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damn your lies

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1.

Não era novidade nenhuma que Mu Qing e Feng Xin não se davam bem.

Todos sabiam disso na realidade, bastava deixá-los próximos um do outro por pouco mais de alguns minutos para que uma discussão se iniciasse e, geralmente, se ninguém interviesse eles continuariam até que um estivesse agarrado no pescoço do outro.

Mas curiosamente eles ainda assim tinham muita coisa em comum: os dois gostavam bastante de esgrima, os dois eram fãs das mesmas séries de televisão e dos mesmos filmes, seus gostos musicais eram tão parecidos que chegava a ser assustador, nenhum dos dois gostava do namorado de Xie Lian e nenhum dos dois gostava do sol.

Esse último tópico, essa última característica em comum, foi a primeira que realmente surpreendeu Mu Qing. Veja bem, Feng Xin era uma pessoa que muitas vezes parecia exalar essa energia diurna, ele parecia ser o tipo de pessoa que sairia para jogar bola em dias quentes de verão, o tipo de pessoa que se queimaria por esquecer de passar protetor (Mu Qing conseguia ver em sua mente a imagem de Feng Xin com sua pele cor de mel e rosto vermelho de insolação, embora ele nunca tivesse realmente visto tal cena), ele parecia ser o tipo de pessoa que cheira a verão.

Ele não era nada daquilo.

Feng Xin na verdade raramente saía quando o sol estava muito forte e, se saísse, ele com toda certeza estaria de óculos escuros, sombrinha na mão, com o rosto coberto de protetor solar e roupas que se estendiam por toda a pele de seus braços e pernas. Quando aquele enorme grupo de amigos saia ao ar livre, Mu Qing e Feng Xin sempre estariam juntos na sombra.

Infelizmente, havia outra pessoa que também compartilhava essa curiosa característica, este era Hua Cheng.

Bem, isso os levava ao dia presente em questão, quando Shi Qingxuan e Xie Lian arrastaram todos para a praia. Aquele era um dia terrivelmente quente e ensolarado, o lugar estava lotado e Mu Qing realmente odiava a sensação de suor em seu corpo e areia grudando em suas pernas, o vento forte já havia se tornado insuportável e ele estava tentando se distrair com o próprio celular, cuja bateria estava em 21%.

Mu Qing odiava Feng Xin, mas ele odiava Hua Cheng mais, então ele se sentou justamente na extremidade daquele espaço para que tivesse uma pessoa detestável bloqueando seu contato contra uma pessoa mais detestável ainda. He Xuan provavelmente estaria junto daqueles três se o mesmo não fosse totalmente viciado em nadar na água salgada, como um maldito peixe e, bem, logo o próprio Hua Cheng não demoraria muito para se render aos encantos de Xie Lian e se juntar a ele na água.

Curiosamente, desde o momento em que chegaram, Feng Xin e Mu Qing não brigaram nenhuma vez, eles não dirigiram nenhuma palavra um para o outro e aquela quietude intensa estava começando a incomodar.

Não que Mu Qing gostasse de ser provocado e irritado, ele realmente odiava aquilo a ponto de sentir sua saliva virar ácido quando respondia na mesma moeda. Mas um Feng Xin calado, naquele momento, parecia pior do que um Feng Xin irritante.

A bateria do seu celular estava em 13% quando ele decidiu parar de navegar aleatoriamente no twitter, se xingando mentalmente por não ter trazido nenhum livro ou coisa para se distrair. Nessa altura do campeonato, Hua Cheng já havia deixado seu lugar para se divertir com Xie Lian na água, Feng Xin não havia movido um músculo para se afastar de Mu Qing.

Aparentemente, na falta de seu celular, Mu Qing achou que era uma boa ideia focar a própria atenção no outro e, pela primeira vez no dia, ele olhou de verdade para Feng Xin, realmente olhou e, bem…

Ele na verdade parecia chateado, realmente chateado, como uma criança de castigo que havia sido separada de seus amigos no parquinho, Mu Qing conseguia ver tristeza em cada traço daquele rosto, desde as sobrancelhas levemente franzidas, até lábios que formavam uma linha reta. Havia um brilho intenso naqueles olhos e repentinamente Mu Qing se viu com pena e então se viu confuso.

