficar sentados no pátio, cada um com seu livro, ele fumando e ela prendendo a tosse da fumaça, ele iria apagar o cigarro, mas acabaria esquecendo e acenderia outro. Era bom não ir embora sozinho, era divertida a maneira como ela contava o que havia acontecido no livro que leu, era bom ter a certeza de que a deixou na porta de casa, era bom dividir um guarda-chuva no meio da chuva, ela não ocupava muito espaço, mas ele sempre chegava com o ombro molhado porque não queria deixar cair uma única gota nela.
-Ei, está nos espionando?
           Seus pensamentos foram abruptamente interrompidos. Zeke ergueu o rosto para ver a careca brilhante do portador do Colossal.
-Só estou fumando
           O home clicou a linguá e voltou para dentro do comodo, logo depois quem apareceu foi definitivamente a maior causadora da hostilidade que recebia, Eliza tinha uma eterna expressão de deboche no rosto.
-Estamos indo ver o treinamento dos candidatos, vamos terminar na barriga deles mesmo, então quero me certificar se eles merecem a refeição
           Deu de ombros e se levantou para acompanha-los, cruzando o prédio e os encontrando no meio do caminho, a portadora do Blindado era forte, musculosa e intimidadora, não precisava estar no formato de titã para quebrar um pescoço, Zeke testemunhou isso recentemente, nunca viu alguém conseguir esmagar a cabeça de um inimigo com as próprias mãos, Xavier havia lhe avisado sobre ela.
-Tome cuidado com essa ai, garoto. Ela fará o que for preciso para sobreviver
           A imagem de uma portadora de titã no auge que via sua vida chegando ao fim prematuramente, sentia que ainda poderia fazer muito mais, seu corpo era quase uma armadura, uma versão humana do titã que carregava, mas não importava para Marley, após treze anos você ira morrer e isso é indiscutível.
-Até que parecem descentes-a titã fêmea estava recostada contra uma pilastra, acompanhando o treino ao longe-Você os conhece melhor que nos, o que acha?-perguntou à Zeke
-São perfeitos, todos são talentosos e estão dedicados
           Conforme Zeke enchia as crianças de elogios, os demais guerreiros se viam satisfeitos, pelo visto a próxima geração era adequada e poderiam ir tranquilos. Menos Eliza, que saiu brutalmente dali, em passos pesados fazendo tremer o chão, por um segundo, fazendo os companheiros se silenciarem, incomodados por sua atitude, mas preferiram ignorar.

-Me conta, qual é a sensação?
           Estavam andando por Libério depois de muito tempo, agora era difícil terem essas oportunidades, felizmente eram só os dois, Pieck o havia esperado no quartel para terem um momento para conversar tranquilamente. Não sabia ao certo, mas ela parecia ter crescido alguns centímetros nesses meses, mesmo que continuasse baixinha.
-Incrivelmente familiar, como se eu já tivesse feito isso antes
-E os guerreiros, eles são legais?
-Depende
-Depende de qual, ou depende de quando?
-Depende de quando-chegou mais um pouco para o lado dela, sim, havia crescido-Acompanhei seu treino de tiro, foi muito bem
-Obrigada
-Melhor que na primeira vez, soube que o ricochete da espingarda te fez voar longe
-Ficou analisando meu histórico?-tinha um sorriso divertido, por mais que a lembrança trouxesse um pouco de vergonha
-Preciso saber a evolução dos futuros guerreiros, Pieck-chan-afagou sua cabeça
           Olhou a nova braçadeira de Zeke, vermelha, ela chamava bastante atenção, e logo que entraram na zona de internamento ele foi saudado pelos guardas e recebeu acenos de desconhecidos, praticamente uma celebridade.
-Zeke?
           Uma senhora havia acabado de sair da mercearia quando os encontrou na rua principal, a mesma braçadeira vermelha.
-Olá senhora Yeager
-Pieck, você está tão crescida-a olhou com encanto-Quando vai ir lá em casa novamente?
           A menina olhou de canto de olho para Zeke antes de responder, tal reação não passou desapercebida pela mulher.
-O treinamento tem ocupado boa parte do meu dia, é a reta final, então estou exausta, mas adoraria um dia ir novamente, gostei muito daquele bolo
-Claro, quando fizer novamente irei mandar o Zeke entregar-agora direcionava sua atenção para o neto-Estou te esperando
-Ok, só vou leva-la para casa
           Se despediram antes de voltar ao caminho, a casa de Pieck ficava em uma área mais no final da zona, em cima da oficina de um ferreiro onde seu pai trabalhava, o senhor Finger o recebeu agradecendo por seu sucesso na missão recém-completada. A constatação de que, assim como Pieck conhecia sua família, ele conhecia a dela, mostrava que a relação de amizade deles se tornou bem próxima, quem os via ao longe até poderia jurar terem algum grau de parentesco, era quase isso, Zeke era o irmão mais velho, admirável e fraternal, e para ele Pieck era uma irmãzinha que não merecia o mundo em que viviam e ele fazia o possível para compensar tal injustiça, cuidar dela era algo que lhe dava prazer, não tinha obrigação nenhuma, fazia porque queria, e estranhamente conseguia ficar um resquicio de felicidade disso.

           Seus avós moravam na mesma casa havia anos, apos se responsabilizarem pelo garoto, Zeke se viu dormindo no quarto que um dia foi de seu pai, e isso causava um incomodo que crescia com o passar dos anos, para evitar, acabava passando o máximo de tempo possível fora de casa. Talvez um dia aquela residencia tenha sido calorosa e iluminada, não duvidava disso, mesmo que hoje fosse bem diferente.
-A deixou em casa?
           Sua avó estava na cozinha preparando o jantar, ele podia ouvir vindo do quarto do casal, o som do rádio, e quase poderia imaginar seu avô sentado ao lado do aparelho hipnotizado pela música.
-Pieck é uma garotinha tão encantadora, fico muito orgulhosa em saber que você cuida tão bem dela-cortava os legumes para adicionar a receita-Ela lembra sua tia Faye
-Toda menina te lembra minha tia Faye-sua voz saiu mais rude do que pretendia
           A faca parou no meio do caminho por alguns instantes, como sempre sua avó gostava de mencionar a filha morta, mais como uma tortura que como lembrança, Zeke já estava cansado de ouvir lamentos por alguém que nem conheceu.
-Zeke, precisamos conversar-se virou para o neto que estava parado na soleira da cozinha-Sobre o seu avô, ele...
-O que a senhora decidir está bom para mim, agora somos maleyanos honorários, podemos ver a questão da internação
-Mas eu queria ver se tem alguma alternativa
-Sinceramente, duvido muito, ele está piorando e a senhora não tem mais como cuidar dele, principalmente quando ele fica agressivo
           Seus olhos foram até o braço da mulher, as mangas do vestido dobradas até o cotovelo revelava um hematoma no formato perfeito de uma mão, ao notar seu olhar, voltou a descer o tecido e esconder a marca.
-Você vai mesmo embora?
-Não vou embora, vou me mudar, suponho que já sou grande o suficiente para ter meu espaço
-Entendo, vou ficar sozinha
           Não iria ficar para ouvir os lamentos, Zeke se retirou para o quarto, deitando na cama que um dia foi de seu pai, cruzando os braços atrás da cabeça e encarando o teto enquanto acendia um cigarro.

 

844

 

           Pela primeira vez, Zeke, filho único, criado por avós apos mandar os próprios pais para o Paraíso, se ver injetado no sistema falsamente privilegiado de Marley, obrigado a comer vivo a única pessoa que o fez se sentir querido e satisfeito, pela primeira vez ele sentiu vontade de fazer algo por alguém. E mesmo que Pieck não soubesse, ele sempre estaria lá.
-Temos enfim nossos guerreiros
           O oficial estendeu diante dele as fichas dos cinco candidatos restantes, cada uma com uma foto presa por clipe, a de Pieck foi a primeira que lhe chamou atenção, precisou conter o sorriso, descabelada como sempre.
-Resta apenas distribuir os titãs
           Zeke estava na sala quando, após eliminarem o pobre Porco, as cinco crianças foram comunicadas que haviam enfim finalizado o árduo treinamento. Viu como os olhinhos dela brilharam de alegria, embora tenha, igual a todos, se contido para não pular de felicidade em ver seu esforço sendo recompensando. Para ele era triste, vê-la sacrificando sua vida pelas ambições de uma nação que os tratam como demônios, mas mesmo assim foi o primeiro a lhe parabenizar assim que consegui um tempo a sós com ela.
-Como se sente?
-Cansada-sua sinceridade infantil era tão encantadora-Foi muito tempo de treinamento, eu quero só dormir e relaxar até o dia da posse
-Tem alguma preferencia? Ainda não sabemos quem vai receber qual titã
-Nenhuma, não me importo qual vai ser, mas tenho uma ideia, talvez o Colossal ou o Quadrupede, não tenho perfil de batalha para nenhum dos outros
           Seu rosto estava sujo do sorvete que ele havia lhe comprado em Marley, sabia quais lojas aceitavam vender para eldianos, e ele precisou ser rápido para as casquinhas não derretessem enquanto voltavam para o quartel, suas mãos estavam grudentas de sorvete derretido, mas Pieck adorou a delícia gelada, mesmo não muito firme em cima da casquinha.
-Acho que agora podemos ser mais honestos um com o outro-a menina o encarou curiosa com tais palavras-Por que você quis se tornar guerreira?
           Um longo suspiro gelado saiu de seus lábios, realmente, nunca haviam falado sobre isso, talvez já fosse a hora.
-Como você sabe, meu pai tem sérios problemas de saúde, como guerreira eu posso dar uma boa vida para ele, além de um atendimento medico melhor. Suponho que entende o que quero dizer
           Sabia que recentemente Zeke havia internado seu avô em um asilo, se não fosse seu estatuto o homem provavelmente não teria a assistência necessária.
-Ele vai poder ficar em casa, e mesmo após eu morrer ainda vai ter os privilégios
-Mas e quando você morrer, quem ira cuidar dele?
-Essa é a segunda parte do meu plano-seu rostinho estava repleto de intriga-Vou arrumar uma esposa para ele
-O que?-dar uma de cupido não parecia algo que Pieck faria
-Quando eu morrer ele ainda vai viver por vários anos-esperava que sim-Tem uma senhora, viuvá, que parece interessada nele, e eu sempre falo que ele pergunta por ela
-Isso é verdade?
-Não, mas ela não precisa saber
-Pieck, não pensei que fosse capaz desses esquemas ardilosos-sua risada incrédula mostrava o quanto estava surpreso
-De que adianta eu me tornar guerreira para poder tratar a saúde do meu pai, se depois que eu morrer ninguém vai estar lá para cuidar dele?-encolheu os ombros
-Você está totalmente certa

           Zeke jamais interferiu na trajetória de Pieck e a garota tinha muita ciência disso, raramente falavam a respeito de seus futuros como guerreiros, já que juntos eram um dos poucos momentos em que poderiam fugir disso.
           Estava presente quando aquelas crianças, uma a uma, foram entrando na sala de posse, uma última vez viu os rostos dos guerreiros que brevemente o acompanharam, alguns sorriam com a sensação de dever cumprido, outros estavam cabisbaixos. Zeke estava em um mezanino a uma distância segura de onde os cadetes se transformavam, para evitar que seus titãs fossem atrás da presa errada. Seu coração apertou quando Pieck surgiu no piso de baixo, olhando de relance até ele antes de pegar a seringa e injetar em seu braço, Zeke desviou o olhar, nem mesmo o grito de dor do antigo portador do Carroça o fez tirar os olhos do ponto aleatório do chão para onde olhava, só retornando ao sentir a fumaça de titã subir até ele, Pieck parecia um pouco desorientada, as vezes acontecia, agora ela também era uma portadora, igual a ele, os grãos de areia de uma ampulheta invisível começaram a cair, treze anos, era o que lhe restava agora.
           Por fim foi a vez de Eliza, a sala foi limpa, e ela subiu no pedestal, sendo presa pelas correntes, a todo momento o rosto estava escondido na cortina chocolate de seus cabelos longos, logo veio Reiner, acanhado, não escondendo o nervosismo, ele foi o mais devagar de todos, não parecia ter a mesma frieza dos demais, a sala estava dolorosamente silenciosa até vir o primeiro soluço, que se tornou maior pelo eco que aquelas paredes lisas proporcionavam, então uma lagrima pendurou em seu queixo antes de cair no chão. Reiner hesitou, a ponta da seringa já havia furado sua pele, mas ele a afastou, encarando a mulher que chorava diante dele.
-Algum problema, Braun?-Magath franziu a testa
           Reiner não respondeu, logo veio outro soluço e o último antes dela quebrar, em um som rouco de quem nunca chora, envergonhada foi escondendo ainda mais o rosto nos cabelos, era possível ver como seus braços acorrentados tremiam, desejando ter como secar as lágrimas e limpar o rastro salgado de vergonha que marcava suas bochechas.
-Braun!-Magath gritou, fazendo o menino pular
           Outra vez ele tentou furar a si com a seringa, mas o choro ficou mais alto, e agora quem também tremia era ele, não conseguindo manter a seringa estável na mão.
-Anda moleque!-ouviram a voz embargada vindo do alto-O que está esperando? Termina logo com isso!
           Reiner pingava de suor, iria para sua terceira tentativa, mas as mãos suadas deixaram a seringa cair. Agora uma gargalhada ecoava, atingindo Reiner como agulhas.
-Serio que logo eu fiquei com o covarde?
           Eliza não sabia se ria ou chorava, ficou em um meio-termo assustador que beirava a loucura.
-Eu falei Magath, depois que eu for, ninguém mais sera digno do Blindado!
-Merda-Magath rangeu os dentes-Ainda temos o Galliard mais novo, certo?
           A frase chegou a Reiner, que de repente se viu falhando novamente, ele não poderia ter chegado ali e fracassar por um simples surto de consciência. Como explicaria a sua mãe? Estava bem ali, diante dele, só precisava tomar o soro, o titã puro faria todo o trabalho sujo, quando retornasse a si estaria acabado. De uma vez enfiou a ponta afiada da seringa na pele, e ignorando a dor ao sentir o líquido entrar tão rápido no corpo, Reiner pressionou êmbolo de uma única vez.
           Zeke viu quando o titã puro se aproximou de Eliza, que parou de gargalhar e agora tinha os olhos verdes cheios de medo, no final só sobraram os braços presos nas correntes, o restante foi todo consumido por Reiner. Até que se surpreendeu, achou que ela fosse tentar lutar, se perguntou até porque Magath não colocou uma mordaça nela, ela entendia, mas não concordava, no final era obediente a Marley, independente da sua revolta pela morte.
-Agora é com você Yeager-Magath se virou para ele

 

           Assumindo o papel de líder, Zeke orientou os cinco novos guerreiros, estava lá quando pela primeira vez Pieck usou os poderes do quadrupede, parecendo um gatinho que dá os primeiros passos, dessincronizados e tropeçando uma ou outra vez ate seu cérebro entender que agora tinha quatro membros inferiores ao invés de dois. Também achou engraçado quando ela, uma expectadora, pela primeira vez o viu na foma do Bestial, tão miúda aos seus pés.
           Os seis guerreiros estavam sentados na traseira de um caminhão do exército, partindo para a primeira batalha, ansiosos e imaginando o que encontrariam, Zeke sabia, encontrariam morte, os seus rostinhos não teriam mais aquele ar infantil, não voltariam as mesmas crianças que eram.
           Pieck, assim como os colegas mais novos, nunca esteve em um acampamento militar, era barulhento e cheio de insetos, duvidava que as noites de sono ali fossem ser tranquilas. A comida servida no quartel nunca foi das melhores, mas nada comparado a ração militar, nem mesmo os mantimentos que lhes davam durante os treinos de sobrevivência na floresta a haviam preparado para aquilo.
-Horrivel, né?-Zeke estava ao seu lado a vendo engolir a comida-Acho que a sortuda aqui é você, vai ficar no seu formato de titã e não precisara comer isso
           Ergueu a colher da sopa rala, água com alguns pedaços de legumes.
-Sempre ouvi dizer que todo acampamento tem alguém que vende comida descente, sabe quem é?-olhou entre os outros soldados, que assim como ela, comiam sem muita animação
-Claro que sei
           Observou por baixo da mesa Zeke tirando uma barra de chocolate e passando para a menina, que a guardou dentro do uniforme.
-Faça um bom trabalho nessa batalha que lhe dou outra
           Após a refeição voltaram para suas tendas, Zeke ficaria mais próximo dos superiores, em um espaço só dele, já os mais novos dividiam duas tendas a alguns metros de distância, Pieck ouviu na tenda ao lado a conversa entre os meninos, imaginando como seria a batalha do dia seguinte, a voz de Marcel repassava com Reiner e Bertholdt como o comandante havia planejado se infiltrar no forte do inimigo, e cada um retrucando em como seria o melhor na luta do dia seguinte.
-Tão barulhentos
           Annie trocava de roupa para dormir, os cabelos loiros caindo pelos ombros enquanto ela dobrava cuidadosamente a farda e a colocava na mesa.
           Sentada em uma das camas, Pieck estava abrindo a barra de chocolate, oferecendo a menina que após pensar um pouco aceitou um pedaço.
-Eles vão levar uma bronca-Pieck ouvia os tons dos meninos ir aumentando, um tentando falar por cima do outro
           Como previsto, a voz zangada de Zeke deve ter ecoado por todo acampamento quando ele entrou na tenda ao lado e mandou os meninos dormirem. Annie correu para sua cama e se deitou, Pieck ainda estava de uniforme, mas assoprou o fogo da lamparida e pulou para a própria cama, levando o lençol até o pescoço para esconder a roupa.
           Quando o silêncio já estava instaurado no vizinho, pode ver um breve feixe do luar atingir o ponto entre sua cama e a de Annie, Zeke espiou para se certificar estarem dormindo, já havia sido muito inconveniente um maleyano ir lhe perturbar porque os guerreiros estavam fazendo bagunça, é o que acontece quando se leva crianças para a guerra, mas por sorte as meninas eram comportadas.
-Temos que acordar cedo amanhã-dificilmente era enganado, sabia que estavam acordadas-Não quero desculpa, ao nascer do sol todos devem estar prontos
-Sim senhor-disseram em uníssono enquanto permaneciam deitadas


           Quanto tempo se passou? Pieck perdeu totalmente a noção de tempo enquanto estava na forma de titã, a batalha se desenvolvia diante de seus olhos, e mesmo na retaguarda chegava até ela o cheiro de pólvora e sangue, já estavam impregnados em suas narinas. Foram semanas naquela forma dormindo mais afastada do acampamento, onde as únicas visitas eram Marcel e Zeke, que quando possível, iam lhe fazer companhia e conversar, mais eles do que ela, sua voz saia tão alta que todos ouviam o que dizia. Ela não matou ninguém naquela missão, por isso ainda parecia crua em relação aos outros quatro, e quando enfim encerraram vitoriosos fazendo uma nação virar cinzas, Zeke a aguardou após tanto tempo, percebendo sentir falta de sua aparência humana quando ela emergiu da fumaça.
-Bom trabalho-se aproximou, ainda estava no chão, de onde o olhava suada do vapor, sabia que ela odiava calor, seria um novo desafio-Venha, o comandante vai oferecer uma refeição descente, depois de dois meses deve estar com fome
           Nada, ela continuo ali no chão, o que o deixou realmente alerta.
-Tudo bem?-se agachou ao seu lado, tentando procurar algo que o respondesse, algum sinal
-Eu...-até mesmo a voz estava rouca-...eu não consigo ficar de pé, minhas pernas parecem petrificadas
           Todos já estavam adiantados, os outros guerreiros indo se juntas aos demais soldados na fonte dos gritos de vitória. A conhecia o suficiente para saber que estava esgotada e faminta, Pieck deu o primeiro engatinhar, deixando suas mãos sujas da terra, sempre dispensando ajuda, querendo ser independente, talvez pudesse arrumar outra maneira de tira-la dali, ou será que sua autonomia era maior que sua exaustão?
-Venha, suba nas minhas costas
           Pieck estava tão cansada e irritada por estar travada naquela posição que aceitou a carona sem questionar, enlaçando os braços em seu pescoço e colocando uma perna de cada lado da cintura do loiro que cheirava a suor e grama, ela soube porque inspirou profundamente seu aroma quando pousou o queixo no ombro. De onde estava não notou o rapaz corar, sorte que todos estavam tão agitados pela vitoria, um sucesso na primeira missão com a nova geração de guerreiros, que não notaram Zeke trazendo a menina nas costas.
-Não esqueci do meu chocolate
           A voz estava tão próxima que fez cocegas nas suas orelhas, Zeke percorreu o solo traiçoeiro e cheio de altos e baixos com cuidado.
-Está lhe esperando
           Apertou ainda mais os braços em volta dele, em resposta, Zeke a arrumou nas costas com um pequeno impulso, Pieck tentava não prestar atenção em como as mãos dele estavam na parte inferior de suas coxas, nunca estiveram tão próximos.
-Não matei ninguém
-Está feliz ou decepcionada?
-Vim preparada e ciente de que iria acontecer, e agora que não aconteceu eu perdi todo o preparo psicológico que reuni
-Que tal se concentrar apenas na recompensa desta batalha, ansiar pela seguinte nunca é bom
-É, acho que tem razão
-As vezes eu também estou certo, Pieck-chan

Chapter Text

845


           O sol que raiava pelo amanhecer cegou Zeke logo que saiu do ambiente escuro do bordel, não era seu momento de maior orgulho, ainda mais após pernoitar bebendo e desfrutando os prazeres de uma profissional até anunciarem estarem fechando, algo que só faziam quando a luz do dia começava a iluminar os cômodos pelas frestas das janelas e transformar os desejos em vergonha. Lá dentro ele não era um guerreiro, era só um jovem com dinheiro para gastar, era bom fugir de alguma maneira, mesmo que aquela não fosse uma solução como prometia ser de início. Com sua reputação para proteger, era um lugar discreto onde poderia entrar sem ser visto e sair tranquilamente pela porta lateral, iria andar pelos becos dos fundos até chegar na rua principal aonde iria se misturar com as pessoas que acordavam cedo para iniciarem suas vidas diárias.
           Logo após se tornar titã, ele saiu da casa dos avós, se mudou para um apartamento bem localizado onde tinha uma cama nova que foi só sua e de mais ninguém, não haviam reclamações do cheiro de cigarro, poderia descansar sossegado sem ser perturbado por uma casa cheia de memórias. Chegar ao amanhecer não acarretava perguntas constrangedoras cujas respostas verdadeiras não seriam bem recebidas, e mesmo que para ele o significado de "lar" fosse onde nos podemos ter um canto do mundo para ter tranquilidade, sabia bem que jamais encontraria isso em lugar nenhum porque os problemas o acompanham para onde quer que vá, ainda assim, poder fechar a porta e fingir que o restante das pessoas não existiam era reconfortante.
           Parou curioso ao ver saindo do prédio onde morava a figura tão familiar de Pieck logo cedo olhando em volta a sua procura, por que razão iria até seu apartamento? Nunca esteve lá antes, já que por mais íntima e fraternal que a relação deles fosse, não ficava bem uma menina estar no apartamento de um homem que mora sozinho.
-Zeke!-correu até ele logo que o viu parado no meio da rua-Preciso da sua ajuda
-Aconteceu algo?
-Mais ou menos-o analisou dos pés a cabeça, deveria ter virado a noite em algum lugar, mas não questionou nada-Pode vir comigo?
-Pra quê?
-No caminho te explico
           Agarrou sua mão e o puxou pelas ruas, Zeke estava cansado, ainda cheirava a bebida e adoraria um bom banho, sabia que o perfume barato da mulher com quem esteve exalava em sua pele, mas ela o conhecia bem suficiente para saber que se desse uma oportunidade dele delongar o que quer que estivesse planejando pedir o loiro iria tentar escapar pelo visivel cansaço, então não deu tempo para ele pensar.

 

           O suor fez com que os fios loiros começassem a grudar na testa, suas mãos queimavam com o atrito das cordas e ele realmente não estava de bom humor, quando Pieck disse precisar de ajuda com a mudança ele imaginou que iria carregar algumas caixas, e não que teria que erguer os moveis pela janela do apartamento que ficava no segundo andar de um complexo residencial.
-Como você me convenceu a fazer isso?
           A menina entrou pela sala segurando uma caixa cheia de utensílios domésticos, a colocando em um canto enquanto olhava para Zeke cheia de divertimento.
-Meu pai não pode se esforçar, e eu precisava de alguém que pudesse ajudar
           Não deu a resposta que queria porque precisou segurar a perna da pesada mesa de madeira e a puxar para o interior da janela. Já havia trago o aparador da sala, a estante de livros que ficava no quarto de Pieck e a cama de ferro da menina, mas ele estava realmente preocupado com o restante dos moveis, dali de cima aquele sofá parecia muito pesado.
-Por que escolheram um lugar onde as escadas são tão estreitas que não da para passar nenhum móvel sem desmontar?
-Tem dois quartos, o aluguel é justo, e também...
           Foi até a janela, olhando para a rua que não ficava muito longe do lar anterior, mas tinha uma aparência mais agradável.
-Lembra da viuvá que te falei?-Zeke afirmou com a cabeça enquanto acompanhava o olhar da menina-Ela mora naquele predio
-Pieck, preciso ter algumas aulas de estratégia com você-havia surpresa e divertimento na sua voz
           O olhou de esgueira, parecia que cada vez que via Zeke ele estava diferente, começou a deixar uma sombra de bigode crescer, loiro e quase invisível, também gostava dos óculos que passou a usar dês de que se tornou portador de titã, ela até chegou a comentar algumas vezes, mesmo que não conseguisse mais ver com tanta clareza aqueles olhos cinzas como discos de prata que às vezes ficavam tão sem brilho quanto metal sem polimento. Sentia que ele usava os óculos tanto como homenagem quanto como proteção, para criar uma barreira visível e discreta entre ele e as pessoas a sua volta, Zeke estava mudando, notou isso havia um tempo, e cada vez que essa constatação vinha surgia ela sentia um pesar no peito, nunca quis tanto estar errada.
-Pieck!-seu pai gritou da rua
           Deu um pulo, assustando Zeke mais com sua reação que com a voz do homem que a chamava.
-Já vou!-respondeu antes de se virar para o rapaz-Vou ficar lá em baixo cuidando das coisas, meu pai disse que vai pedir ajuda de um amigo
-Uma ajuda seria bem-vinda-secou o suor da testa com as costas da mão
-Está reclamando de fazer uma mudança? Justo você, jovem, forte, portador do titã bestial
           Fez uma pose, colocando os punhos na cintura e o encarando com desdem, isso fez uma veia de irritação saltar na testa de Zeke.
-As vezes você esquece que sou seu superior, Finger
-Não estamos de serviço
-Um militar está sempre de serviço
-Sim, senhor Yeager-bateu continência
           Sem resistir a tentação, Zeke bagunçou seus cabelos, dando a menina o ar desgrenhado que ele tanto gostava.
-Pieck!-seu pai gritou mais uma vez
-Preciso ir-segurou a mão do loiro que ainda estava pousada em sua cabeça-Já volto
           Saiu correndo pela porta aberta do apartamento, seus passos apressados sendo ouvidos por Zeke até sumirem e depois olhou pela janela, Pieck encontrou seu pai que saiu logo em seguida, deixando a menina vigiando as caixas e moveis que ainda faltavam serem levados até o novo lar. Se sentou no sofá e ficou balançando as pernas despreocupadas, olhando ao redor para a nova vizinhança.

           Deixou a bituca do cigarro cair nas telhas que formavam a fachada do prédio, era fácil avistar o senhor Finger na multidão pela braçadeira vermelha que parecia naturalmente atrair os olhares alheios, e ali não eram apenas uma braçadeira, eram quatro que estavam vindo pela rua a esquerda.
           Quando o senhor Finger foi até a filha com os irmãos Galliard e mais outro homem que Zeke não conhecia, mas deduziu ser o pai dos meninos, ela apontou para a janela, e todos ali viram que Zeke os observava. Marcel lhe entregou um aceno respeitoso e sorridente, já Porco apenas virou o rosto ao cruzar os braços mostrando visível irritação.
           Os homens começaram a amarrar as cordas na geladeira, enquanto isso as crianças pegaram cada um uma caixa e sumiram ao passar pela entrada do prédio. Continuou encostado na janela até Pieck surgir mostrando o caminho aos irmãos, era bem estranho encontra-los longe do quartel, até um pouco constrangedor. Como esperado Marcel o tratou exatamente com a mesma formalidade que o tratava sempre, isso fez Zeke olhar de relance para Pieck, que precisou conter um risinho, às vezes apenas com um simples olhar poderiam passar para o outro uma pequena mensagem.
-Porco, quanto tempo...
           Qualquer tentativa de interação foi evitada, o menino se virou e saiu pela mesma porta que entrou, ignorando a presença de Zeke.
-Desculpe-seu irmão estava totalmente constrangido, as faces vermelhas que mostravam estar realmente espantado com tal atitude-Ele ainda está um pouco indignado
-Bom, diga a ele que esse tipo de atitude mostrar exatamente o porquê ele não ter se tornado guerreiro-se inclinou para o garoto, primeiro com uma voz ríspida, depois mudando para um tom mais casual, afinal Marcel não era culpado pelo irmão que tinha-Mas antes vamos trabalhar, quanto mais cedo terminarmos mais cedo podemos ir
-Sim senhor-saiu em disparada
           Aproveitando a ajuda extra, Pieck iria dar uma pequena arrumada nas caixas, que começaram a tomar muito espaço e ficando no caminho, as pessoas não costumam perceber a quantidade de pertences que tem até precisarem fazer uma mudança. Como seu pai não trabalhava mais na ferraria o dono aumentou o aluguel, se era para pagar a mais pelo menos que fosse em um lugar melhor.
           Começou a empurrar uma das muitas caixas repletas de livros em direção ao seu novo quarto, agora teria espaço suficiente para eles.
-Não sabia que era amiga dos Galliard
-Nós conhecemos dês de que eramos crianças
-Como se você fosse adulta
           Franziu a testa para Zeke.
-Quis dizer que os conheço dês de sempre, nossas mães eram muito amigas. Quando minha mãe morreu, a senhora Galliard cuidava de mim para meu pai trabalhar, e eu acabei crescendo com o Marcel e o Porco
-Não sabia disso
-Nunca te contei?-pelo seu semblante era possível ver que ela realmente não notou que nunca entrou naquele assunto-De qualquer forma eles me ajudaram a entrar no programa de guerreiros, meu pai não estava muito contente, e eles o convenceram
-Com tanta familiaridade é de se estranhar que nunca tenha percebido, seu relacionamento com eles não parecia diferente que com os outros
-Não é como se nós conversássemos muito, o Marcel é amigo de todos, e o Porco é exatamente o contrário-riu discretamente com uma lembrança-Ele ficava puxando minhas tranças e uma vez arrancou a cabeça da minha boneca preferida
-Infelizmente eu consigo imagina-lo fazendo isso
-Sejamos sinceros-abaixou o tom de voz, como se fosse contar um grande segredo-Eu nunca o perdoei por isso e ele sabem muito bem
           O senhor Galliard entrou no apartamento, timidamente cumprimentando Zeke, agora teria outra pessoa para lhe ajudar a subir os moveis. Com o trabalho distribuindo, o senhor Finger vigiando a mudança posta na rua, as crianças trazendo as caixas e o pai dos meninos o ajudando a subir os moveis, tudo andou mais rápido.

           Regeneração era uma dadiva maravilhosa, logo enquanto descia as escadas para respirar um pouco de ar a cada degrau que pisava a dor nos músculos ia sumindo, já o senhor Galliard que estava logo atrás parecia só sentir dor e mais nada, quase poderia ouvir seus ossos rangendo.
-Não tenho mais idade para essas coisas, mas o Finger me prometeu cerveja, e você, o que prometeram?
-Estou aqui de graça
           O homem soltou uma risada que foi virando um gemido de dor, provavelmente ficaria alguns dias dolorido.
-O senhor está bem, pai?-Marcel estava no final da fila que descia as escadas
-Nada que uma massagem da sua mãe não resolva
           Marcel sentiu um calafrio percorrer seu corpo ao imaginar a cena, e como de costume, ao ser mencionada, sua mãe apareceu, como se menção a ela fosse algum tipo de invocação. A mulher deixou o senhor Finger falando sozinho no meio da conversa quando viu o marido e filho aparecerem, acompanhado de Zeke, que foi o alvo para onde a mulher andou animada e sorridente.
-Senhor Yeager, prazer, sou a mãe do Marcel e do Porco
-Prazer-deu um leve aceno de cabeça enquanto tirava o maço do bolso
-Sempre quis perguntar pessoalmente, mas como tem ido o meu filho?
-Marcel é um bom menino-olhou para o jovem que estava logo ao lado da mulher-Quando não estou presente é o melhor para liderar os guerreiros
-Que orgulho-alisou os cabelos de seu primogênito-Como se já não fosse a honra de ser mãe de um dos guerreiros, ainda ouço um elogio desse
-Um merecido elogio-sabia ser amistoso as vezes
-Marcel, perguntou aquilo que pedi para o senhor Yeager, não foi?
-Sim mãe, ele não sabe de nada-o menino corou violentamente, mostrado nervosismo nas intenções da mãe-O senhor Yeager não tem tempo para essas coisas
-Que bobagem, se alguém vai saber o que aconteceu, esse alguém é ele-a mulher direcionou toda atenção ao loiro, sacudindo o braço enquanto o filho mais velho tentava tira-la dali-Uma curiosidade, quando o titã é passado adiante, os familiares do guerreiro anterior permanecem como maleyanos honorários, correto?
-Sim, sempre foi assim
           Não deu muita atenção a pergunto tola com resposta obvia, tragando lentamente seu cigarro.
-Entendi-abanou a mão como se o menino que a rodeava fosse uma mosca-Sabe, essa parte do distrito é bem familiar, todos se conhecem, somos uma grande comunidade, e podemos até dizer ser a região dos guerreiros
-Sim, parece um bom lugar-sorriu desconfiado, tentando entender onde ela queria chegar
-Até pouco tempo tínhamos outra guerreira morando por aqui, deve tê-la conhecido… Quieto Marcel!-o menino começou a suar frio-Eliza Alvin, ela era portadora do titã blindado
-Sim, a conheci, grande mulher
-Em todos os sentidos-fez uma pose como se quisesse mostrar os músculos que não tinha-Sabe, eu fiquei nessa dúvida porque quando ela passou a posse do titã, sua família perdeu o posto de marleyanos honorários
-Mesmo?-pelo visto o assunto era de certa maneira curioso
-Sim, o marido e o filho, aliás, são eles ali
           Acompanhou o olhar, um homem jovem segurava a mão de um garotinho que não deveria ter mais que cinco anos, se realmente fossem parentes de Eliza, as braçadeiras que deveriam usar eram para ser vermelhas, e não brancas. Assim que viu a criança sabia ter algo estranho.
-O menino é filho dela?
-Ah, não, ele é filho da primeira esposa do senhor Alvin, a mãe morreu no parto, mas ela se casou com o pai dele quando ainda era um bebê, e ele a chamava de mãe, e ela dizia ser seu filho, até conseguiu uma honraria para ele, um relacionamento bonito de se ver
           Havia uma série de regras extremamente rígidas que os guerreiros precisavam seguir, uma delas era voltada especificamente para as mulheres, não era permitido engravidar, motivo: não é possível se transformar com exito durante a gestação, o que acarretaria nove meses de inutilização para aquele titã. Dizem que nem a própria Ymir conseguia se transformar durante a gestação, então era uma regra que ocasionava em desqualificação, se ele bem sabia anos antes houve um caso da titã fêmea que engravidou, ela foi devorada com seu bebê ainda no ventre e os poderes passados para outra pessoa.
-Viu Marcel?-se virou para o filho-Pela reação dele dá para perceber que é algo bem estranho de ter acontecido
-Bom, acredito que o viúvo pode ter a resposta
-Acha que eu nunca perguntei?-pareceu ofendida com suas palavras-Ele fica desconversando
-Mãe, vamos, está ficando tarde-Marcel se colocou entre a mulher e o seu superior, totalmente constrangido pela situação
-Ok, ok-apertou a mão de Zeke em uma despedida, para a felicidade do primogênito-Foi um prazer falar com o senhor, mesmo não tendo conseguido responder minha dúvida. Apareça lá em casa de vez em quando, o Marcel fala muito bem do senhor, o Porco nem tanto, mas está convidado para vir jantar um dia desses, não pode dedicar sua atenção toda aos Finger, não demonstre favoritismo entre os jovens guerreiros
-Pode deixar, senhora Galliard, adoraria conversar mais-nem fez questão de disfarçar muito a mentira
-Porco!
           Os transeuntes viraram os olhos para eles, até o senhor Finger levou um breve susto, já os dois Galliards ali não se surpreenderam, pelo visto a mulher gritava constantemente.
           Zeke olhou para cima, em direção aonde a senhora Galliard gritava, Porco surgiu pela janela ao lado de Pieck.
-Vem, vamos para casa!
           Espera, o loiro olhou a sua volta, contando todos, o senhor Finger conversava com Galliard, Marcel estava passando um dos momentos mais vergonhosos de sua vida ao lado da mãe, o que queria dizer que Pieck e Porco estavam sozinhos lá em cima esse tempo todo.
           Quando o jovem menino se juntou a família tinha um rosto corado e cabisbaixo, Pieck veio logo atrás com uma expressão mais neutra, porem mantinha os olhos fixos em Porco.
-Que cara é essa, não estavam aprontando, né?
-Não mãe!-pelo visto o costume de falar alto foi algo que Porco herdou da mãe
           A família foi embora, com a senhora Galliard sendo usada de apoio ao marido que andava um pouco torto, parecia uma família bem estruturada, algo difícil de se encontrar entre os guerreiros. Para Reiner faltava um pai, Annie e Pieck não tinham mais suas mães, já Zeke não tinha nenhum dos dois, mas aquela família poderia ter seguido junta e feliz sem precisarem sacrificar um dos filhos.
-Precisam de mais ajuda?
-Não, já foi levado tudo para cima-o senhor Finger se aproximou
-Mas se quiser ajudar a arrastar os moveis...-disse a menina olhando diretamente nos olhos cinzas do rapaz
-Pieck, o senhor Yeager já ajudou muito
-Não tem problema-Zeke se adiantou-Já estou aqui de qualquer maneira, e a Pieck não vai conseguir sozinha
-Sei que estou meio debilitado-o pai da menina respondeu sem graça-Mas consigo fazer alguma coisa
-O melhor que o senhor pode fazer é descansar, não custa nada-o loiro sorriu, querendo saber onde estava todo o descontentamento de mais cedo, ah sim, Pieck lançou aquele olhar novamente
-Prometo que irei recompensa-lo-o homem mais velho se curvou levemente em agradecimento-Fico feliz em saber que temos amigos tão solícitos
           Jogou o cigarro no chão antes de voltarem os três para o apartamento, agora mobiliado, mas totalmente desorganizado, a primeira coisa que pai e filha fizeram foi abrir caminho para Zeke começar a levar cada móvel a seu devido lugar.

           Minutos mais cedo, Pieck fazia uma lista mental de onde começaria a arrumar, a cozinha era o primeiro passo, deixar tudo preparado para poderem fazer as refeições e manterem a energia enquanto arrumavam o restante da casa. Procurava em meio as caixas espalhadas pelo apartamento aquela catalogada com o que precisaria para equipar o comodo.
-Ai!
           Gritou ao sentir alguém puxar seu rabo de cavalo, segurou o couro cabeludo que latejava enquanto encarava irritada Porco que mantinha um olhar aborrecido como se ela é quem tivesse feito algo contra ele.
-O que foi? Tem feito cara feia dês de que não foi eleito guerreiro
-Nada-fazia biquinho enquanto cruzava os braços
-Não tenho tempo para isso, estou ocupada
-Muito ocupada lutando na guerra-suas palavras fariam a guerra parecer uma grande festa onde ele não foi convidado
-Porco, o que foi?
           Deu de ombros, fazendo a menina bufar enquanto voltava a sua tarefa.
-Vou continuar no exercito
           Parou de repente, olhando para ele por cima do ombro.
-Sabe o que isso quer dizer, né?
-Que como eldiano estarei sempre na linha de frente, os primeiros a morrer, mas que escolha eu tenho aqui dentro? Ser igual meu pai e vender sapatos a vida toda? Ralei muito durante o treinamento, não vou jogar esse conhecimento fora
-Porco, você não precisa disso-se virou para ele, às vezes era tão cabeça-dura, mas precisava tentar-Marcel já é guerreiro, você pode ter uma vida tranquila, indo para o exército vai durar bem menos que os treze anos
-Pra mim tanto faz, não consegui o que queria, então não ligo muito
-O que você queria?
-Essa braçadeira-segurou o pedaço de tecido que estava no braço de Pieck
-Sua braçadeira é igual à minha
-Mas não é a mesma coisa. Eu sou quem deveria ter recebido o blindado
-Já tentou encontrar o que levou a isso?
-Não haviam motivos para escolherem o Reiner ao invés de mim-rosnou
-Talvez a sua infantilidade? Ou seu temperamento? Você é horrível para trabalhar em equipe, não podemos esquecer-colocou as mãos na cintura-A briga que você provocou aquela vez é um bom exemplo de tudo o que falei. Zeke ficou muito irritado pela sua atitude
-Sei que ele tem algo a ver com isso-olhou pela janela pensativo
-Por isso tem agido de forma tão grosseira com ele? O Zeke não decide quem vira guerreiro
-Pode não decidir, mas ele tem influência-lhe direcionou um olhar acusador-Falar para ele sobre coisas de anos atrás não teria ajudado também
-Estava ouvindo?-franziu a testa-Pelo visto agora é enxerido, mais uma coisa pra adiconar a sua lista
-Não foi de proposito, estava trazendo uma caixa e...-foi interrompido
-Bom, posso garantir que o que quer que tenha feito eles não te escolherem, não tive nada a ver
           Bufou para tirar um fio de cabelo claro que caia em sua testa, batendo o pé pesadamente no piso de madeira.
-Nunca entendi sua amizade com ele, foi do nada, quando vi era Pieck-chan, e Zeke, como se fossem muito amigos
-E somos, mas nunca criei amizade com ele para tentar ter vantagem
-Nunca disse que foi por isso, só é meio irritante
-Sinto muito, mas não posso fazer nada em relação a isso
           Talvez encerrando ali a conversa ele fosse embora, então voltou a sua tarefa de desempacotar, mas era a primeira vez que ia ser sincero sobre o que sentia dês de que foi descartado, então Porco não iria perder a oportunidade, porque duvidava que fosse ter essa coragem novamente.
-Sabe o que me deixa mais zangado?-Pieck respirou fundo e se virou para ver o que ele ia falar-Ninguém pareceu se importar por eu não ter virado guerreiro a não ser eu mesmo, nem você, ou o Zeke, Bertholdt ou Annie, nem mesmo o Marcel ou meus pais pareceram se importar, eu fui totalmente desconsiderado, mas quando pareceu que o Reiner ia sobrar todo mundo ficou com pena
-Sua família já ia ter um guerreiro, não posso negar que seja meio injusto
-Realmente acredita que eu queria ser guerreiro para minha família ter o dobro de chance?
-Não, acho que você fez isso porque, como sempre, não poderia se ver inferior a alguém, então se o Marcel ia ser guerreiro você também tinha que ser
-Você não sabe de nada-seu rosto corado de vergonha contradizia suas palavras
           Foram interrompidos por um grito retumbante que vinha até eles, Pieck deu um pulo e Porco não foi diferente, o menino andou até a janela a procura da dona da voz que conhecia muito bem, Pieck fez o mesmo sem saber muito bem o motivo, mas seus olhos encontraram brevemente os de Zeke, que arregalou levemente as sobrancelhas ao vê-la.
-Vem, vamos pra casa!
           Como se o grito os tivesse trago novamente para a realidade, Porco corou violentamente ao perceber o que fizera, falou demais, e ele odiava isso, duvidava que Pieck fosse compartilhar aquela confissão com alguém, mas só dele saber já era gente demais.
-Por favor, não fale nada disso para ninguém, esqueça tudo
-Não posso prometer esquecer, mas de mim ninguém vai saber de nada
           Acenou a cabeça mais tranquilo pela promessa de manter em segredo sua pequena revelação, saiu as pressas pela porta com Pieck logo atrás.