— Se você quer ir pra água com eles, então vá — falou rispidamente, mas grosseiro do que gostaria. Feng Xin moveu seus olhos na direção dele e demorou alguns segundos para responder, com o mesmo tom de voz:

— Você por acaso ‘tá tentando me expulsar?

Mu Qing franziu as sobrancelhas, sem querer a resposta saiu de seus lábios antes que ele pensasse direito:

— Bem, você fica olhando para eles como um cachorrinho sem dono, essa tristeza toda já ‘tá me enojando.

Eles logo começaram a discutir e brigar, farpas sendo jogadas para um lado e para o outro, o assunto real da conversa se perdeu em algum momento, mas Mu Qing dificilmente iria esquecer.



2.

Feng Xin gostava muito de suco.

Mu Qing sempre prestou atenção naquele fato, afinal, ele sempre prestava atenção em tudo! Mas foi só quando ele e Feng Xin começaram a ter uma “convivência mais amigável” que aquele fato realmente o intrigou.

Pra começo de conversa ele sempre levava para faculdade aquelas mesmas duas garrafas de suco de frutas vermelhas, Feng Xin nunca almoçava ou lanchava o que era um alvo de preocupação por parte de Xie Lian em alguns momentos, que sempre conseguia convencê-lo a comer algo.

Até aí tudo bem, Mu Qing sempre pensou que aquilo provavelmente tinha a ver com alguma dieta, regime ou seja lá o que esses ratos de academia fitness faziam, mas com o passar dos meses aquilo começou a deixá-lo curioso.

Quando ele ia para a casa de Feng Xin, sua geladeira tinha mais garrafas cheias de suco do que comida, na realidade, Mu Qing desconfiava seriamente que os alimentos que estavam ali não seriam suficientes para uma semana sequer.

Ele sinceramente ficou um pouco preocupado.

Naquele dia ele pediu uma pizza alegando estar morrendo de fome e obrigou Feng Xin a comer dois pedaços.

Mas tudo se tornou realmente estranho em uma quarta-feira, dia curioso onde apenas eles dois e Pei Ming tinham aula, então acabavam comendo juntos suas refeições. Mu Qing sabia que algo estava prestes a vir, porque aqueles dois homens que geralmente não conseguiam fechar a boca estavam estranhamente calados.

Foi quando Pei Ming disse:

— De que sabor é o suco?

Foi como jogar uma bigorna de tensão em cima da mesa. Mu Qing soube imediatamente as implicações daquela pergunta e provavelmente ele não teria achado nada estranho se Feng Xin não tivesse congelado ao seu lado.

— Frutas vermelhas — Ele respondeu, calmamente, mas suas sobrancelhas estavam franzidas.

— Hm, você gosta muito desse suco, me pergunto se é tão bom assim… — Pei Ming disse e, sinceramente, Mu Qing queria muito rir deles dois naquele momento. — Posso provar?

Feng Xin franziu as sobrancelhas.

— Não.

— Por que não?

— Porque não.

Pei Ming sorriu como o agente do caos que ele era, tentou roubar o suco das mãos de Feng Xin uma, duas, três vezes antes do outro se estressar, exclamando:

— Eu disse que não!

— Me dê uma resposta decente e talvez eu te deixe em paz.

Feng Xin ergueu as sobrancelhas, seus lábios se contraíram.

— Porque é meu? — disse, uma afirmação e uma pergunta ao mesmo tempo.

Pei Ming começou a rir como um louco, soltando lamúrias e palavras desconexas sobre como Feng Xin estava agindo como uma criança mimada que não queria dividir seu “suquinho”, Mu Qing não pode evitar e soltou um “pfff” tentando segurar a risada, ele recebeu um olhar cortante como resposta quase que imediatamente.

Pei Ming contou para todos, aquilo seria uma piada entre os amigos durante algumas semanas.

Mu Qing achou muito divertido, mas depois ficou pensativo.



3.

Feng Xin tinha a pele muito gelada.

Bem, para explicar esse tópico deve-se ter em mente que Feng Xin era realmente o tipo de pessoa que adorava manter contato com os outros, Mu Qing sempre soube disso, seja pelos abraços apertados que ele dava em Xie Lian, ou como ele e Pei Ming viviam cutucando um ao outro, ou como às vezes fazia cafuné nos cabelos de Shi Qingxuan. Todos sempre tinham a mesma reclamação: Feng Xin estava frio.

Mu Qing naquela época não podia dizer muito sobre aquilo, mas o Mu Qing de agora estava particularmente assustado com seu conhecimento quanto a esse detalhe.

Ele estaria mentindo se dissesse que não sabia bem quando Feng Xin começou a tocá-lo, foi ridiculamente natural a forma que ele estendeu a mão e as pontas de seus dedos tocaram o braço de Mu Qing e então o seguraram com uma delicadeza surpreendente, guiando-o para que pudesse ver as horas no relógio de seu pulso.

Mu Qing quase pulou ao sentir o choque repentino subir sua espinha, seus pelos se arrepiaram imediatamente, mas ele não falou uma palavra, apenas olhou para Feng Xin, que encarava o relógio de Mu Qing com as sobrancelhas franzidas.

Sim, foi um momento extremamente pequeno. Não deveria significar nada, mas significou, porque a partir dali a textura da pele de Feng Xin se tornou tortuosamente familiar. 

E, conforme os dias se passaram, os toques deixaram de ser apenas ocasionais. Não era mais apenas um esbarrar de dedos, ou um puxão simples pelo braço para guiar o caminho, ou uma cotovelada para chamar a atenção, não. Feng Xin havia adquirido a mania de dar petelecos ocasionais em Mu Qing, de pôr a mão em seu ombro num semi-abraço, de pegar um elástico e simplesmente amarrar o cabelo de Mu Qing sem falar uma palavra sobre aquilo.

Às vezes Feng Xin tocava levemente o indicador na orelha dele, ou encaixava o queixo em seu ombro; às vezes, quando eles estavam assistindo filmes juntos, Feng Xin se aproximava e deitava a cabeça sobre seu colo.

E Mu Qing definitivamente não surtava com cada novo toque, ele definitivamente não devolvia os petelecos com irritação, ele definitivamente não se aproximava para descansar a cabeça no ombro alheio quando era abraçado daquela forma, ele nunca havia entregado um elástico de cabelo para Feng Xin num pedido silencioso para que amarrasse seus cabelos.

Sim, ele também nunca correu os dedos pelos cabelos castanhos de Feng Xin quando este se deitou em seu colo, ele não sentiu a textura dos fios finos e sedosos, ele não correu as unhas em seu couro cabeludo.

Quem dissesse o contrário estaria certamente mentindo.

O que realmente importava era que, com o fim do inverno, Mu Qing começou a notar como a temperatura do corpo do outro era realmente anormal. Era como se Feng Xin estivesse constantemente segurando algo gelado antes de tocar nos outros e Mu Qing realmente perdeu a conta de quantas vezes seu corpo estremeceu por conta de choques térmicos.

Houve um evento muito específico que fez Mu Qing ter um insight sobre aquele assunto.

Bem, graças aos gostos parecidos, muito tempo livre e uma intimidade que estava florescendo, Feng Xin e Mu Qing haviam adquirido o hábito de frequentar a casa um do outro para assistir filmes e séries juntos, geralmente aquilo tudo resultava em discussões breves sobre opiniões quanto a personagens e enredo.