           Zeke arrastou o último móvel com sentimento de vitória, ainda haviam caixas espalhadas, mas pelo menos a cama proporcionaria uma noite de sono para no dia seguinte colocar tudo no lugar. Tinha que admitir que aquele apartamento era mais bonito que o anterior, mas não comentaria por parecer grosseiro, antes Pieck e o pai moravam em um lugar bem pequeno, suas camas dividiam o mesmo quarto e o cheiro de metal derretido vindo do ferreiro causava dores de cabeça a menina como ela já havia confessado algumas vezes; após a braçadeira aquela era a maior conquista que a menina conseguiu e deveria estar muito orgulhosa. O novo quarto de Pieck parecia ainda maior porque ali só tinha a cama e uma estante de livros, o guarda-roupa que antes dividia com o pai ficou no quarto do homem e ele se perguntou se agora ela iria comprar um para si mesma, mas se bem conhecia a menina ela iria preferir uma nova estante, só pela quantidade de caixas com livros espalhadas pelo piso mostravam que uma única e estreita estante não era suficiente.
           Espiou em uma das caixas abertas, reconhecendo com surpresa um dos livros que estava logo no topo, o pegando com uma mistura de nostalgia e angustia, a capa verde um pouco surrada foi aberta, e logo na parte de trás dela estava escrito "Tom Xavier" com a caligrafia ornamentada que ele bem conhecia. Zeke fez jus a promessa que o senhor Xavier deu a Pieck, a levando para escolher os livros que queria, bem mais do que ele pensou que seria, precisando de três viagens para levar todos ate a menina. Guardou o livro novamente na caixa e saiu do quarto bem a tempo de ver Pieck entrando pela porta da frente segurando uma sacola de compras enquanto poderia ouvir o pai dela no quarto fazendo algo que não deveria ter importância para o loiro.
-Vou indo, parece que já podem seguir daqui
-Não quer ficar para comer algo, é meio tarde para o almoço e cedo para o jantar, mas vou tentar um meio-termo-mostrou a sacola parda que carregava
-Não, eu estou exausto, só quero tomar banho e dormir
-Obrigada Zeke, ajudou muito-seus olhinhos o encaravam com carinho, era exatamente aquele olhar que o colocava naquele tipo de situação
-Sei que vou me arrepender do que direi, mas qualquer coisa é só chamar
-Tá bom
-Senhor Finger, estou indo!-gritou para o homem que estava fora de vista
-Certo jovem, obrigado!-foi a resposta
           Pegou o casaco que estava jogado no sofá, Pieck deixou as compras na cozinha e o acompanhou até a porta. Zeke tropeçou em algo logo que saiu do apartamento, uma sacola de estopa amarrada com uma fita rosa.
-Isso é seu?-pegou o objeto e mostrou a Pieck
-Não
           A menina pegou a sacola curiosa, desfazendo o laço e relevando lá uma boneca pano, com cabelos trançados de lã marrom e um chapéu florido laranja que combinava com sua jardineira. Os dois ficaram um pouco perdidos com aquilo, até que Pieck pareceu entender primeiro a origem da misteriosa boneca deixada em sua porta e deu uma leve risada que fez suas bochechas corarem, em seguida Zeke também entendeu o que era aquilo, franzindo a testa com a conclusão.
-Nós vemos outro dia-falou olhando para a boneca que ela agora abraçava contra o peito
-Ok
           No caminho até seu próprio lar Zeke ficou pensativo, onze anos costuma ser a idade em que os meninos começam a ver as meninas de uma maneira diferente, sabia disso porque a primeira vez que percebeu que meninas eram bonitas foi por volta dessa mesma idade, eram crianças, ainda algo inocente, mas isso o deixou extremamente incomodado.

 


           Guerreiros estão em constante treinamento nos primeiros anos, para depois saberem manusear suas habilidades de titã com tanta maestria que era difícil imaginar não terem nascido assim, principalmente para os quatro que estavam selecionados em realizarem a missão de retomar o Titã Fundador. Por uma questão de espaço, tais treinamentos eram feitos fora de Libério, no caminho entre a capital de Marley e a cidade vizinha, onde tempos atrás aquelas crianças realizavam seus treinamentos de sobrevivência, agora ao longe Zeke podia ver Reiner e Annie, cada um em seu titã, lutando corpo a corpo, não era novidade a loira sair vitoriosa, deixando o menino caído no chão.
           Marcel deveria estar entre as árvores da floresta densa, podia ouvir o som das árvores conforme ele pulava de uma para outra; Pieck estava paradinha esperando o pessoal da oficina tirar suas medidas para uma nova armadura, deitada no chão com os olhos fechados, talvez estivesse até dormido; sentado em cima de uma cerca olhando a luta estava Bertholdt, com um titã destrutivo demais para um simples treino de rotina, eles costumavam levar o menino até um local bem mais distante para calcular o caminho de impacto de sua transformação que vinha aumentando conforme ele adquiria experiencia.
           Já Zeke, bom, Zeke sentado na tenda medica observando tudo pelas cortinas abertas tentando ignorar a dor latente que as agulhas furando sua espinha, queimava e uma picada entre as vértebras refletia por toda a coluna, doía tanto que estava suando, mas os militares haviam descobrido algo muito interessante sobre ele, o controle em titãs puros.
-Pronto, acabou-disse a enfermeira após colher uma abundante quantidade de fluido espinhal
           Respirou fundo, às vezes a linha abaixo da cintura ficava um pouco dormente após essas coletas, então ele se permitiu ficar ainda um tempo sentado na maca, sua camisa estava dobrada ao lado e o abdômen transpirava, sabia que isso se tornaria cada vez mais frequente conforme a guerra avançasse, agora deveriam ter estoque para centenas de transformações, e saber que isso não era suficiente o deixava nauseado, mas talvez fosse só efeito da coleta.
-Parece que tudo está andando melhor que o planejado-Magath entrou na tenda, olhando com superioridade para o rapaz que ainda se recuperava
-Sim senhor-Zeke ergueu a cabeça para encarar o superior-Logo estarão totalmente preparados para irem em missão
-Ainda temos outra batalha até lá, vai durar mais que as anteriores, mas é bom eles irem se acostumando com a duração, a missão de Paradis pode levar anos, e sei que ficar tanto tempo longe de casa pode ser estressante
-Da família também, mas creio que estarem juntos vai tornar as coisas menos dificeis
-Como anda o trabalho em equipe?
-Sincronizado, principalmente entre os meninos
-Acho que é natural-o oficial soltou uma leve risada-Quero que todos eles voltem, os quatro, ou melhor, cinco, contando com o Titã Fundador, deixe isso bem claro para eles
-Sim, senhor
-E essa saudade de casa vai ser algo bom, vão querer concluir logo a missão. Vão estar no território do inimigo enquanto seus parentes ficam aqui tranquilamente desfrutando dos benefícios, bem como esperado de eldianos
           O loiro percebeu a maneira como Magath o olhou, procurando algum sinal de revolta por suas palavras, mas Zeke era especialista em camuflar seus sentimentos, não mostrando nada além do mesmo olhar complacente que sabia que os maleyanos gostam de ver nos guerreiros. Talvez fosse um bom momento para perguntar, mentiria se dissesse que não ficou com aquele assunto na cabeça dês de que a senhora Galliard o apresentou a questão, e por mais que perguntar demais fosse perigoso, Zeke sempre soube reconhecer os limites, se Magath demonstrasse descontentamento iria encerrar a conversa.
-Comandante Magath, tenho uma pergunta a respeito do tratamento com nossos familiares após morrermos
-Não sei o que mais é preciso explicar, mas diga
-A permanência deles como maleyanos honorários, é algo garantido, correto?
-Claro, não vê parentes de guerreiros anteriores vivendo na zona de internação?-disse como se Zeke fosse estupido
-Sim, mas foi justamente isso que me deixou curioso. Alguns dias atrás acabei conhecendo o marido e o filho de Eliza Alvin...
-Ah, sim-o interrompeu-Sabe que existem algumas exceções que acarretam perda das honrarias. Quais são?
-Traição, gravidez, tentativa de fuga, conspiração..., existem outras, mas essas são as que não nos dão direito a reavaliação, e impedem que nossos parentes continuem com os beneficios
-Exatamente. Alguns oficiais acham melhor manter essas situações em sigilo, já eu penso que nada melhor como um exemplo para manter os outros na linha-Magath tirou o quepe e olhou pela entrada da tenda, o impacto do Blindado caindo ao levar uma rasteira da Fêmea fez o chão tremer-Dias antes da posse foi descoberto que Eliza Alvin planejava fugir com o marido e o filho
-Isso é realmente surpreendente-já suspeitava, mas não pôde de se espantar-Ela nunca pareceu o tipo que faria algo do tipo, mesmo que parecesse um pouco inconformada em ter que passar o titã adiante
-Eliza poderia ter ido embora com mais dignidade, ela era muito considerada pelos oficiais, e sabia disso, os deixou furiosos com tal atitude
-Sei mais que ninguém o valor que é poder ser ouvido de igual (nem tanto) pelos marleyanos, é vergonhoso ter tentado fugir ao final de seu dever
           Magath concordou levemente com a cabeça, ela sempre foi bem geniosa, mas sua personalidade nunca interferiu no trabalho, eles até deram uma permissão especial para o filho adotivo se tornar um marleyano honorário, foi realmente uma ingratidão.
-Ela tinha razão no que me disse, já testemunhei varias gerações de guerreiros, e nunca vi alguém usar tão bem o Blindado quanto ela. Duvido que vá viver para ver alguém que use esse titã com tanta maestria
           Reiner estava caído no chão, com Annie lhe aplicando um golpe, o menino emitia rugidos irritados tentando se desvencilhar.
-Eliza não via os treze anos como uma regra, mas uma garantia, porém já houve casos assim, em que o portador estava bem de saúde e do nada ao completar treze anos simplesmente caia duro no chão, uma morte súbita, dormia e nunca mais acordava, o caso mais recente foi do quadrupede, tivemos sorte de conseguir encontra-lo, foi um trabalho árduo sincronizar o horário da morte do portador com registros de nascimentos de eldianos, o pior foi arrancar o bebê recém-nascido dos braços da mãe
           Tirou um pólen amarelo que estava preso na manga de sua farda, ainda lembrando dos gritos do bebê enquanto o guerreiro, o homem que carregou o quadrupede antes de Pieck, injetava o soro no braço em uma demonstração de frieza que nunca viu antes em sua vida.
-Ou seja, é um risco que não podemos correr, foi confiando na saúde de um portador que acabamos perdendo o Titã de Ataque, que esta vagando por aí, talvez quem o tenha não faça ideia, talvez esteja nas muralhas, em uma criança de Libério ou tenha acabado de nascer em uma zona de internamento no estrangeiro
-Como vocês descobriram a tentativa de fuga?
           Agora Magath ponderava se deveria ou não contar, se fosse para outro guerreiro se negaria, mas em Zeke ele tinha mais confiança.
-O marido dela, ele deu o aviso. Quando os soldados chegaram ela estava de malas prontas com a criança, só esperando o marido voltar para partirem. Como falei, ela era muito forte, não só como titã, mas como humana, então precisamos fazer o necessário para evitar outra tentativa e fuga
-Realmente, quem a visse no dia da posse não imaginaria nada assim, ela subiu no pedestal por vontade própria, por isso me pergunto, o que seria "o necessário"?-estava bem perto do limite, sabia, seus pés tocavam a linha
-A levamos para a prisão, como o marido nos ajudou, ele foi liberado, o filho ficou sob nossa vigilância, em um navio ancorado no porto de Paradis
-Então...
-Se ela tentasse alguma gracinha a criança teria que ser punida, ela não teria como impedir, estávamos mantendo comunicação com o navio, se não dessemos sinal eles tinham ordens para mandar a criança para o paraíso. Como conseguimos manter tudo sobre controle não achamos necessário adiantar a cerimónia, nem foi preciso usar a mordaça ou seda-la
           Tanta naturalidade ao contar aquilo, como uma ameaça passivo-agressiva, "Podem tentar o que for, vamos descobrir e as consequências vão ser cruéis".
-Comandante Magath, por que está me contando isso?
-Por que eu reconheço sua realdade a Marley e sei que essa historia pode te lembrar um pouco da sua. Pode até ter achado em algum momento nesses anos que a decisão de mandarmos seus pais para Paradis foi radical, mas sabemos ser compreensivos quando necessário, no caso de Eliza, o filho era muito pequeno para entender, e o marido, de acordo com ele, fingiu concordar para evitar que ela fosse sozinha com a criança. Nós recompensamos a lealdade e temos um certo nível de tolerância
           Foram muito misericordiosos ao fazer uma criança de cinco anos de refém.
-Talvez tenhamos sido muito compassivos com Eliza e isso deu a entender que poderia fazer o que quisesse. Essa nova geração vai ter a missão mais importante da história, tanto quem vai quanto quem fica, ou seja, as recompensas vão ser maiores que qualquer guerreiro já recebeu, saiba disso e transmita para eles
-Sim senhor, embora saiba que para eles somente poder fazer parte disso é suficiente
-Zeke, até parece que você não tem ambição-tocou o ombro do rapaz, o encarando nos olhos com seriedade-Estou falando de uma estatua em praça pública, seus nomes em livros de história, vocês são a geração escolhida para salvar o mundo, salvar Marley
-Comandante eu tenho ciência disso, mas como eldiano tudo o que eu quero é poder compensar os pecados de meus antepassamos e limpar a desonra que meus pais trouxeram para minha família
           O comandante inflou o peito de satisfação, não foi dessa vez que Zeke caiu na armadilha, mas o oficial parecia bem contente com isso.
-Vamos ver o quanto mais ele aguenta-Magath colocou o quepe e viu ao longe Reiner finalmente conseguindo revidar um golpe de Annie, para depois receber um soco endurecido bem no queixo-Talvez possamos usar o Blindado como um titã de contenção de impacto ao invés de ofensivo
-Sim senhor
           Permaneceu sentado na maca, abotoando sua camisa e refletindo a nova informação quando avistou a fumaça tomando o lado de fora enquanto Pieck saia de seu titã, ele decidiu encarar um pouco a parte externa da tenda medica, caminhando até onde a menina enfim terminou de tirar as medidas para a nova armadura.
           Agora ele sentia pena de Eliza, toda a situação fez sentido, ela realmente parecia dedicada a Marley, leal e pronta para morrer, fosse em batalha ou no termino de seu tempo de serviço, deveria ter sido devastador, viver pronta para a morte e então surgir alguém que a fazia querer continuar vivendo. As lagrimas que caíram naquele dia porem não foram pela vida que ia chegar ao fim, foi pelo filho que não veria crescer, o filho que estava diante de um destino pior que a morte, ela não deveria nem ter conseguido se despedir, era isso, isso é Marley na sua forma mais crua.
           Eliza tinha um plano, todos que se tornam guerreiros tem um, seja para dar um bom futuro para a família, aproveitar o prestígio, ou consertar erros de seus antepassados; porém os dela mudaram no meio do caminho. O atual portador do Bestial não deixaria isso acontecer, estava dedicado em chegar ao seu objetivo, a cada missão conseguia identificar e unir mais pessoas que pensavam igual a ele, que queriam um fim ao sofrimento, tinha seu próprio capricho pela retomada do Fundador, porque ele e somente ele poderia acabar com aquele ciclo de ódio, e não aceitaria que alguém aparecesse com poder suficiente para fazê-lo querer mudar seus planos.
-Zeke?
           Como se tivesse fechado os olhos em um lugar e aberto em outro, o loiro olhou em volta, diante de Pieck que tirava uma mecha de cabelo bagunçado do rosto, com a pele ainda quente de vapor, ele conseguia sentir o calor emanando dela.
-Por que esta me olhando assim?
-Assim como?
-Você parou na minha frente e ficou me olhando
           Aqueles olhos negros e grandes, que quando pediam algo dificilmente ele conseguia recusar, gostava de Pieck, bastante, mas não o suficiente para faze-lo desistir, por mais que sempre tivesse gostado de provocar um sorriso nela.
-Pieck-chan, acabei descobrir que Marley fez algo cruel com alguém que eu não gostava, sorria para eu me sentir melhor-pensou
-O que?
-Nada Pieck-chan-colocou as mãos na cintura-Só pensando em uma maneira de fazer o Reiner parar de apanhar
-Cuidado!
           O grito veio da multidão por perto, todos correndo na direção oposta onde estava Zeke e Pieck, o loiro olhou para trás, um braço gigante de titã voava até onde eles estavam. Segurou Pieck firme enquanto mordia a mão livre, um raio surgiu iluminando o ambiente com mais força que o sol, em uma meia-transformação, um braço repleto de pelos cresceu do ombro de Zeke, com maestria pegando o membro decepado no ar antes dele cair em cima dos dois.
-Tudo bem?
           Com a menina sendo envolvida pelo braço humano, ele viu que ela talvez não tenha percebido tudo com a mesma rapidez que ele, ainda tentando entender o que aconteceu.
-Sim, estou-olhou para cima, onde um braço gigante segurava outro-Você sabe que eu não morreria, não é?
-Isso é maneira de agradecer-inconscientemente a abraçou mais forte-Deveria ter te deixado virar panqueca, e eu não fiz isso só por você
           A frente deles haviam os engenheiros que antes tiravam as medidas do titã de Pieck, a menina olhou para trás novamente, mantendo contato visual com Zeke e decidindo que iria acreditar nas palavras dele. Se desvencilhou do homem, tomando distância para ver melhor o que fora lançado.
-Acho que ele já está parando de apanhar
           Arrancando o braço do titã incompleto, Zeke foi até o lado de Pieck e acompanhou a direção onde olhava, o titã de Zeke caiu levando consigo aquele pedaço de Annie.
-Parece que sim
           Quem assumia o controle agora era Reiner, que tentava quebrar o endurecimento da Titã Fêmea e chegar a nuca, destruindo os dentes em uma mordida desesperada para finalizar a luta ante que voltasse a perder.
           Bertholdt segurava os cabelos, ainda em cima da cerca em dúvida de para quem deveria torcer, as pernas balançando inquietas quando Annie conseguiu retomar o controle apos o membro ter se regenerado, agarrando Reiner com fúria e o lançando para longe em direção a floresta, derrubando algumas árvores e fazendo surgir um grito de dor, que se Zeke não estivesse errado, era do Mandíbula, que caiu das árvores como um esquilo cujo galho se partiu ao meio.
           Respirou fundo e olhou para Pieck, que via com pessimismo para a cena, até notar que Zeke, outra vez, a encarava, mas sem a expressão esquisita de antes.
-Sou um titã de apoio, eu perco até na queda de braço-ergueu as mãos em defesa
           Passou a mão cansado pelos cabelos, pelo visto teria que pessoalmente cuidar daquilo.
           Viu Zeke se afastar enquanto se transformava por completo, Pieck se sentou ao lado de Bertholdt na cerca, agora o esquema da luta era Zeke contra Annie e Reiner; minutos depois Marcel se justou a eles, segurando o braço direito que estava dobrado em um angulo que não constava na anatomia, com fumaça saindo da pele enquanto sua regeneração cuidado da fratura, reclamando em como seu titã foi totalmente esmagado pelo impacto com Blindado somado as árvores que caíram em cima dele. Agora eram três sentados na cerca enquanto acompanhavam a luta que se estendeu até o por-do-sol.

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846

 

           Reiner, Annie, Berhtoldt e Marcel eram aplaudidos com fervor pela multidão que foi se despedir, uma comitiva que Pieck jamais viu para ninguém, fosse eldiano ou maleyano, lhe lembrando um pouco as situações exuberantes descritas nos livros que eram realizadas normalmente para antecederem algum evento que quase sempre era uma tragédia. Confetes eram jogados pelas janelas e caiam como uma chuva colorida nos guerreiros constrangidos por tamanha animação, mal podendo acreditar que tudo aquilo era para eles, exibidos em carro aberto por toda capital, se dando conta da magnitude daquela missão, as ruas se lotaram por toda Libério seguindo o caminho até o porto que levaria o grupo para a ilha, os guerreiros que trariam de volta o Titã Fundador para Marley, todos estavam ali, menos ela, e Zeke, que ao seu lado, viam toda a festa montada para os outros.
           Uma fileira de oficiais, encabeçada por Magath, mantinha-se a postos para a despedida final, os dois extras estavam ao lado do militar cuja principal responsabilidade era comandar aqueles eldianos que possuíam o poder dos titãs, tão orgulhoso que mais parecia um pai vendo uma conquista dos filhos.
           Familiares das quatro crianças continham as emoções, menos a senhora Galliard, que usava um lenço bordado para secar as lagrimas que brotavam abundante de seus olhos.
-Está chateada?-Zeke sussurrou ao seu lado
-Não-se escondeu entre as mechas negras-Entendo porque não vou, meu titã não é útil em Paradis
-Ei-esperou ela virar o rosto para ele-Você é útil aqui, ou acredita que eu consigo defender Marley sozinho? Preciso de você, Pieck-chan
           Na verdade Zeke estava tão feliz por Pieck ficar que chegava a ser egoísta, ele mesmo estava frustrado por ficar, mas não poderia transmitir esse sentimento para ela. Só de imaginar que logo o poder do Fundador estaria ali, bastaria um simples toque em quem o portasse para conseguir o que queria, e tudo seria melhor para todos, se estivesse naquele navio indo para Paradis poderia realizar a missão na metade do tempo estimado, ao invés de depender de outras pessoas para pegar o que deveria ser dele, estava ansioso.
-O que fazemos agora?-Pieck lhe perguntou enquanto viam o navio que levava os colegas ir se afastando
-Esperamos


           Terminava de arrumar sua mala, não costumava levar muita coisa, mesmo que a ideia de ficar meses longe o fizesse sempre pensar em algo que pudesse precisar, nunca iria se acostumar com acampamentos, era o tipo que gostava do silêncio e conforto, acordar ao som de bombas foi uma experiência terrível, mas não tinha nada pior que a falta de estrutura para conseguir escovar os dentes.
           Uma batida na porta interrompeu sua atividade, de acordo com o relógio da cabeceira era tarde demais para visitas, o que aumentou sua curiosidade, nunca recebia visitas, tanto que a roupa suja jogada em cima do sofá se tornou parte da decoração. Juntou tudo e jogou para dentro do quarto, olhando em volta para verificar se não havia nada muito comprometedor antes de abrir a porta.
-Senhor Finger?
-Boa noite, desculpe a hora, mas poderíamos conversar?-o homem segurava o chapéu entre os dedos, dobrando a peça e lhe passando o nervosismo que sentia
-Claro
           Zeke se afastou da porta dando espaço para o homem entrar, educado suficiente para não ficar olhando em volta e analisando o lar alheio como a maioria das pessoas fazia, ou tão acostumado com a opressão que aprendeu que sempre se deve olhar para frente.
-Quer beber alguma coisa?-normalmente era o que se fazia ao receber visita, não é?
-Não, obrigado, serei breve, sei que tem um dia cheio amanhã
           Indicou o sofá onde sua visita se sentou, fez o mesmo na poltrona logo ao lado, ficando em silêncio e aguardando o homem iniciar a conversa.
-Vim aqui abusar de sua boa vontade, e pedir que cuide de Pieck para mim. Como pai, não consigo me sentir confortável em saber que minha filha vai para o campo de batalha
           O loiro se acomodou melhor na poltrona, ao mesmo tempo que o pedido parecia esperado era ainda uma surpresa. Sua relação com o pai de Pieck sempre foi muito polida, cumprimentos educados e no máximo uma conversa de poucos minutos sobre como ia o treinamento militar ou um comentário sobre o clima, mesmo a amizade dele com Pieck nunca foi algo que o homem questionou, agora ou no início, depois de anos ainda tinham um ar muito formal ao se falarem, o mesmo do dia em que o pai viu a menina chegar com o jovem após um dia de treinamento como candidata e Zeke se apresentou.
-Entendo sua insegurança, mas a Pieck não é uma menina comum
-Sei disso, e você não tem obrigação nenhuma, mas sei que deseja o bem da Pieck, e ela estará entre marleyanos, é uma menina de doze anos-abaixou a cabeça envergonhado com o que pensava-Antes me sentia mais seguro pelas outras crianças estarem junto, mas agora é só ela, não posso temer que aconteça...que façam alguma coisa
-Acho que compreendi o que quer dizer-ajustou os óculos no rosto-Mas se o senhor fica tão inseguro por ela, por que a deixou se tornar guerreira?-uma alfinetada que não poderia passar pela oportunidade-Por mais que a sua saúde seja frágil e os benefícios estejam ajudando, sempre poderia ter recusado
-Fiz de tudo para tentar evitar isso, me desculpe, mas acho muito tolo se tornar guerreiro
-Senhor Finger-tirou o maço de cigarros do bolso-Não deveria sair por aí falando essas coisas, mesmo para mim
-Perdão-apertou ainda mais forte o chapéu entre os dedos, procurando uma maneira de justificar suas palavras-É que eu sou meio antiquado, acredito que existe uma ordem natural para as coisas, minha filha de doze anos sustenta a casa, sou um encostado
-O senhor precisa cuidar de sua saúde-acendeu o cigarro, tentou dar um breve conforto dessa vez, se sentiu meio mal porque o homem parecia realmente culpado pelo destino da filha
-Mesmo assim, muitos pais trabalham até a morte para cuidar dos filhos, não é nada incomum, poderia ter convivido com isso, mas as coisas saíram um pouco de controle. Foi muita pressão para me fazerem aceitar a inscrição dela, e ela foi passando pelas etapas
-Pieck lutou muito, é um mérito dela e o senhor deveria sentir orgulho
-Eu sinto muito orgulho dela, e ela esta feliz, eu acho. Quando  me entregou essa braçadeira vermelha-segurou o tecido que estava no braço esquerdo-Acho que nunca a vi tão feliz, então eu precisei deixa-la tomar a rédea de nossas vidas. Se não posso trabalhar, ou sustentar a casa ao menos posso lhe dar essa satisfação
-Sempre me perguntei o que o senhor tem, ela sempre me disse ser algo grave, mas que vem melhorando bastante dês de que começou a ser tratado por Marley
-Não posso negar que o tratamento médico deles é ótimo, quem cuida de mim é um doutor jovem, gentil demais para ser marleyano, acredito que já tratou tantos eldianos que se tornou mais condescendente
-Então já encontraram a causa?
-Sim, porém as notícias não são animadoras-ergueu o rosto e o olhou nos olhos pela primeira vez-Vou morrer, não tem o que fazer a não ser delongar, mas ele garantiu que não chego aos cinquenta
-A Pieck já sabe?-não, provavelmente não, ela teria lhe dito, ou deixado transmitir
-Não, Pieck ficaria arrasada, não posso fazer isso com ela, não quero que julgue que seu esforço foi em vão, o melhor que consigo é tentar viver até ela precisar passar o titã para outra pessoa, depois disso não me importo, posso morrer no mesmo dia que ela, dês de que seja depois
-Sinto muito senhor Finger-sentia um enjoo, uma angústia inflar na boca do estômago e subir para o peito
-Um filho nunca deve morrer antes dos pais, imaginar isso é pior que estar no inferno. No dia em que a Pieck se for eu morrerei com ela, talvez não fisicamente, mas eu só estarei existindo e desejando ir também
           O silêncio que se seguiu deu a Zeke a oportunidade de pensar em seus avós, que sempre pareceram corpos sem espírito, presos a lembrança da filha, seu pai sempre foi um assunto ainda mais delicado, ele era um titã vagando ao redor das muralhas, se perguntou se tivesse ido com os outros retomar o Fundador e visse seu pai o teria reconhecido, ou ao menos sentido sua presença.
-Desculpe tomar seu tempo, agora preciso ir-se ergueu do sofá em um pulo-Pieck deve estar se perguntando onde eu fui, com certeza pensa que estou com a vizinha
-Então o senhor sabe?-Zeke deu uma risada enquanto o acompanhava até a porta, tentando esquecer aquele breve questionamento
-Claro que sim, Pieck puxou a inteligência da mãe, mas ainda não sabe disfarçar suas artimanhas
           No corredor do prédio, enquanto colocava o chapéu, o senhor Finger se virou para dizer as últimas palavras antes de voltar.
-Zeke, sou um homem que não pode oferecer muito-mostrou as mãos vazias, com cicatrizes de anos de trabalho braçal-Mas confio que você vai cuidar bem da Pieck, no começo achava meio estranho, com o tempo vi que é um bom rapaz
-Agradeço a confiança, Pieck é como uma irmã mais nova
-Eu é quem agradeço-disse antes de seguir pelo corredor em direção as escadas


           A despedida deles ocorreu no dia seguinte, bem menos glamourosa que a dos colegas, Pieck e Zeke estavam nos portões da zona de internação ao nascer do sol, prontos para lutar pela nação em campo contra um inimigo distante, ao redor outros eldianos se despediam de suas famílias, havia choro, muitos não voltariam, outros voltariam em um estado que era melhor ter morrido por lá mesmo. Zeke aguardava enquanto sua avó fazia uma pequena prece a pedido de seu retorno, tentando não revirar os olhos pelo ritual que sempre realizava quando ele ia para batalha, seu avô não estava lá, havia tido uma crise no dia anterior e provavelmente estava sedado e desorientado demais para sua avó poder leva-lo para se despedir, Pieck era envolvida por um forte abraço de seu pai, a demonstração de carinho foi discretamente acompanhada por Zeke, acabou com isso na cabeça antes de dormir e foi o primeiro pensamento que teve ao acordar.
-Pieck, seu pai está morrendo

           A viagem de trem durou um dia inteiro, Pieck adorava andar de trem, e ajoelhada no banco via pela janela a paisagem se passar diante deles, imaginando em sua mente quais palavras usaria para descrevê-las.
           "Arvores de tantas especies que seria preciso paginas para citar cada uma por seu nome, brotando nas cores daquele verão em que o sol se dedicou em fazer presença. A velocidade tranquila, porem eficiente, da locomotiva nos dava a oportunidade de vislumbrar cada fazenda onde animais rurais usavam as sombras para deitarem e aproveitarem a serenidade de seres irracionais que vivem um dia de cada vez"
           Queria ter consigo um caderno para anotar, mas decidiu parar com esse habito, ter cadernos e mais cadernos com anotações aleatórias sobre histórias que nunca iria escrever, ou pior, que não seriam lidas, lhe trazia uma melancolia dolorosa.
           Prometeu para si mesma que continuaria olhando pela janela dês de que parasse de criar monólogos. Suspirou e encostou o rosto no braço que se apoiava no arco de metal da janela, era bom o conforto do vagão executivo, e não ir junto aos outros eldianos empilhados como gado alguns trilhos atrás, onde nem ao menos tinham janelas, sendo privados da bela paisagem, encarando as paredes de metal onde a próxima coisa que veriam seria uma terra devastada pela guerra. O vagão também era ocupado por oficiais, que enchiam o local da fumaça dos cigarros, por isso Pieck estava do lado oposto, deixando Zeke conversando com os demais homens e ouvindo suas opiniões sobre o desenrolar daquela batalha.
           Primeira parada: o lugar onde os trilhos terminam, diante de um caminho íngreme e rochoso, onde já mostrava um grande estoque de suprimentos armazenados em um galpão improvisado e seguro de ataque, que seriam enviados periodicamente para os batalhões. Um comboio formado por caminhões esperava ali, sendo levando em grandes grupos até o acampamento, seria a segunda parada antes de na manhã seguinte continuarem viagem. Algumas pessoas pensam que a guerra acontece longe, tecnicamente era verdade, Pieck estava tendo a oportunidade de conhecer o país, cada vez ocorria um ataque em uma direção diferente, os guerreiros sendo enviados para onde a situação era mais critica, como uma força de ataque poderosa e intimidadora, alguns inimigos já perdiam a confiança ao reconhecerem vindo do território rival um raio que ia do chão ao céu, e não o contrário.
           Havia adquirido a habilidade de compreender a duração da batalha pelo estado do acampamento e dos soldados, quando pulou de cima da carroceria ela soube que aquela estava acontecendo havia tempo demais, as fardas dos militares estavam largas, não havia mais uma organização rígida e se tornou uma bagunça, começava a crescer mato entre as tendas e ruas improvisadas de terra tão batida que nem era mais possível deixar pegadas muito visíveis, tendas vazias de soldados que morreram e logo seriam ocupadas por outros que vinham na nova carga, soldados parecem ser infinitos aos olhos dos grandes oficiais, e aqueles estavam com uma moral tão baixa que nem mesmo a chegada dos guerreiros parece dar o ar de esperança com o qual normalmente eram recebidos, mas ao longe ela reconheceu o som de uma gaita e uma voz masculina a acompanhando em uma música antiga demais para a menina conhecer, ainda havia alguém que conseguia cantar.
-Você fica aqui-Magath parou diante de uma tenda pequena, rodeada por outras um pouco maiores
-Sim, senhor
-E você-se virou para Zeke-Venha comigo
-Não vou ficar aqui?
           Magath franziu a testa, não queria questionamentos, mas Zeke não se mexeu.
-Como sempre sua tenda é próxima a dos oficiais, do outro lado do acampamento
           Olhou para Pieck, e então para o lugar em volta, ninguém usava braçadeira a não ser os dois, podia sentir o cheiro de cerveja impregnado e sons de grupos de homens gritando no que ele não sabia ser uma conversa acalorada ou briga, era sobre aquilo que seu pai estava falando, parece que estar certo era algo de família, notou como um marleyano passou por eles e os encarou, as braçadeiras realmente chamavam atenção, lutar lado a lado de marleyanos lhe deu uma nova visão sobre eles, ainda pior que aquela anterior de um rapaz que só encontrava as repressões pelas ruas de Libério.
           A menina lhe direcionou um sorriso antes de entrar em sua tenda, uma silenciosa despedida, Zeke normalmente só a veria durante as batalhas, ultimamente tinha muito trabalho estratégico o que o fazia precisar estar sempre a disposição de seus superiores para ouvir os próximos passos, nunca notou o tamanho afastamento que ser o chefe de guerra ocasionava até o momento.
           Seguindo Magath para uma área mais 'nobre', onde haviam tendas maiores que seu apartamento montadas para uma pessoa só, sua tenda era igual a de Pieck, mas parecia menor porque todas a sua volta eram gigantes e tinha um certo requinte, você não sabe que existe tenda de acampamento de luxo ate encontrar uma. Com tempo apenas de largas sua mochila em cima da cama dobrável antes de ir para a primeira reunião e se colocar a par dos acontecimentos que ocasionaram em tamanha desvantagem em relação ao inimigo.

           A primeira noite foi abafada, Zeke não sabia o que era pior, os insetos ou a sauna onde foi colocado para dormir, se sentia mais contentado ao saber que calor era um mal para todos, o general pingou durante toda a refeição, com uma barriga gordurosa que mal cabia na farda. Não encontrou Pieck no jantar porque foi convidado para comer com os superiores, eles não se serviam de ração e sopa, e sim carne, legumes e verduras frescas, havia até vinho, o que o deixava um pouco culpado, talvez pudesse encontrar quem vendia comida por fora, mas ao estágio que se encontrava o acampamento duvidava achar algo, contrabandistas tem um estoque ilimitado, mas as moedas dos soldados não duram para sempre.
           Refez o caminho até a tenda dela, já deveria estar dormindo, precisava ter em mente o pedido do senhor Finger, por mais que ela soubesse se defender, ele admitia que coloca-la no meio dos marleyanos não era uma boa ideia. Com o calor outras pessoas deixavam as tendas abertas para ventilar, já era tarde, mas ainda tinha movimento, com medo porque dormir significava acordarem prontos para lutar novamente, permanecer acordado era uma maneira de adiar esse momento. O loiro vagueou pelo caminho que fez mais cedo, vendo como aquilo havia se tornado uma pequena cidade, sem muito interesse olhou de esgueira para dentro de uma grande tenda onde um grupo se reunia, Zeke deu ainda dois passos antes de parar perdido com o que presenciou, tentando saber se o que viu era real ou apenas o calor, voltando para a entrada onde encontrou Pieck que estava no último lugar que imaginaria, na tenda dos marleyanos, sua boca aberta de espanto quase fez seu cigarro cair.
-Pieck, o que está fazendo?
           Quem estava lá dentro olhou para o loiro parado, tirando a atenção da partida.
-Jogando pôquer-ergue as cartas que segurava
           Havia presenciado muita coisa, algumas eram absurdas, outras terríveis, mas nada o espantou tanto quanto ver Pieck junto de meia-duzia de marleyanos jogando cartas e apostando grãos de feijão, pela quantidade de feijões reunidos a sua frente ela deveria estar ganhando.
-Dês de quando você sabe jogar pôquer?
-Faz pouco tempo
-A gente ensinou rapidinho e agora ela saber melhor que todos-um dos homens disse à Zeke-Aprende rápido
           Voltaram a prestar atenção na partida, Zeke pensou se deveria ou não se intrometer, entrando no ambiente com passos cautelosos, como se estivesse invadindo um campo minado, ninguém lhe deu muita importância até ele se inclinar ao lado de Pieck, que ele precisava admitir ter um bom jogo de cartas na mão.
-Pieck, precisamos acordar cedo
-Já vou, estamos quase terminando
-Pieck...
-Fica tranquilo, nos somos legais, só estamos entediados-disse um marleyano enquanto tomava um gole da sua cerveja aguada-Ela é o Quadrupede, então você deve ser o Bestial, certo?
-Sim-Zeke permaneceu ao lado de Pieck, analisando os outros a sua volta
-Tem cerveja, quer?
-Não...obrigado
           Misturar aquela cerveja pálida com o vinho caríssimo que bebeu no jantar parecia definitivamente um crime. Pediu mais algumas vezes para irem, mas a menina queria ao menos terminar a partida, poderia tê-la ordenado, era seu superior, ou a tirado da força como seu lado irmão mais velho queria.
           Acendeu um novo cigarro, prometendo a si mesmo que se ela não terminasse até o final iria ser autoritário, e ele odiava ser autoritário com ela, a partida terminou ao mesmo tempo que Zeke jogou a bituca para fora da tenda, com Pieck aumentando sua pilha de grãos de feijão, seu grito vitorioso por mais uma partida ganha foi capaz de contagiar os soldados que estavam tempo demais guerreando, os perdedores comemoravam com ela, Pieck tinha esse poder, esse encantamento, Zeke sabia bem disso, por isso passou os últimos minutos em pé ao seu lado a esperando terminar de jogar.
           A menina se despediu de cada um, mostrando lembrar seus nomes, os deixando lisonjeados, acenou enquanto Zeke mantinha a mão em seu ombro direcionando seu caminho, como se a deixar solta corresse o risco dela escapar.
-Venha jogar novamente conosco, Pieck-chan
           O loiro parou no meio da saída, virando o rosto lentamente para o homem marleyano, só ele poderia chama-la de Pieck-chan, uma veia saltou em sua testa, mas precisou direcionar um olhar educado enquanto rangia os dentes.
           Não achou estranho quando Zeke entrou com ela na tenda, nem deu importância, indo para sua cama e desamarrando o cadarço dos coturnos.
-Como isso aconteceu?
-Estava cheia de calor, e resolvi andar pelo acampamento, os vi ali jogando e então perguntei o que era, não conhecia pôquer-chutou um par para longe antes de começar a desfazer o nó do outro
-Nunca mais faça isso
           A menina parou no meio do laço, encarando Zeke espantada pelo tom de voz que ele nunca usou com ela.
-O que foi?
-Como assim "o que foi?"? Você não pode ficar entrando na tenda dos outros, ainda mais dos marleyanos, ou melhor, nem dos eldianos, nem de ninguém, não sabe o que pode acontecer? Se eles não fossem amigáveis?-tentava ao máximo não gritar
-Zeke, eu sou uma guerreira de Marley, a portadora do titã Quadrupede, se alguém tentar algo eu arranco as mãos deles fora-dizia como se aquilo fosse obvio
-Pieck, não sei qual seu nível de entendimento sobre certas coisas, mas você precisa entender que você é uma menina e eles são homens, tem que ser mais cuidadosa
-Só estávamos jogando, não precisar ser tão radical-descalça ela se levantou da cama e o encarou irritada
-Independentemente da situação, você é uma guerreira, e eles são marleyanos, eles sempre vão estar certos
-Se eles tentarem algo eu sei me defender
-Não é somente isso, você não sabe o que eles podem fazer. Você é uma menina, não pode ficar sozinha com homens
-Mas eu fico sozinha com você
-É diferente
-Por que?
-Porque sim
-Isso não é resposta-cruzou os braços
           Zeke respirou fundo, Pieck gostava de se ver como uma pessoa argumentativa, para ele era apenas uma palavra bonita para respondona.
-Pelo mesmo motivo pelo qual você nunca foi ao meu apartamento, não ficaria bem
-Zeke eu realmente não consigo entender a que ponto você quer chegar-revirou os olhos-Estava entediada, você tem muito trabalho e eu entendo, mas não pode querer que eu fique aqui fechada o dia todo
           Tinha um ponto valido, precisava admitir, Zeke olhou em volta da tenda, apenas uma cama dobravel, uma mesa pequena e uma cadeira onde estava sua mochila, em cima da mesa um livro fechado que ele sabia que já deveria ter sido lido aquela altura do dia, ela não trazia muitos por conta do peso extra, talvez tivesse mais um ou dois consigo, mas sua sede por leitura era maior.
-Deve ser bem solitário aqui, não é?
-Um pouco-pegou seus coturnos jogados ao lado da cama e os arrumou no canto-Costumava dividir a tenda com a Annie, ela não era muito de conversar, mas pelo menos tinha alguém
-Estamos no meio de uma batalha, não posso ficar te fazendo companhia, mas não fique tão próxima assim dos marleyanos. Se acontecer algo, como você vai conseguir explicar que simplesmente entrou na tenda deles e pediu para jogar pôquer?
-Ok, vou ficar aqui-tirou o elástico que prendia seus cabelos, os deixando cair pelos ombros-Embora não ache que precise se preocupar tanto, mesmo sendo só eu de criança. Além disso, ficarei a maior parte do tempo no formato de titã, admito que me sinto mais confortável assim, mesmo sendo uma criança até os marleyanos mais turrões ficam intimidados com isso
           Pelo visto ele ainda não havia entendido em qual ponto queria chegar, mesmo com a vida que tinha conseguia manter uma certa inocência e ingenuidade.
-Quando vai precisar se transformar?
-Acho que depois de amanhã
-Então amanhã prometo que vou jantar com você
-É se os oficiais te chamarem novamente?
-Posso comer duas vezes, e acho que tenho um livro comigo, um que você ainda não leu, se quiser te empresto para essa noite
           Aceitou a oferta rapidamente, Zeke sabia bem como agrada-la.