(ou em outras palavras mu qing se perguntando o porquê de feng xin ter certeza de que a personagem favorita dele em game of thrones era cersei, quando estava extremamente óbvio que ele gostava muito mais de tyrion

feng xin, sem surpresa alguma, gostava de jon snow).

Só que aquela noite em específico foi diferente, eram sete horas da noite quando uma chuva forte e inesperada caiu dos céus e eles ainda não haviam terminado de ver Euphoria, Feng Xin, de um jeito irritantemente nervoso, perguntou para Mu Qing se ele não gostaria de passar a noite.

Mu Qing disse que sim, ele gostaria.

Meia-noite já havia se passado e o céu ainda chorava como em um dilúvio, as luzes da sala de estar estavam todas desligadas, a única fonte luminosa naquele lugar era a da televisão, havia um pote de pipoca esquecido sobre uma das poltronas e copos antes cheios de refrigerante no chão, sob ameaça de serem chutados posteriormente.

Feng Xin e Mu Qing estavam deitados com as pernas esticadas no sofá-cama, eles dividiam um cobertor e ambos tinham olhos grudados na tela da televisão, um segredo: nenhum dos dois estava realmente prestando atenção na série.

Havia algo torturante sobre a constante proximidade entre seus corpos, a parte torturante era que em momento algum eles se encostaram, nem sequer uma vez, era um constante toque fantasma que apenas causava ansiedade infinita em ambas as partes, e bem, as costas de Mu Qing já estavam doloridas pelo tempo que ficou praticamente travado na mesma posição, ele não admitiria para si mesmo que sua vontade no momento era se aconchegar em Feng Xin e apoiar a cabeça em seu ombro ou em seu peito para descansar o pescoço dolorido.

Mas Mu Qing estava realmente longe de fazer algo assim, na realidade ele apenas se moveu quando o desconforto em sua nuca se tornou insuportável e, nesse único pequeno movimento, seus pés descalços tocaram os pés descalços de Feng Xin e o corpo inteiro de Mu Qing estremeceu e balançou, porque porra aquele cara era um cubo de gelo por acaso?

Infelizmente Feng Xin notou seus estranhos movimentos.

— O que houve? — ele perguntou.

— Por que você é tão frio? — Mu Qing indagou, a voz cheia de acusações.

Vale-se ressaltar que Mu Qing se expressou mal naquele momento e Feng Xin estava um pouco sobrecarregado com os próprios sentimentos, ele não entendia o porquê daquela pessoa estar chamando-o de frio, quando era nitidamente Mu Qing quem estava sendo glacial.

— Você por acaso tem se olhado no espelho? — ele respondeu e Mu Qing inclinou a cabeça para o lado como um felino confuso. — ‘Tá reclamando do que? É você que tem mantido distância de mim.

— Ahn? Eu estou falando da sua pele, idiota. 

Repentinamente, quando a ficha caiu, Mu Qing sentiu seu coração bater tão rápido que era como se ele estivesse prestes a entrar num curto-circuito, como se ele fosse queimar igual seu computador velho na semana passada, ele se sentiu tonto e Feng Xin parecia envergonhado, desviando o olhar para qualquer canto daquela sala de estar escura.

Mu Qing piscou e demorou alguns segundos para tomar coragem de se aproximar um pouco mais. Ele deitou a cabeça no ombro de Feng Xin, seus quadris se tocavam, seus pés hora ou outra roçavam.

Feng Xin encostou a bochecha contra os cabelos de Mu Qing.

Nenhum dos dois disse uma palavra sobre aquilo no dia seguinte, mas a partir de agora eles sempre estariam vendo filmes e séries naquela mesma posição.



4.

Feng Xin realmente odiava hospitais.

Sinceramente, por muito tempo, Mu Qing pensou que aquilo tinha alguma ligação com o fato de que Feng Xin era uma pessoa bem fresca quando se tratava desse tipo de assunto.

Há tempos atrás Xie Lian havia quebrado a perna de um jeito desastroso, Mu Qing nunca havia visto um membro torto daquela forma na vida real e ele ficava levemente enjoado apenas de lembrar, naquele dia houve muito desespero da parte de todos os presentes, Hua Cheng parecia prestes a rasgar o pescoço de alguém, Shi Qingxuan saiu correndo pra buscar um copo d’água, Pei Ming correu para pegar um pano para estancar o sangramento ou sabe-se lá o que, Mu Qing estava indo pegar o carro de Feng Xin para que eles pudessem levar Xie Lian ao hospital.

Apenas Feng Xin havia ficado parado em seu canto, ele ficou afastado o máximo possível, a mão tapando a boca e o nariz como se estivesse sentindo um cheiro ruim, Mu Qing tinha quase certeza que ele ia vomitar se Hua Cheng não o atacasse em puro ódio por não fazer nada antes.

Aquilo voltou a se repetir toda vez que alguém se machucava e, bem, aquele era um grupo muito propenso a machucados sérios por motivos idiotas. Houve o dia que Pei Ming caiu de uma árvore, ou a vez que Shi Qingxuan tropeçou e caiu da escada, ou a vez que He Xuan foi atingido por uma bola de basquete na cara e quebrou o nariz, em todos esses momentos Feng Xin se manteve o mais distante possível, mas sem nunca realmente sair do lugar, Mu Qing imaginava que era porque a preocupação dele ultrapassava o hipotético pavor que tinha de machucados sérios.

E então teve o caso mais atual.

Feng Xin estava na casa de Mu Qing naquele dia, o combinado era assistir juntos todos os filmes da franquia de Star Wars em ordem cronológica. Eles haviam passado duas horas discutindo sobre metáforas e teorias de universo expandido, sobre a crítica dos filmes e sobre como Mu Qing estava pensando em ler Duna.

Eles ainda nem haviam começado a ver os filmes, mas não tinham pressa nenhuma pois Feng Xin dormiria ali naquela noite, então Mu Qing decidiu fazer algo para que eles comessem, coisa que deixou Feng Xin surpreso.

E, claro, houve um acidente. Ele acabou cortando o dedo indicador quando estava fatiando rodelas de tomate, Mu Qing praguejou e estreitou os olhos enquanto via o sangue escorrer por sua mão, ele soltou sons de frustração e chamou Feng Xin.

— O que? — a voz de Feng Xin soou no espaço pequeno daquela cozinha.

— Você pode me trazer um curativo, deve ter na gaveta da estante — Mu Qing disse, sem desviar o olhar de seu ferimento. Alguns longos segundos se passaram e ele não escutou o som de passos se afastando, nem de Feng Xin voltando com algum band-aid ou algo assim, ele então desviou o olhar para o outro, que não havia movido um músculo sequer. — Feng Xin?

Mu Qing não saberia dizer direito o que leu na expressão facial e corporal do outro, ele pensou que o desespero de Feng Xin só apareceria em momentos mais críticos, não com um simples corte no dedo, Mu Qing não sabia se deixava a culpa limpar sua mente, afinal, a desconfiança que já estava nascendo faz algum tempo havia se tornado maior e os olhos de Feng Xin eram escuros como a noite de um jeito que Mu Qing nunca havia visto.

— Feng Xin? Você ‘tá bem? — perguntou. —  Você realmente tem medo de sangue ou algo assim?

Ele observou o momento que o outro engoliu o seco e saiu apressado daquela cozinha abafada, não demorou muito para que ele voltasse com os curativos. Feng Xin praticamente os jogou para Mu Qing e se dirigiu novamente para o quarto.

Mais uma vez, eles não falaram sobre aquilo.



5.

Mu Qing não era burro.

Bem, ele era desconfiado, um pouco descrente e às vezes se fazia de besta para evitar algumas situações, mas não, ele realmente não era burro, ele estava bem longe disso na verdade.

Ele tinha certeza absoluta que havia algo um pouco estranho em Feng Xin, e o fato dele ter simplesmente sumido depois daquele acidente com o corte no dedo deveria ser uma boa prova naquela teoria, no entanto, verdadeiramente, o que aconteceu foi bem diferente.