 


847

 


           Ter completado treze anos fez com que Magath acreditasse que era hora dela começar a participar das reuniões, participar é modo de falar, costumava ficar sentada ouvindo o que os outros tinham a dizer, sempre notando como ela e Zeke costumavam ficar nos assentos mais isolados, o que ela não reclamava, era bom ter uma visão ampla do restante das pessoas e não precisar realmente prestar atenção demais, no final fariam o que mandassem, era mais uma formalidade para ela, era eldiana e mulher, nunca perguntaram nada a ela ou a implementaram na conversa, já Zeke parecia ter uma voz mais ativa, quando ele se levantava todos prestavam atenção, ali dentro ele sempre adotava um tom de voz firme, mas extremamente educado e respeitoso que ela não gostava, aquele não era o Zeke que ela conhecia, era o Zeke que os oficiais queriam que ele fosse.
-Vai demorar muito?-sussurrou para o loiro logo que ele voltou a se sentar
-Sim, vai, e não fale aqui dentro
-Desculpe
           Reuniões eram momentos mais tensos e perigosos que lutar contra um inimigo bem armado, dependendo de quem fosse, a pessoa procuraria qualquer coisa para usar contra você apenas pelo prazer de prejudicar um eldiano, Zeke lhe deu uma lista de instruções detalhadas para seguir dentro daquela sala, a principal foi: "Nunca fale nada a não ser que falem com você".
           Pieck respirou fundo para conter o mal-estar que sentia, mesmo sendo outono ela sentia sua nuca suada, seu estomago doía demais, não lembrava como era estar doente porque teoricamente os poderes dos titãs a protegem contra vírus e enfermidades, por isso ao acordar aquela manhã com dor na barriga e enjoo ela ficou realmente perdida, se arrastando ao lado de Zeke por todo o caminho até o quartel.
-Levante a cabeça
           Quando a voz do colega chegou até ela, dita em tom baixo que mal conseguiu ouvir, percebeu estar tão curvada que sua testa quase batia na superfície da mesa. Ergueu a cabeça um pouco rápido demais, sentindo uma certa tontura, mas precisou aguentar por mais de uma hora até o termino da reunião. Levantando devagar para sair da sala, Zeke ia logo a frente com Magath, mas olhando para trás verificando a menina.
           O grupo passou pelo banheiro, vendo uma oportunidade, Pieck apontou para a porta com a placa de feminino, Zeke acenou com a cabeça, mas podia ver em seus olhos um aviso para não demorar.
           Foi direto a banheiro molhar o rosto para se refrescar, a água gelada a fez se sentir mais consciente, parecia estar prestes a desmaiar, precisava respirar um pouco, então sentiu algo estranho por baixo das roupas. Se fechou em uma cabine do banheiro, ergueu a longa saia azul-marinho e abaixou a calcinha, notando algo estranho na peça, uma mancha escura que de início lhe deixou assustada, até perceber a causa de seu mal-estar.
-Merda, logo agora?
           Pegou um bolo de papel higiênico e torceu para segurar até voltar para casa, o espanto talvez a tenha até feito se sentir melhor, pelo menos agora sabia o que era, não estava morrendo, mesmo que parecesse.
           Encontrou Zeke e Magath na oficina vendo o novo tanque que estaria em ação na próxima batalha, mesmo com um clima quase pacifico os marleyanos pareciam ansiar por ação, só para usarem o novo brinquedinho.
-Melhorou?-o loiro perguntou assim que ela parou do seu lado-Você estava muito palida
-Sim, só quero ir para casa
-Daqui a pouco, a artilharia criou uma metralhadora para implementar na sua armadura
-A outra já não era mortífera o suficiente
-Nenhuma arma tem poder suficiente para satisfaze-los-disse agora mais próximo do ouvido dela, para impedir que Magath ouvisse


-Onde vai?
           Estavam já na zona de internamento, Pieck andava tão tensa por ocorrer algum acidente no meio do caminho que ficou quieta, como se falar pudesse ocasionar em algo inesperado.
-Preciso ir comprar uma coisa
-Vou com você
-Não precisa!-talvez tenha elevado um pouco demais a voz-Não quero te tirar no seu caminho, é melhor ir para casa e descansar
-Está tudo bem? Parecia estar meio abatida, não acha melhor te acompanhar?
-Não precisa-repetiu enquanto ia se afastando gradualmente-Depois nos falamos
           Acelerou o passo ouvindo Zeke se despedir enquanto ela se misturava entre o fluxo de pessoas pelas ruas, deu um aceno sem se virar para olha-lo.
           O sino da porta da farmácia tocou quando ela entrou, sorrindo educadamente ao funcionário que lhe deu um cumprimento fervoroso ao receber a guerreira com sua braçadeira vermelha inconfundível. Pieck andou pelos corredores meio perdida em saber qual setor tinha o que procurava, por sorte haviam alguns livros de anatomia que lhe dava ideia do que estava acontecendo e o que precisaria para resolver esse problema, por mais que fosse adorar uma ajuda feminina, era em momentos como esse que a falta de sua mãe se tornava mais exaltante que nunca.
           Um corredor cheio de opções, na prateleira ao canto, isolado o suficiente para não deixar os homens incomodados com assuntos femininos. A menina espiou por cima da prateleira, só haviam dois funcionários, o senhor que a recebeu e um jovem que varria o piso atrás do balcão.
           O som do sino na porta tocou novamente, mas Pieck não teve tempo para ver quem havia entrado, estava tentando decidir qual levar, para que tantas opções se a função era a mesma? Se agachou para ver os que tinha na parte mais baixa da prateleira, o que só a deixou mais em dúvida, normalmente era tão boa em tomar decisões, mas normalmente sobre assuntos que já tinha certa familiaridade. Será que levava o mais caro? Como assim fluxo? O que era fluxo, como se media isso? Tinha um de enfiar, parecia mais seguro contra vazamentos, mas se perguntou se incomodava.
-Pieck?
           Deixou os pacotes caírem no chão, sentia ter sido pega um ato criminoso, a senhora Yeager tinha um sorriso sereno enquanto observava a menina corar.
-Precisa de ajuda?
           Olhou para a prateleira, para os pacotes que deixou cair e então para a mulher que pacientemente aguardava uma resposta, Pieck afirmou com a cabeça, sua expressão era quase um pedido de socorro.
-Primeira vez?-a senhora perguntou ao saírem juntas da farmacia
-Sim-abraçava o papel pardo da compra
-Parabéns, e boa sorte, esse é um incomodo que não preciso mais me preocupar
-Obrigada, eu acho
-Vai para o quartel?
           Começaram a andar lado a lado, não sabia se iam para a mesma direção ou uma só estava acompanhando a outra.
-Não, acabei de voltar de lá, os guerreiros tem o resto do dia de folga
-Todos?
           Todos seriam só ela e Zeke.
-Sim
-Ah, bom-a senhora olhou meio perdida em volta-Acabei de encontrar Zeke, o convidei para ir lá em casa, mas ele me disse estar indo para o quartel
           Não soube o que falar, aparentemente ela havia estragado a mentira do colega, mas não se sentia mal por isso, se sentia mal pela expressão de vergonha e decepção da avó do homem. Tentar conforta-la, dizer que talvez Zeke fosse voltar ou que ele tinha outros tipos de deveres que ela seria um grande desmerecimento pela inteligência da senhora Yeager, gostava dela demais para fazer isso.
-Talvez seja a idade, Zeke já é um homem, deve ter coisas melhores para fazer que me acompanhar
-Tivemos uma reunião muito cansativa hoje, ele deve ter ido descansar, eu mesma fiquei exausta e a única coisa que fiz foi ficar sentada
-Já tem quase um ano que Zeke não me visita-suspirou-Desculpe parecer tão deprimente, é que dês de que meu marido precisou ser internado estou um tanto esmorecida
-Entendo
-Agora vai querida, deve estar cansada e com dores, durma um pouco e água quente vai se tornar sua melhor amiga
-Sim senhora
           Pieck fez o caminho até em casa, voltando a sentir as dores horríveis no abdômen, na sacola também havia um remédio que a senhora Yeager recomendou para aliviar o incomodo. Por mais que sua mãe fosse insubstituível era bom saber que haviam pessoas, mulheres, que poderiam lhe ajudar nessas ocasiões, tinha certeza de que se pedisse ajuda ao pai o homem ficaria ainda mais perdido que ela.
           Passou o resto do dia deitada em sua cama, lendo um livro e comendo jujuba, as cobertas quentes eram o lugar mais aconchegante do mundo. Se existisse um Titã Contorcionista Pieck seria escolhida, mudando de posição sempre que a cólica voltava, se familiarizando com outra etapa do amadurecimento que começaram a surgir nos últimos meses, quando ela precisou trocar seu guarda-roupa por peças mais largas, saiam longas que escondiam as mudanças no corpo, os quadris iam ficando mais largos, a cintura mais fina e comprar o primeiro sutiã foi uma aventura mais prazerosa que a de hoje, o início da juventude.


           Zeke ficaria furioso e ela sabia disso, mas ele não precisaria saber, dando no ato de bater na porta de madeira como a decisão sem volta, pareceu uma eternidade até ser atendida, olhando em volta para verificar se não havia nenhum loiro de óculos por perto.
-Pieck?-a senhora Yeager abriu a porta, surpresa pela visita
-Olá senhora Yeager, espero não estar incomodando
-De modo algum, aconteceu alguma coisa?
-Nada, só estava passando por aqui e decidi ver como está a senhora
           Ficou um tempo para a olhando até convida-la para entrar. Pieck já não ia lá fazia algum tempo, a primeira vez foi quando havia acabado de conhecer Zeke, a avó dele os sequestrou e encheu a menina de bolo e chocolate, doida para conhecer quem era a menina que as vizinhas contavam ver Zeke andando de um lado para o outro, mas a maneira como Zeke ficou mostrava que ele não estava contente, pensou que fosse da idade, agora não era mais criança, tinha vinte e dois anos, o que ele tinha não era rebeldia adolescente, mas repulsa pela presença de qualquer familiar.
           Foi servida de chá e biscoitos, a casa era a mesma de antes, a única diferença era ter mais quadros pendurados na parede, os novos quadros eram de Zeke, dele com sua farda usada para grandes eventos e uma foto onde estava ela e os outros guerreiros logo que a nova geração foi formada, também um artigo de jornal foi emoldurado, Pieck se lembrava daquela matéria, foi a primeira vez que um eldiano saiu em destaque no jornal de Marley, uma pagina inteira só exaltando Zeke e seus serviços prestados pela nação.
-Como a senhora está?
-Bem, vou indo-pelo visto não costumavam perguntar isso a ela com frequência, então foi difícil encontrar uma resposta-Estou aprendendo bordado, nunca tive muita paciência para essas coisas, mas tenho muito tempo livre
-A senhora tem visto o Zeke?
-Não tanto quanto você-pegou uma xícara de chá fumegante-Ele é muito ocupado, mas costumo ir ao apartamento dele uma vez por semana para arrumar e pegar a roupa suja
-A senhora é quem faz isso?-mordeu um biscoito de aveia, estava delicioso
-Não se pode deixar esse tipo de trabalho domestico para os homens
           Discordava dessa opinião, mas iria poupar o comentário. Zeke não era grandinho suficiente para lavar as próprias roupas, ou a mão dele iria cair? Se caísse nasceria outra, então não tinha desculpa.
-E o senhor Yeager?
-O tratamento está lhe fazendo bem, ele já percebeu a situação, o que é bom, de início não conseguia entender porque estar internado. Eu o vejo uma vez por semana
-Zeke a acompanha?
           Estava fazendo perguntar demais sobre o neto, mas a mulher estava tão animada em ter companhia que nem notou, afinal era o único assunto que tinham em comum.
-Ele não gosta de ir, diz ser deprimente
           Apertou com força a alça da xícara, então Zeke ignorava os avós, mas fazia a mulher de faxineira? Toda a culpa que sentiu ao estar se intrometendo na vida familiar dele foi embora.
           Pacientemente ouviu tudo o que a senhora Yeager queria falar, mas não tinha a quem, de acordo com ela as conhecidas preferiam perguntar do neto famoso ao invés dela mesma.
-Não que eu não goste, mas às vezes é bom mudar de assunto
           Disse sobre como alguns produtos ficavam caros essa época do ano, comentou sobre um artigo de uma revista que Pieck não conhecia, elogiou o centro de repouso onde o marido estava e que sua estrutura direcionada a um marleyano honorário era totalmente superior ao hospital que ficava na zona, lhe deu de presente um lenço que bordou recentemente, mostrou como havia transformado o quarto de Zeke em um ateliê após notar que o rapaz não iria voltar.
-Muito bem equipado
           Fingia olhar para a máquina de costura, e não para uma cesta cheia de brinquedos onde no topo havia um macaco de pelúcia.
-Se quiser, posso te ensinar a costurar, é bem útil
-Não acho que tenho muito talento para essas coisas, mas adoraria saber alguns truques-respondeu com um sorriso educado enquanto saiam do quarto
           A menina olhou de relance para uma foto pendurada na parede, sua curiosidade a fez parar para ver melhor, era uma foto bem antiga, a senhora Yeager não tinha os cabelos brancos e seu sorriso era verdadeiro, o marido também tinha mais cabelo que hoje em dia, e haviam duas crianças, ao lado uma fotografia dos menores lhe dava mais visão de como eles eram. Um menino que ela deduziu ser o pai de Zeke, bem-arrumado e mantendo uma expressão seria que na verdade era para segurar o riso, junto uma menina realmente encantadora, cujo brilho no olhar conseguia ser transmitido pela imagem em preto e branco.
-Meus filhos, Grisha e Faye
-Zeke nunca me contou ter uma tia
-Zeke não a conheceu, ela morreu ainda criança
-Sinto muito
           Desviou o olhar da foto, como se fosse grosseiro encarar a imagem.
-Pieck, querida, não precisar fazer isso. Agradeço imensamente a visita, mas estou velha e você deve ter coisa melhor para fazer que me ouviu falar sobre os tipos de pontos para dar no tecido
-Gosto da companhia da senhora, não vim antes porque o Zeke não gostava
-Antes ou agora, ele não vai gostar
-Ele não precisa saber. Acredito que precisamos parar de evitar fazer as coisas só porque o Zeke não gosta
           Seu sorriso a contagiou, dando uma leve risada pela expressão de camaradagem de Pieck, não lembrava quando foi a última vez que riu.

           Uma sacola cheia de biscoito de aveia, era o que Pieck comia enquanto voltava para casa, já estava de noite, ficou realmente muito tempo conversando, prometeram se encontrar na próxima semana logo que Pieck saísse do quartel, a senhora Yeager prometeu lhe ensinar a fazer pudim de pão, o que ela adoraria, porque não existe nada mais delicioso que doces caseiros, ainda mais agora que a menina notou que na duração de seu período ficava viciada em doces, qualquer coisa açucarada.
-Pieck-chan-sussurram em seu ouvido
           Todos os pelos do seu corpo se arrepiaram, conhecia tão bem aquela voz, principalmente quando ele entonava aquela maneira mais suave ao dizer seu nome.
           Escondendo o saco de biscoitos atrás das costas se virou para encarar o loiro que parecia muito mais jovem sem toda a pompa que reservava para quando não estavam sozinhos.
-O que tem ai?
-Nada
-Pieck-chan, você tem andando muito misteriosa ultimamente
           Se inclinou sobre ela, haviam migalhas grudadas em seu rosto, ele precisou se controlar para não limpar.
-Coisas de menina
-Isso incluiu biscoitos? Se não quiser me dar é só falar
           Sorriu sem graça, será que Zeke iria reconhecer algo preparado pela própria avó?
-Onde vai?-na dúvida mude de assunto
-Cinema
-Sozinho-ele confirmou com a cabeça-Independência ou solidão?
-Independência de não me importar em estar sozinho
-Qual filme vai ver
-Aquele que estreou, sobre o piloto
-Dizem ser um bom filme, ok, eu vou com você
-Não te convidei-cruzou os braços e a olhou abismado-E você sempre dorme no filme
-Foi só uma vez, e o filme estava muito chato
-Na verdade foram duas, não lembra que a primeira vez que foi ao cinema fui eu quem te levei, tinha uns dez anos, estava tão animada, mas dormiu o tempo todo
-Se não quiser me levar é só falar-se fingiu ofendida, pelo visto conseguiu reverter a situação
           Foi condenado no dia em que Pieck percebeu que se pedisse com jeito, ele fazia o que ela queria, pelo visto a havia mimado demais, criou um monstro.
-Anda, a sessão já vai começar-afagou sua cabeça

           O cinema que ficava na zona de internamento era uma das poucas opções de lazer que se tinha lá dentro, poucas salas sem muita capacidade porque a maioria dos eldianos não podiam se dar a esse luxo com frequência.
           Pieck procurava um bom lugar para se sentarem enquanto Zeke subia os degraus ao lado das fileiras, segurando dois sacos de pipoca e refrigerante que compraram para acompanhar a sessão.
-De acordo com meus cálculos esses são os melhores lugares
-Espero que esteja certa como sempre
           Se sentaram enquanto distribuíam as guloseimas, Pieck deu um grande gole em seu refrigerante.
-Se você dormir nem adianta vir depois me perguntar sobre o filme
-Não vou dormir-revirou os olhos
           A olhou desconfiado antes de pegar um punhado de pipoca.
           Levou cerca de dez minutos desde os créditos iniciais até ele sentir a cabeça de Pieck encostar em seu braço, a pouca iluminação não o impediu de observar seu rosto sereno em um sono leve, sua respiração compassada enquanto um leve resquício de consciência a fazia segurar sem firmeza o copo de refrigerante, toda vez que estava prestes a derramar ela colocava o copo reto. Zeke esticou o braço para pegar o copo, bebendo todo seu conteúdo em um só gole enquanto prestava atenção nos letreiros que surgiam entre um quadro e outro para poderem acompanhar o enredo.

           Pieck era sacudida levemente enquanto ouvia alguém chamar seu nome, abriu lentamente os olhos vendo as luzes da sala já acesas e pessoas se dirigindo para a saída.
-Gostou do filme?-perguntou Zeke em um tom zombeteiro
-Com esse silencio qualquer um dormiria-cochou os olhos para espantar o sono-Soube que os filmes que passam em Libério já tem som
-Infelizmente nosso cinema ainda é um tanto antiquado
           Acompanhou o loiro até a saída, se arrastando enquanto dava falta de alguma coisa.
-Onde está minha comida?
-O refrigerante ia ficar quente e a pipoca fria
           Ficou bem desperta para poder exaltar sua revolta, obrigando Zeke a prometer que na próxima ele iria lhe pagar pela pipoca.
-Para você dormir novamente?
           O homem verificou em seu relógio, já era um pouco tarde, não se costuma ter uma vida noturna dentro daquelas muralhas, pelo menos não nos estabelecimentos familiares, o que tornava as ruas desertas.
-Como acha que eles estão?-olhava para o céu estrelado, imaginando se algum dos outros colegas também o observava da ilha
-Espero que bem, infelizmente não poderíamos lhes enviar equipamentos de comunicação, arriscado demais
-Dês do início sabíamos que seria uma missão longa, mas parece já ter durado muito tempo, sempre me pergunto se esta indo tudo conforme o planejado
-Marcel está com eles, e ele sabe o que fazer caso dê algo fora do previsto, até o momento não tivemos nenhum sinal de que houve problemas
-Mas e se o tempo for passando e continuarmos sem retorno?
-Então provavelmente nos dois seremos enviados para a ilha também, mas só em último caso, Marley não quer mandar todos os guerreiros, eles...
-...precisam da gente aqui-já ouviu Zeke falar isso varias vezes
-Exatamente, mas saiba que de uma hora para outra podemos precisar ir para a ilha
-Retomar o Fundador?
-Resgatar os guerreiros, ou o que tiver sobrado deles, não acredito que os demônios de Paradis tenham força para combater quatro titãs originais, mas não sabemos o que encontrar
-Que é o que tem feito Marley ser tão precavido em relação a essa missão. Não sabemos o que tem lá dentro, e se quatro titãs foram e não voltaram, eles não podem se arriscar em perder mais dois
-Certa como sempre, Pieck-chan
-Não sei os critérios usados para mandarem os quatro, mas acho...
           Interrompeu a frase quando Zeke segurou seu ombro, a impedindo de continuar pelo caminho que seguiam até a casa dela.
           Nada causa mais temor dentro da zona de internamento que um grupo de guardas marleyanos, foi o que a dupla encontrou, dezenas deles, formetemente armados entrando com violência em um prédio, ouviram gritos vindo enquanto pelas janelas iluminadas do edifício vultos passavam rapidamente.
-Vamos para o outro lado, não podemos ser vistos aqui
-Mas nos somos guerreiros
-Justamente por isso, se nos verem perto de uma apreensão vão nos interrogar
-Só estamos de passagem pela rua
-Eles não vão pensar da mesma maneira
           Um guarda abriu a janela do prédio, gritando em plenos pulmões para os colegas que estavam na rua.
-Um deles fugiu pelos fundos!
           Disse palavrões que Pieck nunca havia ouvido, segurou sua mão com força, a puxando para o lado oposto, passando por ruas onde nunca esteve, estreitas e suspeitas, atrás dos prédios opostos a rua.
-Se aquele filho da puta estiver vindo para cá eu mesmo o mato, era só o que me faltava, um procurado dar de encontro com nos dois
           Queria correr, mas Pieck tinha pernas curtas, ela fazia ao máximo para acompanha-lo, de qualquer maneira não soltou sua mão. De repente encontraram um desnível, isso deu a Zeke uma ideia onde estava, poderiam ir para a rua lateral onde uma grande escadaria seria mais prática, porem perderiam tempo e talvez fosse por ali que os guardas seguiam a procura do fugitivo. Era a diferença de um metro ou mais, Zeke pulou com facilidade, esperando Pieck lhe seguir, mas a menina olhou bem a altura, se ela se ferisse logo iria curar, mas as pessoas não parecem pensar que mesmo tendo regeneração ainda era capaz de sentir dor, e se pulasse errado iria se machucar, deu impulso para pular, mas desistiu no último instante, se equilibrando na beirada do concreto.
-Vem
           O loiro estendeu os dois longos braços para ela, Pieck olhou para trás, uma onda de gritos e tiros, pelo visto o fugitivo teve a mesma ideia que eles. Sem pensar muito ela pulou, Zeke iria lhe segurar, tinha certeza disso, e ele o fez, enlaçando seu corpo ainda no ar.
           Era para ele lhe soltar assim que ela o usasse como auxílio para descer, mas ele não o fez, Pieck apoiava as mãos em seus ombros, tão desconcertada que não teve como pedir para descer, o luar refletia nas lentes dos óculos dele, então não sabia que tipo de olhar ele lhe direcionava.
           Tudo bem, nem Zeke sabia o que estava fazendo, só queria a manter firme nos braços, olhando bem para seu rosto que estava perfeitamente emoldurado pela lua cheia, seu quadril lhe pressionando o tronco, as pernas dela suspensas no ar, inconscientemente a apertou mais forte, sentindo algumas curvas que não lembrava de estarem ali antes.
-Merda-disse em voz alta
           O que estava pensando? Não era o momento, e se fosse ainda seria totalmente inapropriado. A colocou no chão, continuando o caminho, dessa vez não segurou sua mão, mas andou em um ritmo que ela conseguia acompanhar, outro som de tiro, dessa vez mais próximo e vindo logo atrás de onde estavam, aceleraram o passo.
           Saíram em uma rua que ficava próximo à moradia da menina, mas no caminho oposto de onde era o cinema, deveriam ter dado uma volta enorme, se perguntou como Zeke conhecia tão bem as ruas escondidas.
-Acho que não preciso nem pedir
           Andavam mais calmamente até a entrada do prédio dela, as luzes de seu apartamento ainda estavam acesas, seu pai deveria estar lhe esperando, afinal, apenas disse ir visitar alguém e acabou ficando o dia todo fora.
-Ninguem jamais ira saber
-Muito bom, boa menina

           Subia os vários lances de escada até seu apartamento no quarto andar, quando se mudou não acreditou que fosse ser um problema para ele, infelizmente foi ver o apartamento em um dia fresco onde estava realmente disposto e exalando juventude, hoje seria muito trabalhoso se mudar, então tomou o habito de ao sair fazer tudo o que precisava fazer de uma vez só, para só precisar enfrentar as escadas uma vez ao dia.
           Assim que fechou a porta começou a tirar a roupa, precisava de um banho gelado urgente, talvez isso lavasse a culpa. Ainda sentia o formato de seu corpo contra sua pele, e foi a única coisa que conseguia pensar. Como poderia detestar os olhares maldosos que os homens começaram a direcionar a menina se ele fez o mesmo?
-Seu merda, ela só tem treze anos-xingou a si mesmo enquanto ligava o chuveiro
           Não foi a primeira vez que a pegou no colo, foram raras vezes, mas ele não pensava de outra forma. Ah, sim, ela não era mais a menina que ele carregava nas costas quando não conseguia andar, treze anos era uma idade nutante, enquanto alguns ainda eram crianças outros já se consideravam adolescentes, ainda a via como criança, agia como uma, sempre como uma irmã mais nova, isso não poderia mudar, para o bem de ambos, mas principalmente dela, foi uma situação isolada, talvez devido ao tempo que não ia se encontrar com ninguém, e acabou por sentir algo improprio para a pessoa mais ingenua que conhecia, ele era um lixo.
           Bateu a cabeça no azulejo do banheiro enquanto a água gelada corria pelo corpo, respirou fundo e disse:
-Esqueça isso, você tem coisas mais importantes no momento, precisamos continuar com o plano
           Usou o som da água corrente como precaução, sempre ciente que em algum momento pudessem ter colocado escutas em seu apartamento, mas em baixo do chuveiro poderia dar vida aos pensamentos que dominavam sua mente.
-Você foi escolhido para terminar com esse inferno vivido pelos eldianos, só espere

Chapter Text

848

 


           Tentava entender como ele terminou sentado durante horas em um carro a caminho de um destino bem distante de Libério, não estavam indo para o campo de batalha, não era nada que parecia precisar se preocupar, mas Zeke estava tenso e incomodado. Quando Magath contou que havia milionários estrangeiros com muito dinheiro e pouco entretenimento querendo investir na artilharia de Marley, mais especificamente no programa de titãs o loiro não deu importância, não era seu trabalho se preocupar com o volume dentro dos cofres, ele só tinha que destruir o que mandavam, matar inimigos e o que fosse feito depois não era mais de seu interesse, porém sabia que quando o comandante chamou a dupla de guerreiros para conversar alguns dias antes eles precisariam fazer mais que o inicialmente era proposto.
-O senhor Gutierrez, um generoso investidor, deseja conhecer os guerreiros de Marley, e nos convidou para um final de semana em sua propriedade
           Dessa maneira, Zeke arrumou suas coisas e entrou naquele carro com Pieck a seu lado, ela parecia mais tranquila, lendo distraidamente um livro com tanta concentração que não deveria ver o tempo passar, ele então aproveitou para dar uma olhada nela, a jovem vinha perdendo as feições infantis e seu rosto se tornava mais feminino e maduro, com maçãs do rosto levemente salientes, lábios carnudos e olhos cobertos por cílios longos e grossos, seu longo cabelo negro estava preso por um elástico que cada vez que ele olhava ia escorregando pelos fios negros e lisos.
-Me encarando novamente Zeke?
           Sua voz saiu serenamente sem desviar a atenção do livro, o loiro desviou o olhar constrangido.
-As únicas opções que tenho são as árvores da estrada, a nuca do motorista ou você, de todas você parece a mais interessante
-Fico honrada que em meio a tanta concorrência eu tenha sido a felizarda
           Lhe direcionou um olhar de esgueira, puxando os cantos dos lábios levemente para cima em um sorriso discreto. Decidiu ser mais seguro olhar pela janela, ultimamente ele vinha se pegando encarando-a, de uma forma que o deixava incomodado, um breve momento de deleite ao admirá-la se seguia por vergonha e culpa em não conseguir vê-la mais como a menina de antes.
           Quando Magath disse “propriedade” pensaram ser uma casa grande ou mesmo mansão, e não um castelo jacobina cercado por centenas de acres particulares, com criados a postos na fachada para a comitiva de Marley que chegou, Magath estava no carro da frente e logo no de trás Pieck e Zeke saltaram, cada um com sua mochila, olhando em volta e pensando em como um lugar tão bonito e próximo a fronteira nunca havia sofrido com as inúmeras guerras em que Marley acabava se metendo. Ao se aproximarem Magath já conversava com um mordomo, que por um instante olhou por cima do ombro do convidado e encarou a dupla com espanto, como se fossem fantasmas, ou eldianos, o que dependendo da pessoa era ainda pior, parando um tempo a mais em Pieck antes de voltar a falar com o oficial.
           Magath concordou com o que quer que o homem estivesse falando, ao mesmo tempo duas empregadas se aproximaram dos guerreiros e pegaram suas mochilas, o superior se aproximou, arrumando uma insígnia presa na farda.
-Vamos indo-com um simples gesto de mãos os soldados que faziam parte da visita manobraram o caminhão que carregava a armadura de Pieck para os fundos da propriedade
-Pensei que iríamos conhecer nosso anfitrião primeiro-Zeke comentou enquanto seguiam o mesmo caminho
-O senhor Gutierrez deseja conhecer os titãs
           Zeke e Pieck se entreolharam, os titãs eram eles, mas não iriam questionar, andando pela grama verde-esmeralda por muitos minutos até uma clareira que curiosamente tinha vários alvos de metal formados por carcaças de tanques de guerra. Assim que chegaram, cumprindo as ordens de Magath, a menina correu até onde o caminhão havia estacionado, sumindo atrás do veículo e depois surgindo um raio de transformação.
-Você ainda não Zeke-disse o homem-Eles estão vindo
           Se referia a um grupo de cinco homens bem vestidos, seguidos por criados segurando sombrinhas para lhes protegerem do sol, exalando riqueza com jóias brilhantes e ternos de três peças.
-Senhor Gutierrez-Magath deu seu melhor sorriso quando eles se aproximaram-Estamos honrados pelo seu convite
-Eu é quem agradeço a visita
           O anfitrião era o mais jovem do grupo, porém deveria ter a idade de Magath aproximadamente, um fino bigode lápis bem penteado e um ar maroto, algumas rugas ao redor dos olhos denunciavam levemente sua idade. Gutierrez deu um forte aperto de mão em Magath, depois direcionando a mão para Zeke, mas a parando no meio do caminho quando seus olhos foram puxados para a braçadeira vermelha que o loiro carregava.
           Zeke nunca estendia a mão ao cumprimentar alguém, sabia que algumas pessoas evitavam ao máximo contato com eldianos, aprendeu isso depois de várias situações onde ficou com o braço estendido no ar.
           Enquanto Magath era apresentado aos outros estrangeiros, Zeke percebeu a aproximação de soldados marleyanos que guiavam um jovem adolescente, cujas mãos e pés estavam acorrentados, uma mordaça o impedia de gritar. Um prisioneiro cuja função era óbvia para Zeke, mesmo que ninguém tenha lhe dito nada de antemão, o menino deveria ter a idade de Pieck, muito novo para fazer intencionalmente algo que merecesse tal castigo, ou era apenas igual Zeke, nasceu com os pais errados.
-Podemos começar?-Gutierrez perguntou a Magath, evitando olhar para Zeke
           O loiro estalou as articulações do pescoço, nem mesmo o poder de regeneração poderia estar lutando contra a tensão que sentia depois de tanto tempo sentado na mesma posição. O menino estava parado no meio da clareira, chorando e desesperado, sua mordaça estava úmida por saliva e fluido espinhal que deveria ter sido empurrado goela abaixo, antigamente Zeke se sentia culpado em ser responsável pela transformação de eldianos em titãs, hoje ele não sentia absolutamente nada. Um grito gutural foi o suficiente para o menino ser envolto por uma luz dourada, se tornando um humanoide com pequenos resquícios do humano que foi um dia, agora uma caricatura deformada que ao longe poderia ser reconhecido como quem era antes, mas ninguém realmente prestou atenção nele suficiente para memorizar seu rosto, ficando na memória apenas a imagem gigante de destorcida que arrancou suspiros de admiração e surpresa da plateia.
-Pare!
           O comando de Zeke impediu que o titã, que se aproximava em passos irregulares até onde estavam as pessoas, seguisse seus instintos e os devorasse.
-A habilidade de Zeke em controlar titãs é uma arma muito útil, semelhante a coordenada, porém menos abrangente, ele só pode controlar os que foram transformados com seu próprio fluido espinhal-explicou Magath, mas não acreditava que estivessem prestando atenção nele
-Nunca tive a oportunidade de ver um titã pessoalmente-Gutierrez foi se aproximando, ignorando o aviso de Magath para manter distancia-O que mais você consegue mandá-lo fazer?
-Qualquer coisa
           Zeke se arrependeu de suas palavras depois que o homem mandou ele tratar o titã como um cachorro adestrado, correndo de um lado para o outro, dando pulos que tremeram o chão, o titã não foi muito bem sucedido em uma cambalhota, mas arrancou risadas do público. Se sentia como uma atração de circo, olhando para Magath de esgueira esperando uma ordem para se transformar, enquanto isso precisaria continuar ali sendo ignorado a não ser quando pedissem por mais um pouco de entretenimento com o titã.
-Não tem outro titã?
-Sim, ela está vindo
           Pieck surgiu com sua armadura, carregando dois atiradores de elite de Marley nas costas, somente os melhores tinham a honra de lutar com o titã Quadrúpede.
-Não é muito impressionante-Gutierrez cruzou os braços decepcionado
-Cada titã tem sua função-respondeu rapidamente, mantendo o tom educado
           Mesmo sendo marleyano, Magath não permitia que desprezassem os titãs e seus guerreiros, sabia que em muitos momentos Pieck era mais útil que Zeke, mas aquelas pessoas estavam ali para serem impressionados. Notou que pelas várias janelas do castelo, muitos rostos se espremiam para dar uma olhada.
           Por mais que esperassem um titã gigante, a forma como a artilharia conseguiu perfurar tranquilamente a blindagem de tanques de guerra deixou-os de queixo caído, a mobilidade somada ao poder balístico era surpreendente.
-Zeke, sua vez
           Quase deu um suspiro de alívio enquanto se afastava para poder se transformar, o Bestial sempre foi líder da nova geração de guerreiros, e vê-lo pessoalmente era incrível, principalmente por não precisar temer por sua vida. Estar a mais de quinze metros de altura era confortável, ver aquelas pessoas esnobes pequenas aos seus pés o fazia se sentir poderoso, e o desejo de pisar neles só aumentou. Não sabia bem como mostrar suas habilidades sem causar muito estrago, enquanto pensava em como fazê-lo, Zeke viu um flash surgir de seus pés, Gutierrez estava posando para uma fotografia, mandando o fotógrafo enquadrar os três titãs ao fundo, Zeke bufou, o que para quem viu achou ser apenas um grunhido do Bestial, mas Pieck percebeu que ele estava irritado, a menina então procurou atrair as atenções para si, ultimamente Zeke estava um pouco estranho, assim a menina fez questão de mostrar porque o Quadrúpede não perdia em nada para os outros titãs maiores e mais imponentes.

           O titã puro evaporava em fumaça, surgindo um esqueleto que depois também iria sumir, Pieck saiu de seu titã depois de tirarem a pesada armadura, Zeke ainda tinha algumas marcas no rosto, e esperava pela menina ao lado do caminhão onde guardariam sua armadura. Pieck arrumou sua saia que sempre ficava um pouco amarrotada depois de uma transformação, como esperado Zeke já tinha um cigarro na boca.
-O que fazemos agora?-perguntou para ele
-Você ainda não se apresentou
           A dupla andou sem pressa até onde Magath estava com os outros cinco homens, conversando em alto tom de voz, querendo saber mais agora sobre as habilidades dos outros guerreiros, querendo detalhes do poder de destruição da transformação do Colossal e a força de uma mordida do Mandíbula.
           Gutierrez ao sentir a presença deles olhou brevemente por cima do ombro sem interesse, mas seus olhos castanhos se arregalaram e um sorriso muito animado marcou seu rosto beirando o assustador, se virou rapidamente para Pieck, que soprava alguns fios de cabelo que caiam em seus olhos.
-Olá, Você! Não me diga que é a guerreira do Quadrúpede
-Pieck Finger, senhor
-Fernando Gutierrez-estendeu a mão, a menina olhou para os dedos cheios de anéis, nunca haviam lhe oferecido um aperto de mão, mas ela o aceitou, as mãos dele estavam suadas e isso a incomodou-Quem diria que havia uma jovem tão bonita e encantadora dentro daquele titã
-O-obrigada
           Abaixou a cabeça constrangida, não era o tipo de elogio que costumava receber, e estarem na presença de outras pessoas a deixou sem graça.
-Estávamos indo comer alguma coisa, deve estar com fome depois de uma viagem tão longa até aqui
           O homem de pele dourada colocou sua mão no ombro da menina e a guiou pelo jardim, deixando os outros ali parados e confusos, os outros estrangeiros tinham um olhar incomodado e constrangido, já Magath e Zeke se entreolharam sem entender nada.
           Enfim todos seguiram o líder, onde longe da clareira, em um jardim externo repleto de flores e abelhas, uma tenda branca e aberta estava armada, ao redor empregados aguardavam a chegada dos convidados, puxando cadeiras para eles sentarem, Gutierrez fez questão de ter Pieck ao seu lado, a menina ficou impressionada com a mesa bem posta, com sanduíches cortados em triângulos, doces e aperitivos mais que suficiente para alimentar a todos. Zeke ficou em pé ao lado da mesa junto com Magath, não havia mais cadeiras disponíveis, mostrando que não era a ideia inicial chamar os guerreiros.
-Comandante Magath, sente aqui-Pieck ia se levantando para dar lugar ao superior
-Não se preocupe, os empregados vão trazer cadeiras para eles-segurou seu ombro e a empurrou de volta para a cadeira com força-Então Pieck, quantos anos você tem?
-Catorze-respondeu olhando para Magath que ainda estava em pé
-Que idade boa, cheia de juventude-apoiou o cotovelo direito na mesa e pousou o queixo na mão-Gostou da minha humilde residência?
-Sim, é muito bonita
           Chegando as cadeiras, os outros ocupantes precisaram se afastar para dar lugar ao redor da mesa de metal branco, Zeke notou como aquele que estava ao seu lado se afastou ainda mais que o necessário. Conversavam com os rostos virados contra Gutierrez, não querendo ver o que se desenrolava entre ele e a menina eldiana.
           O guerreiro não comia nada, estava sem fome, mesmo a bebida gelada desceu com dificuldade enquanto ele aguçava os ouvidos para pegar trechos da conversa do outro lado da mesa
-O que você gosta de fazer no seu tempo livre?-pegou um macaron amarelo no suporte prateado de três andares e entregou para a menina
-Ler-aceitou o doce, dando uma leve mordida, era tão gostoso, se a situação fosse mais confortável poderia apreciar mais
-Vai adorar minha biblioteca, temos centenas de milhares de livros em todos os idiomas que pode imaginar. Vou te mostrar mais tarde
-Preciso pedir permissão ao comandante Magath
           Seus olhos escuros estavam fixos no tilintar do gelo na taça de cristal onde a limonada de morango esperava ser bebida. Ao que parecia, aquele final de semana seria muito longo.