Três semanas já haviam se passado e Mu Qing não parava de pensar em motivos plausíveis para que Feng Xin o evitasse durante aqueles dias infernais, aquele fato não havia alimentado nada de Mu Qing além da sua própria insegurança, na verdade, Mu Qing estava com raiva, muita raiva, mas ele não se sentia no direito de ter raiva, aquele sentimento era um pouco humilhante, embora parecesse queimar cada célula em seu sangue cada vez mais e mais.

Ele não sabia dizer o porquê de estar irritado exatamente, eram muitos motivos e todos eles pareciam ser absurdamente infantis e fora da realidade que era a relação entre Feng Xin e ele. Por exemplo, Mu Qing estava irritado porque o outro havia apenas sumido sem explicação, mas desde quando eles davam esse tipo de satisfação um para o outro? Mu Qing estava irritado porque, em vez de conversar sobre o que estava incomodando-o, Feng Xin escolheu o caminho mais fácil que era literalmente não ter que lidar com isso, mas Mu Qing também nunca foi atrás de ter algum diálogo sério com Feng Xin. Mu Qing estava irritado porque suas mensagens estavam sendo ignoradas, ele estava irritado em ter que lembrar constantemente do outro quando assistia algum filme qualquer, ele estava irritado porque não entendia bem o que havia feito de errado para Feng Xin ficar com raiva dele.

(ele estava irritado porque havia notado que estava sentindo falta dele).

E precisou exatamente daquelas três semanas, uma noite de bebedeira desabafando para He Xuan e Shi Qingxuan e uma mente traidora para que Mu Qing vestisse seu orgulho como quem veste uma armadura e bater na porta do apartamento de Feng Xin.

Naquele momento Mu Qing não sabia bem se estava no fundo do poço ou no limite da própria paciência, provavelmente nos dois.

O Feng Xin que, agora, o encarava era totalmente desgrenhado como se não tivesse saído da cama desde que acordara (eram seis horas da tarde), ele tinha olhos levemente arregalados e fios de cabelo espalhados para todo lado e vê-lo deixou Mu Qing um pouco desestabilizado.

Mas no fim de tudo ele entrou sem ser convidado e pôde ver Feng Xin piscar silenciosamente enquanto encarava-o. A sensação que ambos tinham, naquele momento, era como ter o peito pressionado por algo pesado, repentinamente Mu Qing se sentiu mais inseguro, ele queria uma explicação, ele queria um pedido de desculpas, ele queria fingir que as coisas não haviam ficado repentinamente estranhas entre eles.

— Quer um refrigerante? — Feng Xin perguntou, apontando na direção da cozinha, e Mu Qing assentiu mesmo sabendo que provavelmente o outro estava fazendo aquilo para fugir de si.

Ele saiu e voltou, em momento algum os batimentos do coração de Mu Qing cessaram, era como se fogo vivo queimasse em seu peito e quando Feng Xin lhe estendeu a mão para que pegasse a latinha de refrigerante, seus dedos se tocaram e o frio daquele toque teve o mesmo efeito que água despejada em sua cara.

— Você realmente não vai dizer onde esteve esse tempo todo, não é?

Pronto, ele jogou a bomba no meio da sala, ele estourou a bolha de tensão, ele viu cada micro expressão no rosto de Feng Xin mudar em um intervalo de tempo que não poderia ser possível, como se sua mente avalice que resposta deveria dar para aquelas palavras, no fim de tudo, longos segundos se passaram e Feng Xin apenas respondeu com veneno e frustração pingando de seus lábios:

— Eu deveria?

E Mu Qing sabia que ele queria dizer “eu te devo alguma satisfação?”, isso o irritou ainda mais.