           Os guerreiros seguiam a governanta da casa até seus aposentos, no último andar da construção, o corredor onde ficavam os quartos dos criados, a mulher abriu uma porta onde um quarto amplo com duas camas os aguardavam, sentia o cheiros dos lençóis limpos, mesmo que parecessem ter pertencido a muitas pessoas até estarem ali. Não comentaram sobre estarem no mesmo quarto, apenas aceitaram a acomodação e entraram, suas mochilas já estavam nas camas, Pieck sentou ao lado de sua mochila, silenciosa e incomodada depois do lanche no jardim.
           Zeke tirou um maço do bolso de sua farda, indo até a janela velha e enferrujada que gritou quando ele a abriu.
-O comandante Magath falou o que faremos depois?-quis quebrar o silêncio
-Eles já tiveram o que queriam, agora creio que vamos ficar aqui com eles fingindo que não existimos
           Duas batidas na porta, se entreolharam enquanto Zeke foi abri-la, uma menina vestida de empregada suava depois de ter que subir tantos lances de escada até o andar que ficava logo abaixo do telhado, respirou um pouco antes de apontar o dedo para Pieck.
-Você, o senhor Gutierrez está te chamando na biblioteca
-Eu?
-Ele mandou chamar a menina eldiana, que eu saiba você é a única menina eldiana por aqui
           Ela não deveria usar aquele tipo de tratamento com as outras pessoas.
-Acho melhor eu ir então
           Arrumou o cabelo e foi em direção a porta, mas quem ia com ela era Zeke, que jogou a guimba de cigarro pela janela sem se importar em acertar alguém e apressou o passo para alcançá-la.
-Ei, ele disse só a menina-foi questionado pela empregada
-Vou junto-disse com firmeza
           Deu de ombros, como se não fosse problema dela, nem ao menos haviam lhe dado tempo de se estabilizar antes de ir incomodá-la, o que deixou Zeke ainda mais alerta, sendo levados por corredores que só poderiam pertencer a um castelo, pinturas com molduras que deveriam ser de ouro, corrimões tão polidos que poderiam ver seus reflexos neles, vasos que provavelmente custavam uma pequena fortuna sempre abastecidos com flores frescas. A menina ficou um pouco distraída ao entrar na biblioteca, com dois andares e vários metros quadrados, todas as paredes eram revestidas por prateleiras cheias de livros, ela nunca havia visto tanto livro junto, ergueu a cabeça para ver o afresco pintado no teto e o lustre de cristal iluminado, era o lugar mais bonito que já esteve em toda sua vida.
-Creio que mandei chamar apenas ela-foi a primeira coisa que Gutierrez disse quando a empregada entrou na companhia dos dois guerreiros
-Sinto muito senhor, mas o rapaz insistiu
           Via que a empregada estava irritada e com medo de ser repreendida, mas Zeke ignorou os dois, permanecendo em pé na entrada enquanto Pieck ainda encarava o teto.
-Senhor Yeager, creio que deve ter se confundido com o convite, ele era apenas para a senhorita Pieck-sua falsa educação era irritante
-Não vejo qual assunto tenha a tratar com ela que não diga respeito a mim
-Quantos livros você tem?
           A menina começou a perceber uma tensão, então era melhor mudar de assunto, a expressão de Gutierrez foi da água para o vinho, lhe direcionando um sorriso animado enquanto respondia sua pergunta, tantos dígitos que seria grosseiro colocar registrado.
-Quais tipos de livros gosta de ler?
-Romance, principalmente aventura
           Aquele homem sabia o que estava fazendo, Pieck poderia ter sido reservada no inicio, porém cerca-la com o que ela mais amava estava fazendo a menina ficar mais aberta para conversar, e com Zeke ali duvidava que ele pretendesse algo. Tentava entender o que ele queria, e as opções que vinham para ele eram piores que as anteriores, por enquanto iria observar.
-Tenho um livro que vai adorar, mas ele está ali em cima-apontou para um livro de capa vermelha a alguns metros de altura-Infelizmente meu joelho está ruim, mas você é uma menina jovem-discretamente ia puxando a escada deslizante até eles-Pegue que é seu
-Pieck...-Zeke começou a falar até ser interrompido
-Sim
           Com uma grande confiança, a menina colocou o pé no primeiro degrau da escada de madeira, um pouco temerosa por ela ir deslizando, mas encontrou firmeza para subir o restante até alcançar o livro de capa vermelha. Ignorando o olhar lascivo que Gutierrez direcionava a ela, o rosto do homem estava na altura de seus tornozelos, o que a fez querer voltar rapidamente para baixo, agora com o objeto nas mãos.
-Obrigada senhor Gutierrez, agora irei voltar para meus aposentos e ler um pouco
-Não quer escolher mais alguma coisa?
-Esse livro é bem grande-o abraçou contra o corpo-Deve ocupar todo meu final de semana, fora os outros que trouxe
-Se quiser mais é só falar
-Irei sim-deu um belo sorriso antes de andar até a porta da biblioteca
           Zeke deu uma última olhada no homem antes de ir tambem, andando apressados e em silêncio, até que ele disse:
-O que foi aquilo?
-O que você iria fazer? Brigar?
-Não te quero sozinha com ele-rosnou enquanto cruzavam um corredor, tentando lembrar do caminho que fizeram até ali
-Também não quero ficar sozinha com ele
-Pieck, você precisa ter cuidado
-Sei disso, diferente das outras vezes eu realmente senti que preciso ter cuidado com ele. Mas não preciso mais que você fique me protegendo
-Da última vez que ouvi isso você tinha se metido na tenda de marleyanos
           A menina virou os calcanhares, impedindo a passagem de Zeke, o fazendo parar bem próximo a ela que lhe dava um sorriso misterioso.
-Sei disso, mas hoje sei algumas coisas que naquela época não sabia
           O loiro abriu a boca para falar alguma coisa, porém nada saiu, talvez Pieck esteja mais madura, não só por fora como por dentro.
-Digamos que hoje eu consigo entender os olhares que as pessoas direcionam a mim, inclusive você
-Do que você está falando?-sentiu a nuca começar a suar
           Não teve resposta, a menina voltou a andar em direção a próxima escadaria, segurando seu novo livro e sorrindo de maneira sorrateira enquanto ficava surpresa com a ousadia das próprias palavras.


           Vários pares de olhos os encaravam na entrada da cozinha, como esperado eles não iriam comer com o anfitrião, o convite dessa vez era somente para Magath, mas foram chamados para o jantar na cozinha, junto aos criados, infelizmente os mesmos não pareciam muito animados com a ideia.
           As pessoas estavam distribuídas em uma longa mesa de madeira velha, cada um com seu prato e todos pararam assim que eles apareceram, ainda haviam alguns talheres erguidos no ar e bocas abertas tanto para receber a comida como pelo espanto ao verem os dois eldianos ali.
-Vão ficar ai parados?-o cozinheiro resmungou enquanto mexia uma caçarola de ferro
           Como se tivessem alguma doença contagiosa, as pessoas sentadas no banco ao redor da mesa se afastaram, dando a eles espaço para se juntarem, assim os dois sentaram, mas ninguém voltou a comer, pareciam enjoados na presença deles.
-Talvez devêssemos voltar mais tarde-Pieck cochichou para Zeke
-Já está aqui, não é?
           O cozinheiro deveria ter ouvidos bem aguçados, nem ao menos se virou para falar com eles, e talvez também tivesse olhos na nuca, já que a próxima frase dita foi:
-Quem não quiser comer à mesa com os convidados é só se levantar e ir embora
           A mesa ficou quase vazia, alguns pratos foram deixados pela metade, outros levaram a comida consigo, de costas ainda em frente ao fogão quente o cozinheiro soltou um pesado suspiro. Sem saber o que fazer, Pieck ficou encarando a mesa de madeira, Zeke continuou parado ignorando a forma com os que restaram os olharam, algumas cabeças espiavam por uma porta aberta que levava para o lado de fora do castelo, aparentemente crianças curiosas que ouviam histórias de terror sobre eldianos e seus titãs, não muito impressionadas em verem dois deles pessoalmente, mas sabendo que se quisessem poderiam virar monstros gigantes devoradores de gente.
-Aqui
           O cozinheiro depositou dois pratos bem-servidos diante deles, a menina agradeceu enquanto o loiro nada disse, iriam comer rapidamente, nem eles mesmo poderiam suportar aquele tipo de situação, quanto mais rápido saíssem mais rápido poderiam voltar a respirar tranquilamente. Com seu próprio prato, o cozinheiro se sentou diante deles, um rosto carrancudo e bronzeado, mãos com queimaduras eternas de quem passou a vida diante do fogão, ele não parecia incomodado com a presença deles, pelo menos havia alguém amigável naquele enorme castelo.
-Não precisam ter pressa, é uma ofensa ao cozinheiro comerem tão rapidamente sem nem poder apreciar o gosto da comida
           Pieck percebeu então que não estava mastigando, apenas colocando a comida na boca e a engolindo, ignorando a temperatura que queimava sua boca porque afinal ela tinha regeneração. Sorrindo sem graça, ela com mais calma foi cortando os legumes com a faca de latão.
-Obrigada pela refeição-ela disse quando terminou a última garfada, Zeke já havia terminado e a estava aguardando
-Vamos voltar para o quarto agora-o guerreiro mais velho começou a se levantar
-Menina, gosta de bolo?
           Seus olhos grandes e serenos olharam de Zeke para o cozinheiro, acenando afirmativamente com a cabeça. Se levantando vagarosamente, o cozinheiro foi até a bancada, tirando um pano que cobria um meio meio cortado, tirando um belo pedaço e entregando a menina em um guardanapo.
-Maçã e canela, temos muitas macieiras nesta propriedade, então vivo criando maneiras de não desperdiçar
           Indicou com a cabeça uma bacia que transbordava maçãs, Pieck agradeceu o agrado e mais uma vez elogiou a comida, com um grande sorriso que para Zeke era uma arma muito poderosa.

           Que horas eram? Não fazia ideia, Zeke não costumava acordar no meio da noite, mesmo que o quarto em que estivessem fossem tremendamente abafado pelo calor que o telhado acumulava durante o dia de sol, as janelas abertas faziam o máximo possível para melhorar a situação, altas demais para entrarem insetos que incomodariam seu sono e poderiam ser a causa de ter despertado. Seus olhos cinzas foram se adaptando à escuridão, conseguindo distinguir a cama de Pieck logo ao lado, mas o que fez seu sono ir embora por completo foi a cama estar vazia.
           O loiro sentou rapidamente, olhando em volta a procura da garota, poderia ter ido ao banheiro, mas sua intuição dizia que não. Se levantou da cama olhando em volta, não haviam muitos lugares ali onde ela poderia estar, vendo pela janela, não havia nada além da destruição que eles causaram no dia anterior, a lua iluminava a grama queimada onde o titã puro havia morrido, e as placas de tanques de guerra refletem como espelhos quando um vulto passou por ele, poderia ser qualquer pessoa, mas ele sabia que era Pieck.
           Zeke rapidamente colocou um casaco por cima do pijama, sua braçadeira e calçou os sapatos, abrindo a porta lentamente enquanto verificava o corredor, nem um sinal de vida a não ser um ronco timbrado que vinha de algum dos quartos dos empregados. Apressou o passo tentando permanecer silencioso, não queria acordar ninguém, o que quer que Pieck estivesse fazendo era melhor permanecer oculto de outras pessoas.
           Quando saiu do castelo ele começou a correr, olhando para trás e verificando se não tinha ninguém em algumas das dezenas de janelas que poderia estar vendo-o ali, seria muito complicado explicar o que os dois guerreiros faziam do lado de fora no meio da madrugada. Oculto pelo bosque, seus ouvidos captaram o barulho de água corrente, tão forte e próximo de onde estavam na manhã anterior que ele ficou surpreso em não ter percebido.
           Um rio atravessava em meio às árvores, com água cristalina que só se conseguia achar bem longe da urbanização, suas bordas eram formadas por pedras de cascalho, a luz da lua o deixava brilhando como prata derretida em movimento. Zeke viu pendurado em uma árvore o pijama de Pieck, seus sapatos junto das raízes salientes, mas não conseguia encontrá-la, até que emergindo da água, como uma divindade, a garota apareceu, os cabelos molhados e rosto brilhando, a final alça de alguma coisa aparecia em seus ombros e tirou uma dúvida que ele teve, ela estava de roupa, ao menos isso, embora duvidasse que a peça fosse esconder muita coisa, principalmente molhada.
           Deitando na superfície da água, a menina esticou os braços para boiar, não usando nada além de sua braçadeira e a combinete bege que estava transparente, dando a Zeke uma visão de seus seios e uma sombra triangular entre suas pernas, queria desviar o olhar, mas não conseguiu. Os cabelos flutuavam como se tivessem vida própria, criando um halo em volta de sua cabeça, o ar frio contra ela deixava seus mamilos eriçados, e Zeke sem notar soltou um suspiro pesado, era melhor revelar sua presença antes que ela o notasse, ou iria deduzir que o homem fazia exatamente o que estava fazendo, espiando.
-Pieck, o que é isso?
           A menina se espantou, voltando a esconder o corpo na água, as bochechas corando ao ter sido flagrada fazendo algo que não deveria.
-Nadando, eu vi esse rio mais cedo quando estava vestindo a armadura, não resisti e vim nadar um pouco
-Não deveria fazer isso, estamos como convidados na casa de homens que querem investir em Marley, se eles descobrirem podem causar um atrito
-Duvido que o senhor Gutierrez venha a reclamar de eu ter nadado
-E Magath? Acha que ele concordaria com isso?
-Um pouquinho não faz mal, e não tem como ele saber a não ser que você conte, deveria vir também, a água está ótima
-O que é isso, rebeldia adolescente?
-Vem Zeke
           Estendeu seu braço em direção a ele, cada vez mais o loiro começava a duvidar se agora as palavras de Pieck tinham a mesma inocência de antes, ela se mostrava ciente que de alguma maneira conseguiu afetá-lo.
           Olhou em volta, se fosse outra pessoa ele daria meia-volta e fingiria não ver, ou até mesmo iria dedurar, mas Pieck, aquela menina estava cada vez melhor em conseguir o que queria.
           Quando começou a desabotoar a camisa do pijama, ela sorriu vitoriosa, desviando levemente o olhar quando ele surgiu na beira do rio, usando ceroulas e sua braçadeira, sabiam que era preciso usá-las o tempo todo, ou as consequências para o que quer que estivessem fazendo seriam milhares de vezes pior.
           A água estava gelada, dando um choque térmico inicial até ele ir se acostumando, achou ter chutado um peixe que nadava no fundo, mas não deu importância, Pieck estava se aproximando.
-Não está usando óculos
-Pensei que gostasse dos meus óculos
-Não desde que você passou a usá-los para se esconder
           Começou a nadar ao seu redor, ele sentia os cabelos negros roçando em sua pele, queria segura-la, mas temia o que poderia fazer se se deixasse ceder a tentação.
-Tem muito tempo que não nado, às vezes até sinto falta do treinamento militar por isso, eles nos jogadas em um rio com a correnteza violenta, com uma mochila pesando vários quilos, precisávamos sair sem deixar a arma molhar
-Parece intenso
-Reiner se afogou uma vez, mesmo Annie e Marcel tinham dificuldades, menos eu, diziam que eu deveria ter nascido na água
           Sumiu em meio a água, Zeke a acompanhou, molhando os cabelos e sentindo seu corpo relaxar completamente, a água era tão límpida que podia vê-la com perfeição, talvez fosse a correnteza, mas sentia que estavam se aproximando, nenhum dos dois impediu, suas penas se esbarravam enquanto continuavam prendendo a respiração, o primeiro a voltar a superfície foi Zeke, seu hábito de fumar não lhe dava tanto fôlego, mas Pieck continuou submersa.
-Pieck, vamos voltar
           Se ela ouviu ou não, não saberia, mesmo que tenha aparecido logo em seguida, o loiro começou a sair da água, sempre de costas para esconder a vergonhosa reação que seu corpo teve, colocando rapidamente a calça do pijama enquanto ouviu o som de Pieck também saindo da água. Não resistiu em olhar por cima do ombro, a peça colando em sua pele, mostrando que por baixo das roupas largas que sempre usava ela tinha um corpo escultural, cintura fina, quadris largos, seios em um tamanho perfeito para caberem na mão de Zeke...
-Merda-voltou a encarar o tronco da árvore
           Torcia o cabelo, formando uma grande poça em seus pés, Pieck não tinha pudor com a própria exposição, na verdade, queria que Zeke a olhasse, de todas as pessoas, somente o homem não lhe causava incomodo ao admirá-la, acontecia com frequência, mas ele disfarçava, o que a deixava frustrada, não foi sua intenção ir ali e ser seguida, mas não poderia imaginar situação melhor. Ela mesma se pegava as vezes o admirando, seu abdômen definido fazia seu corpo esquentar, ela queria saber qual era a sensação de ter aquela barba tocando seu corpo, os braços musculosos a segurando com força, tentava entender o que era aquilo, fazendo pesquisas em alguns livros e sabendo um pouco sobre a reação que ela tinham, a reação de um corpo feminino a um corpo masculino que a atraía.
-Zeke, pode tocar se quiser, eu também quero
           Seria bem mais fácil se pudesse dizer isso, mas tinham tantos problemas, não queria causar uma situação estranha depois, estragar o belo relacionamento que tinham pelos hormônios adolescentes que vinham lhe atormentando constantemente. Mesmo que ela pudesse matar só para sentir os dedos dele percorrendo sua pele.
-Vamos-ele a despertou de seus pensamentos


           As notícias eram boas, Magath sorria de satisfação enquanto contava a Zeke sobre os elogios recebidos dos guerreiros, o portador do Bestial queria saber se esses elogios eram bem distribuídos ou apenas focados na portadora do Quadrúpede, de qualquer maneira, iriam embora na manhã seguinte, mais uma noite dormindo no mesmo quarto que Pieck, depois que voltaram da aventura no bosque o rapaz não conseguiu fechar os olhos, temia que aquela noite também ficasse com o sono afetado.
-O que achou do senhor Gutierrez?
-Minha opinião é realmente relevante?-deu de ombros antes de continuar-Parece um homem excêntrico, com gostos que não posso julgar corretamente
-Acho que todas as pessoas ricas demais são assim
-Tenho certeza que ele deve ter mostrado um interesse ainda maior no programa de titãs depois de nossa visita
-Se suas palavras tem o significado que acho que tem, irei lhe tranquilizar, ele é inofensivo
           Ergueu uma sobrancelha loira um pouco desconfiado, ele e Magath haviam se tornado mais solícitos conforme o passar dos anos, nem por isso Zeke se via na liberdade de falar o que bem entendia, mesmo que o comandante aparentasse ter a mesma opinião que ele.
-Fernando Gutierrez é conhecido pela infame preferência que tem por garotas jovens, infelizmente isso apaga qualquer outro tipo de qualidade dele
-Sabia disso desde antes de chegarmos-não era uma pergunta
-Preciso de toda informação possível de quem tem interesse em conhecer os guerreiros de Marley, porém não vim totalmente inocente quanto a ele, por isso disse que poderiam deixar vocês dois no mesmo quarto
-Você conversou com a Pieck sobre isso antes de chegarmos?
-Tivemos um breve momento para pontuar esse detalhe. Mas nem eu estava preparado para a ousadia dele, achei que seria mais discreto e relutante pelo fato dela ser eldiana
-Então ela ter sido conivente foi por ordem sua?
-Zeke, você não é o único que se importa com a Pieck, porém ela sabe que como guerreira deve fazer o melhor para a nação, nada inapropriado, porém não vi motivos para impedir que nosso anfitrião tivesse um pouco de satisfação com sua presença
           Ficou encarando as cortinas de seda do quarto de Magath, muito maior, mais bem equipado e decorado que o dele, um verdadeiro quarto para visitas.
-Não se preocupe Yeager, não é como se eles tivessem ido nadar escondidos de madrugada
           Ergueu os olhos, mantendo o rosto plácido enquanto Magath tomava um gole de café.
-Pieck é como uma irmã para mim
-Não estou aqui para me intrometer no relacionamento de vocês, contanto que não afete seus deveres eu realmente não me importo, mas saibam que vocês são o espelho de Marley-virou o rosto em direção a janela que ia do chão ao teto, dando um breve sorriso para depois voltar a olhar para Zeke-Quanto mais atraente o reflexo, melhor para nós
           Franziu a testa antes de olhar também para a janela, Zeke se ergueu da poltrona de camurça indo em passos lentos para lá, a visão dali era do jardim principal, quando ele saiu para encontrar Magath deixou Pieck dormindo na cama, agora a menina estava na companhia de Gutierrez, jogando croqué naquela manhã de domingo, recebendo aplausos do milionário quando conseguiu acertar a bola pelo triângulo fincado na grama.
-Posso me retirar?

           Pieck entrou no quarto, encontrando o colega sentado na beira da janela fumando, a menina foi até sua cama, deixando na cabeceira um novo livro e uma caixa de bombons caros, o detalhe não passou despercebido por Zeke, que entre uma tragada e outra a questionou.
-Mais um livro, e até chocolate dessa vez
-Sim. Quer?-estendeu a caixa para ele, bombons bem decorados que deveriam custar mais do que eles poderiam imaginar ser apropriado para uma caixa de chocolate
-O que exatamente Magath te mandou fazer?
           Seu rosto corou de vergonha, já era muito ruim fazer aquilo, com Zeke ciente era pior ainda.
-Entreter o anfitrião, fazê-lo investir ainda mais em Marley
-Desculpe-disse em um longo e cansado suspiro no meio da fumaça
-Hã? Pelo o que?
-Se eu soubesse antes, teria dado um jeito de impedir que você viesse-nenhum dos dois conseguia encarar o outro
-Quero ser útil também, nos últimos anos você tem carregado sozinho o fardo de ser a vitrine de Marley, os outros ainda estão na ilha, e eu sempre fui deixada nos bastidores
           Como falar que era exatamente o que ele queria? Pieck atrás das cortinas, escondida, apenas para ele.
-Quero dizer; eventos, jantares, viagens, é sempre você, deve ser muito cansativo, e dividir o trabalho não faz mal
-Mas fazer o que te colocaram para fazer é diferente
-Talvez seja um pouco-pegou um bombom na caixa-Mas não tem uma frase que é assim "Feche os olhos e pense em Marley"? Bom, acho que não é exatamente dessa forma, mas a ideia é a mesma
           Colocou o doce todo de uma vez na boca, era delicioso, a melhor coisa que já comeu na vida, dava até pena continuar comendo, queria guardar para sempre.


           O dobro, sim, Gutierrez dobrou o capital investido em Marley, e Magath deveria ser a pessoa mais feliz do mundo, mesmo que ele tenha sido ignorado durante a despedida, Gutierrez passou por ele direto para Pieck, lhe prometendo algo bem divertido na próxima vez que ela fosse visitá-lo, usando o singular em sua frase.
-Vai aceitar o convite?-Zeke sussurrou em seu ouvido
-Nem pensar-respondeu entre os dentes sem tirar o sorriso do rosto
-Não esqueceu nada? Você sempre esquece alguma coisa
-Não, acho que não
           Tentou puxar na memória, pegou suas roupas, sapatos, os livros que levou e os que ganhou, o pente nem havia sido levado para ter esquecido, mas lembrou de ter deixado algo guardado na gaveta da cômoda, pela expressão no rosto Zeke já sabia.
-Vai lá pegar, vou dizer que foi ao banheiro
-Volto rápido-passou a mochila para ele
           Indo pelos cantos, tentando não chamar muita atenção, Pieck entrou pelos corredores cheios de pinturas e carpete, correndo os vários lances de escadas até o sótão, apoiou as mãos nos joelhos para pegar o fôlego, duvidava que fossem embora sem ela, mas não queria atrasar a viagem de todos. A porta do quarto onde se hospedou estava aberta, lembrava de tê-la fechado antes de sair, ao se aproximar distinguiu duas vozes femininas vindo de dentro, deveriam estar arrumando o quarto.
-O que vamos fazer com essa roupa de cama?
-Queimar ou dar para os cachorros dormirem
           Nunca iria se acostumar com aquele tipo de tratamento, mas tentava deixar de lado, se acabasse guardando para si cada comentário maldoso ou hostilidade que recebia iria se tornar alguém que não queria ser.
-Com licença
           Sua voz fez as duas empregadas darem um pulo, estavam tirando os lençóis das camas, não disseram nada nem se moveram enquanto Pieck entrava no quarto.
-Desculpe atrapalhar, esqueci algo
           Abriu a gaveta da cômoda, tirando a caixa de bombons que ainda não tinha terminado, pretendia usar depois a caixa para alguma coisa, era tão bonita que não jogaria fora. Um sorriso tímido foi usado para se despedir das mulheres que como estátuas mal respiravam, quando chegou no corredor, alguns passos depois, elas voltaram a falar.
-Viu como ela estava com o patrão? Soube que na primeira noite ela saiu do quarto de madrugada
-Deve ter ido para o quarto dele, sabe como as mulheres eldianas são
           Não foi tempo suficiente dela estar longe a ponto de não ouvir, e as mulheres sabiam disso, Pieck suspirou e tentou deixar isso de lado, ela sabia quem era, e não iria se abalar por isso.
-Estávamos indo sem você
           Zeke disse quando ela entrou no carro.
-Me deixar aqui com o Gutierrez? Tem certeza?
           Ao menos poderia tentar achar graça naquilo tudo, mesmo que fosse difícil. Uma grande fila de carros e um caminhão formavam a caravana que voltaria para Libério, era estranho, porque parecia que só haviam ido os guerreiros e Magath, ela até esqueceu que havia muito mais gente de Marley ali.
-Quantas horas de viagem?
-Muitas, minhas costas já estão até doente só de lembrar
           Pieck abriu a boca para dar um comentário provocativo quando alguém bateu na janela ao seu lado, reconheceu o cozinheiro que deve ter sido o mais próximo de amigável lá dentro, Pieck desceu o vidro, olhando para o homem que usava um lenço na cabeça e avental sujo de farinha.
-Aqui garota, para a viagem, levem senão vai estragar
           Enfiou pela janela uma cesta de vime repleta de maçãs, Pieck não teve como recusar ou agradecer, ele foi rápido em se afastar do carro, voltando para seus afazeres.
-Obrigada-gritou pela janela aberta
           Nem todos eram iguais, ainda havia pessoas gentis com os eldianos, era isso o que ela sempre procurava ter em mente.

 


849

 


           Se equilibrava na muleta enquanto andava pelo solo de lama congelada do acampamento, o gelo trincando a cada passo, estava encolhida dentro do sobretudo, pensando onde estava com a cabeça quando decidiu fazer uma visita em meio aquele frio. Todos estavam escondidos em suas tendas, ansiosos pelo dia seguinte onde iriam recolher acampamento e voltar para casa, apenas Pieck não estava recolhida e decidiu se aventurar, em passos lentos, no meio do caminho pensou em desistir, mas o mesmo que andaria para voltar seria o que andaria para continuar, decidiu seguir em frente.
           Parou em frente a tenda daquele com quem queria passar um tempo em meio ao tédio, arrumou os cabelos para parecer mais apresentável, havia esquecido de levar o pente, mas para sua sorte o colega preferia seu visual mais bagunçado.
           Do lado de dentro, Zeke tomava um gole de rum, deixando a tenda nebulosa pela fumaça do cigarro, foi tirado de seus pensamentos com uma voz doce e inconfundível do lado de fora.
-Toc, toc-a ponta de uma bengala apareceu por meio da entrada da tenda
-Pode entrar
           Pieck abriu rapidamente as portas de lona, deixando o calor sair por alguns segundos, seu rosto estava corado de frio, e a mão que segurava a muleta não se mexia, quase congelada.
-Soube que o nosso chefe de guerra tem um aquecedor a querosene
-Fique a vontade
           Apontou para o objeto que brilhava incandescente de calor, a menina se sentou na cama de armar, tirando o sobretudo e deixando a muleta apoiada ao lado. Se jogou contra o colchão, apreciando a comodidade que Zeke tinha, a ela só deram um cobertor extra.
-Obrigada Marley por não arrumar mais nenhum conflito, podemos ficar em casa quentinhos durante o inverno
-Não deixe Magath te ouvir falar isso, ou vai arrumar um treinamento de inverno especialmente para você-tomou outro gole de sua bebida
-O que é isso?
-Rum
           A menina passou os olhos da caneca que Zeke segurava para a garrafa pousada na mesa de madeira ao lado do loiro.
-Já bebeu alguma vez?
-Nunca tive a oportunidade
           Um pouco não faria mal, Zeke se levantou e foi até o baú no canto da tenda, tirando outra caneca de alumínio idêntica a sua, a encheu até a metade e entregou a Pieck, fizeram um brinde silencioso. Ele ficou olhando por cima da caneca enquanto a via dar o primeiro gole de álcool de sua vida, ficando surpreso por não mostrar-se muito afetada pela bebida.
-Gostei, é doce
-Realmente nunca bebeu álcool?
-Nunca, é bem forte, mas tem um gosto bom
           Sentiu o álcool aquecer seu corpo, correndo por suas veias e oprimindo o frio.
-Está tudo bem?
           Pieck não estava diferente, não mostrou nada diferente, mas ele sentia que havia algo, ela não iria cruzar o acampamento em meio a temperatura negativa e beber com ele se não tivesse acontecido alguma coisa.
-Matei pela primeira vez nessa batalha
-Ah, sim, como se sente?
-É estranho-outro gole e acabou com o conteúdo da caneca, a estendendo para Zeke, continuando a falar enquanto ele lhe servia mais bebida-Sei que demorou bastante, e que comparado a você ou aos outros não deveria ter ficado tão abalada, mas me sinto culpada, não consigo esquecer do rosto dele
-Você tem todo direito de ficar assim, você é a pessoa mais doce e gentil que conheço, e mesmo sendo um inimigo, o que imagino que ele fosse, não pode ir contra o que você é
-Alguns anos atrás estava totalmente preparada, depois fingi que poderia passar os treze anos sem matar, claro, o portador anterior do Quadrúpede não conta
-Cada um vê de uma maneira, pode parecer errado ir se acostumando, mas é o melhor para você
-Como foi a primeira vez que matou alguém?
-Logo na minha primeira missão, eles me mandaram entrar contra um quartel e destruir tudo, foi tão intenso que não lembro quem foi o primeiro, na verdade matei todos de uma vez, e não tive tempo de me sentir culpado, eu fiquei sim um pouco abalado, mas não me importei
           A menina deu um longo gole de rum, deixando Zeke se perguntar se foi certo oferecer bebida.
-Me conte como aconteceu, não lembro de você ter ido contra o campo do inimigo
-Na verdade ele é quem conseguiu entrar do nosso lado. Só percebi quando ele estava bem do meu lado, atirando contra os soldados da minha armadura, bem no ponto cego das armas. Foi rápido, dois passos e estava na frente dele, o mordi arrancando metade do corpo fora, na hora eu ainda estava com adrenalina, mas quando tudo se acalmou eu consegui refletir o que tinha acontecido-arranhava a unha no alumínio, apreciando o som agudo que saia dele
-Então você matou um inimigo para que ele não matasse os atiradores, afinal ele não conseguiria te fazer nenhum arranhão. Essa é uma maneira bem condizente com você em fazer as coisas, matar para proteger os outros, agora pense Pieck, se não tivesse feito isso, os atiradores teriam morrido, eles e outros que estivessem em volta, você não matou uma pessoa, você salvou outras
-Você sabe como confortar as pessoas Zeke-escondeu o rosto atrás da caneca-Deveria fazer isso mais vezes
-E perder minha pose de durão? Nem pensar, isso é apenas para você, Pieck-chan
           A garota abriu alguns botões da camisa, estava começando a ficar quente, sentia que estava bebendo rápido demais.
-Quantas dessas você já bebeu?
-Estou na quarta dose, não estou bêbado, apenas alegre, e você?
-Acho que estou bêbada, mas quero mais
           Estendeu novamente a caneca, agora ele encheu apenas até a metade, ela não questionou, era como um elixir, não lhe trazia felicidade, mas aliviava um pouco os sentimentos ruins.
           Zeke acendeu outro cigarro, beber lhe dava vontade de fumar, fumar o fazia querer beber mais, um círculo vicioso perigoso.
-Posso?-apontou para o cigarro preso entre seus lábios
           Estava ousada hoje, e por alguma razão Zeke gostava disso. Se levantou da cadeira, indo se juntar a ela na cama, entregou o cigarro para ela, puxou tudo de uma vez, se engasgando com a fumaça.
-Não é assim que se faz-riu com sua crise de tose-Primeiro inspire profundamente profundamente-ela foi fazendo conforme ele mandou, inflando as bochechas de fumaça-Agora prenda
           Parecia um esquilo, Zeke não resistiu em apertar sua bochecha com a ponta do dedo, vendo a fumaça sair entre seus lábios.
-É só isso? Pela quantidade de cigarro que você fuma pensei que fosse algo mais legal. Não tem graça nisso
-Realmente, não tem, mas é reconfortante-pegou o cigarro de seus dedos e deu sua própria tragada
-Pelo menos já completei duas tarefas da minha lista-terminou a bebida em um último gole
-Lista?
-Fiz uma lista de coisas para fazer antes de morrer, beber e fumar faziam parte dela, agora já posso risca-las. Beber eu gostei, fumar não
           Colocou a caneca vazia no chão e pegou seu sobretudo jogado ao lado na cama, depois sua muleta, se apoiando nela para levantar.
-Já vai?
-Quer que eu fique?
-Sim
           Um contato visual, era algo que eles vinham fazendo cada vez mais, como se cada frase dita pelo outro tivesse algo escondido, e o ouvinte tentasse decifrar. Voltou a colocar a muleta apoiada na cama, jogando novamente o sobretudo no colchão, Pieck se jogou em cima dele, deitando com seus cabelos formando um leque ao redor de seu rosto, estava se sentindo um pouco sonolenta.
-Qual o objetivo em fazer uma lista dessas? Não é meio deprimente
-Não, eu quero ter certeza que fiz tudo o que queria
-Quantos itens você já completou
-Contanto beber e fumar-estendeu a palma da mão para cima, contando nos dedos-Já foram dois
-Só dois?
           Não conseguiu resistir em rir dela, a menina o olhou chocada, dando um chute na perna do loiro.
-Não fique rindo, eu só fiz ela recentemente
-Desculpe, é que falei com tanta propriedade que achei que fosse algo de longa data
-Acabei de completar quinze anos, ainda não tinha muitas ideias
-Mas me diga, o que vai fazer quando completar a lista
-Ficar satisfeita por poder passar o titã sem arrependimentos
-E se não conseguir fazer tudo até o momento chegar
-Minha lista não é muito pretensiosa, mas não vou ficar triste, e sim apreciar os que consegui, não posso desmerecer as experiências que tive me lamentando pelas que não aconteceram
-Você fala como uma adulta, está muito madura
-Parece meu pai falando-foi a vez dela de rir
-Acho que seu pai não te daria bebida
-Nessa parte você está certo
           O cigarro ainda estava na metade quando Zeke o jogou no chão e pisou para apagar as chamas, se deitando ao lado de Pieck, com o cotovelo apoiado no colchão e o rosto na mão, olhando brevemente para a pele exposta pelos botões abertos da camisa.
-O que mais falta nessa lista, algo que posso ajudar?
-A maioria eu preciso fazer sozinha
-"Maioria"? Então tem algumas coisas que precisa de companhia
-Sim
           Seu rosto corou ainda mais, desviou o olhar, de repente o lugar ficou ainda mais quente.
-O que é, Pieck-chan? Me conte, agora fiquei curioso
-Coisas de meninas, sabe, coisas que meninas de quinze anos pensam
           Voltou a olhar para ele, a única fonte de luz lá dentro era o aquecedor, que refletia o calor nas lentes de Zeke, ela odiava quando isso acontecia, mas não desviou o olhar novamente porque queria poder transmitir seus desejos para ele, ela não iria tomar a iniciativa, se queria que ele o fizesse esperava estar sendo bem explicita.
-Nunca fui uma garota de quinze anos, pode me dar uma dica?
-Vai ficar me torturando, Zeke?-esticou o braço para tirar seus óculos, ele se afastou no início, mas deixou-Se quiser fazer parte de uma primeira experiência minha, faça agora, porque a bebida está me dando coragem de ser clara, se não acontecer vou ficar tão envergonhada que não conseguirei nem olhar mais para você
           Um tempo se passou com os dois se encarando, tanto tempo que Pieck sentiu que havia perdido, o frio da rejeição a fez se sentir angustiada, agora não sabia o que fazer, talvez tenha errado, errado da pior maneira possível. A garota se sentou rapidamente, ficando um pouco tonta, Zeke fez o mesmo, sentia-se enjoada, seu corpo perdeu o calor e o álcool ia para o cérebro.
-Desculpe, eu...eu vou...
           Não conseguia completar a frase, se levantou com pressa, esquecendo do estado de seu corpo frágil do período de transformação, quase caindo sem estabilidade, até que Zeke a segurou.
-Calma, não precisa ficar nervosa
-Acho que confundi as coisas
           Encarava os botões da camisa dele, duvidava que um dia poderia olha-lo nos olhos novamente, era constrangedor.
-Pieck-ergueu seu rosto delicadamente, mesmo com sua relutância, ela mostrou as faces coradas de vergonha-Se algo acontecer, não tem mais volta
-Sei disso, e não me importo, prefiro me arrepender pelo o que aconteceu do que pelo que não aconteceu
           Precisava de mais alguma coisa? Não, só precisava dela.
           Sentiu os lábios de Zeke tocando os seus, ainda muito perdida em toda a situação, se segurou nos braços dele, sem conseguir manter-se de pé, agora por suas pernas terem virado gelatina. A barba roçando áspera  em seu rosto, diferente do que ela imaginou, mas era gostoso sentir sua pele sendo arranhada.
-Abra a boca-ele ordenou contra seus lábios
           Obedecendo, deu uma breve abertura para ele entrar, sua língua era dura, curiosa, explorando cada canto dentro de sua boca, ela tentou acompanhá-lo, sentindo o sabor de rum e cigarro, o gosto do cigarro nele era melhor do que ao fumar. A guiou de volta a cama, a menina agradeceu a firmeza do colchão, ousando agora em tocar seu peito, sempre quis fazer isso, conseguia sentir o abdômen definido por baixo do tecido, ronronou quando ele acariciou seu rosto, enrolando os dedos no cabelo da nuca e a prendendo firme para deixá-lo conduzir.
           Engasgou quando sentiu uma mão tocar sua cintura, apertando e tentando entender se era mesmo real ou mais um de seus sonhos pecaminosos. Os dedos foram subindo, sentindo o contorno de seus seios, queria agarrar, sentir enfim em sua mão, mas se fizesse não conseguiria parar, e era ainda o primeiro beijo dela, estavam em níveis totalmente diferentes, enquanto ele queria ainda mais, ela já estava se afogando na experiência.
           Se afastaram para recuperar o fôlego, Zeke apreciou o rosto espantado dela, quase deitada na cama, querendo mais, mas não sabendo o que "mais" significava.
-É melhor você ir
-Sim
           Estava perdida, o que quer que ele dissesse ela iria obedecer, e isso era o que temia, temia a si mesmo em seus pedidos realizados aquela menina na ocasião em que estavam.
           Pieck pegou suas coisas, lentamente colocando o sobretudo enquanto Zeke ficou sentando a admirando, ela poderia estar tirando ao invés de colocando, mas ele ainda não havia bebido o suficiente para perder a razão.
           Nenhum dos dois dormiu aquela noite, Zeke continuou bebendo na cadeira porque a cama ficou com o calor e cheiro dela, Pieck estava deitada encarando o teto da tenda, sentindo seus lábios formigarem enquanto sua mente estava nublada, sem conseguir ter linhas de raciocínio, não precisava mais de cobertores ou aquecedor, seu corpo emitia calor próprio, e foi assim até a manhã seguinte.

           O sol pálido surgiu para acordar os que haviam dormido, levantando acampamento, animados em poderem encontrar o calor e aconchego de seus lares, terem um lugar decente para tomar banho e sem mais sons de tiros o dia todo. Pieck fez questão de ir até a linha férrea com os soldados marleyanos, com medo de ver Zeke, com medo dele ignorá-la no dia seguinte, mas foi inevitável, foi a primeira a chegar no vagão dos oficiais, onde ela sempre viajava, estava sentada ao lado da janela olhando a movimentação para o transporte quando ouviu a porta do vagão se abrir.
           A primeira coisa que Zeke fez ao vê-la ali sentada foi desviar o olhar, doeu mais que um tiro, mais que muita coisa, porém ela não iria demonstrar, voltando a encarar a janela.
           O lugar foi enchendo, o comandante, tenentes e capitães, barulhentos como sempre, acendendo seus charutos e bebendo suas bebidas em uma atmosfera que lembrava a noite anterior, mesmo sendo totalmente diferente. Zeke estava no meio deles, como sempre precisando usar aquela imagem de chefe de guerra que não lembrava em nada o Zeke que ela conhecia, o Zeke que a beijou na noite anterior, talvez estivesse assim por estarem na presença de outras pessoas, ou fosse só uma desculpa para se enganar.
           Soltou um pesado suspiro, não iria se arrepender do que fez, mas era difícil não saber a reação dele.
           O trem começou a andar lentamente pelos trilhos congelados, seria uma longa viagem.
           O loiro estava de costas para ela, não sabia se era bom ou ruim, nas últimas duas horas revezava entre olhar para a paisagem invernal e a nuca do homem, lembrando de quando ele puxou seu cabelo, mordeu o lábio ao sentir o couro cabeludo formigando.
           Quando Zeke levantou ela sentiu borboletas brigando em seu estômago, mas continuou a olhar pela janela, mesmo quando ele veio em sua direção.
-Tudo bem?
-Sim-respondeu sem encará-lo
           Pensou que ele iria embora logo, mas se sentou ao seu lado, ela parou de respirar, era difícil entender como ele poderia ser tão decoroso, mas queria tocá-lo, senti-lo, assim como na noite anterior.
           Pieck começou a mover a mão direita que estava pousada no espaço entre eles no banco, arrastando os dedos pelo tecido anavalhado. Zeke mantinha sua mão esquerda segurando o cigarro que acendeu, trocou-o para a outra mão sem tirar os olhos dos oficiais no lado oposto, discretamente sua mão esquerda desceu para o banco, fazendo o mesmo caminho de encontro para a mão dela. Lentamente, cada um podia sentir o outro se aproximando, como um imã, devagar para não espantarem, a imagem diante de seus olhos era irrelevante porque cada célula de seus corpos estava concentrada em finalizar aquele toque ansiado.
           Primeiro foram os dedos médios, um choque percorreu de um para o outro, uma pequena reação elétrica antes de voltarem a realizar o caminho, agora os dedos indicadores, mais um pouco e estariam de mãos cruzadas, segurando com firmeza o outro querendo transmitir que não havia arrependimentos na noite anterior.
-Yeager!-o chamado vindo de Magath parecia ter criado uma barreira entre os guerreiros, cada um puxou a própria mão rapidamente-Venha dizer ao Tenente Güller sobre como você acertou uma pedra naquele avião
           Se levantou lentamente, olhando para Pieck de esgueira, notando que ela também o encarava, pelo visto não teriam uma oportunidade para conversarem tão cedo.