— Deveria! — exclamou, mais alto do que gostaria, ele provavelmente estava fazendo uma expressão bem feia naquele momento. — Você simplesmente sumiu e tem me evitado durante todos esses dias, por quê? Sem coragem nem de tentar se explicar, não sei nem porque eu fico surpreso, você é um covarde.

As sobrancelhas de Feng Xin estavam franzidas e seus punhos fechados.

— Me diga quem te deu o direito de vir na minha casa sem ser convidado, apenas para discutir um assunto que não é da sua conta.

Aquilo atingiu Mu Qing, queimou e se espalhou como líquido em seu corpo, repentinamente a raiva subiu e ele não sabia mais o que falar, porque tudo que conseguia pensar era em como estava cheio de ódio.

— Feng Xin você é um filho da puta, sabia? — fala, por fim. — Quer saber? Você ‘tá certo, não era pra eu ter vindo. Eu não deveria ter me preocupado, porque você continua sendo o mesmo merdinha egoísta de sempre, pensando que o mundo inteiro gira ao redor dos seus problemas e então fodendo com tudo — conforme as palavras saiam dos lábios de Mu Qing, ele também perdia o controle daquilo que estava saindo, eram tantas coisas presas em sua garganta que elas não hesitaram em sair quando tiveram a chance. Ele se aproximava e se aproximava mais de Feng Xin, até estar ameaçadoramente perto como eles sempre faziam antigamente quando brigavam sério. — E então, oh, que surpresa, parece que o Mu Qing tem sentimentos, vamos pegar toda essa merda e jogar no lixo.

Havia algo no olhar de Feng Xin naquele momento, em como ele pareceu genuinamente surpreso e machucado com aquelas palavras por alguns segundos, e então aquele castanho amendoado pareceu escurecer a ponto de se tornar um céu inteiro sem estrelas e Mu Qing não sabia se gostava ou se odiava, se aquilo o entristecia ou alegrava.

— Eu realmente odeio você. — Foi o que Mu Qing disse por fim, se afastando em seguida, ele estava pronto para ir embora e deixar Feng Xin resolver a merda que ele tinha para resolver sozinho, mas antes que ele pudesse dar um passo sequer para longe, Feng Xin segurou seu pulso e aquele único toque enviou uma corrente elétrica que atravessou todo o corpo de Mu Qing, mas ele ainda estava irritado. — O que você quer? Vai pedir desculpas agora?

Ele mal havia acabado de proferir aquelas palavras quando se assustou com a aproximação repentina de Feng Xin, e então se assustou com os lábios dele contra os seus.

Mu Qing arregalou os olhos, seu coração bateu tão forte que ele sentiu como se tivesse parado, ele congelou bem ali, toda a raiva de seu corpo virou gelo junto. Agora ele estava hiper-consciente de como os dedos de Feng Xin em seu pulso eram firmes e ainda assim cuidadosos, sobre como a outra mão dele agora estava sobre a bochecha de Mu Qing, fazendo-o se arrepiar brevemente com a temperatura, ele conseguia sentir com precisão a maciez daqueles lábios sobre os seus.

Mu Qing tentou buscar os fragmentos de sua mente, mas ele desistiu, para então fechar os olhos e ele mesmo aprofundar aquele beijo.

Não demorou muito para aqueles dois se acostumarem com o ritmo um do outro, ambos tinham aquela fome que parecia crescer cada vez mais a cada segundo. Era sobre a forma que Feng Xin deixava leves mordidas nos lábios de Mu Qing; era sobre como Mu Qing tinha as mãos na cintura de Feng Xin, apertando sua pele com força enquanto puxava-o em sua direção como se eles já não estivessem colados o suficiente; era sobre como Feng Xin grunhia toda vez que Mu Qing chupava sua língua; sobre como Mu Qing suspirava quando as unhas de Feng Xin raspavam em sua nuca; era sobre como Feng Xin foi empurrado contra o sofá e sequer teve tempo de reagir direito àquilo antes de ser beijado de novo e de novo até que sua cérebro derretesse

O tempo meio que se perdeu ali, eles se perderam ali e por algum tempo não existia mais Mu Qing e Feng Xin no mundo, apenas aquelas duas pessoas que estavam se redescobrindo de outra forma, que estavam viciadas naquele único ato.