           O recesso de inverno, havia um bom tempo que não curtiam esse período de folga, da última vez Pieck passou a virada para o novo ano no formato de titã em meio a um pântano. Agora estava na casa da avó de Zeke, usando avental e com o rosto sujo de fermento, seus cabelos estavam presos com um lápis que usou para anotar em seu caderno a nova receita.
-Quais são seus planos para a virada do ano?-a senhora Yeager perguntou enquanto a ensinava a assar bolo lamington
-Provavelmente irei ficar com meu pai em casa, nunca tivemos o costume de sair
-Os vizinhos aqui costumam fazer uma comemoração de ano novo, é divertido
-Não sei senhora Yeager, meu pai não pode ficar fora durante o inverno-salpicava coco ralado tão fino que parecia neve
-Vai ser uma boa oportunidade de usar aquele vestido que fiz para você
           A senhora Yeager havia entrado para o mundo da costura, e Pieck era sua principal modelo, como não haviam lojas com opções muito bonitas na zona de internamento, a mulher costurava belas peças para a menina, o vestido ao qual ela se referia foi o presente mais recente.
-Lá tem aquecedor, é espaçoso, é bom que o seu pai pode conhecer gente nova, da ultima vez me disse que ele estava muito entediado em casa
-Sim, esta, vou pensar, não prometo
-Me chame de intrometida-começou a aquecer a água para fazer chá-Mas encontrei seu pai semana passada enquanto vocês estavam na missão e comentei sobre isso, ele disse que adoraria, mas dependia de você
-Senhora Yeager!-a repreendeu com um sorriso divertido no rosto
-Ele também concorda que você deve sair mais, na sua idade eu não parava em casa
-O Zeke vai?-tentou perguntar da maneira mais casual possível
-Ele nunca vai, o chamo todo ano, mas ele sempre recusa
           Isso era bom ou ruim? Queria ou não vê-lo?
-Bom, já que meu pai concorda, não vejo porque não ir
           Ofereceu seu melhor sorriso enquanto pegava a panela suja de chocolate derretido e passava o dedo para comer um pouco.

           Precisava avisar a Zeke que logo não conseguiria mais subir tantas escadas até seu apartamento, estava ficando velha e se quisesse que a avó continuasse ajudando deveria se mudar para um apartamento no térreo. Tirou a chave do bolso de seu casaco, abrindo o apartamento e encontrando uma enorme bagunça, a mulher bufou irritada, havia arrumado tudo quando ele estava fora, havia voltado há poucos dias e conseguiu deixar tudo naquele estado.
           Sem sinal de Zeke, foi até o quarto escuro, distinguindo sua figura adormecida mesmo já sendo quase onze horas. Abriu as cortinas deixando a luz entrar, depois puxou as cobertas o expondo ao frio, o neto começou a resmungar enquanto procurava se aquecer.
-Vamos, eu preciso arrumar a casa e não vou fazer isso com você deitado o dia todo-havia aprendido a ser mais impositiva com Pieck, a menina ainda dizia para ela deixar Zeke parar de ser folgado, porém uma avó não pode só virar as costas para o único neto
-Já vou-resmungou enquanto rolava de um lado para o outro na cama
           Começou a catar as roupas jogadas no chão, o cesto de roupa suja deveria ser enfeite, a maioria das pessoas pensa que Zeke é um homem bem organizado, mas era um verdadeiro bagunceiro, o máximo que ele fazia era lavar a louça para não deixar acumular até a próxima visita da avó.
-Bebeu ontem a noite?
           O loiro saiu do quarto, encontrando a avó de olho em uma garrafa de conhaque pela metade e um copo vazio em cima da mesinha da sala.
-Vó, eu estou de folga
-Não deveria beber sozinho, não faz bem para você-pegou um cachecol jogado em cima do abajur-Vamos ter novamente a festa de ano novo da vizinhança
-Sabe que não sou muito sociável
-A última vez que foi você era ainda adolescente, desde então sempre passa o ano novo sozinho
-Não vou-disse com firmeza
           Atravessou a sala, coçando os olhos para espantar o sono enquanto entrava no banheiro e fechava a porta.
-Convidei os Finger para irem esse ano, eles confirmaram
           A maçaneta foi girada lentamente, uma cabeça loira apareceu curiosa pela fresta.
-Eles confirmaram?
-Sim-repetiu-A própria Pieck disse que vai
-Entendi, vou ver o que vou fazer no dia e se estiver livre eu passo lá
           Sua avó parou o que estava fazendo e se virou rapidamente só para ver quando Zeke voltou a fechar a porta, o chamava todo ano, e ainda o fazia por costume, mas não imaginou que ele fosse aceitar.


           Pieck penteava o cabelo, puxando um último fio que estava fora do lugar, se o vestido era lindo ao menos deveria pentear o cabelo, escolhendo um rabo de cavalo alto e repartindo o cabelo para o lado esquerdo, tão impecável que a pessoa no reflexo não parecia ela. O vestido que a senhora Yeager fez cabia perfeitamente em seu corpo, o tecido salmão com decote canoa, mangas que iam até os pulsos e o comprimento até os joelhos, as meias de nylon pretas procurava dar um pouco de calor, mas sem sucesso, mesmo em casa já estava com frio, mas ficou tão bonita que não quis trocar de roupa.
-Vamos?
           Saiu do quarto encontrando o pai a sua espera na sala, segurando uma travessa de comida para levar, o homem vestia sua melhor roupa, mas ficou estático quando viu a filha.
-Pieck, você está linda
-Obrigada
           Recebeu com gratidão o elogio, porém era comum seu pai elogiar sua beleza, aos olhos dele ela seria sempre a menina mais bonita de Marley. Ao saírem do prédio e encontrarem o frio da rua, Pieck se escondeu dentro do sobretudo, mais uma vez pensando se deveria ou não trocar de roupa, mas isso provavelmente magoaria a senhora Yeager, então decidiu enfrentar o frio.

           Zeke havia chegado muito cedo, mas fingia total desinteresse em tudo, aceitando uma bebida, porém recusando conversar com as pessoas que iam cumprimentá-lo. O espaço era amplo e bem decorado na medida do possível, a mesa bem servida com uma contribuição de cada um, sua avó papeava com as amigas, estavam falando dele, era visível pela maneira como o grupo o encarava ali parado tentando passar despercebido, algo totalmente impossível para ele.
           Começou a se perguntar se Pieck realmente iria, começou a pensar que poderia ser alguma mentira da sua avó para lhe fazer sair de casa. Ainda não tiveram a oportunidade de conversar desde o beijo, queria vê-la, estava com saudades, e precisavam colocar as coisas no lugar, se dessem um tempo muito grande temia que acabassem perdendo a oportunidade e viverem apenas fingindo que nada aconteceu. Não tinha como bater na porta dela para conversar, o recesso de inverno parou as atividades no quartel, se esperasse voltarem seria tarde.
           Mantinha os olhos na entrada, a cada vez que a porta abria seu coração palpitava um pouco para depois se decepcionar. Decidiu ir à mesa pegar mais uma bebida quando a porta abriu novamente, desta vez seu coração saltou, retumbou tão forte que ele temia que as outras pessoas ouvissem.
           Pieck entrou acompanhada de seu pai, tirando o pesado sobretudo que vestia e revelando um belo vestido que a fazia parecer ser banhada pelo pôr-do-sol, os cabelos bem penteados brilhavam e não haviam olheiras em seu rosto porque agora ela não precisava mais acordar cedo depois de virar a noite lendo ou ficar dias sem dormir no formato do titã, suas faces estavam coradas e enquanto cumprimentava a senhora Yeager a mesma mostrou onde estava o neto, parado diante da mesa de bebidas.
           Diferente dele, a garota não parecia esperar sua presença, porém lhe direcionou um grande sorriso, como se todo esse tempo tivesse se enganado sobre o desejo que tinha em rever o homem.
           Agora depois de tanto tempo esperando, Zeke não sabia como se aproximar, ela estava o tempo todo cercada pelo pai e sua avó, duvidava que fossem conseguir disfarçar diante deles, e o próprio Zeke estava fugindo um pouco, a admirando de longe ainda abalado em como ela estava encantadora. Pieck sorria para aqueles que a cumprimentavam, eram dois guerreiros em uma festa, porém ela parecia mais acessível que o loiro, sempre desviando e dando desculpas para sair de uma roda de conversa que se formava ao seu redor. Seus olhares desviavam sempre porque estavam constantemente observando o outro.
           A menina não suportava mais a situação, se estavam ali era bom conversarem logo, ou não iria sossegar até colocar um fim naquela expectativa.
           Zeke entendeu o que ela queria dizer ao apontar para o lado de fora do salão, onde não deveria ter ninguém pelo frio que fazia.
-Onde vai?-sua avó lhe abordou no meio do caminho
-Fumar
           Deixou o copo vazio em cima de uma mesa e seguiu pelo mesmo caminho de Pieck.
           Estava abraçando o próprio corpo, sentindo os ossos tremerem, mas se aqueceu quando viu Zeke se aproximando, acendendo um cigarro e andando em passos curtos. Quando estavam enfim frente a frente, ninguém falou nada, Pieck pensou se deveria ter colocado um sapato de salto ao invés daquelas botas para complementar a diferença de altura entre eles, mas ela gostava assim.
-Você está linda
-Obrigada-tirou um fio de cabelo que caia em seu rosto
-Como tem passado?
-Colocando o sono em dia, e você
-O mesmo
           Suas vozes morreram, olhando em volta a procura de algo para falar, Zeke consumia seu cigarro rapidamente, já Pieck brincava com o colar de ouro que pegou da caixa de jóias que um dia pertenceu a sua mãe.
-Está nevando
           Anunciou ao ver os primeiros flocos de neve daquele inverno caírem do céu.
-Acho que precisamos falar sobre o que aconteceu aquele dia-mordeu os lábios ao vê-la corar ainda mais-Na manhã seguinte, eu fui até a sua tenda, mas você não estava mais lá, parecia ter fugido
-Fiquei nervosa, não queria ouvir nada que pudesse me magoar, porque, pelo menos para mim, foi algo muito bom
-Por que acha que eu diria algo para te magoar?
-Quando você fica colocando os deveres acima de tudo, iria falar que guerreiros não deveriam se relacionar entre si, e isso poderia prejudicar nosso trabalho, sabe, o tipo de coisa que você fala quando quer impressionar os oficiais. Nunca sei qual Zeke vou encontrar, o chefe de guerra ou o que contrabandeava chocolate para mim
-Acha que foi o chefe de guerra quem te beijou?
-Não-disse rapidamente
-Então porque é ele quem deveria estar aqui resolvendo isso?
           A neve caía rapidamente, lembrando a Pieck as lascas de coco jogadas no bolo que fez dias antes.
-Há quanto tempo você queria aquilo?
-Menos tempo que você, eu vejo a maneira como você me olha, e quando eu percebi qual era sua intenção eu comecei a pensar também na possibilidade. E você, quanto tempo faz?
-Mais do que seria possível dizer sem parecer errado. Você ainda é muito nova, sou nove anos mais velho, e vou morrer em alguns anos...
-Eu também, não fique se martirizando sozinho
-O que espera disso?
-Apreciar a vida enquanto posso, antes de ser devorada
-Então foi apenas uma das suas tarefas da lista?-tentou parecer indiferente, mas a ideia o deixou magoado
-Sim, mas você sabe o que estava escrito na lista?
-"Beijar alguém pela primeira vez"?-ergueu a sobrancelha
-Não, "Beijar o Zeke"-cruzou os braços atrás das costas-Tem outras coisas envolvendo seu nome, mas não posso falar ou vai perder a graça
           Começaram a ouvir o tumulto do lado de dentro, logo daria meia-noite e iniciariam um novo ano.
-Sabe o que eu vim fazer aqui?-questionou enquanto alisava suas bochecha com a ponta do dedo-Tentar te convencer a tentarmos para ver se dá certo, mas parece que você não precisa ser convencida
-5!
-Ainda bem que não, porque seus argumentos foram péssimos
-4!
-Não consigo raciocinar muito bem com você por perto
-3!
-Então, Zeke-deu um passo mais próximo a ele-Pode me beijar se quiser, sempre que quiser
-2!
           A enlaçou pela cintura e trouxe de encontro a si, enquanto Zeke curvou o corpo para alcançá-la, ela se colocou na ponta dos pés, Pieck encontrou calor naqueles braços, e ele sentiu uma paz inexplicável. Não ouviram os gritos de comemoração à meia-noite, o mundo poderia terminar naquele momento, porque estavam juntos, apenas eles e nada mais importava, sentindo o coração do outro bater forte, e depois ambos em sincronia, mais alto que passos de titãs.
           A apertou mais firme em seus braços, temendo que ela fosse embora, que a tirassem dele, brasa ardia em seu peito, queria viver eternamente naquele beijo realizado durante a primeira neve do ano.

 


850

...

 



 

Chapter Text

 

850

 

Inverno

 

           Um beijo discreto no meio dos corredores, ser puxada para dentro de uma sala vazia para poderem sentir um ao outro, uma mão que descia pela mesa durante uma reunião, apertando firmemente seu joelho mostrando que mal poderia esperar para saírem dali e mais uma vez se afogarem no sorrateiro aconchego.
           Pieck estava feliz, feliz como nunca esteve, uma garota adolescente normal, algo que dificilmente achou que conseguiria ser algum dia, até havia esquecido tudo o que lhe cercava. Totalmente absorvida naquele segredo, não conseguia mais falar com Zeke ou mesmo olhar para ele na presença de outras pessoas, ficava corada, sem graça, perdia a fala e temia que isso pudesse chamar a atenção dos demais. Ficando curiosa em saber se o mesmo ocorria com ele, porque notou que o loiro também costumava evitar olhá-la diretamente, e quando o fazia rapidamente virava o rosto.
           Encarava a xícara de chá fumegante que mantinha firme em suas mãos enquanto estava de frente para Zeke, separados pela mesinha de chá que ficava no escritório dele, quando a chamou ela criou várias situações naquela cabecinha repleta de romance adolescente, agora tudo parecia muito comprometedor visto que não estavam sozinhos, entrar lá e encontrar Magath e um menino loirinho e educado a fez se sentir deplorável.
-Colt Grice-disse ele com o rosto repleto de admiração ao conhecê-la, como poderia ficar decepcionada com sua presença em meio a tamanha recepção?
-Já estão escolhendo quem vai nos devorar? Ainda tenho muito anos pela frente-Zeke brincou para tentar desviar a atenção de todos da expressão de descontentamento que Pieck fez ao conhecer o candidato a guerreiro
-Não se preocupe Finger, o futuro portador do Bestial foi escolhido em um recrutamento especial, o seu ainda estamos planejando-Magath alfinetou enquanto ela sorria sem graça e procurava um lugar para poder fazer parte daquela reunião
           Assim ela terminou ali, ouvindo o pequeno Colt, mais novo do que ela era quando se tornou guerreira, dizendo o quanto os admirava, era sempre bom ter fãs.
-Deve estar ansioso, afinal, não vai só se tornar um guerreiro, como também líder da próxima geração-disse depois de se recompor da vergonha que sentia diante da situação
-Sim, é uma honra, ainda mais poder estar lado a lado do célebre Zeke Yeager. Sou muito ciente de minhas habilidades e quero com elas fazer Marley permanecer como a maior potência mundial, mas quando soube que passaria os próximos anos aprendendo ao lado do atual portador do Bestial mal pude me conter de felicidade
-Isso é verdade, deveria ter visto quando eu o conheci alguns minutos atrás, foi o aperto de mãos mais agitado e longo que já recebi-o homem loiro flexionou o braço direito enquanto ria do rosto corado do menino
-Fico contente em ver que estão todos muito amigáveis, diferente de quando eu introduzi Zeke aos antigos guerreiros, mas deixando as brincadeiras à parte. Grice, você ainda está sendo testado-todos se viraram para ouvir atentamente as palavras de Magath-Os guerreiros não estão aqui para te fazer se sentir em família, e sim para ver como você se sai na prática, ou seja, primeiro vai aprender com Zeke como liderar, depois vai fazer isso por si mesmo, entendeu?
-Sim, senhor-agora sua expressão era séria, não mais a de um menino de dez anos de idade, Pieck levou mais tempo até perder a infância, mas isso parecia ter sido tirado dele ainda mais cedo
-Também passei por isso antes de me tornar guerreiro, foi uma época difícil, não que agora seja mais fácil. Estou aqui para te orientar, e dar uns puxões de orelha, vou avisando, sou bem exigente
-Sim, senhor
           Repetiu, mas agora com uma admiração que fazia aqueles olhinhos verdes brilharem.
-Tudo encaminho, vou indo, preciso resolver alguns assuntos, mesmo que fosse adorar ficar aqui, o aquecimento do meu escritório não é tão bom quanto esse-Magath olhou pela janela uma grossa camada de neve acumulada-Grice, você vem comigo
-Sim, senhor
           Deu um pulo do sofá, uma última despedida e outro aperto de mão animado antes de saírem, Pieck continuou sentada no sofá enquanto Zeke os acompanhava até a porta. Logo que o loiro a fechou a garota pensou se deveria ter ido também, afinal, toda vez que costumava ficar assim com Zeke as coisas tendiam a esquentar, mas era um dia frio de Fevereiro, então não havia motivos para desprezar um pouco de calor.
-Você tem um fã
-Eu tenho um fã
           Aquele sorriso, nossa, Zeke sabia como deixá-la vulnerável.
-Agora, senhorita Finger-se sentou ao seu lado no sofá, tirando a xícara de sua mão e a colocando na mesinha-Posso saber quais eram suas intenções quando entrou nessa sala?
-Como assim?
-Parecia que esperava algo muito específico e ficou visivelmente decepcionada
           Desviou o olhar enquanto mordia os lábios para não sorrir, sempre soube que Zeke era mais experiente, então ela costumava ficar muito afetada com qualquer tipo de interação mais íntima ou proximidade excessiva.
-Agora estamos sozinhos, Pieck-chan-afastou uma mecha de cabelo para ter acesso a seu pescoço, sabia que ela ficava arrepiada quando a beijava ali
-Zeke-disse em um suspiro enquanto sentia seu lábios tocar seu ponto fraco
-Quem diria que a minha Pieck estaria com esse tipo de pensamento, pensei que você fosse a inocente
-Não sou mais tão inocente assim, já disse
-Não nesse quesito, ainda é inocente sim
           Haviam tantas coisas que queria fazer com ela, quanto mais se beijavam mais queria prosseguir, porém havia pouco mais de um mês desde a primeira neve do ano, iria com calma, ousando gradativamente e sem pressa.
-Se você não me ensinar, como vou poder saber?
-O que quer que eu te ensine, Pieck-chan?
           Puxou-o pela gola da camisa, agora ela já sabia beijar, e beijava tão bem que nenhum dos dois queria parar, mas a menina então se lembrou que a ida ao escritório era apenas um desvio para outro compromisso.
-Preciso ir-interrompeu o beijo, se sentindo culpada pelo olhar de desamparo no rosto de Zeke
-Entendo, acho que sou o único que não está muito ocupado hoje
           Pieck se levantou, abanando o rosto para espantar o calor repentino, Zeke tirou do casaco um maço de cigarros, como era inverno e abrir a janela era impossível e congelante, toda a sala tinha uma aparência nebulosa e o cheiro de cigarro era mais intenso que o normal, porém Pieck já estava acostumada.
-Que horas você deve sair de lá?
-Não sei, vou na artilharia, o sniper que me acompanhava na armadura se aposentou, estamos a procura de novos candidatos
-Ser o atirador do Carroça não é para qualquer um
-Enquanto você orienta apenas um candidato a guerreiro eu tenho que dar atenção a dezenas de soldados da artilharia
-Se sentindo injustiçada?-provocou
-Ainda quero saber porque só você tem escritório e eu não, você pode ficar aqui enquanto eu preciso vagar de um lado para o outro
-Pieck, você sempre ficou mais no meu escritório que eu mesmo
           O loiro sorriu com a lembrança de entrar no escritório e a encontrar dormindo no sofá, ou lendo encolhida na poltrona, girando feliz a cadeira que ficava atrás de sua mesa, tudo quando ela ainda era apenas uma criança que ficava entediada de ser cortada do trabalho administrativo, ainda assim precisando marcar presença, hoje uma pequena pilha de papelada na mesa de Zeke pertencia a menina.
-Zeke-sua voz deu um aviso a ele, estava já perto da porta quando ele começou a se aproximar
-Apenas vou apagar a luz, já que todo mundo está muito ocupado vou embora
           Estendeu o braço até o interruptor que estava ao seu lado, apagando a luz deixando o ambiente em um tom escuro azulado e frio, durante o inverno toda hora parecia ser o início do anoitecer.
-Já?-sua voz pareceu mais decepcionada do que gostaria que tivesse
-Quer que eu te espere?-perguntou enquanto se inclinava para estar na altura dela
-Não, eu devo demorar mesmo-focou os olhos no fogo que queimava o cigarro
-Também tenho algo a fazer
-Então porque perguntou se eu queria que me esperasse?-olhou desconfiada para ele-Iria cancelar?
-Se você pedisse, sim
           Uma última tragada antes de apagar o cigarro ainda pela metade em um cinzeiro que ficava na mesinha ao lado, tinha cinzeiros espalhados por todo lugar, fosse no escritório ou em casa, mas Pieck não poderia saber daquilo, nunca foi na casa dele.
-Zeke, não vou conseguir ir assim
           Se referia a ele ter agora ambos os braços ao seu redor, a impedindo de sair, mas para ser sincera, estava gostando.
           Quando ele fisgou seus lábios para outro beijo ela ponderou se realmente precisava ir até a artilharia, ali estava bem melhor.


           Desceu com cuidado a escadaria congelada da entrada do quartel, dando um animado aceno de despedida para os guardas que faziam vigia aquela tarde, um pouco por educação, um pouco para verificar se ainda não haviam morrido congelados. Andava distraída por Libério, pouca gente na rua, alguns aventureiros, os limpadores de neve e Pieck.
           Em passos lentos para poder admirar um pouco a capital no inverno, o lado de fora da Zona de Internamento era bonito, principalmente na neve que cobria os prédios como cobertas brancas de macias, os rastros de pneus deixadas nas ruas escuras e enlameadas, mas ela gostava seguir as pegadas das pessoas, se divertindo em encaixar seu pequeno pé na pegada de um transeunte que minutos antes fez o mesmo trajeto que ela, infelizmente uma de suas lojas favoritas, uma que nunca teve ou teria a oportunidade de entrar, a floricultura, estava com as portas e janelas fechadas, mas tinha certeza que quando o tempo melhorasse a proprietária voltaria a deixar o aroma das flores fluírem para a calçada, se não houvesse uma placa escrito "Proibido Eldianos" ela gostaria de poder comprar um vaso de suculentas coloridas para decorar seu quarto.
           Seu devaneio foi interrompido quando avistou alguns metros à frente na calçada oposta Zeke, o reconheceria em qualquer lugar, mas imaginou o que ele fazia ali, já que fazia algumas horas que havia ido embora e ainda estava por Libério, era proibido ficar vagueando fora da zona. Por algum motivo Pieck achou melhor não se aproximar, não deixar ser vista, ele não estava sozinho, havia alguém ao seu lado, um homem alto, mais alto que Zeke, de cabelos loiros pálidos cortados em formato de cuia, tentando puxar na memória alguém de aparência semelhante, mas ninguém veio em mente, e o mais estranho era a pessoa não usar uma braçadeira.
           Tentou acelerar o passo para acompanhá-los, da melhor forma que suas pernas curtas conseguiam, não poderia correr, mesmo se quisesse, se vissem um eldiano correndo ela seria abordada por algum guarda, então fez o possível para não os perder de vista mesmo que a distância fosse aumentando, até eles dobrarem em uma rua estreita. Pieck atravessou rapidamente a rua, os olhos fixos no ponto onde Zeke foi, mas ao chegar lá a única coisa que encontrou além de um beco cheio de lixo do comércio ao lado foi uma grande parede de tijolos, no começo pensou que eles tinham evaporado, mas havia uma pequena porta de madeira para onde dois pares de pegadas levavam.
           Voltou pelo mesmo caminho, verificando agora na rua principal que lugar era aquele para onde Zeke havia ido.
-Que merda é essa?
           Uma modista, o que aquilo significava, não fazia ideia alguma, olhou pela vitrine, havia uma adolescente da sua idade provando um vestido de debutante para a próxima estação enquanto a costureira alfinetava a bainha, uma senhora elegante sentada em um recamier usando um cachecol de raposa e outra mulher mais jovem onde sua função parecia entreter a matrona, cujo olhar de espanto foi seguido de um gritinho que Pieck conseguiu ouvir do lado de fora, chamando a atenção de todas enquanto apontada a piteira de ouro para a janela em direção a guerreira como se ela fosse uma assombração.
-Não sou eu quem estou usando um animal morto no pescoço-murmurou para si mesma
           A outra mulher, a que estava ali para agradar, foi até a porta e a abriu com brutalidade, apontando em silêncio para uma placa igual a dezenas de outras que adornavam as fachadas dos comércios, "Proibido Eldianos".
           Como ninguém ali parecia muito simpático e disposto em esclarecer a dúvida de para onde a porta lateral do prédio levava, Pieck voltou a seguir o seu caminho em silêncio, gravando bem aquele lugar e sem saber o que diabos Zeke foi fazer ali acompanhado de alguém que ela não conhecia, não que ela precisasse conhecer todos com quem Zeke conversava, mas aquilo era não só estranho, como suspeito.


           Estava agindo diferente, Zeke percebeu isso logo de cara, haviam se passado uma semana desde que Pieck simplesmente começou a olhá-lo daquela maneira desconfiada, desviando de seus beijos ou fugindo de seu encontro, pensou que duraria mais tempo antes de terem problemas.
-Pieck, o que aconteceu?
-Nada
-Pelo o que te conheço quando fala "nada" é porque tem alguma coisa
-Só um pouco preocupada com o meu pai, ele não tem dormido bem
-Não acredito em você
-Não posso fazer nada quanto a isso
           Acelerou o passo o deixando para trás no longo corredor do quartel, Zeke quis segui-la e tentar tirar a verdade dela, mas não tinha tempo para alimentar aquele tipo de atitude infantil. Parecia que tudo estava dando errado ao mesmo tempo, logo após se sentir feliz como nunca havia estado, tudo veio para baixo, não só com Pieck que adotou tal atitude inesperada, como com seu plano oculto que passava por um período difícil.
-Porra! Onde está todo mundo?-gritou no corredor sem medo de ser ouvido
           Zeke olhou em volta, os corredores lhe davam a impressão de ser a única pessoa ali, rodou por todos os cantos até achar Pieck e nesse período não encontrou ninguém, nem mesmo Colt para lhe distrair com suas perguntas incessantes.

           Olhava atenta pela janela uma imensidão branca e agitada que dançava pelo lado de fora, a neve caía haviam horas, naquela manhã ao sair de casa um pouco mais cedo que de costume para evitar fazer o caminho com Zeke, já havia uma grossa camada de neve que cresceu pela madrugada e os flocos despencavam sem cessar. O quartel estava quase vazio, quem poderia se dar ao luxo de ficar em casa ficou, nem mesmo Magath apareceu, o que fez Pieck se perguntar o que estava fazendo ali, sabia que faltas não justificadas acarretavam em punição, mas ela só encontrou meia dúzia de pessoas pelos corredores, andando de um lado para o outro procurando onde poderia ser útil, sem encontrar as pessoas com as quais normalmente trabalhava, assim ela ficou aquele dia enfurnada na biblioteca lendo, nem mesmo Eugenia, a bibliotecária estava lá, aparentemente sua bengala não era feita para dias de neve.
-Se ficar aqui esperando passar vai ficar dias sentada na janela
           Virou o rosto rapidamente para a voz que surgiu de súbito, nem notou sua aproximação, Zeke já estava ao seu lado segurando o casaco que Pieck deixou largado em seu escritório porque era o lugar mais pessoal que ela tinha naquele quartel, onde poderia guardar suas coisas e ter sua própria bagunça. Por mais que ela o estivesse evitando, era prática o suficiente para continuar usando o local.
-Acabei de ouvir no rádio, essa nevasca não deve parar tão cedo
           Ainda o estava ignorando, era uma atitude idiota, ela sabia, fazer cara feia sem nem ao menos tentar questiona-lo ou tirar alguma informação do que ele fez naquela tarde, mas Pieck não sabia como abordar o assunto, ou melhor, ela tiha medo de ter uma resposta, verdadeira ou falsa.
-Vamos Pieck, eu vou embora e não vou te deixar voltar sozinha no meio da nevasca
-Ainda não está na hora de irmos-pegou o casaco da mão dele, mas permaneceu olhando pela janela
-É quem está aqui para verificar isso? Magath está em casa, provavelmente sentado em frente a lareira bebendo whisky, de qualquer maneira se ele perguntar eu falo que eu te dei permissão para ir, sou seu superior de qualquer forma
           Nenhuma resposta, ele estava perdendo a paciência.
-Pieck-aumentou o tom de voz-Acabei de ver lá fora, a neve está na altura do joelho, se você não for agora vai ter dificuldades de voltar, ou prefere ficar presa sozinha no quartel?
           Bufou como uma adolescente rebelde e começou a vestir o pesado casaco por cima de seu sobretudo enquanto passava por Zeke em direção a saída, o loiro procurou ver aquilo como uma vitória. A contragosto a menina ficou agradecida por Zeke tê-la obrigado a ir embora, a neve cobria completamente os três primeiros degraus da escadaria da entrada, a menina abraçou o próprio corpo ao ser atingida pelo frio cruel, seria um caminho longo até a Zona de Internamento, colocou o capuz na cabeça e enfiou as mãos nuas dentro do casaco enquanto descia os degraus acompanhada de Zeke, sentindo os flocos de neve a atingindo com força.
-Tome-ele disse por cima do vento que rasgava o ar
           Pieck olhou para o par de luvas que ele oferecia.
-Não precisa, você vai ficar com frio
-Eu aguento-insistiu-Você costumava ser mais obediente quando era pequena
           Aceitou as luvas, elas ficavam tão largas que Pieck continuou a optar por deixar as mãos dentro do casaco para não as perder.
-Venha atrás de mim, eu vou abrindo caminho
           Em fila, Pieck ia seguindo a trilha aberta por Zeke, o loiro arrastava as pernas criando uma abertura em meio a grossa camada de neve, mesmo se não o estivesse ignorando uma conversa era improvável, o som agudo do vento de inverno era tudo o que conseguiam ouvir, o hálito quente formava uma nuvem esbranquiçada que por vezes cobria sua visão, toda Libério estava coberta por uma grossa camada de neve, e eles eram o único sinal de vida além das chaminés que tossiam fumaça.
           Pieck tentava se orientar, já havia feito aquele mesmo trajeto milhares de vezes, mas não se lembrava de nenhuma nevasca impedindo seu caminho, ainda que escondidas pela neve ela poderia reconhecer os prédios, até notar a modista que naquele dia, como esperado, estava fechada.
-Zeke-o chamou, mas sua voz não foi ouvida-Zeke!-gritou por cima do assobio do vento
-Sim?
           O loiro se virou, encarando curioso, abraçando o próprio corpo, haviam flocos de neve presos em sua barba.
-O que você estava fazendo naquela loja semana passada?
-Hã?
           Acompanhou onde a menina apontou o dedo enluvado, por um instante ela percebeu que havia um olhar de espanto nele, mas voltando ao olhar tranquilo de sempre.
-Por isso tem estado zangada comigo? Pieck, não é o momento para discutirmos isso
-O que estava fazendo lá?-insistiu
-Se eu disser que fui encomendar um vestido para você vai estragar a surpresa
           Nenhum sinal de diversão nela, pelo visto o Zeke  divertido não funcionaria naquele momento.
-Quer mesmo saber? Se eu mostrar vai parar de me ignorar?
           Acenou com a cabeça, mantendo um olhar determinado sem se importar em como os sentimentos de neve pela rua iam crescendo.
-Encontrei um antigo colega do exército, um marleyano que serviu na época em que eu havia acabado de me tornar guerreiro, ele me pediu ajuda para pegar algumas ripas de madeira, não sei o motivo porque não me era relevante
           Pieck continuou a encará-lo, notando como apenas alguns segundos parados foi o suficiente para formar uma fina camada de neve em seus ombros. Zeke bufou, exalando uma grossa nuvem de calor semelhante a quando fumava, só que mais densa.
-Vem comigo
           Segurou seu braço e desviaram o caminho, atravessando a rua com dificuldade e cuidado com o meio fio, a menina se deixou levar, como sempre fazia quando Zeke tomava a dianteira. Como esperado a porta lateral estava fechada, claro que estaria, ele sabia disso, ela sabia disso, o grande cadeado era mais que suficiente, porém Zeke continuou andando até a porta. A menina estava em silêncio esperando para ver o que ele pretendia, quando o homem passou a manipular o trinco, puxando um parafuso mal colocado, a tranca se desprendeu da madeira.
           Espantada com tamanha ousadia, ainda mais sendo feita fora da Zona de Internamento, olhou automaticamente para o próprio braço, havia colocado o casaco com tanta pressa que esqueceu de pôr a braçadeira por cima, o mesmo com Zeke, então quem os visse não os identificariam como eldianos, e o tom escarlate de suas braçadeiras os tornavam facilmente reconhecidos.
-Olhe lá dentro
           Pieck deu alguns passos em direção a porta, vendo um longo e estreito corredor repleto de ripas de madeira, tantas que quase parecia impossível seguir para onde quer que o corredor levasse.
-O que imaginou que eu estivesse fazendo?
-Não sei-abaixou o rosto envergonhada
-Achei que nos conhecêssemos o suficiente para evitar esse tipo de coisa
-Desculpe
-Podemos deixar esse assunto de lado e voltar ao normal?
           Afirmou com a cabeça, seu rosto estava quente, um único sinal de calor no meio daquela neve.
-Agora vamos indo
           Pieck seguiu em silêncio, Zeke costumava dizer sempre que ela estava certa, mas talvez não fosse sempre, por mais que ela ainda achasse que sim.
           Entraram na Zona de Internamento, o guarda escondido dentro de sua cabine comentou que eles foram os únicos eldianos corajosos o suficiente para saírem de lá aquele dia.
           Não existe nada mais triste que aquele aglomerado cercado por um muro durante o inverno, tudo parecia morto, mesmo com as luzes das janelas indicando que ainda havia vida dentro deles, Zeke nunca gostou de lá, mas gostava menos ainda no inverno, existe uma diferença entre ser solitário por si mesmo, e ser solitário ao seu redor.
-Vamos dar uma pausa aqui
           Zeke interrompeu o passos quando estavam em frente ao prédio dele, o apartamento onde Pieck morava ficava algumas quadras a frente, nunca recebeu um convite para entrar, sempre ansiou por isso, e a eterna expectativa lhe fez parecer que nunca conheceria aquele cantinho que Zeke chamava de lar, mas estar ali em frente com ele a chamando para entrar pareceu tão absurdo, não era um dia diferente de tantos outros onde ela passou por ali, então não tinha motivos para entrar.
-Posso ir sozinha o restante do caminho
-Não perguntei, vamos
           Sua mão queimou na maçaneta gelada, deixando uma grande quantidade de neve entrar ao abrir a porta, Pieck notou como seu corpo estava frio quando saiu do meio da nevasca. Os corredores e escadas não estavam muito bem aquecidos, ela mal conseguia ouvir o som dos vizinhos, como se aquele prédio não tivesse muitos inquilinos.
           Subiram lentamente os vários degraus até o andar onde Zeke morava, aquelas escadas não eram estranhas, porém o máximo que já foi, era até a porta, ela sabia qual era, algumas vezes até deu uma espiada do lado de dentro, mas ter a porta aberta esperando sua passagem tornou tudo diferente.
           Deu espaço para a garota entrar, ela o ouviu fechar a porta, seus olhos curiosos foram direto para uma porta de madeira branca, ela não precisaria pensar muito para adivinhar qual cômodo ficava do outro lado. Prendeu a respiração ao senti-lo andando atrás dela, sua presença fez seu corpo ficar tenso, eram apenas eles dois ali dentro, e mais uma vez sua imaginação estava aflorada, quando ele se aproximou, levando a boca perto de sua orelha, Pieck sentiu um arrepio profundo que fez todo seu corpo tremer.
-Bem-vinda
           Não sabia bem o que sentir ao entrar no apartamento de Zeke, tinha um cheiro forte de cigarro, as paredes eram cobertas por um papel de parede amarelado de tabaco com padrões hexagonais, o sofá parecia novo, o rádio nem tanto, porém um modelo de aspecto caro, o chão de madeira estava com alguns arranhões, havia um grande mapa mundi pregado na parede e uma escrivaninha cheia de papelada.
           Sua roupa estava pesada, a neve derreteu e a deixou molhada, mesmo por dentro, sua calça estava encharcada e seu corpo tremia, agora de frio, não ficaria doente, mas era horrível. Enquanto Zeke ligava o aquecedor ela tirou o casaco e sobretudo, mesmo sua camisa por baixo estava úmida de flocos de neve que penetraram as camadas superiores de roupa.
-Vou preparar um banho quente para você
-Não precisa-respondeu quase com um grito de espanto
-Estou morrendo de frio e vou tomar banho, se só eu o fizer ficarei me sentindo culpado
           Não a esperou responder, tomou as peças de suas mãos, as colocando penduradas ao lado do aquecedor para secar, logo então desaparecendo para dentro de um cômodo, a menina continuou parada perto da porta sentindo suas calça irem gelando aos poucos, o aquecedor não parecia ser muito rápido em dominar o ambiente. Ouviu o som de água corrente vindo do que ela constatou ser o banheiro, depois Zeke passou rapidamente para outro cômodo, ouvindo o som dele mexendo em gavetas.
           Suas pernas tremiam e ela suspeitava que não fosse de frio, nunca havia estado em seu apartamento, e agora ele queria que ela tomasse banho, alguns anos, ou melhor, meses antes, ela não teria visto nada alarmante nisso, hoje era diferente, o relacionamento deles mudou muito no último mês, ou será que Zeke estava certo em imaginar que Pieck adquiriu o costume de ver segundas intenções em tudo o que acontecia?
-Roupas e toalhas para poder tomar banho-apareceu segurando algumas peças dobradas
           Lhe entregou a pilha, Pieck não viu o sorriso dele porque estava muito ocupada analisando um risco na madeira do chão, seu rosto ainda estava rosado, ela queria acreditar que era alguma queimadura de frio que logo iria curar.
-A banheira vai levar um tempinho para encher, os canos costumam congelar, mas por sorte ainda tem água
-Obrigada
-O que foi Pieck-chan?
           Se inclinou para estar a sua altura, procurando seus olhos escondidos pelo rosto que encarava o chão, estava totalmente corada e ele queria muito lhe dar um beijo.
-Outra vez pensando coisas inapropriadas?
           Tirou uma mecha que cobria seu rosto, enrolando os dedos no cabelo preto e brilhante, o prendendo atrás da orelha, o movimento já feito tantas vezes naquele momento pareceu mais íntimo que nunca.
-Por que me chamou para entrar? Você nunca fez isso?
-Para sairmos da nevasca e também porque queria ficar um pouco com você, feriu meus sentimentos a maneira como estava me tratando-colocou a mão no peito fingindo dor
-Desculpe, é que eu...
-Tudo bem, eu entendo, só estou magoado por ter suspeitado de mim, e por ter optado por me ignorar ao invés de perguntar diretamente. Achei que confiança era algo que tivéssemos de sobra
           Desviou o olhar constrangida, parecia que ele queria fazê-la se sentir culpada.
-Está com fome? Vou preparar alguma coisa para comermos
-Você sabe cozinhar?
           Sua provocação era uma tentativa nervosa de consertar a situação que causou.
-Claro que sim, afinal, sou um homem solteiro que mora sozinho
           "Solteiro" a palavra ecoou por sua mente, mas não era como se ela tivesse como contestar.
           Quando Zeke tocou seu rosto ela percebeu que seus dedos estavam gelados, tão gelados que era como ser tocada pelo próprio inverno, ainda usava as luvas que ele emprestou, o que a fez se sentir ainda pior já que suas mãos pareciam a única parte do próprio corpo que estavam quentes.
           Abraçou as roupas dobradas que recebeu enquanto Zeke lhe dava um doce beijo, um beijo que ele queria ter dado havia muito tempo e ela recebia com fervor, foi uma semana sem sentir verdadeiramente os lábios um do outro, não percebeu que estava com tanta saudade assim.


           Ficou tempo demais encarando os azulejos de padrões pontilhados, tanto que já poderia contar quantos eram, a água estava fria e seu corpo começou a tremer, mas ela queria continuar escondida no banheiro. Poderia ouvir Zeke na cozinha, o som das panelas, dele cortando algo na tábua de madeira, até mesmo o sopro do gás que saia do fogão e alimentava as chamas.
           Temia o momento em que Zeke fosse bater na porta e perguntar se estava tudo bem, se ele ainda não havia ido verificá-la então provavelmente não estivesse lá a tanto tempo assim, mas talvez só quisesse lhe dar seu próprio tempo como sempre o fez.
           Pieck se ergueu em um pulo tomando coragem para encarar o lado de fora daquela caixa de azulejos e porcelana, saiu da banheira e enquanto a esvaziava pegava a toalha dobrada que a aguardava, se secando e tentando não imaginar que Zeke provavelmente já havia usado aquela toalha, se secou lentamente antes de pegar as peças de roupa separadas para ela.
           A camisa que vestia era confortável e tinha um cheiro erva-doce, ainda não corrompida pelo fedor de cigarro, usava calções que estavam caindo na cintura, mas apertados no quadril e nas coxas, Pieck odiava usar qualquer peça que não fosse vestido ou saia porque era o que acontecia, se sentia limitada e esperava que fosse atrair olhares.
-Mas acho que se for o Zeke não tem problema
           Disse para seu reflexo enquanto amarrava o cadarço do calção para dar mais segurança. Respirou fundo antes de destrancar a porta e sair, logo que colocou os pés do lado de fora sentiu o aroma de comida, percebeu então que estava realmente com fome, seus pés levavam choques do chão gelado, e conforme ela ia se aproximando parecia que a madeira fazia ainda mais barulho.
-Mais alguns minutos e...
           O loiro se virou para falar com a garota quando parou, seu coração palpitou tão rápido que agradeceu ser um portador de titã, um coração humano não teria conseguido suportar a intensidade.
           Acompanhou cada pedaço dela, dês dos pés bem pequenos descalços, até suas pernas pálidas e tênues, a camisa era grande o suficiente para cobri-la até quase os joelhos, dando a impressão de não usar nada por baixo, mas ele via o contorno de suas coxas que lhe despertou uma necessidade de apertá-las e sentir com as próprias mãos, então indo para a camisa larga sendo vestida por ela e como seus seios estavam marcados no tecido. Sua respiração ficou um pouco pesada, havia um calor no peito que não permitia Zeke de dizer nenhuma palavra, sua intenção era distraí-la um pouco, mas pelo visto ele é quem estava se distraindo.
-Zeke?
           Sabia o que ele estava pensando, seus olhos não só estavam passeando por ela, como imaginando o que queria fazer, e isso só lhe deu mais ciência das roupas que vestia.
-Ah, sim-despertou de seu devaneio, sentindo o rosto esquentar, por sorte a barba conseguia esconder seu desconcerto-Mais alguns minutos e vai ficar pronto, eu vou tomar uma ducha enquanto isso
           Respirou fundo enquanto voltava a atenção para a panela, podia sentir os olhos da menina queimando suas costas.
-Poderia ir arrumando a mesa? Tem pratos naquela prateleira
           Indicou com a cabeça o local, Pieck em silêncio se juntou a ele na pequena cozinha, deu uma olhada na altura em que ficava a prateleira suspensa em cima da pia, precisando ficar na ponta dos pés para alcançar a alça da porta, ela os viu um pouco afastado da beirada alguns pratos. Se esticou o máximo possível para alcançar, quando ficou paralisada ao sentir Zeke lhe cobrindo por trás.
-Desculpe, erro de cálculo
           O corpo dele era grande suficiente para escondê-la por completo, o abdômen musculoso e forte pressionando suas costas, por algum motivo que ela não queria realmente saber qual, inclinou levemente o corpo para trás para sentir mais dele. A proximidade lhe deixou notar que a respiração de Zeke perdeu levemente o compasso.
-Aqui, agora vou tomar um banho, fique a vontade
           Rapidamente colocou a mesa, identificando que aqueles pratos faziam parte do conjunto que a senhora Yeager tinha, ouvia a água correndo no banheiro, então aproveitou para dar uma olhada, não que o lugar fosse grande, mas Zeke morava lá havia anos e era sua primeira vez ali. Deu uma olhada na sua prateleira de livros, só livros geográficos e históricos, nada que a interessasse ao ponto de pedir emprestado, havia um bar com várias bebidas caras, a janela dele ia em direção aos fundos, o que garantia uma certa privacidade, Pieck então foi espiar o único cômodo que não entrou, o quarto. Era uma falta de educação, sabia disso, mas sempre foi muito curiosa, havia uma cama de solteiro, uma cômoda, a mesa de cabeceira onde repousava um cinzeiro transbordando de cinzas e bitucas de cigarro e um guarda-roupa.
           O som da água parou, o que a fez ir rápida e silenciosamente de volta para a sala, se sentando comportada no sofá enquanto esperava.
-Talvez um pouco de som-disse para si mesma ao engatinhar até alcançar o rádio
           Abriu a porta lentamente enquanto a ouvia sintonizando o rádio, deu de cara com a menina em uma posição...tentadora, rapidamente voltou a fechar a porta, se encostando contra a madeira e respirando fundo. Talvez tenha sido muito impulsivo em convidá-la para ir a sua casa, tentar fingir com Pieck era mais difícil que qualquer pessoa, tanto por ela ser observadora e inteligente, quanto por ele baixar a guarda na sua presença, e agora ela estava do outro lado da porta usando as suas roupas de quatro no sofá.
-Zeke, você sempre soube que ela era um perigo para você, mesmo antes de beijá-la, agora aguente as consequências-repreendeu a si mesmo
           Deu uma espiada pela fresta da porta, agora ela estava sentada e o rádio comunicava o noticiário, quando notou sua presença a menina puxou a barra do calção para baixo que ia subindo de vez em quando, mesmo que a peça não fosse visível ela queria poder sentir que estava um pouco mais coberta que parecia.
-Só consegui sintonizar nessa estação
-Acho que é melhor que o silêncio-seus olhos desviaram para um troféu que ficava estrategicamente ao lado do rádio antes de voltar a olhá-la
-Tomou banho rápido
-Não poderia deixar minha visita esperando
           Pieck deu um pulo do sofá quando Zeke a chamou para comer, estava curiosa em experimentar algo preparado por ele.
-Carne com batatas?
-Sei que você adora
-Zeke, assim eu vou começar a querer que você cozinhe para mim sempre
-Por que não? Agora que já conhece meu apartamento pode vir sempre que quiser-disse enquanto a sérvia
-Qual era mesmo o motivo? Ah sim, "Não fica bem uma menina ir até a casa de um homem que mora sozinho"-ergueu uma sobrancelha provocativa
-Posso dar a desculpa que eu te resgatei no meio da nevasca
-Como sempre gostando de ser visto como um herói-apreciou o cheiro delicioso do prato a sua frente
-Sou o principal guerreiro de Marley, é de se esperar, correto?-se sentou na cadeira do outro lado
-Agora sei porque não tenho um escritório, preciso começar a salvar as pessoas
           Quando levou a primeira garfada à boca a menina precisou admitir que ele cozinhava bem, era realmente delicioso, ela não tinha muitas expectativas, mas estava uma delícia.
-Estou pronto para os elogios-seu sorriso maroto a deixava totalmente exposta
-Chefe de Guerra, o senhor está desperdiçando seus talentos no exército
-Fico honrado com o elogio senhorita Finger

           Quantos pratos comeu? Bom, não importava, ainda bem que Zeke havia feito bastante já que eles esvaziaram o conteúdo da panela, agora Pieck precisou afrouxar um pouco a corda do calção que apertava sua barriga, a menina se levantou e levou os pratos para a pia, abrindo a torneira e recebendo a água gelada.
-Não precisa fazer isso
-Você cozinhou, eu devo ao menos limpar
-Deixa isso
           Zeke fechou a torneira e a puxou em direção a sala, sentando-a no sofá antes de seguir até onde ficavam suas bebidas, servindo dois copos cheios de conhaque, Pieck já havia visto isso acontecer antes e o desfecho foi interessante. Ao retornar para o sofá, desviou um pouco o caminho, levando um troféu que estava ao lado do rádio um pouco mais para perto da saída do som.
           Entregou um copo para Pieck antes de sentar ao seu lado, a menina deu um pequeno gole enquanto notava pelo relógio na parede que já era tarde, mais tarde do que o horário em que ela normalmente chegava em casa.
-Preciso ir, meu pai deve estar preocupado
-Ele deve achar que você está presa no quartel por conta da neve, o que seria verdade se eu não a tivesse tirado de lá
-E que horas pretende me deixar ir, Chefe de Guerra?
           O homem virou o rosto em direção a janela, a neve não havia parado desde que chegaram, depois voltou a encará-la com um sorriso jovial nos lábios.
-Quando o tempo melhorar-podia sentir uma fagulha de travessura brilhando em suas iris azuladas, isso a fez sorrir enquanto bebericava o conhaque
-Sabe que isso pode não acontecer hoje ainda
-Que pena, assim você precisaria dormir aqui
           Seu espanto foi visível, tudo bem que já estavam "juntos" havia mais de um mês, porém ele sempre foi bastante sutil com ela, tirando na primeira vez ele não costumava tocar onde não achava que deveria tocar, por mais que ambos quisessem sentir sua mão explorando aquele corpo, e uma vez ou outra, durante um beijo mais intenso, sentiu algo rígido a pressionando, sabia bem o que era, mas logo Zeke se afastava e interrompia tudo. Foi um passo bem grande para ser tomado do nada, se perguntou se era efeito da semana em que ficaram sem qualquer tipo de contato físico ou se sua atitude era intencional.
-Pieck-chan, seu rosto é tão precioso quando fica pensando essas coisas impróprias
           Tentou procurar uma posição mais confortável no sofá, olhando em volta para ignorar como Zeke a encarava, aquele era o Zeke que ela gostava, o Zeke que a deixava indefesa e boba, que fazia seu corpo esquentar e anuviava seus pensamentos.
-Se não quiser beber não precisa-comentou ao notar que ela encarava muito a bebida
           Em resposta deu um longo gole no conhaque, Pieck havia pego um gosto por bebidas alcoólicas, se escondendo com Zeke no escritório e provando um pouco de cada garrafa que ele tinha na gaveta.
-Vai com calma-disse aos risos
-Pensei que sua intenção era me embebedar
-De forma alguma, o que quer que aconteça, a quero bem consciente
           Seus dedos tiraram o cabelo do caminho, o ponto fraco, ele era tão injusto, a menina mordeu os lábios em antecipação enquanto sentia ele se aproximar. A barba roçando por sua pele, a maneira como ele gostava de dominá-la, segurando seu rosto a impedindo de se mexer enquanto fazia o que queria, e ela ali, tão necessitada de seu toque.
-O que pretende?-conseguiu reunir forças para formar uma pergunta
-Não tenho nada planejado-depositou um leve beijo em sua pele pálida-Pode não parecer, mas as vezes gosto de ser espontâneo
           Zeke deu um gole na própria bebida, Pieck o acompanhou, agora sentindo a lembrança daquele dia na tenda, quando o álcool aqueceu seu corpo e purificou sua mente.
-Precisou eu te ignorar para receber um convite-olhou em volta, o apartamento era como ela imaginou, ainda assim prendia sua atenção em cada detalhe-Deveria ter feito isso antes
-Não somos os mesmos de antes, Pieck, você sabe disso
-Sim, realmente-concordou
           Dois meses antes ela provavelmente teria uma sensação mais plácida e menos tensa ao estar sozinha com Zeke, suas expectativas seriam outras, por mais que a atração mútua já estivesse ali, eles não seriam afetados da mesma forma.
-Quando eu o vi lá, eu pensei...
-Não vamos falar disso-a interrompeu rapidamente, seus olhos tinham um alerta estranho, como se temesse o que ela fosse dizer-Vamos esquecer, ok?
-Ok
           Os olhos de Zeke demoraram demais nela, se prendendo a cada detalhe daquele rosto que conhecia tão bem, ele queria sempre tê-la bem marcada em sua memória caso um dia não se vissem mais, caso um dia ele precise ir e deixá-la para trás. Inconscientemente lembrou da pequena Pieck, a menina que lutava para se tornar guerreira, com seu rabo de cavalo bagunçado, um olhar entediado que enganava os desavisados que julgavam que ela não pensava em nada especial quando na verdade era uma grande observadora, seu ódio velado por qualquer tipo de treinamento físico e em como ela sempre mantinha a postura muito ereta diante dos superiores para parecer alguns centímetros mais alta. Isso arrancou uma risada deliciosa do loiro que com toda certeza não saberia o que seria de si caso Pieck tivesse ido para a missão em Paradis com os outros, pela primeira vez Zeke foi grato a Marley.
-O que foi?
-Você é tão linda, Pieck. Você é a melhor coisa que me aconteceu em muito tempo
           A declaração inesperada a fez se sentir perdida, corando violentamente sem saber como responder, tentou desviar o olhar, mas ele pegou seu queixo e o segurou para que o olhasse diretamente.
-...-Zeke abriu a boca para falar algo, mas o que quer que fosse foi deixado de lado, preferindo o silêncio
           Acariciava seu rosto com o polegar, como se estivesse tentando provar que ela era real, que estava ali, e não um fruto de sua imaginação.
           Pieck deu um último gole em seu conhaque antes de deixar o copo na mesinha, também para tentar sair do olhar tão intenso que recebia de Zeke, ele fez o mesmo, sem nem ao menos terminar sua bebida.
           Antes mesmo que a garota pudesse reorganizar os pensamentos vindos das palavras de Zeke, o loiro se aproximou, sorrindo em como ela em expectativa arfou antes mesmo de tocá-la. Sentindo a barba dele arranhar sua pele enquanto inalava o cheiro doce da pele entre o pescoço e a nuca.
           Queria ser beijada diretamente, mas Zeke parecia tão dedicado em fazê-la sofrer um pouco, sentia seus mamilos duros pressionando contra a camisa e um calor já conhecido no ventre, porém nunca foi tão intenso quanto agora. Uma mão chegou até sua coxa, ela poderia sentir com precisão como seus dedos traçaram por cima do tecido, bem no ponto em que ele estava mais apertado, ela sentiu um sorriso contra seu pescoço.
-Acho que minhas roupas não estão preparadas para seus atributos físicos
           A manejou com delicadeza, ela parecia um fantoche em seus braços, puxando suas pernas até estar em seu colo, continuando a alisar suas coxas, sua respiração ficou irregular, não sabia o que fazer com as próprias mãos, assim repousou uma no joelho de Zeke e a outra segurava seu ombro para manter-se firme enquanto o homem se deliciava com a garota sentada em suas pernas.
           A mão dele foi subindo, encontrando o cadarço da peça e brincando um pouco com ele, por um momento Pieck achou que ele fosse desamarrar, mas Zeke continuou a ir mais para cima, a jovem sentiu um arrepio quando ele tocou a pele de sua barriga por baixo da camisa.
-Tão macia-sussurrou em seu ouvido-Quer que eu continue?
           Afirmou com a cabeça, impossibilitada de dizer algo no momento. Segurou seu rosto com aquelas mãos que ela tanto desejava, lhe dando um longo beijo que poderia ter levado uma eternidade que não estariam satisfeitos, aproveitando que ainda tinha a mão dentro da camisa, Zeke percorreu mais seu caminho pelo corpo de Pieck, a mão dele continuou a subir, muito lentamente, querendo sentir cada centímetro daquele lugar nunca visto nem tocado, ele demorou em chegar ao tórax, podia sentir com precisão os cinco dedos pressionando sua pele se arrastando um pouco mais para cima, antes de parar, chegando tão próximo aos seios que sentiu a garota tremer por completo. Esperou, imaginando que ele fosse continuar, mas as mãos se afastam, achando que estava indo um pouco rápido demais, ele recuou, voltando a mão para fora da camisa, a segurando pela cintura sem interromper o beijo, mas quem o fez foi ela.
-Não pare-sua voz saiu em um suspiro quase inaudível
           Zeke encarou aqueles olhos negros e brilhantes como tumalinas, nunca viu tal expressão nela, era suplicante, como se fosse impossivel ela seguir em frente caso ele não prosseguisse, a garota conseguia sentir entre as pernas dele aquele volume duro e firme que normalmente ele fazia questão de disfarçar, abaixou levemente os olhos, notando envergonhada que sua calça estava extremamente apertada na virilha, ela desceu a mão que estava no ombro dele, arranhando o tecido da camisa com as unhas, sentindo por baixo o abdomen firme que tantas vezes a fizeram acender um estranho calor no ventre quando ainda não entendia bem o que era aquele efeito, mas no momento o que lhe chamava era aquela protuberancia mais abaixo, Zeke notou para onde ela estava indo, queria deixa-la continuar, mas precisavam de mais privacidade.
-Vamos para o quarto
           Não foi uma pergunta, a tirou de seu colo e a puxou do sofá, colocando a menina entre seus braços em frente ao seu corpo enquanto a guiava para o cômodo onde achou que ela ainda não havia visto, a luz estava apagada, ele não fez questão de acender.
           A indicou o caminho até a cama, a garota se sentou timidamente, o rubor de seu rosto era suficiente para iluminar o quarto.
-Me diga, Pieck-chan, alguma das vezes que ficou imaginando como seria meu apartamento, imaginou que terminaria na minha cama?
           Não respondeu, estava muito nervosa para dizer qualquer coisa, Zeke a encarava de pé, era uma situação de explícita dominância, a tensão no cômodo era sufocante, ela podia sentir que Zeke sentia a mesma necessidade dela em seguir em frente, em se deitarem e não pensarem nas consequências, porém o loiro continuou em pé, até que ela se viu obrigada a levantar o rosto e verificá-lo. O escuro não lhe deixava distinguir seu rosto com precisão, mas viu como sua respiração estava pesada, parado a encarando, como uma criança que acabou de receber um brinquedo tão incrível que nem sabe como brincar.
-Já pensei várias vezes nesse último mês o que faria se tivesse essa oportunidade, porém agora que estou aqui me sinto um pouco perdido-confessou em uma rara admissão de fragilidade
           Pieck estendeu o braço para ele, o chamando para se juntar a ela, Zeke tirou os óculos e os colocou na mesa de cabeceira antes de aceitar sua mão, sendo puxado pela garota para a cama enquanto ela lentamente ia se deitando, o lembrando a posição em que ficaram na tenda dele no acampamento durante o primeiro beijo, parecia que ela queria voltar no momento em que pararam aquela noite e seguir com o que não foi permitido por Zeke. Ela era ótima em lhe guiar quando ele estava perdido, mostrar o caminho, o levando por uma estrada onde conseguia se sentir vivo por mais que essa fosse uma rota que lhe desse medo.
           Mas não aquela noite, ele se libertaria em ignorar quem era, o que pretendia, qual era seu destino e objetivos. Não queria saber quem foi ontem ou quem seria amanhã, só importava quem era agora.
           Seus olhos o prendem com mais poder que qualquer Coordenada, imaginou se ela tinha ciência do tamanho controle que conseguia exercer nele.
           As mãos da garota continuaram a trazê-lo ao seu encontro, afastando levemente as pernas para deixá-lo se encaixar, conseguindo sentir contra o quadril o resultado que provocou nele, sua ereção pressionava-a com firmeza
           Prendeu a respiração quando levou a mão do homem em direção a camisa, colocando ambas por baixo do tecido, e levando a dele mais para cima, próximo aos seios que ela queria que fossem tocados.
-Sou eu quem deveria estar te mostrando o que fazer-brincou enquanto imaginava o quão determinada ela estava sendo, já que era a primeira vez que chegando naquele tipo de carícia
-Desculpe-soltou a mão dele, colocando os braços estendidos ao lado do corpo-É que eu quero muito fazer isso
-O que tem passado por essa sua mente nesse último mês?
-Não foi só no último mês que tenho pensado nisso
           Aquelas palavras abalaram Zeke, pelo visto toda aquela impaciência foi por conta de muito tempo de espera, mas ele sabia que não era tão longo quanto o dele.
-Quer que eu toque aqui?-sussurrou em seu ouvido
           Sua mão ainda estava no lugar onde Pieck a deixou, dentro da camisa, a poucos centímetros dos seios da jovem, a mesma acenou com a cabeça enquanto mordia os lábios, as mãos de Zeke tinham uma delicadeza e suavidade que muitos duvidavam existir, mas o modo como ele se preocupou em controlar os próprios desejos e ser carinhosos foi percebido pela jovem.
           Quando enfim ele os acolheu em concha a menina prendeu um suspiro, com a outra mão o loiro aproveitou para puxar o tecido para cima, lhe revelando um par de seios lindos, empinados e orgulhosos, tão macios que ele poderia ficar se divertindo ali por muito tempo. Depositou um beijo no espaço entre eles, sua barba fazendo cócegas na pele sensível.
-Você é perfeita
           Abocanhou um seio na boca ao mesmo tempo que Pieck esqueceu como respirar, não sabia bem receber as reações de seu corpo, estava deitada deixando Zeke agora no comando, se condenou por não ter procurado saber melhor, porém não acreditava que saberia o que fazer de qualquer forma, ele era muito bom naquilo. O seio direito era acariciado por sua língua, desenhando traços firmes e saborosos no mamilo rosado, enquanto o outro recebia uma sedenta massagem, Pieck mantinha os olhos abertos encarando o teto, mas só conseguia se concentrar na sensação eletrizante que percorria seu corpo.
           Sorrateiro, Zeke deslizou a mão livre por seu corpo, arranhando a pele de suas costelas avisando para onde estava indo, chegando na barra da bermuda, pensou em pedir permissão, mas a própria Pieck se adiantou e desamarrou o cordão, deixando a peça frouxa e fácil de ser retirada, em resposta a sua ousadia, Zeke deu uma leve mordida em seu mamilo, sentindo em si o calafrio que percorreu por todo o corpo de Pieck.
           Se ajoelhando na cama, Zeke pegou a barra da bermuda com ambas as mãos e a abaixou, Pieck lhe ajudou erguendo o quadril enquanto o loiro mantinha os olhos fixos naquele ponto entre suas pernas, cobertos por pelos escuros e ralos formando um triângulo tentador. Sua expressão era lasciva enquanto voltava a se deitar sobre Pieck, fisgando seus lábios ao mesmo tempo em que sua mão começou a apertar suas coxas, macias e grossas, tão forte que provavelmente estava deixando a pele marcada.
           Enterrou o rosto em seu pescoço, mordendo seu ponto fraco enquanto sua mão afastava delicadamente suas pernas, procurando espaço para se enfiar no meio delas, quando seus dedos encontraram a abertura pode sentir como ela estava molhada. 
-Respire-disse a beirada de seu ouvido
           Sua ordem a fez notar que estava prendendo a respiração, ainda com os olhos fixos no teto, Pieck era invadida por uma confusão, estava em um misto entre prazer e o nervosismo de ser tocada pela primeira vez.
           Seus dedos abriram caminho entre suas dobras, encontrando aquele ponto de prazer que a fez se arrepiar.
-Feche os olhos, sinta meu toque
           Encantava-o como ela era obediente naquela situação, a recompensou com um leve beijo nos lábios, depois descendo pelos ombros, seios, barriga e chegando já perto de sua virilha ela abriu um pouco mais as pernas, dando a ele caminho.
           Substituiu o dedo pela boca, alisando o clitoris com a lingua até em baixo, em sua entrada molhada, seu gosto era delicioso, doce e aromático, Zeke teve poucas oportunidades de dar esse tipo de prazer a uma mulher, e nenhuma delas se comparava a Pieck, por isso se dedicou em seu melhor. Enquanto sua boca chupava com deleite seu clítoris, ele usou os dedos para estimulá-la mais abaixo, tentou colocar um dedo dentro, mas foi contido pelo selo de virgindade que a garota ainda carregava, por enquanto. Isso só o deixou mais excitado, a ideia de ser o primeiro de Pieck, o primeiro homem a tocá-la, sua língua quente explorou aquele espaço intocado, ansiando para estar dentro dela.
           Com o polegar iniciou movimentos circulares em seu ponto de prazer, fazendo a jovem menina se contorcer alienado, cravando as unhas no colchão e mordendo os lábios para conter os gemidos que mesmo assim acabavam escapando, o loiro conseguiu identificar quando ela se aproximou do clímax, o tornando obstinado em dar a ela uma sensação inesquecível, ela começou a tremer, elevando o abdômen formando um arco com o corpo, gemendo e se contorcendo em um frenesi incontrolável, soltando um leve grito longo e abafado enquanto explodia em gozo bem na boca de Zeke que não parou até ela voltar a cair silenciosa no colchão.
           Pieck respirava pesadamente, tentando entender o que era aquilo, nunca havia se tocado, sabia que orgasmo era uma sensação de prazer incrível, mas nada a havia preparado para aquilo, ao mesmo tempo que seu corpo ficou dormente sentia leves arrepios dos dedos dos pés até a ponta do nariz.
           Lambia os lábios enquanto a aguardava se recompor, ainda estava com as pernas abertas, sua vagina brilhava de gozo, Zeke se sentou na ponta da cama, estava tão duro que chegava a doer, alisou levemente a si mesmo, dando um alívio ao pau que latejava pedindo por atenção, o movimento não passou despercebido por Pieck.
-Quero fazer isso em você também-se sentou na cama, engatinhando até ele em busca de seu corpo-É muito injusto você continuar vestido
           Segurou a barra de sua camisa, a puxando pela cabeça para ser recebida pelo abdomen incrível de Zeke, querendo senti-lo diretamente, traçou cada músculo definido, sentindo os pelos de seu peito, loiros e finos quase invisíveis, acariciou seus ombros largos, os braços firmes, ela achava os braços de Zeke tão bonitos. Parecia ter sido todo esculpido pelas mãos de algum grande artista antigo, que criava estátuas de mármore muito anos antes, uma criação que ganhou vida e agora estava diante dela.
           A deixou se divertir um pouco, traçando as veias salientes de seu antebraço, sentindo seus músculos trabalhados, segurando seu rosto com ternura e lhe dando um leve beijo, sentindo seu gosto nele. Pieck delineou a linha em V de seu quadril, depois parou na barra da roupa, olhando com cobiça o volume pelo tecido.
           Entendendo o que ela queria, Zeke se levantou levemente da cama, tirando o último obstáculo para estarem ambos nus, ela mantinha o olhar surpreso no órgão, era a primeira vez que via um de perto, era grosso, rígido e ao mesmo tempo macio, a ideia de tê-lo dentro de si, no lugar onde Zeke mal conseguiu colocar um dedo lhe trazia dúvida e prazer. Como passou os últimos anos constantemente em meio a homens em zonas de guerrilha, ela sabia muitos nomes para aquela parte do corpo, mas não lembrava de nenhum que fizesse jus ao de Zeke. Explorou cada centímetro dele com os dedos, da base até a ponta onde saia um líquido quase transparente que o fazia brilhar, seus toques acabaram fazendo Zeke soltar um suspiro.
-Assim está bom?-ela perguntou, embora ele parecesse gostar
-Um pouco mais rápido-sua voz estava embargada-Firme
           A orientou em como masturba-lo, sua mão pequena mal conseguia dar a volta ao redor, ela olhava com tanto vislumbre que Zeke começou a ficar sem graça, mas para sua surpresa, a garota foi aproximando o rosto até tocar a cabeça com os lábios rosados, fazendo o loiro perder ligeiramente a estabilidade das pernas ajoelhadas no colchão.
-Pieck-gemeu-Merda, isso é muito bom
           Seguindo suas orientações, ela foi cuidadosa com os dentes, não conseguindo colocar tudo na boca, mas o suficiente para levar Zeke próximo ao clímax, chupando, lambendo, deslizando a língua pelo comprimento. Ele precisou suprir a vontade de agarrar seus cabelos e testar até onde ela conseguia, queria sentir bater fundo em sua garganta, queria ser profundo dentro daquela boca, queria gozar, mas controlou seus instintos. Zeke acariciou o topo de sua cabeça, isso fez com que a garota olhasse para cima, diretamente para ele, ainda com seu pau na boca, aquela visão foi o suficiente para fazer o loiro sentir que estava prestes a gozar, porém ainda não.
           A puxou com delicadeza para longe, o som do estalo que sua boca fez ao ser separada de seu pau ecoou pelo quarto, o encarou insatisfeita, pelo visto estava gostando do que fazia.
-Ainda não-a acalmou com um beijo na testa
-Mas eu não quero parar-disse pirracenta, realmente, Zeke a havia mimado demais
-Não se preocupe, Pieck-chan-sussurrou contra seu rosto-Agora deita que eu vou te foder
           Agora obediente, ela se deitou rapidamente em expectativa, Zeke deu um leve sorriso, vê-la deitada nua em sua cama esperando por ele parecia um sonho se tornando realidade. Afastou suas pernas, verificando sua lubrificação, perfeita.
-Vai doer um pouco, mas me avise se for muito
           Concordou com a cabeça enquanto espiava o homem ir se ajustando entre as pernas dela, calculando mentalmente o tamanho dele e comparando com o que imaginou ser o seu próprio. Zeke alisou um pouco o pau, o preparando para o próximo passo, abrindo caminho entre suas dobras até a entrada quente e molhada, se posicionou antes de dar uma olhada em Pieck, que silenciosamente o pediu para continuar.
           Começou a avançar devagar, introduzindo aos poucos, mas foi difícil, ela era apertada, intocada, parou quando percebeu que ela continha em baixo tom gemidos de dor.
-Tudo bem?
-Sim-sua resposta parecia planejada
           Zeke nunca tirou a virgindade de uma garota, ainda assim imaginou que com Pieck parecia mais áspero que deveria, ela estava acostumada com dor, anos como titã, se cortando, lutando em guerras, sendo cobaia de testes, mesmo assim sua testa estava transpirando.
-Não pare, por favor
-Precisa relaxar-levou o dedo para seu clitoris, o massageando e procurando dar a ela um pouco de prazer-Talvez seja melhor você gozar outra vez
           Fez menção em seu afastar, mas Pieck o segurou pelos ombros, pelo visto ela não iria desistir tão fácil, ela abriu ainda mais as pernas, talvez assim pudesse lhe dar mais espaço para entrar.
           Ainda trêmula, tentou relaxar, abrindo as pernas lentamente, quando conseguiu chegar um pouco mais fundo sentiu uma resistência, pressionou um pouco mais e conseguiu romper a barreira, sentindo a membrana se partindo e liberando passagem para ele entrar.
           Pieck arfou ao senti-lo enfim dentro, não totalmente, mas sentia que o pior havia passado, a expressão de dor virou um sorriso.
           Dando a ela um tempo para se acostumar, Zeke voltou a se mexer, pouco a pouco indo mais um centímetro adentro, era acariciado pelas camadas internas, uma massagem quente e pulsante. A garota se arrumou abaixo dele, procurando uma posição mais confortável diante da nova sensação, seus movimentos enviavam uma onda de prazer arrepiante ao loiro, que precisou respirar fundo para não terminar antes mesmo de terem começado.
           Começou com movimentos lentos e suaves, a sensação de estar dentro dela era indescritível, precisava controlar seus instintos, Zeke sempre optou pelo forte e selvagem, mas se deleitava com prazer em ser paciente. Quando Pieck inundou a sala com gemidos de prazer, o loiro entendeu que era hora de ser mais intenso, aumentando a velocidade, sentindo a cama abaixo deles balançar.
           Afastou as pernas para lhe dar mais liberdade, se antes pensou que não caberia agora se encaixava perfeitamente, uma sensação nova de ser preenchida, ela e Zeke unidos de uma maneira tão íntima. O homem encarava o lugar onde estavam ligados, notando alguns filetes de sangue indicando a virgindade que havia retirado da companheira.
           Mesmo no frio do inverno, o quarto se tornou quente e abafado, Zeke sentia alguns fios de cabelo grudando em seu rosto, a visão de Pieck nua em sua cama, revirando os olhos de prazer enquanto gemidos tímidos chegavam aos seus ouvidos era uma situação mais comum em seus sonhos que ele não gostaria de admitir, mas em seus sonhos não tinha o calor de seu corpo, ou a sensação dela apertando seu pau, uma pressão inebriante que por vezes precisava fazê-lo respirar fundo e não gozar.
           Quando os sons de prazer saídos de sua boca ficaram mais altos, ele notou que a garota estava se aproximando mais uma vez do ápice, levando assim a mão de volta ao seu clitoris, o massageando até ela soltar um grito fino e perdido quando mais uma vez gozava, a sensação de gozar sendo totalmente preenchida era bem diferente, uma explosão inundou seu corpo de dentro pra fora, pulsando no pau de Zeke quando ela tremeu logo abaixo de seu corpo. O enlaçando com as pernas para prendê-lo enquanto, o deixando enterrado até o fim, sua mente e corpo se separaram quando ela gozou novamente, perdendo a razão sem se importar se seus sons seriam ouvidos.
           Zeke não conseguiu segurar mais, logo que Pieck terminou ele se libertou, mais duas estocadas antes de sair de dentro dela, não foi preciso se estimular, alguns segundos e acabaria gozando dentro dela, jatos grossos indo tão longe que atingiram seus seios, não lembrava de já ter sentido tanto prazer antes, foi a melhor noite de sua vida.
           Boca aberta procurando respirar, pernas ainda afastadas sem conseguir se recompor, Pieck encarava o teto querendo entender o que havia acontecido. Zeke se jogou ao seu lado, procurando algum espaço na cama de solteiro, ninguém conseguiu falar nada pelos próximos minutos, até que Pieck quebrou o silêncio.
-Isso é bom demais-confessou em meio a uma risada atordoada
-Que bom que gostou
           Estava rindo a toa, então aquilo era sexo, uau!
-Podemos fazer novamente?-virou o rosto para Zeke que apoiava o cotovelo na cama e o rosto na palma da mão
-Quantas vezes você quiser-sorriu orgulhoso no próprio desempenho-Apenas preciso me recompor
           A garota olhou discretamente para o membro entre as pernas do loiro, deslizando timidamente a mão até ele, o toque foi suficiente para fazê-lo acordar, e enquanto Zeke calmamente observava seus próximos movimentos, Pieck engatinhou na cama até alcançá-lo com a boca, mostrando a ele que tinha um talento natural.


           O barulho de seus corpos suados batendo ecoava pelo quarto, havia descoberto uma posição favorita, como portadora do titã Carroça ela tinha uma naturalidade em ficar de quatro, e Zeke adorou a visão privilegiada que tinha, aquela bunda era uma preciosidade, e ele fez questão de deixar as marcas de suas mãos nela, sua pele era tão branca que facilmente ficou o contorno de seus dedos. Mesmo que a visão de seu rosto fosse incrível, ele sentia que iria se viciar em colocá-la naquela posição.
           Perdendo as forças nas pernas enquanto gozava, Pieck enfiou o rosto no travesseiro para suprir os gemidos, estavam em sincronia quando Zeke finalizou em suas costas, ela já havia recebido uma boa quantidade de sua semente no corpo, estava grudenta, mas não se importava.
           O loiro se inclinou sobre seu corpo, sentindo se sujar com uma mistura de suor e esperma que revestia as costas dela. Levou a boca bem próxima ao seu ouvido, ainda a sentia tremer, queria ver sua expressão, mas ainda estava com o rosto escondido no travesseiro.
-Satisfeita?
           Sua resposta foi um aceno de cabeça preguiçoso.
-Vamos tomar banho?
           Agora ela negava com a mesma lentidão, estava a poucos passos de um sono tranquilo e pesado.
-Pieck-chan, deixe de ser desobediente, eu vou encher a banheira
           Pulou da cama à procura de sua roupa, encontrando a bermuda jogada no chão, a vestiu antes de ir à procura de um cigarro. O acendeu ao lado da cama, admirando a visão de Pieck totalmente exposta, via o brilho pegajoso entre as pernas fruto de seu próprio gozo, Zeke estava exausto, mas se ela pedisse mais não conseguiria negar.
           Uma rápida ida ao banheiro enquanto esperava a água quente preencher a banheira, depois foi se arrastando pela sala, olhando o cômodo em volta por poucos segundos até sentir uma onda de culpa, ele havia levado Pieck a uma experiência extrema e única pela simples intenção de distraí-la de suas suspeitas.
           O rádio ainda estava ligado, mas ele não fez questão de desligar, ainda assim, o loiro se aproximou do móvel onde o aparelho estava, preferindo ao invés dele, encarar o prêmio que ganhou logo que assumiu o cargo de Chefe de Guerra, um troféu prateado com um grande pedestal escuro onde uma placa com o holograma de Marley brilhava junto a seu nome gravado.
-Espero ter lhes dado um bom entretenimento-pensou com nojo
           Estava curioso para saber como seria na manhã seguinte quando Pieck acordasse e estivesse consciente, quase sorriu ao imaginá-la sem graça como provavelmente estaria.
-Droga, amanhã-sussurrou em silêncio para si mesmo
           Grunhiu baixinho ao se lembrar do compromisso no dia seguinte, provavelmente ouvia mais e mais problemas que estava surgindo junto a impaciência de seus aliados pessoais, isso foi o suficiente para espantar seu estado de satisfação, havia se dado o privilégio de deixar momentaneamente de lado, mas uma hora precisava voltar a realidade.
           Ao menos com Pieck ele poderia, nem que por um instante, se esquecer daquilo, mesmo que fosse um pensamento constante, fingir que vivia uma vida próximo da normalidade, sabia que ela pensava o mesmo, dava para ver na maneira como agia, porém ele admitia, a conhecia bem, mas não a permitia o conhecer por completo, era injusto, só que ela já tinha visto muita coisa para saber que a vida não é justa, principalmente quando você tem que andar por aí com uma braçadeira.
           Voltou ao quarto para acordá-la, ou o mais próximo disso, a guiando ainda sonolenta para o banheiro.
-Consegue tomar banho sozinha?
           Perguntou enquanto ela entrava na água com um biquinho irritado, confirmou com a cabeça enquanto usava uma esponja para limpar-se. Enquanto isso no quarto ele trocou a roupa de cama, vendo a mancha vermelha de sangue nas cobertas e marcas umidas de suor, todo o quarto cheirava a sexo e a Pieck, ele queria poder ter aproveitado um pouco mais antes de se deixar abater pelos proprios problemas.
-Posso dormir agora?
           A garota surgiu na porta enrolada em uma toalha enquanto esperava ele colocar as novas cobertas limpas, assim que terminou a menina tirou a toalha, deixando de lado qualquer tipo de pudor, e se deitou no cantinho junto a parede. Zeke não conseguiu deixar de rir, tirando um grosso cobertor da cômoda e os embalando enquanto se deitava ao seu lado.
           Enterrou o rosto em seu peito, Zeke ainda não havia se limpado, mas a menina não pareceu se importar, então ele também a abraçou, acariciando seus cabelos com carinho.
           Pieck queria dizer alguma coisa, mas estava tão cansava, mesmo assim o encarou com seus olhos pesados tentando transmitir algo através deles, talvez Zeke tenha entendido, porque lhe depositou um delicado beijo na testa, então tão rápido que nem notou, acabou sendo embalada pelos sonhos, Zeke sorriu pela maneira plácida como seu rosto ficou enquanto dava o primeiro suspiro adormecida.

 

           Não queria acordar, por isso decidiu continuar deitada na cama que parecia diferente do normal, mesmo as cobertas não pareciam as suas, mas Pieck não se importou e rolou para o lado, se aconchegando mais contra o travesseiro, então veio a memoria da noite anterior que a fez abrir os olhos rapidamente e perceber que aquela não era sua cama, aquele não era o seu quarto, e definitivamente aquelas não eram suas roupas. Virou para o lado encontrando a cama vazia, não como se alguém tivesse dormido ali e acordado antes dela, vazia como se apenas ela tivesse dormido na cama.
           Se sentou lentamente enquanto procurava escutar o som de outra pessoa, um leve ressoar vindo pela porta do quarto entreaberta, se desvencilhou das cobertas enquanto notou que a camisa que usava estava torta, lembrou que ao dormir não vestia absolutamente nada, provavelmente Zeke a havia vestido no meio da noite, embora não vestisse mais nada além disso.
           Andou receosa para fora do cômodo, encontrando Zeke dormindo no sofá, o rádio estava ligado na mesma estação da noite anterior, um cinzeiro cheio de bitucas de cigarro estava no chão ao lado do sofá e o homem dormia em uma posição que não parecia muito confortável, isso de alguma forma a deixou magoada, por que Zeke não foi dormir com ela?
           De supetão, o homem abriu os olhos e se ergueu do sofá, espantando Pieck que ainda refletia sobre o afastamento que ele criou durante a noite, o loiro a encarou um pouco espantado, como se tentasse entender o motivo dela estar ali, mas logo pareceu mais relaxado enquanto espantada o sono dos olhos com as costas da mão.
-Bom dia, Pieck-chan
-Te acordei?
-Não, eu é que sempre acordou quando tem alguém por perto
-Ah, sim
           Queria perguntar porque ele tinha dormido no sofá, mas a menina sentia uma sensação estranha na maneira como ele sorria, não era mais o Zeke da noite anterior, aquele era outro, e isso a desanimou. Silenciosamente ele foi até o banheiro o deixando sozinho na sala.

           Quando saiu do banheiro, vestindo suas próprias roupas deixadas lá na noite anterior, a garota notou que Zeke também estava vestindo algo diferente, na verdade parecia prestes a sair, ele se aproximou dela, lhe depositando um beijo na testa antes de sussurrar em seu ouvido.
-Eu preciso ir ao quartel, como não pretendo voltar até a neve dar uma trégua vou pegar o necessário para trabalhar pelos próximos dias
           Não era como se ele precisasse dar uma satisfação a ela, mas tinha que ter uma desculpa.
-Tudo bem, eu vou indo para casa então
           O homem segurava o casaco dela, já seco depois de uma noite ao lado do aquecedor, Pieck notou que o rádio ainda estava ligado e seu volume foi aumentado, a menina abriu a boca para comentar algo a respeito, mas Zeke apenas lhe deu um sorriso enquanto a conduzia pela porta, a fechando tão lentamente como se não quisesse fazer barulho.
-Acha que seria muito ousado eu pedir um beijo de despedida?
           Perguntou enquanto a deixava na porta do prédio onde morava, ainda tinha muita neve, mas haviam mais pessoas dispostas a sair de casa, a jovem olhou em volta, não parecia ter ninguém prestando atenção neles, por isso se colocou na ponta dos pés enquanto o puxava pela gola do casaco, lhe dando um beijo rápido nos lábios.
           Isso surpreendeu Zeke, que ficou um pouco espantado, ele pediu, aliás, pedia isso com certa frequência, ainda assim foi a primeira vez que Pieck aceitou a oferta.
-Não fique mal acostumado
           Se apressou em abrir a entrada do prédio dando um leve aceno para ele antes de fechar a porta atrás de si, isso foi o suficiente para dar a Zeke um ânimo para encarar os problemas que o aguardavam.


           Tirou o cadeado aberta pendurado na tranca da porta, encontrando o longo e estreito corredor, Zeke fechou a porta de madeira atrás de si, sendo totalmente envolto pela escuridão onde no final do que parecia infinito enxergava uma luz fraca, desviou das ripas de madeira amontoadas, com cuidado para não cair igual na ultima vez.
           Ao final daquele caminho irregular havia uma sala onde só haviam mais pedaços de madeira, ripas, pallets, caixotes, e uma mulher que estava sentada em cima de um barril virado para baixo, apontando uma arma para a pessoa que se aproximava.
-Pensei que tinha acontecido alguma coisa, estava prestes a ir embora-Yelena disse logo que abaixou a arma
-Desculpe, acordei atrasado-procurou um lugar para se sentar também, sabia que seria uma longa conversa-Não podemos mais nos encontrar aqui
-O que aconteceu? Alguém descobriu?
-Mais ou menos, nos viram saindo daqui
-Posso dar um jeito...
-Não-respondeu rapidamente com um tom ríspido-Não é necessário, já foi resolvido, apenas encontre outro lugar
-Merda, esse aqui é tão bom, levei muito tempo para achar-soprou um fio de cabelo do rosto
-Tenho certeza que conseguirá achar outro rapidamente, confio na sua capacidade
           O sorriso radiante de Yelena ao ser elogiada era o sinal que Zeke precisava para ter certeza de que a loira logo que saísse de lá iria correndo arrumar outro ponto de encontro.
-Me diga, o que aconteceu para querer me ver novamente em tão pouco tempo, não foi somente pelo prazer da minha presença
           Recuperando a compostura, Yelena o deixou a par dos acontecimentos da última semana desde que ela transmitiu as palavras de Zeke aos aliados, um pedido repetitivo de paciência e compreensão, o grupo anti-Marley que estava formando estava agitado, era preciso depender do sucesso da missão de retomada do Fundador para darem início, e de acordo com Yelena era complicado conter os ânimos ansiosos dos aliados.
-Quando um deles dá pra trás precisamos eliminar, não podemos correr o risco da informação escapar, essa semana eu precisei desovar dois corpos, sabe como isso é dificil?-se jogou contra a parede de tijolos vermelhos-Se continuarmos assim vamos ficar sem ninguém
-Não deveria falar isso, mas Marley está cada vez mais pressionada por resultados, uma missão de reconhecimento parece cada vez mais possível
-Então você vai para a ilha?
-Provavelmente, talvez isso os acalme
           Isso o assombrava e amedrontava, deveria ter ido junto para Paradis, fazer as coisas do seu jeito, ele insistiu nessa designação ao ponto de deixar Magath desconfiado, mas mais arriscado ainda ficar tanto tempo longe sem conseguir contato com a incerteza de se ao voltar ainda teria seus aliados unidos, e admitia que nos últimos anos ele conseguiu reunir um bom número de seguidores, Yelena foi um grande achado, um pouco emocional demais em relação ao seu relacionamento com ele, mas era bom dessa maneira, só era um pouco inconveniente precisar recusar de maneira educada suas investidas, nunca realmente precisando corresponder, apenas dando uma breve sensação de "um dia, talvez".

           A reunião terminou pouco minutos depois, Zeke foi o primeiro a sair, indo agora em direção ao quartel, um tempo depois Yelena surgiu do beco ao lado da modista, completamente coberta a não ser pelos olhos que verificaram em volta antes de seguir seu próprio caminho.
-Por que você continua mentindo para mim, Zeke?
           Do outro lado da rua, escondida entre dois prédios que deixavam um espaço tão estreito que somente uma pessoa pequena como Pieck poderia caber, encolhida como um casulo em um sobretudo marrom estava a jovem que desde que Zeke a convidou para conhecer seu apartamento notou que tal atitude foi feita para distraí-la, sim, Pieck era ingênua, mas não era burra, era triste saber que Zeke subestima sua inteligência com um golpe tão baixo. Mesmo de longe, a jovem procurou tentar gravar a fisionomia da pessoa com quem Zeke se encontrou, deveria ser a mesma de dias atrás, então imaginou uma pessoa loira e extremamente alta, provavelmente um homem, mas não poderia garantir, se um dia a visse novamente esperava reconhecê-la, e assim tentar desvendar aquele segredo que Zeke guardava com tanta suspeita.

 

           O armário de vassouras era tão apertado que mesmo que se quisesse Zeke não poderia evitar a mão boba de Pieck descendo até sua calça, desde a aventura deles não tiveram outra oportunidade, mas sempre que se beijavam a menina se tornava mais ousada em explorá-lo.
-Vamos sair daqui antes que alguém apareça
           Se recomporam rapidamente enquanto arrumavam as roupas, o cabelo bagunçado de Pieck não estava diferente do normal, já Zeke precisou fazer o melhor para arrumar as mechas loiras bagunçadas.
           Pieck não conseguia enxergá-lo muito no lugar escuro, mas sabia que Zeke estava com aquela expressão desconcertada que condizia mais com um jovem adolescente que de um guerreiro de Marley, ela adoraria ter um pouco de luz para captar melhor aquele momento. Estava agindo normalmente, decidindo ignorar a mentira que Zeke lhe contou, ele não diria a verdade e ela não queria ter que ouvir outra mentira.
           Abriu a porta devagar, verificando se havia alguém no corredor antes de pularem para fora, tão rapidamente que poderia dizer que foram transportados de maneira sobrenatural. O mesmo desajuste que vinha depois de se agarrarem sorrateiramente pelos cantos do quartel, não era uma atitude elegível para uma punição grave, só um pouco de constrangimento e uma bronca de Magath, então ambos não se importaria em continuar com aquilo, até porque Zeke nunca mais fez outro convite a ela desde então.
-Estou apresentável?-penteava o cabelo com os dedos
-Parece com alguém que estava se agarrando no armário de vassouras
           Antes que Zeke pudesse dar uma resposta a altura, um chamado por seu nome o fez dar um pulo, o mesmo com Pieck, pelo visto ainda estavam com a adrenalina em alta.
-Senhor Yeager!
           Aquela voz animada que dizia seu nome tão alegremente se tornou bem conhecida por Zeke nas últimas semanas, o jovem Colt Grice para quem ele não tinha nenhuma intenção de repassar o Bestial.
-Colt, como estamos hoje?-Pieck sorriu para o menino
-Bem senhorita Pieck-fez um educado cumprimento a mulher mais velha antes de se virar para Zeke-Senhor Yeager, ontem disse que iríamos aprender mais sobre traçar estratégias baseadas na habilidade de cada um dos titãs
-Vamos começar então
           O casal trocou uma despedida silenciosa enquanto tomavam rumos diferentes pelo corredor, sem antes Zeke dar uma última espiada para apreciar o andar da garota, que estava bem ciente dos olhos dele em si, por isso caprichou no andar antes de sumir em um corredor adjacente.
-Atrapalhei alguma coisa? Nem perguntei se o senhor estava disponível-o menino parecia preocupado, o que divertiu Zeke
           Quando Magath lhe deu um detalhado relatório sobre aquele menino Zeke pensou se a escolha foi feita somente baseada nas habilidades do rapaz, e não pela impressionante coincidência dele ser parente de um dos cúmplices de seus pais, o menino que cresceu vendo a família desgraçada pela rebeldia do tio ocorrida antes mesmo dele nascer, Colt era, genuinamente, o que Zeke fingia ser. Um menino dedicado e patriota que procurava se sacrificar para limpar o nome da família, imaginou se ele quando mais jovem e ávido por conseguir se tornar guerreiro era como aquele menino, submisso e totalmente dominado pelo desejo de agradar aos marleyanos.
           Zeke precisou conter o sorriso ao imaginar o quão patético ele deveria parecer naquela idade, o guerreiro passou mais tempo no banco de espera que qualquer um, muitos anos desde que seus pais lhe inscreveram no Programa de Guerreiros até enfim receber o Bestial, se sentia orgulhoso de ter sobrevivido a lavagem cerebral de seu pai e a de Marley, crescer com uma ideologia patética de revolução e depois ser mergulhado no terror que a nação impunha aos eldianos, procurando em uma idade tão precoce ganhar confiança dos militares para conseguir enganá-los. Estava cansado de jogar pelas regras dos jogos de outras pessoas, não iria se permitir morrer sendo um fantoche.
           A única coisa em sua vida que poderia controlar era a si mesmo, não queria precisar depender de outras pessoas, mas era uma questão de tempo, não estava parado, não estava displicente, só estava esperando.

 

           A neve começou a derreter, agora as casas voltaram a ser vistas e as pessoas voltaram a sair de suas tocas, Pieck estava muito pensativa ultimamente, e isso não passou despercebido por seu pai, que não suspeitou quando a filha chegou na manhã seguinte, segundo ela, por ter ficado presa na neve, mas nos dias depois daquele percebeu algo diferente. Infelizmente, por mais que fossem próximos, Pieck sempre teve o costume de deixar de falar várias coisas, guardando para si mesma, queria acreditar que ocultar era diferente de mentir, mas isso não a faria igual a Zeke? Ou melhor, pior, isso a tornava hipócrita.
           Se sentia terrível consigo mesma em não querer enfrentá-lo, mas tinha medo, principalmente agora que estavam tão próximos, mais que nunca, estava feliz, mas ao mesmo tempo decepcionada.
           Às vezes se condenada por pensar tanto, por teorizar tanto, dizem que esse é o fardo de pessoas inteligentes, quanto mais se sabe pior, às vezes a ignorância é uma dádiva, ela também poderia ter simplesmente entrado em casa aquele dia ao invés de segui-lo, mas também existia a dúvida.
-Merda-rosnou para si mesma-Você se pouparia de muita coisa se tivesse ignorado
           Caminhava por Liberio com destino certo, mas também parecia andar sem rumo, andar a ajudava a esquecer, e era bom se distrair em seu dia de folga, então acelerou o passo para chegar mais rápido, respirando fundo e tentando expulsar aqueles pensamentos perturbadores, até que seus pés pisaram em uma parte da rua coberta de gelo, os reflexos de Pieck não foram rápidos suficiente para lhe avisar até ela já ter caído no chão, o baque refletiu por todo seu quadril.
-Ai!
           Gemeu sentindo o golpe, talvez fosse castigo, ela jogou a cabeça para o alto, procurando entre as nuvens opacas uma resposta divina para tudo o que estava acontecendo, tudo o que recebeu foi o silêncio, abaixou a cabeça encarando os pés projetados paralelos no chão, não tinha muita energia para levantar, talvez pudesse ficar ali e fingir que não existia.
-Pieck, você está bem?
           Reconheceu a voz, um pouco mais grossa que da última vez que a ouviu, ao erguer os olhos viu o rosto preocupado de Porco que se curvou em sua direção para ajudá-la a levantar.
-Sim, só quebrei a bunda
-Sério?
-Não-respondeu rindo enquanto aceitava o auxílio-Foi só minha dignidade mesmo
-Não se preocupe, a rua não está tão movimentada
           A menina olhou em volta, algumas pessoas a encaravam meio desconcertadas, havia sido um tombo bem feio, mas o rapaz estava certo, não haviam muitas testemunhas, seria muito ruim se um grande público tivesse testemunhado a guerreira cair de bunda no chão.
-Não tenho te visto ultimamente-limpou a saia, notando que estava ligeiramente úmida na parte de trás
-Estou trabalhando com o meu pai, mas na primavera começo o serviço militar
-Se decidiu de vez então-o olhou de esgueira
-Sim-respondeu um pouco sem graça, lembrando da conversa que tiveram ao que parecia ter sido um milhão de anos antes
-Você é esperto Porco, se manter à vista
-Como assim?
           Começaram a andar, a menina ia em direção ao distrito vizinho, e o jovem apenas a acompanhou.
-Sabe o que quero dizer, você chegou bem longe para ser esquecido, e é sempre bom ter um reserva
-Nunca me falaram nada a respeito, mas seria bom continuar sendo considerado por Marley
-Afinal, não sabemos o que vai acontecer quando os outros trouxerem o Titã Fundador, se o portador, caso o tragam com vida, não for muito solicito, vão precisar de alguém para recebê-lo, seria ruim uma única pessoa ter dois titãs, isso reduz nosso poder bélico
-Isso é algum tipo de informação?-a encarou com seriedade
-Não, apenas uma teoria que eu criei depois de tanto tempo de espera. Mesmo se fosse, não é como se eu pudesse ir divulgando
-Claro, eu entendo. E como tem estado as coisas? Você e Zeke tem dado conta sozinhos?
-Temos sim, somos uma boa dupla-desviou o olhar, corando ligeiramente
-Entendi, eu tenho acompanhado as notícias, parece que onde quer que estejam a vitória os acompanha
           Não conteve a risada, isso lembrava um pouco os elogios animados de Colt, porém a voz de Porco parecia ter mais provocação que qualquer coisa.
-Quando chegamos a batalha costuma estar 90% concluída, só vamos para finalizar
-Ou salvar o dia
-Não somos heróis, Porco, apenas guerreiros, soldados como os outros, a diferença é que podemos virar titãs
-Mesmo assim, parece ser bem legal
           Pelo visto ele ainda tinha um pouco de mágoa por ter ficado de fora.
-Como estão seus pais? Não tenho visto muito a sua mãe-olhou instintivamente para as botas que usava, compradas na sapataria da família Galliard
-Ultimamente ela tem só falado do Marcel o dia todo, está com muita saudade dele. Digamos que eu nunca fui o preferido. Meu pai, bom, o mesmo de sempre, está zangado porque pelo visto nenhum dos filhos vai herdar os negócios da família
-Poderia ao menos pensar na possibilidade-duvidava que fosse tirar dele a ideia de ir para o exército, mas queria imaginar um destino diferente para o amigo de infância que servir de isca durante as batalhas de Marley
-Passei os últimos anos ajudando ele na loja, eu não quero ter que ficar ajoelhado o dia colocando sapatos nos pés de desconhecidos
-Não deveria falar assim, foi dessa maneira que seu pai criou você e seu irmão-o repreendeu, sabia como ter um negócio dentro da Zona de Internamento era difícil, mas Porco sempre foi um rapaz muito ingrato
-Tsc-clicou a língua, virando o rosto e fingindo ignorar a reprimenda-Tanto faz-a olhou pelo canto do olho-Então, para onde está indo?
-Vou para a casa de uma amiga
-Amiga? Nunca te vejo acompanhada de ninguém
-Eu também tenho vida social, Pocky
-Não me chame assim-corou violentamente, a encarando com irritação-Você não me chama assim desde que éramos bem pequenos
-Parei de te chamar assim quando entramos no Programa de Guerreiros, não ficaria bem se os marleyanos me ouvissem te chamando dessa maneira, agora não tem mais problema-respondeu provocativa-Chegamos-anunciou
           O rapaz olhou para a casa onde estavam, não era de ninguém que conhecesse, o que aumentou sua curiosidade em quem era a amiga de Pieck, mas não iria perder tempo perguntando, tinha algo que queria dizer, e não achou que fosse ter outra oportunidade.
-Então...-coçou a nuca, desviando o olhar enquanto seu rosto adquiria um tom rosado-Aproveitando que estou aqui, sabe,...queria saber se um dia...a gente poderia, sei lá, sair
-Claro, quando?-deu algumas batidas na porta sem realmente prestar muita atenção em Porco
-É, bem, quero dizer, eu e você, tipo, tipo um encontro-encarou os telhados do prédio a frente, não conseguia encara-la
-Ah-não pode conter a surpresa-Claro
           Sua resposta foi automática, não era como se estivesse comprometida, mas não se via como solteira.
-Vou para o exército na primavera, então queria que fosse antes
           Caso eu não volte.
-Sim, é...sim
-Ok então, eu te aviso antes
-Seria bom-deu uma risadinha nervosa
-Vou indo então
           Antes que Pieck pudesse se despedir, o rapaz se apressou, como temendo que se demorasse ela fosse mudar de ideia.
           Parada diante da porta, Pieck estava tentando entender o que havia acabado de aceitar, não imaginou que Porco tivesse esse tipo de intenção com ela, quer dizer, eles costumavam tomar banho juntos quando eram pequenos demais para entender porque seus corpos eram diferentes, conspiravam junto com Marcel para escalar o armário da cozinha e roubar biscoitos antes do jantar enquanto a mãe dos meninos estava distraída e até dividiam a cama quando o pai dela precisava trabalhar dois turnos seguidos para levar comida dentro de casa.
           Nunca imaginou Porco de outra forma que não um irmão irritadiço e implicante, mas pelo visto ele via de outra maneira.
-Pieck, tudo bem?
           A senhora Yeager perguntou logo que abriu a porta e encontrou a garota paralisada do lado de fora.
-Acabaram de me chamar para sair-disse enquanto entrava na casa
-O que? Quem?
-Porco Galliard
-Entre imediatamente e me conte tudo
           A senhora ordenou enquanto puxava a visita em direção a sala.

 

           Às vezes Zeke imaginava se deveria ser um neto mais presente, quanto tempo desde que visitou sua avó? Alguns meses, ou mais, não poderia dizer ao certo, e seu avô? Nunca nem colocou os pés no hospital em que estava internado a não ser no dia em que precisou preencher a papelada para dar ao velho homem os privilégios de ser parente de um guerreiro de Marley, porém, naquela manhã enquanto lia o jornal deitado na cama viu no gancho atrá da porta uma capa protetora de plástico pendurada, o que não lembrava de estar lá na última vez, puxou seu zíper e sentiu um peso na consciência depois de encontrar sua melhor farda, usada somente em grandes eventos, passada e imaculada mesmo que não a tenha usado recentemente, sua avó sempre a deixava pronta para uso, nunca permitindo que a veste ficasse muito tempo esquecida.
           Era tão comum ir trabalhar e voltar encontrando a casa milagrosamente limpa, suas roupas dobradas e alguns potes de comida caseira congelada na geladeira que se esquecia que era ela quem o fazia. Como no dia anterior, os cinzeiros limpos, nem um único grão de poeira, ainda assim ele jogou as roupas no chão e foi dormir fingindo que ao sair o apartamento estava exatamente daquela maneira e que em alguns dias a roupa iria desaparecer do chão e surgir lavada e dobrada dentro da gaveta.
           Foi dessa maneira que Zeke acabou por optar fazer uma visita a sua avó, tirando as chaves do bolso para abrir a porta e ser recebido pelo som de música tocando na vitrola e o som de vozes vindas da sala de estar.
-Você está ficando muito boa nisso, a mãe de Zeke nunca se interessou em bordado
           A menção a sua mãe fez o loiro congelar, era um assunto sensível, e não importava para quem a mulher dizia, não era algo a ser mencionado.
-Ela se achava muito boa para afazeres domésticos, dizia ter outros interesses-ouviu sua avó falar com certo desdém-Se eu soubesse que interesses eram esses...-deixou no ar o restante da frase
-Como era a mãe do Zeke?-o portador do Bestial reconheceu a inconfundível voz, mas queria acreditar estar enganado
-Era uma ótima esposa, Grisha a idolatrava e ela a ele, mas deixou a desejar como mãe, mesmo se não fosse os esquemas revolucionários deles, acredito que ele teria preferido viver conosco de qualquer forma. Coitadinho, o Zeke quando chegou, ele...
           Interrompeu o que iria dizer ao encontrar logo na entrada da sala o neto que mantinha um olhar espantado diante da cena, enquanto sua avó estava no sofá ao lado de uma cesta de agulha e linha, Pieck estava na poltrona segurando um bastidor e criando com linhas verdes um desenho no tecido de linho, notando que a senhora a sua frente parecia encarar com medo algo do outro lado do cômodo, a menina virou o rosto encontrando o rosto de Zeke, que de espanto foi para raiva.
-Zeke...-sua avó levantou rapidamente do sofá, indo de encontro ao neto que desviou da mulher, indo direto para Pieck
-O que está fazendo aqui?
           Não teve resposta, Pieck deixou os materiais de lado antes de se levantar, encarando Zeke de frente.
-Me responda-insistiu
-Vim fazer companhia a sua avó
-Imagino que não dei a sorte de flagrar a primeira de suas visitas, correto?
-Na verdade você demorou bastante para descobrir
-Pieck-a senhora Yeager a advertiu
           Era revoltante para Pieck como a mulher parecia ter medo do próprio neto.
-Não brigue com ela, a ideia foi minha, eu em insisti
-Pieck, com licença
           Procurando permissão no olhar da senhora mais velha, Pieck entendeu que era melhor ir embora, se tivesse qualquer traço de que a avó preferia que ela ficasse não teria se intimidado em brigar por permanecer ali, mas a casa era dela, então, se preferia que fosse embora assim o faria.
           Assim que ouviu o som da porta da frente se fechar, Zeke voltou a atenção à avó, que recolhia todo o material usado para bordado, evitando encarar o neto cuja presença deixava o ambiente pesado.
-Quanto tempo desde que isso começou?
-Alguns anos
-Anos?! E vocês escondiam isso de mim?
-Sempre que tive a oportunidade comentava sobre a Pieck, não foram muitas as chances, quase não vem me ver, mas ao menos deduzi que soubesse que nós víamos
-Pensei que se vissem as vezes por ai, não que a chamasse dentro de para falar dos meus pais
-Ela me fazia companhia-tentou justificar
-Não quero saber, isso é algo pessoal, não pode ir compartilhando com qualquer pessoa
-Pieck não é qualquer pessoa, sabe bem disso, ela é o mais próximo de amizade que já vi você ter em toda a vida
-Isso não justifica nada
           Ficaram se encarando por um tempo, a situação era tão inesperada e surpreendente que Zeke realmente não sabia muito o que falar, ainda estava tentando entender o que aconteceu. Sem dizer mais palavras, o loiro saiu, deixando sua avó sozinha, mais uma vez.

           Encontrar Pieck sentada nas escadas de seu prédio era algo que ele poderia prever, ela não iria simplesmente sumir depois daquilo, se levantou em um pulo logo que o avistou, o loiro não disse nada, passando por ela e seguindo até a porta de seu apartamento, Pieck foi atrás, parando logo que ele entrou, imaginando se iria ou não bater a porta na sua cara, mas felizmente ele a deixou entrar, o que deveria ser um bom sinal.
-Quando pretendia me contar?
           Já estava acendendo um cigarro antes mesmo de terminar de tirar o casaco, sua afobação por tabaco já indicava que ele estava irritado.
-Para falar a verdade, nunca
-Por que achou que tinha o direito de se meter em meus assuntos familiares?
-Não "me meti" em seus assuntos, só quis ser uma companhia para sua avó
-Isso é se meter em meus assuntos
-Nem faz questão de ir vê-la, como pode exigir alguma coisa?
-Perdão? Em que isso é da sua conta?
-É da minha conta sim, você nem se importa
-Você não sabe de nada
-Sei muita coisa
           Cruzou os braços irritada, não estava certa, mas ele também não, e entre os dois o erro dele era maior.
-Que tipo de coisa? O que você achou descobrindo? Me conte-sua voz estava cheia de escárnio
-Sei que você denunciou seus pais, sei que eles queriam que se infiltrasse em Marley para realizar um plano de restauração de Eldia, sei disso tudo-viu com satisfação quando os olhos dele se arregalaram de espanto-Sei sobre sua tia Faye que morreu porque seu pai fugiu com ela para ver um dirigível e que ele sempre se culpou por isso
-Ela não deveria ter te contado essas coisas-jogou a guimba de cigarro em um dos cinzeiros espalhados pela sala, fumando com mais ferocidade
-Você ao menos já tentou falar com ela sobre isso?-era possível ver esperança em sua voz, esperança dele se importar ao menos um pouco
-De que adianta? Já aconteceu, nada vai mudar-deu de ombros
           Viu quando os olhos sempre tranquilos e calmos de Pieck tomaram um brilho de ira, tudo o que oprimiu pelos últimos anos desde que percebeu a solidão da senhora Yeager surgiu.
-Você perdeu seus pais, mas ela perdeu os filhos, os dois. Você não foi a única vítima disso tudo, enquanto você precisava provar para Marley sua lealdade as pessoas simplesmente foram se afastando dela por medo, e só voltaram quando você se tornou guerreiro, durante aqueles anos como candidato sua avó levou tudo totalmente sozinha, não tinha companhia, seu avô ia piorando e você se distanciando cada vez mais...
-O que você entende? Não estava lá, só sabe o ponto de vista dela
-Só sei porque ela foi a única disposta a me contar, eu consegui te entender um pouco melhor desde então, mas não totalmente, eu queria ouvir o seu lado também-deu alguns passos em sua direção, mas ele se afastou
           Zeke Yeager era frustrante, sempre quando a garota chegava um pouco mais perto, ou ele próprio lhe dava uma abertura, logo em seguida fazia isso, se afastava.
-Por isso você sempre tenta ser perfeito? Ou por isso continua mentindo?-viu como ele ficou alerta-Isso tem a ver com o que eu vi? O que você...?
           Foi preciso apenas poucos passos até chegar até ela, a levando contra a porta e tapando sua boca com a mão, a impedindo de continuar. Procurando alguma explicação encarou aqueles olhos cinzas com um ligeiro tom de azul, segurou seu braço para se livrar, mas ele era muito forte, ela sempre soube, mas era a primeira vez que ele usou aquela força contra ela. Estava totalmente escondida por seu corpo, o cigarro agora queimava no piso de madeira enquanto pelo que pareceu uma eternidade Zeke tentava inventar uma desculpa para sua atitude, mas no final preferiu falar a verdade.
           Pieck se arrepiou involuntariamente ao sentir a barba roçar em sua pele e seus lábios tocando a orelha.
-Muito cuidado com o que você vai falar, tem uma escuta aqui dentro
           Primeiro o choque, e então o encarou com nojo, ele sabia o que estava passando pela sua cabeça, a noite deles foi transmitida, olhou dele para o quarto, onde várias noites atrás ele foi o primeiro a tê-la para si, se lembrando dos gemidos, dos sons, dos gritos, tudo isso agora era uma fita gravada no acervo de espionagem de Marley.
           Zeke viu os olhos dela se umedecerem, aquilo foi suficiente para quebrá-lo.
-Não...-disse ele em um sussurro abatido
           Deixou os braços caírem ao lado do corpo, mais que rapidamente Pieck o empurrou e saiu pela porta, passando as mãos com força pelos olhos para impedir qualquer lágrima de cair, estava se decepcionando demais com Zeke ultimamente, mas não esperava isso dele, ainda assim não deixaria uma única lágrima cair por sua causa.
           Desceu as escadas apressada, acelerando logo que ouviu passos vindos atrás, olhou para cima percebendo que Zeke agora descia as escadas atrás dela. Correu até a rua, parando ao notar a movimentação, mas sem perder o objetivo de se afastar dele o mais rápido possível.
           As ruas da Zona de Internamento estavam mais agitadas naquele horário, o que o fez perdê-la de vista rapidamente, mas sabendo que ela provavelmente iria para casa o loiro se adiantou para encontrá-la no meio do caminho.

           Pieck deveria ter desviado por diversas ruas pensando assim cansá-lo de sua perseguição, já fazia algum tempo desde que o despistou, nem por isso Zeke deixou de aguardá-la uma quadra antes do prédio onde morava, encostado contra uma caixa de correios com seu cigarro na mão e olhos atentos.
           Notaram a presença do outro ao mesmo tempo, mas foi ele quem deu o primeiro passo, seguindo pela rua até ela que deu meia-volta e tentou mais uma vez fugir, o que nenhum dos dois esperava era a rua escorregadia que levou a garota direto ao chão em um deja vu vergonhoso, caindo de lado entre a rua e a calçada. Zeke iniciou uma corrida até ela, porém parou quando notou alguém se aproximando antes que pudesse chegar perto.
-De novo?!
           Saindo de uma loja um rapaz adolescente foi ajudá-la, não demorou muito para reconhecer Porco Galliard, a quem não via já havia alguns anos. Ele a ergueu do chão, mas ao dar o primeiro passo a menina vacilou, quase caindo novamente se não fosse o apoio, segurou o tornozelo enquanto tentava se manter de pé, Zeke não conseguiu ouvir, mas Galliard disse algo para ela antes de ajudá-la a entrar na loja de onde havia saído, com o tornozelo aparentemente torcido ela foi mancando para dentro do estabelecimento, não sem antes direcionar ao homem de óculos um olhar enojado.

 

Chapter Text

850

INVERNO


           Fumaça saia por meio das costuras da bota de couro marrom enquanto Porco pacientemente a observava sentada na cadeira destinada para clientes da loja de sua familia, Pieck estava calada dês de que ele a colocou para dentro e assim ficou mesmo depois dele perguntar se ela estava bem, seu rosto estava congelado em uma seriedade que ele viu pouquissimas vezes, o que o fazia se sentir ainda mais idiota.
           Imaginou que após seu convite levaria alguns dias antes de se verem novamente, desde que a garota virou Guerreira e ele um ajudante no comércio do pai se viam muito pouco, menos ainda que quando Marcel ainda estava lá, agora a encontrou duas vezes no mesmo dia, ela literalmente caiu diante dele, a resgatou duas vezes e isso inflou seu ego, mas agora no silêncio torturante ele se sentia muito estupido em convida-la para sair.
           Quando ele chegou a certa idade e começou a notar que garotas eram interessantes, Pieck se mostrou mais atrativa que qualquer uma das outras meninas da mesma idade, chegando a ser tema de uma das últimas conversas que teve com seu irmão.
-Marcel, é impressão minha ou a Pieck está mais bonita?
-Para mim é a mesma de sempre, talvez você é que a esteja vendo mais bonita
           Sim, estava mais bonita, seu rosto era delicado e amável, mesmo zangada, ele gostava de como o espaço entre suas sobrancelhas ficava enrugado quando a irritava, também a maneira como infla as bochechas para lhe dar uma bronca.
           Ambos saíram dos pensamentos que os cercavam quando o som da sineta da porta ecoou, uma cliente entrou já cumprimentando o rapaz enquanto apontava para um par de sapatos na vitrine.
-Se quiser pode subir-Porco sussurrou perto da guerreira enquanto ia até o estoque procurar um sapato para a cliente-Espero que não tenha esquecido o caminho
           Pieck não respondeu, mas aceitou a oferta, mancando e usando as paredes como apoio entrou pela porta lateral atrás do balcão onde sabia ficar uma escada que ia para a residência da família Galliard. Se segurando firme no corrimão ela conhecia aqueles corredores do segundo andar com precisão, o quarto dos meninos ficava na penúltima porta à esquerda.
           Havia anos que não entrava naquele quarto, desde que ela e os meninos pararam de brincar e começaram a correr pela vaga de guerreiros. Era um quarto grande, mas parecia pequeno por ser dividido igualmente em dois espaços, a esquerda havia uma cama, uma prateleira e uma escrivaninha, tudo completamente arrumado, os pertencer de Marcel organizados perfeitamente, não só por ele no momento estar em uma missão, mas porque sempre foi tudo impecável daquela forma. Já do lado direito outra cama de solteiro estava amarrotada, no lugar da escrivaninha havia uma cômoda onde algumas peças de roupa estavam penduradas para fora das gavetas meio abertas, na parede um cartaz de recrutamento estava pregado com um alfinete perfurando a madeira.
           Se sentou na cama de Marcel enquanto encarava o cartaz, queria saber o que os pais dele achavam disso, mas quando subiu para o segundo andar anunciou sua presença e não obteve resposta, tudo estava quieto, então eles provavelmente não estavam em casa. Flexionou o tornozelo, ainda doía e a fumaça continuava a sair, sua regeneração era lenta e isso testava sua paciência às vezes, mas era muito mesquinho reclamar de tal habilidade quando a maioria das pessoas precisam de um tempo indiscutivelmente maior para se recuperar de ferimentos.
           Infelizmente a janela do quarto não dava direto para a rua, e sim para a parede lateral do prédio ao lado. Queria verificar se Zeke ainda estava do lado de fora esperando, quando entrou viu que ele pretendia abordá-la, ou resgatá-la, passando lentamente em frente a loja e a encarando pela vitrine enquanto Porco lhe levava até a cadeira.
           Se sentia enganada, envergonhada, imaginou-se andando pelos corredores do quartel, passando ao lado de alguém que ouviu a gravação, alguém que sabia que ela e Zeke haviam chegado a tal grau de intimidade, cochichando que o Chefe de Guerra havia usurpado a virgindade da Guerreira. Toda a situação, fechar os olhos para as atitudes de Zeke, tentou ignorar suas ações, um erro que ela sabia estar cometendo, mas decidiu fingir que não porque preferia mentir para si mesma.
           Deitou na cama, sentindo cheiro de lençóis limpos mostrando que a senhora Galliard trocava com frequência a roupa de cama, como se para deixá-la sempre preparada para o retorno repentino do filho mais velho. De todos eles justo ela ficou, justo ela e Zeke, imaginou se não seria melhor terem sido separados, mas tal pensamento foi condenado logo em seguida, ela teve o privilégio de ficar, de aproveitar os anos restantes ao lado do pai, poder voltar para casa depois da batalha e ter o conforto do próprio lar, não iria deixar a raiva repentina por Zeke fazê-la desprezar a sorte que teve, ainda mais quando estava deitada na cama de um colega que era muito amado pela família, onde a saudade era dolorida e espera torturante, se alguém poderia impedir Porco em sua aventura suicida de entrar para o exército esse alguém era Marcel, mas ele estava na ilha, esperava que pudesse voltar a tempo de ao menos encontrar o irmão caçula vivo e inteiro.
-O que está pensando?-ergueu levemente o rosto para ver Porco parado na porta do quarto, tinha a sensação de que ele já estava lá havia um tempo, mas não poderia ter certeza
-Marcel e nos outros-voltou a encarar o vazio-As vezes sinto muita saudade, mas claro, não tanta quanto você
-Quando ele foi lembro que fiquei feliz em ter o quarto só para mim-o rapaz sentou na própria cama-Mesmo que agora pareça vazio demais e muito grande para apenas uma pessoa
           O rapaz observava a amiga de infância deitada, ela parecia perdida nos próprios pensamentos, estava com ciúmes, queria que lhe desse um pouco de atenção, ela estava em seu quarto deitada na cama, estavam sozinhos, como poderia pensar em qualquer outra coisa além disso, quando a situação ecoava incansavelmente na mente do jovem?
           Infelizmente naquela época Porco ainda não sabia que não importava o que fizesse, Zeke Yeager sempre iria reaver a atenção da portadora do Titã Carroça.
           Pieck ainda sentia o impacto da porta contra suas costas quando ele a empurrou, a sensação de não conseguir respirar corretamente ao ter sua boca tapada, o esforço que fez em vão ao tentar se desvencilhar. Nunca imaginou que Zeke agiria dessa forma com ela, tudo apenas pela perspectiva de dizer algo que poderia comprometê-lo, isso aguçava ainda mais sua curiosidade sobre o que ele escondia, não era algo sem importância, mas algo que certamente o colocaria em risco, as possibilidades que vinham em sua mente eram tantas e cada vez iam piorando, seu segredo era algo que caso viesse a ser conhecido por Marley teria consequências terríveis, disso ela tinha certeza.
-Aconteceu alguma coisa?
           O rapaz enfim se atreveu a perguntar, depois do que parecia muito tempo apenas se deliciando em observar a garota.
-Muita coisa na cabeça, Porco, às vezes parece que vai explodir
           Colocou a mão na têmpora sentindo uma enxaqueca se aproximando.
-Sabe o que seria bom?-ela continuou-Sair e me divertir um pouco, o que acha?
           Imaginou que ela estivesse falando sozinha, até que aqueles grandes olhos escuros se viraram aguardando uma resposta dele, o deixando um pouco perdido.
-Sair?
-Sim, que eu me lembre recebi um convite mais cedo-um sorriso cansado e suplicante o fez corar
-Hoje?
           Afirmou com a cabeça.
-Sim, claro, onde quer ir?-não conteve a animação na voz
-Não sei, que tal você escolher?

 

           Ficar aguardando no meio da rua começou a parecer estupido depois de meia-hora parado do outro lado da calçada da loja de sapatos, e seu cigarro estava acabando. O loiro refez o caminho até seu apartamento, subindo muito lentamente cada degrau, percebendo só no corredor que havia deixado a porta aberta, sorte que seu prédio era quase morto.
           Pisou no cigarro apagado que caiu em meio a discussão, olhando em volta tentando entender como o apartamento conseguiu ficar tão escuro e pesado de repente. Arrastando os pés pelo piso de madeira andou até o maldito trofeu que ganhou anos antes, queria atira-lo contra a parede, despedaça-lo em mil pedaços entre os dedos assim como fazia com as pedras antes de joga-las contra os inimigos. Logo que o recebeu entendeu o que tinha dentro, confirmado tempos depois ao desaparafusar o tampo da base e encontrar um pequeno e muito moderno sistema de escuta transmitido sem fio com uma bateria que parecia infinita, ele sempre a verificava e ela estava sempre ativa. Sim, ele colocava a escuta ao lado da saída de som do rádio, mas nunca soube o quanto conseguia ser interferido pelo barulho.
           Aprendeu a viver com aquele empecilho, de início sentiu raiva, depois incômodo, agora estava acostumado, afinal, a única pessoa que recebia lá era sua avó, não havia com que se preocupar além da falta de privacidade, quando queria se sentir mais confortável ligava o rádio, mas Pieck, bom, eles foram bem sonoros noites antes, e ficou implícito ela ter ido a sua casa e saído na manhã seguinte, o que quer que tivesse sido ouvido não interferiria na interpretação que seria feita por quem o vigiava, ele poderia entender sua mágoa.
           O pior era a sinceridade, honestidade com a qual aquela noite foi conduzida, a sensação e satisfação que sentiu, todo o carinho entre os dois, aquilo foi muito maior que qualquer coisa que já vivenciou, talvez infelizmente a menina não fosse perceber, afinal era sua primeira experiência, mas diferente dela, Zeke sabia muito bem o envolvimento que houve entre ambos. E isso dava medo, ele não poderia se apegar, não poderia se distrair, se Pieck se colocasse em seu caminho não poderia hesitar em perdê-la, ou eliminá-la, ainda assim ele queria desesperadamente se desculpar e tentar explicar a situação.
-Por que eu me importo tanto?-perguntou a ninguém especifico enquanto se servia de um copo cheio de whisky para aquecer o corpo depois de tanto tempo da rua
           Duvidava realmente que Pieck fosse denunciá-lo ou tentar prejudicá-lo, não poderia dar motivos ou razões concretas para isso, digamos que ele seguia seus instintos e conhecimentos sobre a menina, ainda assim ele já se livrou de algumas pessoas por muito menos que isso.
           Zeke tentou se distrair pelas horas seguintes, lendo, ouvindo rádio, até fez alguns exercícios procurando esvair a mente, mas mesmo pendurado no batente da porta, sentindo o suor começar a cobrir a própria pele enquanto erguia o corpo em movimentos precisos, só conseguia pensar em Pieck. Aquelas lágrimas mesmo que não caídas, a maneira como ela pareceu machucada, por sua culpa.
           A noite chegou, e com ela uma ansiedade preocupante, sabia que não seria capaz de ter uma noite de sono ou fazer qualquer coisa que fosse sem vê-la, talvez já estivesse mais calma e disposta a ouvi-lo, por isso Zeke tomou um banho e se vestiu para ir atrás da garota, mas não imaginou encontrar aquilo quando bateu na porta dela.
-Pieck não está em casa, saiu com o filho dos Galliard-disse o pai quando o loiro surgiu inesperadamente
-Saiu?
-Sim, acho que foi um encontro-o homem lhe entregou um sorriso cheio de cumplicidade-Claro que ela não falou assim, mas ele veio buscá-la todo arrumado e ela também estava muito bonita para sair com ele, o rapaz estava mais vermelho que nossa braçadeira e gaguejava como se tivesse acabado de aprender a falar
           Enquanto descia as escadas sem saber ao certo o que fazer, Zeke sentiu uma crescente raiva, ficou a tarde toda se culpando enquanto Pieck estava tendo um encontro com outro. O relacionamento deles nunca foi algo que achou precisar de rótulo, ele era dela, e ela era dele, ainda assim, bastou um primeiro desentendimento para ela se arrumar e passear com outra pessoa?
           Não haviam muitos lugares onde poderiam ter ido, a praça da Zona de Internamento era o único lugar que ele imaginou ser possível ter um encontro, às vezes via casais passeando, sentados nos brancos e conversando, mesmo no clima frio e congelante o lugar estava movimentado, casais de todas as idades, famílias tentando se divertir a medida que era possível dentro daqueles muros miseráveis, não demorou muito para encontrar Pieck e Galliard, o pai dela tinha razão, ela estava linda, mesmo não parecendo arrumada demais, ele podia ver um grampo de cabelo azul brilhante entre as mechas negras, exibindo seu rosto pálido e vermelho de frio enquanto soprava uma bebida quente que Galliard havia comprado para ela aguentar ar gélido do final da tarde.
           Parecia estar se divertindo, rindo de alguma coisa idiota que o rapaz falou, isso quase aqueceu o coração de Zeke, vê-la sorrindo mesmo que não fosse por causa dele.
           O loiro decidiu se afastar antes que o vissem, desviando das crianças correndo enquanto inconsciente, apertava os punhos até sentir as unhas machucarem suas palmas.

 

           Ficou surpresa ao admitir que Porco havia salvado seu dia, a confortando com uma gentileza que era novidade para ela, era seu primeiro encontro, estranho pensar isso já que ela havia feito tudo o que tinha direito com Zeke, mas o portador do Bestial sempre preferiu mantê-la às escondidas, Pieck nunca notou que gostaria de ter tido um encontro até realmente estar em um. Perdeu a despreocupação da infância cedo, tinha outros tipos de ambientes, ela não frequentava o colégio, pela manhã passava por meninas da sua idade indo para a aula enquanto ela ia para o quartel, não convivia com pessoas da sua idade e não sabia bem o que era ser adolescente, mas agora andando pela praça onde vários casais jovens iam para passar o tempo ela notou como gostaria de ter isso em sua vida com mais frequência.
-Você está linda
-Obrigada, já é a terceira vez que me diz isso-sorriu enquanto escondia o rosto envergonhado no copo, usando o calor da bebida para aquecer os dedos
-É verdade, quero dizer, você está sempre linda
           Uma leve risada da jovem chegou como uma linda canção aos ouvidos do rapaz, Pieck ainda tentava entender as intenções dele, era estranho sair em um encontro com o amigo de infância, principalmente depois de anos com ele adorando provocá-la e irritá-la, agora parecia muito hipnotizado com sua presença, queria saber quando aquilo começou, quando Porco realmente pensou nela como uma garota, mas não iria enchê-lo de perguntas e questionamentos.
-Acho que está na hora de voltarmos-ele disse olhando a torre do relógio diante da praça-Prometi ao seu pai levá-la no horário que ele disse, não quero desobedecer logo no primeiro encontro
           Pôde ver uma tristeza nos olhos dele, nunca foi do tipo que escondia os sentimentos, era muito expressivo e sincero, Pieck desejou que certa pessoa também fosse assim.
-Tenho apenas algumas semanas antes de ir-disse enquanto caminhava de volta a casa da garota-Se pudermos marcar algo novamente antes disso...
-Adoraria
           Foi um bom passeio, mesmo que para ela fosse mais um tempo livre de diversão com um amigo que um encontro em si, condenando a si mesmo durante o caminho quando guardou a mão dentro do bolso no momento que sentiu que Porco estava sorrateiramente tentando segura-la, ela não queria andar de mãos dadas com ele, não queria beijá-lo, mesmo que pela maneira como o rapaz ficou em expectativa diante do prédio parecia tomar coragem para dar o primeiro passo.
-Quer que eu suba com você?
-Não precisa-ela respondeu enquanto abria a porta do prédio-Gostei muito, podemos ver outro dia
-Claro, sim, seria ótimo-seu rosto corou em expectativa
           Tinha que admitir que ele era bonito, e muito fofo, principalmente quando parecia afetado com a presença dela, algo que só percebeu agora.
           Fechou a porta atrás de si, deixando o rapaz sozinho na calçada, Pieck deu um longo suspiro, queria ter se divertido mais, foi ótimo, mas sentiu que não usufruiu da essência de um encontro, mesmo que durante alguns instantes tenha conseguido esquecer dele.
           Andava os poucos passos necessários entre a porta de entrada e a escadaria para os andares superiores quando notou escondido nas sombras do corredor escuro do térreo uma figura alta, o reconhecendo imediatamente, seu coração pulou conforme ele se aproximava, deixando a única lâmpada ao lado da escada mostrar seu rosto.
-Se divertiu?-não gostou daquele tom de voz
-Sim, me diverti bastante-ficou de frente para ele, tentando parecer indiferente
           Se encararam por alguns instantes que pareciam horas, quando Zeke decidiu esperar Pieck se preparou para encontrá-la mais zangada do que parecia no momento, seus olhos transmitiam irritação, mas ela ainda estava ali a sua frente, ao invés de sair andando ou atacá-lo.
-Fiquei surpreso ao saber que tinha ido a um encontro com o Galliard
-Série Zeke? De tanta coisa que poderíamos falar no momento, vai falar sobre isso?-cruzou os braços
-Acho que fui substituído com mais rapidez que imaginava
           Pieck abriu a boca para dar uma resposta malcriada, mas o som de passos descendo a escada a pararam, a dupla foi mais para o fundo do corredor, aproveitando a pouca iluminação para se esconder enquanto um vizinho passava por eles sem notar sua presença, saindo pela porta da frente e deixando para trás um silêncio pesado que atingiu o casal.
-Me desculpe, embora não saiba bem porque você ficou tão zangada
           Ergueu o rosto tentando ver se ele estava zombando dela, ela tinha várias razões para ficar zangada.
-Ter uma escuta no seu apartamento não é suficiente?
-Provavelmente tem uma no seu também-rebateu
-Mas se tem eu não sei, não sei onde fica, ou mesmo tenho certeza de sua existência, mas você sabia, e não pareceu se importar, não é como se tivéssemos bebido chá e conversando sobre o clima naquela noite-abaixou o rosto constrangido-Qual a diferença entre eles terem escutado e termos um grupo de pessoas no quarto olhando enquanto transamos? Para mim existe uma diferença muito tênue
-Com o rádio ligado muito dificilmente eles escutaram
-Mesmo assim, eu me senti exposta, envergonhada, só conseguia pensar em andar pelos corredores do quartel e passar ao lado de alguém que sabia que eu dormi com você aquele dia, sempre quis que fossemos discretos, mas isso foi totalmente o oposto
-Discretos quero dizer sem mãos dadas, demonstrações em público, além disso seria um saco se nossas famílias descobrissem, sabe que eles iriam criar fantasias sobre nós dois quando na verdade não podemos, saber o que quero dizer
           Sim, sabia, conversou o suficiente com a senhora Yeager para saber que a única coisa que queria era um bisneto, alguém para ficar com ela depois que Zeke se fosse, uma companhia e lembrança não só dele como do filho, ela temia cada vez mais o dia em que o neto chegasse a "validade" imposta por Marley, estava velha, mas dizia com animação e melancolia que ainda poderia cuidar de outra criança, dessa vez uma que pudesse crescer de maneira pacata.
           Seu pai também, ele queria que a filha pudesse ter uma vida normal, seu maior arrependimento era ter permitido que ela entrasse no programa de guerreiros, abrindo mão de ter a própria família, com marido e filhos, onde poderia seguir em frente após a morte dele.
           A avó dele amava Pieck, e o pai dela admirava Zeke, saber que haviam saído da amizade para algo mais íntimo seria como uma alegria imensurável que se seguiria de pura angústia.
           Mesmo assim um desejo egoísta chegou na garota, lembrando dos adolescente passeando e tendo vidas normais, dando discretos beijos quando pensavam que não havia ninguém olhando, imaginou que durante as tardes de primavera ou noites quentes de verão seria ainda mais cativante a ideia de um encontro, só que dessa vez com a pessoa que ela gostava.
-Não somos proibidos de ter relacionamentos-disse sem pensar
-Mas eu quero mantê-la escondida, só para mim
           Sentiu um arrepio quando ele alisou seu cabelo, brincando com a presilha azul que usava para tirar os fios rebeldes do rosto, de tantas pessoas no mundo, por que justo ele?
-Não gosto que você minta para mim
           Tentou encará-lo, mas tanto a falta de iluminação quanto os óculos a impediam de ver aqueles olhos azulados. Suspirando de exaustão por aquela constante atitude de preferir ignorá-la quando questionado, Pieck decidiu que era melhor ir embora, ir para casa e passar o resto da noite tranquila, porém logo que deu o primeiro passo um braço apareceu a sua frente, viu então que estava presa entre Zeke e a parede. Desviou do braço, passando por baixo dele em direção a escada, mas sentiu a mão grande e forte a puxando de volta.
-Zeke...-o advertiu
           Não pareceu ouvi-la, inclinando-se em sua direção, ainda não poderia ver com clareza seus olhos, mas ele estava a encarando fixamente, para a infelicidade do homem não viu a candidez adorável que a menina expunha toda vez que ele fazia isso, havia uma expressão de cólera irritada, mas ainda assim ela era muito encantadora.
-Me desculpe por tê-la deixado triste-deixou suas testas se tocarem, procurando naqueles olhos negros um sinal de compaixão-Prometi para mim mesmo que faria o possivel para lhe dar um pouco de alegria em meio a esse inferno, mas a primeira lagrima que vi em você foi por minha culpa
-Posso suportar várias coisas Zeke, menos mentiras
           Estavam tão próximos que suas palavras fizeram cócegas no rosto do loiro.
-Me conte Zeke, por favor
-Não posso-torceu a mão em punho, desejando socar a parede de frustração
-Não confia em mim?-a garota deixou as mãos percorrerem o abdômen do homem, acariciando-o por cima da roupa e tentando lhe passar segurança e conforto
-Isso não, eu simplesmente não posso
-É algo que faria Marley precisar tomar providências? Algo que seria considerado grave suficiente para matá-lo?
           Um silêncio, Pieck achou que ele fosse ignorar sua pergunta como sempre fazia, até que sentiu o homem segurar a mão que ela mantinha bem acima do coração dele, mantendo as duas ali.
-Sim
           A respiração de Pieck engatou, ela não esperava por isso, não que ele enfim fosse admitir, era mais do que ela tinha antes, considerou um progresso.
-Será perigoso para você e seu pai se eu contar-enlaçou a mão dela, trançando seus dedos com os dela-Apenas não pergunte mais sobre isso
-Não tem medo que eu conte?
-Sim, mas eu não quero que continue zangada comigo
-Meu estado de espírito é tão importante assim para você?
           Riu levemente, ainda nervosa pela informação que acabou de receber, estavam apoiados um no outro, ela não conseguia olhar em seus olhos, sabia que ele a encarava, mas estava fixada nos botões da camisa dele, não queria encará-lo, agora era ela quem estava evitando, sua cabecinha a todo vapor tentando saber o que fazer. Zeke pacientemente aguardava ela terminar de raciocinar, sabia que estava ponderando entre fingir ignorância ou denunciá-lo.
-Sabe, se você me entregar, deve receber algumas recompensas, além disso, como a única guerreira em Marley te promoveriam a um cargo superior. Eles provavelmente me dariam de jantar para o Grice, e com os outros em Paradis, você assumiria a liderança dos guerreiros
-Por que está me falando isso?-tentou puxar a mão que era segurada por ele, mas foi impedido pelo forte aperto
-Quero que você saiba de todas as vantagens agora e tenha uma decisão definitiva, sem riscos de mudar de ideia depois
           Fechou os olhos e tentou se concentrar, podia ouvir a respiração dele, os passos nos apartamentos ao redor, o som de uma criança brincando no andar de cima, vozes de pessoas que passavam pela rua, tudo, menos os próprios pensamentos porque sua mente ficou em branco.
-Marley tem uma lista enorme de atos que vêem como incriminados, alguns são tão ridículos que parecem piada, como não sei o que é, não posso julgá-lo
-Está arrumando desculpas para me acobertar?-não precisou olhar para saber que ele estava sorrindo
-Sim, não ache que estou feliz com isso
           Ao abrir os olhos o ambiente parecia mais escuro que antes, e silencioso, era engraçado como a escuridão nos faz querer enxergar melhor, mesmo que a falta dela nos faça ouvir mais claramente.
-Alguém vai morrer?
-Como assim?
-Esse seu plano envolve a morte de alguém?
           A eutanasia não iria matar os eldianos, apenas os impediria de ter filhos, nenhuma vida seria perdida, a não ser dos que se metessem em seu caminho, não planejava nenhuma morte, ele poderia acessar a coordenada silenciosamente, nem iriam notar o que aconteceu. Quanto tempo levaria para as pessoas notarem que não estavam nascendo mais eldianos? Impedir o nascimento era diferente de causar uma morte.
-Não, eu não pretendo matar ninguém
-Promete?
-Sim
           Apertou a mão dele, retribuindo naquele ato toda a segurança que o loiro precisava. Com a mão livre, Zeke segurou seu rosto e a puxou para um beijo, o beijo mais sincero que tiveram, ele não precisava mais prendê-la entre seus braços, ela não iria fugir.
-Sabe que esse não é o único problema que temos no momento-ela parou o beijo para pontuar aquele detalhe
-Eu sei, mas só me deixe beijá-la por enquanto
           Por alguns instantes achou que a tinha perdido, e isso foi tão desesperador, como estar afundando em mar aberto, agora ela estava ali, e não pretendia deixá-la ir.
           Suspirou quando ele deixou sua boca e dedicou em traçar beijos pelo pescoço, inalando um aroma diferente. Perfume? A puxou para mais perto, sentindo o novo cheiro que ela carregava, muito suave e doce, preferia o cheiro natural dela, e não aquela essência engarrafada. Pieck cheirava como a chuva do verão, a mel, maçã e chocolate, livros novos e banho quente, conseguiu achar seu aroma natural em um ponto entre a orelha e a nuca, sem nem perceber que a garota arfava em seus braços, preocupada em serem pegos, mas apreciando o risco.
-Você está tão bonita-disse enquanto dava uma leve mordida em sua pele macia-Isso me deixa irritado
-Não gosta que eu esteja bonita?
-Você está sempre bonita, mas não foi para mim que você se arrumou
-Ciúmes?-não deixaria passar a oportunidade de provocação
-Como aquele merdinha do Galliard se atreveu a levá-la para um encontro?
           Apertou com firmeza a cintura dela a pressionando contra a parede, Pieck quase reclamou pela forma áspera, mas estava se divertindo com aquela atitude atípica dele.
-Alguém tinha que fazer isso, além disso as intenções dele eram melhores que as suas
           Zeke parou imediatamente, se afastando e encontrando no rosto dela um sorriso malvado, isso despertou algo dentro dele que nunca havia vivenciado.
-Ele tentou alguma coisa?-em sua voz havia um pouco de nervosismo, um pouco de raiva
-Que tipo de coisa?-estava brincando com fogo
-Ele tentou te beijar, Pieck?-aquela voz dura e áspera naquela situação era incrivelmente excitante
-Não, mas...-desviou o olhar
-"Mas" o que?
           Segurou o rosto dela e a obrigou a encará-lo, mesmo com sua rispidez foi delicado em tal movimento.
-Se ele tivesse tentado, seria indelicado recusar, não acha?
           Viu um brilho sombrio nos olhos de Zeke, bem como um sorriso afetado, querendo acreditar se ela realmente teve coragem de falar aquilo para ele.
           Sua cabeça bateu na parede quando ele a atingiu com um beijo voraz, sem deixá-la entender o que acontecia, Zeke enfiou a língua dentro dela, explorando cada centímetro sem nem lhe dar a chance de respirar. Pieck notou uma brutalidade no beijo, a maneira como queria deixar claro que ela era dele, e parecia errado ela estar gostando.
           Engasgou quando sentiu as mãos dele possessivamente agarrando suas coxas, tentando entender como ele chegou lá, sorrateiro por baixo da saia, alisando o tecido de algodão, tentou parar o beijo, mas ele não deixou, rapidamente deixando os dedos irem para a barra do tecido, ele sentiu-a suspirar em sua boca, parecia prestes a ceder, mas o som de uma porta batendo em algum lugar do prédio ecoou até eles, chegando aos ouvidos dela como um choque.
-Zeke...
           Se desvencilhou de seus lábios, mas ele foi rápido em usar a outra mão para desabotoar os primeiros botões do casaco azul que ela usava.
-Zeke, estamos no meio do corredor
           As palavras foram ignoradas quando o homem afastou o tecido da calcinha para chegar ao ponto mais doce dela, sorrindo ao sentir a umidade embeber seus dedos.
-Me fale Pieck-chan-fez questão de olhar diretamente para o rosto da garota enquanto falava-Isso é para mim, ou foi ele quem te deixou assim?
-Você, só você consegue me deixar assim-pensou, não iria dar essa satisfação a ele
-Me responda
           Exigiu enquanto enfiava um dedo, entrando com facilidade, ela estava realmente molhada.
-Zeke...-precisava conter-se, ou alguém iria ouvir
-A última vez foi naquela noite, correto? Ou você tem se divertindo sem mim?
           Talvez ela tenha feito isso algumas vezes durante o banho e antes de dormir, mesmo não tendo dito nada Zeke pareceu entender apenas pela reação dela.
-Adoraria olha-lá fazendo isso
           Mais um dedo, agora eram dois que realizavam movimentos rápidos e firmes para dentro dela, podia ouvir o som que estavam fazendo, molhados e escorregadios.
-Pare, alguém pode ver, meu pai pode ver-disse entre suspiros timidos enquanto segurava o braço dele, tentando fazê-lo parar, mas ele era forte e determinado
-Então é melhor eu te fazer gozar rápido
           Desistindo, Pieck decidiu se entregar, mordendo os lábios para evitar que qualquer som saísse, desejando que nenhuma das portas ao redor deles se abrisse subitamente, prestando atenção em passos que poderiam vir das escadas ou alguma chave abrindo a porta da entrada, havia tantos caminhos de onde poderiam vir pessoas para flagrá-los.
-Olhe para mim-ordenou
           Ela o fez, Zeke ostentava faces rosadas, tão intensas que mesmo o escuro e a barba não poderiam esconder, ele a desejava, muito, pensou que durante aqueles dias que sucederam a primeira noite juntos tivessem despertado nele algum tipo de desinteresse em tê-la novamente, mas não, ele a desejava, talvez mais do que ela.
           Inseriu o terceiro dedo, se divertindo em como ela tentava conter e impedir qualquer tipo de som, com o polegar começou uma massagem intensa e firme contra o clitoris, a garota precisou se pressionar ainda mais contra a parede a procura de apoio para não cair diante das pernas cada vez mais fracas.
-Parece que agora já aguenta três dedos-sussurrou contra a orelha da jovem antes de dar uma leve mordida
           As pernas dela tremiam, inconscientemente acabou afastando as coxas e lhe dando mais caminho para continuar, queria ter durado mais, resistido mais, porém já estava sentindo os pulsares de antecipação do orgasmo.
-Zeke, eu...
-Vamos, goze para mim
           Por que quando ele dizia essas coisas ela gostava tanto? Estava cansada de frases polidas e formais, adorava quando ele escolhia aquele palavreado.
           Suas pernas tremeram e perderam a estabilidade, ele a segurou com a mão livre enquanto a outra era apertadas pelas coxas da jovem, que segurou seus ombros enquanto tentava continuar quieta, foi rápido, ela mesma se surpreendeu, a ousadia pelo lugar onde estavam só aumentou o prazer. Ele foi retirando os dedos lentamente, a deixando vazia e completamente vestida, nem fez questão de abaixar a calcinha que agora torta para o lado.
-Você é deliciosa-chupou os próprios dedos apreciando o sabor
-Não acredito que fizemos isso aqui
-Se quiser podemos fazer mais
           A deixou sentir a ereção contra seu corpo, Zeke parecia ter um problema e ela estava muito disposta a ajudar, mas antes que ela pudesse alcançá-lo ouviram o som e uma porta se fechando no andar de cima seguido de passos.
           O loiro se escondeu nas sombras enquanto Pieck tentava se recompor, encontrando descendo a escada justamente seu pai, que parecia não tê-la notado até chegar ao último degrau.
-Pieck, o que faz aí parada?
-Acabei de chegar-sua voz ainda estava um pouco sem fôlego-O senhor está de saída?
-Sim, vou encontrar uns amigos, tudo bem?
-Claro, divirta-se
           O homem estava abrindo a porta da frente quando se virou rapidamente para a filha que permanecia parada esperando-o sair.
-Zeke esteve aqui te procurando
-Mesmo?
           Tentou esconder um sorriso presunçoso, adoraria ver a reação dele ao saber que ela estava em um encontro, principalmente porque agora ele deveria estar em meio às sombras ouvindo.
-Sim, disse que você saiu, tinha algo a tratar com você, mas não era importante
-Depois pergunto a ele o que era, embora não imagine o que tenha vindo fazer aqui
           Conhecia Zeke o suficiente para saber que ele estava com aquela expressão carrancuda diante do seu cinismo.
-Preciso confessar, ele pareceu um pouco ciumento-se aproximou um pouco da filha-Acho que a minha filha faz mais sucesso do que eu imaginava
           Pieck tentou achar uma resposta engraçada e despretensiosa, mas realmente não sabia como responder a isso, por isso apenas lhe entregou um sorriso simplório antes de se despedir novamente.
           Sentiu quando Zeke voltou a se aproximar, sabia o que ele iria sugerir, sabia o que ele pensava, por isso ao invés de se virar e encará-lo, a jovem começou a subir as escadas sem olhar para trás, sentindo que ele a seguia.
           Abriu a porta do apartamento a deixando aberta ao passar, seguindo direto ao próprio quarto, acendeu a luz do cômodo no mesmo momento que o som da porta da frente sendo fechada chegou até ela.
           Zeke nunca havia entrado no quarto de Pieck a não ser no dia em que ajudou na mudança, por isso levou alguns segundos para analisar tudo, as paredes azuis com prateleiras brancas suspensas ao lado da cama de ferro, onde haviam alguns poucos brinquedos da infância, entre eles a boneca que ela ganhou que havia sido esquecida na memória dele, mas agora parecia muito recente. Uma escrivaninha onde além de uma máquina de escrever com papel meio digitado havia um frasco de perfume âmbar que imaginou que foi o que ela usou, logo ao lado uma caixinha de joias aberta mostrando diversas opções de brincos e prendedores de cabelo, na cadeira diante do móvel estava pendurada uma longa saia plissada rosa. Do outro lado do cômodo a porta do armário estava aberta, mostrando do lado de dentro um espelho oval preso na parte interna e ao redor várias fotos e cartões postais.
           Se aproximou para ver melhor, e o que chamou atenção foi uma foto deles com os outros guerreiros, na época onde ele ainda não tinha barba nem óculos, e ela só tinha dez anos; não era uma foto montada, foi algo bem espontâneo, mas ele não prestou atenção em como todos pareciam relaxados e felizes diante do que deveria ser uma tarde típica de treinamento, só duas coisas passavam pela sua cabeça; que o sorriso dela era lindo, e que sua mão estava no ombro de Pieck, ele realmente nunca a enxergou de maneira diferente até alguns anos depois, mas ver uma foto em que tocava nela naquele instante quando a mesma mão ainda podia sentir o calor que ela tinha entre as pernas o fez se sentir culpado e errado.
-Zeke?
           Ela já estava somente com a roupa de baixo, um conjunto branco de calcinha e sutiã, de joelhos na cama ela olhava para ele em expectativa, as pernas ligeiramente separadas mostravam a umidade entre suas coxas.
           Olhou mais uma vez para a foto antes de fechar o armário, começou a tirar as roupas enquanto ia se aproximando da cama para se juntar a ela.

 

           As pernas entrelaçadas, os braços dela lhe acolhendo, o rosto dele perdido entre os cabelos negros e macios, essa foi a visão do casal após gastarem todas as energias, deitados um de frente para o outro, suados e cansados.
           Os olhos de Zeke acompanharam a própria mão enquanto que se deixava a pele macia, a cintura fina e quadril largo, apreciando como sua palidez parecia brilhar no escuro, achando graça de como ela ainda era tímida suficiente para pedir que ele apagasse a luz, mas ousada o bastante para não se importar com os vizinhos ouvindo seus gritos.
           Ela tinha um corpo lindo, perfeito, era uma pena que sempre o escondesse, usasse roupas que nos ocultava suas curvas, mas ele sabia que a causa era o receio de chamar atenção, Pieck vivia em meio a marleyanos, não poderia arriscar chamar a atenção deles para seu corpo e no pior dos casos, essa pessoa usasse de sua superioridade diante dela e tentar se impor a ela em sua posição como eldiana.
           Roupas planejadas para se esconder, desfeminilizar, saias longas, camisas largas e um casaco por cima só para garantir. Parecia que aquela inocência de anos antes, quando não se importava em entrar nas tendas alheias havia se esvaído, e isso era triste, já que, se um marleyano a achasse atraente tudo o que poderia fazer era rezar para que ele fosse decente o suficiente, ou preconceituoso o bastante, para deixar qualquer desejo ou atração por ela ser algo apenas no próprio íntimo.
-Não olhe para eles, não os encare, não sorria, isso pode ser tido como um convite
-Convite para quê?
-Algo que é melhor você não saber
           Foi o que disse a ela quando tinha treze anos e decidiram que deveria participar das reuniões e ter contato com outros oficiais além de Magath.
           A dádiva de serem apenas os dois guerreiros em Marley tinha seus contras, se estivesse muito ocupado não poderia estar com ela, e imaginar Pieck andando sozinha pelo quartel cheio de marleyanos era um temor que ia crescendo com o tempo, ela sabia se defender, mas não tinha voz para lutar.
           Todas essas lembranças e medos surgiram de uma vez, o que o fez apertá-la em seus braços querendo mantê-la ali para sempre.
-Zeke, não consigo respirar-sua voz saiu abafada
-Desculpe-afrouxou o aperto-Só estou pensando
-Não gosto quando você pensa, às vezes você pensa demais e eu nunca sei o que passa pela sua cabeça
-Estou pensando em como você é linda
-Mentiroso
           Uma risada leve saiu dos lábios de Zeke, depositou um leve beijo no topo da cabeça da garota que ainda estava encolhida contra seu abdômen.
-Como soube que eu iria concordar em esconder seu segredo? Não que eu saiba o que é, mas o que sei é suficiente para se iniciar um inquérito-disse baixinho
-Não sabia
-Então se eu não aceitasse, o que faria? Me matar?
-Não, eu jamais poderia fazer isso, nunca-penteou os cabelos com os dedos, desfazendo os nós que se formaram pelo atrito dela contra a cama minutos antes-Digamos que eu apostei
-Pelo visto você ganhou
-Ainda não-a puxou para um beijo-Os dados ainda estão rolando, vamos ver se vai ter o mesmo pensamento quando eu for embora
-Se eu mudar de ideia, o que vai fazer?-o encarou
-Vou me deixar ser condenado, é o que merecem todos os idiotas que se deixam levar por uma garota bonita
           Agora foi a vez dela rir, embora ainda tivessem muitos assuntos a tratar.
-Não me esqueci das outras coisas, Zeke. Por mais que você tenha o costume de querer me distrair e mudar de assunto quando se sente desconfortável com algo
-Pieck...
-Deveria ser um neto mais presente, na verdade isso foi o que me deixou mais zangada que qualquer coisa, mas acabou juntando tudo de uma única vez
-Por favor...
-Ela se culpa muito Zeke-se afastou dele, o olhando nos olhos e mostrando o quão séria estava sendo sobre suas palavras-Se culpa por ter deixado seu pai sair de casa aquele dia com a irmã, de não ter percebido que as aulas de dança eram um pretexto para fazer reuniões escondidas, por ter deixado as coisas chegarem ao ponto em que você precisou denunciar os próprios pais, e se não o tivesse feito que fim todos teriam
-Prefiro não falar sobre meus avós e meus pais enquanto estamos pelados na cama
           Se desvencilhou de seus braços, se sentando rapidamente na cama para sair de perto dele, mas o loiro segurou os braços dela com firmeza e a puxou de volta para a cama, gostando de como ela lutou um pouco para se livrar, mas logo estava mais uma vez presa no poder dele.
-O que quer que eu faça?
-Que entenda que você é a única coisa que ela tem, mesmo que não por muito tempo
           Suspirou de cansaço, sentindo toda a leveza de antes ir embora.
-Não vai me deixar em paz em relação a isso, certo?
-Nem um pouco
-Se eu prometer melhorar, que tal?
-Você não é a pessoa mais verdadeira do mundo
-Mas eu já quebrei uma promessa que fiz à você?
           A menina pensou um pouco, não é como se suas promessas tivessem sido muito sérias e importantes, mas não estava errado em relação a isso.
-Pieck, cheguei
           A voz do homem entrando no apartamento alertou o casal, Pieck se desvencilhou dos braços do loiro e pulou da cama, indo até a porta do quarto e a trancando lentamente para seu pai não ouvir o som da chave, ela se virou para Zeke, o encarando em pânico, o homem parecia muito tranquilo, permanecendo deitado na cama, talvez um pouco irritado por terem sido interrompidos.
           Vestindo-se rapidamente, Pieck pegou as roupas dele largadas no chão e jogou no rosto do loiro.
-O que eu faço?-perguntou desesperada
-Eu posso só sair, falar que estávamos conversando no seu quarto sobre algo confidencial-sugeriu enquanto vestia a cueca
-Acha que ele vai acreditar?
           Não, o quarto cheirava a sexo, o calor produzido pelos corpos em movimento transformou o comodo em uma sauna. A expressão de descrença no rosto de Zeke foi suficiente para a garota entender que era melhor arrumar uma maneira de fazê-lo sair sem ser visto.
-Pieck?
           Ouviu as leves batidas na porta diante dela, o olhar que direcionou ao loiro dizia:
-Se vista e fique quieto, vou arrumar uma maneira de te tirar daqui
           Destrancou a porta e saiu do quarto, percebendo como o resto do apartamento estava frio em relação ao seu quarto, o homem mais velho estava logo à sua frente, com as faces tão rosadas quanto da filha, mas certamente por outra razão.
-Chegou cedo
-Cedo? Fiquei horas fora
           Percebeu então no relógio da parede marcar mais de meia-noite, iria reclamar com o pai a respeito do toque de recolher da Zona de Internamento, mas estava mais espantada pelo tempo que ficou com Zeke, não é a toa que estivesse dolorida.
-Nem percebi o tempo passar-sorriu sem graça-Já vai dormir?
-Vou fazer algo para comer
-Tão tarde?-o seguiu para a cozinha
-Estou com fome
-Eu faço
-Não precisa
           A garota ficou nervosa, a área da cozinha era aberta e se Zeke passasse em direção a saída seria visto, poderiam esperar o pai dormir para mandá-lo embora, porém Pieck queria se livrar do loiro o mais rápido possível.
           Começou a sentir os fluidos corporais secando por baixo da roupa, sabia que deveria estar com um cheiro bem característico que logo seria notado, porém seu pai agora estava se atrapalhando na cozinha. Deveria ter bebido uma ou duas cervejas, atitude que era condenada pela filha, o médico o proibiu de beber, mas como ela poderia brigar com ele se estava escondendo um homem dentro do quarto?
           Pieck ouviu o som da porta abrir, olhando em direção ao seu quarto e vendo o brilho dos óculos de Zeke, só o olhar da menina deveria ter sido suficiente para amedrontá-lo, visto que rapidamente fechou a porta.
           Precisando encontrar uma solução para tirar seu pai dali apenas o suficiente para Zeke sair, a jovem entrou no banheiro e analisou o próprio reflexo no espelho, rosto rosado e cabelo desgrenhado, que não era tão incomum, notou que haviam marcas de beijos e mordidas leves no pescoço, agradeceu seu pai não ter percebido, então, como uma lâmpada se acendendo sobre sua cabeça, a garota foi até a banheira e girou o registro no caminho contrário o mais forte que conseguiu.
-Deve servir
           Respirou fundo antes de sair do banheiro e voltar para a cozinha, onde seu pai se aventurava.
-Pai, não consigo abrir a torneira, pode abrir para mim?
-Ah, sim
           Parecia tentar disfarçar que havia bebido, falhando miseravelmente, ao mesmo tempo que o homem mais velho ia para o banheiro, Pieck correu até o quarto abrindo a porta e encontrando Zeke com um sorriso divertido.
-Que tal aproveitarmos que estou preso e passar a noite aqui?-sugeriu assim que a viu
-Nem pensar, pode ir embora
           Enquanto o loiro ia saindo silenciosamente, Pieck conseguiu ouvir o pai reclamando como a torneira parecia ter emperrado, acompanhando o portador do Bestial até a porta, Pieck lhe dava leves tapas com a ousadia que o loiro tinha em tirar proveito da situação e tentar irritá-la com beijos e uma mão boba que tentava lhe segurar.
-Um beijo de despedida-exigiu diante da porta aberta
-Zeke, vai logo
-Ou me beije ou vou ficar aqui até conseguir
           Bufando irritada, e um pouco divertida, ficou na ponta dos pés para alcançá-lo, mas Zeke a segurou firme nos braços e capturou seus lábios em um beijo profundo e tentador, sim, tinha que admitir que adoraria que ele ficasse mais, porém era totalmente impossível. Apreciou a língua dele explorando sua boca, mas assim que ouviu o som da água corrente vindo do banheiro ela o empurrou com força pela porta aberta, jogando o loiro para fora do apartamento antes de fechar a porta rapidamente.
-Pieck?-seu pai saiu do banheiro encontrando a filha encostada na porta fechada-Tudo bem?
-Sim, só pensei ter ouvido alguém bater na porta
-Já abri a torneira
-Obrigada, vou tomar um banho
           Passou correndo por ele se trancando no banheiro, sentindo o coração bater em excitação e adrenalina.


           Na manhã seguinte ela acordou ao som do despertador, enrolando um pouco entre as cobertas ainda sentindo o calor de Zeke na cama, nem conseguindo acreditar que ele esteve ali, às vezes gostaria se não ter o fator de cura dos titãs e poder traçar as lembranças que deixou em sua pele na noite anterior, mas seria muito embaraçoso ter que explicar às pessoas, principalmente seu pai, que pelo o que poderia imaginar, já estava acordado e provavelmente lendo o jornal.
           Levantou da cama sentindo o chão frio nos pés descalços, se arrastou para fora do quarto e como esperava, seu pai estava sentado no sofá com uma caneca de café e o jornal da manhã, até se sentia um pouco culpada por tê-lo enganado, mas ele havia bebido, então estavam quites. Isso não impedia o homem de seguir sua rotina e acordar logo cedo e ser um dos primeiros clientes do jornaleiro da esquina, preferindo uma manhã pacata de um homem de quarenta anos.
           A garota se aproximou sorrateiramente, não tendo sua presença notada até surgir diante do artigo sobre o aumento do preço dos alimentos que era lido pelo pai.
-Pieck? Cuidado, o café está quente
           Alertou o homem erguendo a caneca enquanto a filha arrumava um espaço em seu colo, se encolhendo nos braços do pai sem se importar em estar atrapalhando.
-O que aconteceu?
-Nada, não é como se eu não gostasse de ficar assim com você-se empoleirou como um gato
-Não desde que tinha uns seis anos e já se achou adulta demais para seu pai-brincou enquanto continuava equilibrando o café em uma mão e o jornal na outra-Vai acabar se atrasando
-Só quero ficar um pouco assim
-Tudo bem então
           Colocou a caneca no braço do sofá e voltou a ler o jornal, apreciando a tranquilidade em fingir que a vida deles era aquela, onde Pieck se atrasaria para o colégio e não o quartel, e seu pai, mesmo se tivesse problemas de saúde, pudesse ter um tratamento médico adequado e humano. Estava fazendo isso por ele, mas era tão difícil imaginar que o tempo que tinham juntos tinha um limite programado, enquanto outras pessoas, Zeke, nem se importavam em apreciar o tempo com aqueles que ficariam para trás e sentiriam sua falta.


850

PRIMAVERA


           As primeiras flores começavam a desabrochar em algum lugar fora da zona de internamento, mas Pieck podia sentir a diferença ao sair aquela manhã de casa, com o cabelo amarrado em um rabo de cavalo bagunçado e volumoso com um laço verde ela andou pelas ruas vazias da manhã, cedo demais para estar na rua a não ser que fosse por um motivo muito específico, e Pieck tinha um. Encontrando um grupo com dezenas de famílias eldianas diante dos portões se despedindo de seus filhos que iriam para o exército, isso apertou um pouco seu coração, mas ela não se deixou abalar, precisava ser otimista.
-Pieck!
           Porco exclamou de alegria ao vê-la se aproximar, os Galliard estavam sorrindo orgulhosos, um grande contraste em relação aos outros, claro, o alistamento do caçula foi voluntário, diferente dos demais que não tiveram escolha a não ser seguir a vida de isca, como familiar de um guerreiro ele estaria dispensado desse tipo de tarefa.
-Pensei que não fosse conseguir me despedir de você-ele confessou envergonhado
-Jamais poderia te deixar ir sem desejar boa sorte
           Precisava admitir que ele ficou bem com o uniforme, substituindo a braçadeira vermelha pela boa e velha branca, talvez para evitar confusões em meio a batalha. Parecia animado, orgulhoso, inflava o peito diante da garota para tentar parecer mais atraente, achando que ela não notou que estava se exibindo como um pavão, mas achou divertido. Tiveram poucos oportunidades de conversar desde o encontro, mas ele parecia ansioso por uma nova chance, visível ao prometer sem constrangimento diante dos pais que assim que voltasse a chamaria para outro encontro, em uma estação com clima mais favorável, porém todos sabiam que poderia levar um mês, cinco meses, um, dois anos até ele voltar, se voltasse.
-Estarei esperando-foi a única coisa que poderia dizer sem estar mentindo
           Quando o oficial marleyano os chamou, a caravana de eldianos marchou para fora dos portões, Porco abraçou os pais e deu um leve aperto de mão em Pieck antes de acompanhar os outros, assim como na despedida de Marcel a senhora Galliard segurava o lenço de seda para enxugar as lágrimas e seu marido tinha os olhos brilhando de orgulho, mesmo que ao redor parecesse existir uma nuvem de melancolia e desesperança.
           A guerreira se afastou com uma despedida tímida antes que a senhora Galliard a enchesse de perguntas a respeito do tipo de relacionamento que ela tinha com o caçula, passou as últimas semanas fugindo dela para evitar ser interrogada, seu pai lhe alertou.
-A senhora Galliard ficou quase uma hora tagarelando sobre você e Porco estarem namorando. Vocês estão?
           Não, seria mais fácil se fosse ele, mas infelizmente a pessoa que ocupava os pensamentos da garota era muito mais difícil e complexa. Ir todos os dias ao quartel sabendo que Zeke escondia algo se tornou incomodo de inicio, depois ela até esquecia durante alguns momentos, mas sempre em alguma ocasião se lembraria.
-Onde vai a essa hora Pieck-chan?
           Ele surgiu como um fantasma ao seu lado usando as mesmas roupas do dia anterior quando se despediram na saída do trabalho, não a acompanhou até em casa dizendo que precisava resolver um assunto importante, mas ela não comentou no momento e não o faria agora.
-Vim me despedir do Porco, ele foi para batalha
-Garoto idiota, poderia ficar aqui e viver tranquilamente-deu um trago no cigarro
-Vai para casa?
-Sim, estou exausto-estalou as articulações do pescoço, duvidava que tivesse dormido
-Posso ir com você?
           A pergunta o pegou desprevenido, ela não havia ido a sua casa depois daquela briga, pensou que seria uma decisão silenciosa em evitar e ignorar o incômodo que sentiu naquele dia, mas ficou feliz em saber que ela queria voltar para lá.
           O casal andou pelas ruas pouco movimentadas, fazendo todo o caminho em uma conversa tranquila sobre coisas sem importância, até que ela decidiu comentar um assunto que ainda não teve a oportunidade.
-Fui ver sua avó alguns dias atrás para tomar chá, ela me disse que você apareceu lá perguntando se precisava de alguma coisa
-Estava de passagem-deu de ombros fingindo indiferença
-Acho que é um progresso
           Subiram os vários degraus do prédio, como sempre Pieck tinha a esperança de encontrar um vizinho no corredor, mas cada vez que ia lá se perguntava se haviam outros moradores. Zeke destrancou a porta e logo que ambos entraram a garota o puxou para um beijo, o desejo que sentia por ele aumentava tão ardentemente que se perguntava como conseguia passar dias entre um encontro e outro, como conseguia vê-lo diariamente e não lhe encher de beijos e carícias a cada instante.
-Onde está?-sussurrou contra seus lábios
           Não foi preciso especificar sobre o que falava, Zeke a levou até o troféu, brilhante e exagerado ao lado do rádio onde sempre esteve, o segurou sentindo o peso excessivo, era óbvio que havia algo lá dentro, imaginou se os marleyanos foram estúpidos demais ou ingênuos o suficiente para acreditar que mais cedo ou mais tarde aquele prêmio não pareceria suspeito.
-Por que nunca ganhei um troféu?
           O loiro pareceu espantado com suas palavras, mas decidiu segui-la.
-Quando se tornar Chefe de Guerra vai receber um
-Mas eu sou líder de batalhão, deveria ter ao menos uma medalha, isso é muito injusto
           Abriu lentamente o tampo do fundo do troféu, notando que já estava desparafusado, tirando a pequena escuta e vendo uma luz bem fraca acesa indicando estar ligado. Largou a escuta no chão, ela fazendo um barulho pesado e firme.
-Merda, Zeke desculpe, acho que amassou...
           Entendeu então onde ela queria chegar, se aproximou.
-Não fique mexendo nas coisas dos outros se não vai ter cuidado
           Tirou a escuta da mão dela, procurando o botão que tantas vezes já quis apertar.
-Foi sem querer
-Me devolva isso
           Agora foi a vez dele deixar a escuta cair no chão, logo em seguida apertando o botão que desligava a luz. Foi estranho, então haviam desligado? Não tinha mais ninguém escutando?
           Por quase um minuto o casal ficou parado encarando a escuta que antes emitia um som muito baixo e vibrante, mas só notaram agora que ele parou.
-Sabe que podem ter mais, não é?
-Sim, mas se não souber, não faz mal a ninguém, não é esse seu conceito das coisas?
           Certo, ele mereceu a alfinetada. Voltaram a guardar a escuta dentro do troféu, os parafusos estavam logo ao lado, mas Zeke faria isso depois, agora o que chamou sua atenção foi a garota andar decidida até o quarto.
           A abraçou por trás, sentindo o contorno de suas curvas com o corpo.
-Acho que quer dizer que está do meu lado
-Não Zeke, não estou do seu lado-segurou as mãos que estavam lhe abraçando-Não posso estar do lado de alguém se não sei quais são as intenções, mas estou com você
-Qual a diferença?-começou a tirar o casaco que ela vestia
-A diferença é que se não confia em mim, não posso confiar em você, mas não posso te virar as costas
-Então por que veio?
           Ainda atrás dela, procurou pelos botões da camisa, desabotoando um por um, sentindo por baixo do tecido a pele macia e quente.
           Não respondeu, ao invés disso se virou para encará-lo, havia tanta coisa que queria falar, mas tinha medo de espantá-lo, não queria perder o que tinham, por mais que a enchesse de culpa. A camisa aberta chamou a atenção do loiro para o sutiã que ela usava, os seios firmes e protegidos pela armação. Levaram um ao outro em meio a um beijo caloroso até a cama onde parecia ser o único lugar onde poderiam fingir que nada mais existia.


           Chegou ao orgasmo com um grito timido enquanto o apertava internamente, sentindo entre as pernas a figura de Zeke imponente e forte pairando sobre ela, seus olhos se encaravam, negros e brilhantes contra os azuis faiscantes. O loiro diminuiu dolorosamente o ritmo, querendo aproveitar o rosto sedento e corado da garota, os cabelos formando um arco ao redor de seu rosto em contraste aos lençóis brancos.
           Pieck levou a mão até o rosto dele, acariciando a barba macia, o puxou para mais perto os unindo também em um beijo calmo cheio de palavras não ditas. Zeke procurou a outra mão dela, a enlaçando contra a sua enquanto voltavam a mover o quadril, com calma, com desejo que aquilo durasse para sempre. Suas mentes repletas de palavras não ditas enquanto viam no rosto do outro a mesma cumplicidade.
-Você é uma ameaça, mas não posso me livrar de você...
-Sei que esconde alguma coisa, mas não posso denuncia-lo...
-...por que...
-...por que...
-....
-...você é a melhor parte da minha vida