Uma delas nem sequer sentiu dor quando a boca foi mordida com força o suficiente para a pele romper, mas a outra parte notou, não apenas notou, como capturou aquele lábio ferido entre os seus e chupou, o gosto doce de sangue se expandindo em seu paladar.

Feng Xin ficou um pouco fora de si bem ali, ele sentia as unhas de Mu Qing cravando contra a pele da sua cintura, e o sabor daqueles lábios agora havia se tornado tão irresistível, ele se viu lambendo e sugando aquele único local por um longo tempo e Mu Qing soltou um gemido tão bonito e então Feng Xin notou que estava com fome, mas era uma fome diferente.

Ele se afastou o mais rápido possível, e eles dois se encararam chocados por alguns segundos, piscando um para o outro sem falar uma palavra sequer. 

— Eu… — Feng Xin começou, sua mente pareceu vaguear, ele se levantou rapidamente — Saia.

Mu Qing ainda estava um pouco desnorteado, seus cabelos eram uma bagunça e sua boca e cérebro ainda estavam dormentes, então ele não entendeu a princípio.

— Como?

Feng Xin levantou, sem sequer olhar em seus olhos.

— Saia, eu não… não posso agora.

Quando Mu Qing não se moveu, Feng Xin pareceu prestes a morrer ali mesmo, ele segurou os braços do outro e o guiou para fora daquele maldito apartamento, fechando e trancando a porta bem na sua cara.

E então Mu Qing piscou mais uma ou duas vezes, antes de um sabor amargo crescer em sua boca e ácido nascer em seu estômago, toda a raiva voltou em questão de segundos, ele realmente não entendia Feng Xin e ele não queria entendê-lo também.

Mu Qing estava simplesmente farto, então ele apenas se virou e saiu.



+1.

Era ainda manhã do outro dia quando bateram na porta de Mu Qing.

Ele havia passado a noite inteira assistindo sem parar filmes aleatórios de sua infância enquanto se entupia de pipoca, refrigerante e sorvete, então ele estava visivelmente acabado, pensando seriamente em fingir que não havia ninguém em casa.

Mas as batidas não cessaram e com um bufar Mu Qing calçou os chinelos e foi atender a visita com a expressão mais feia que podia fazer.

Quando Mu Qing abriu a porta e viu que era Feng Xin ele não ficou surpreso, mas ele também não ficou apático, ele não sabia nomear o pensamento, foi uma mistura de: “de novo não”, vontade de socar aquele rosto, compreensão e um pouco de alívio.

Na realidade, Mu Qing pensou bastante sobre o dia passado, ele pensou bastante sobre Feng Xin e ele também assistiu todos os filmes da saga Crepúsculo, então pode-se dizer que a mente daquele garoto estava num constante estado de "análise profunda e detalhada.”

Feng Xin pigarreou e silenciosamente Mu Qing abriu espaço para que ele entrasse com um gesto vago de sua mão, o ar repentinamente se tornou pesado naquele lugar.

— Eu… — Feng Xin começou após ter dado quatro passos para dentro da cada de Mu Qing, seus lábios se moviam sem emitir som, como se ele estivesse buscando as palavras ou buscando algum sentimento de impulso para proferi-las. — Eu… realmente… queria me desculpar pelo que aconteceu ontem.

— Oh? Pelo que exatamente? — Mu Qing indaga, as sobrancelhas arqueadas, o tom cheiro de ironia. — O beijo ou ter me expulsado da sua casa depois daquilo tudo?

Aquela era uma pergunta de ouro, que fez do olhar de Feng Xin algo oprimido e melancólico, culpado e sem saída. Ele mordeu o lábio inferior e demorou mais alguns longos segundos para falar novamente:

— Pelos dois — diz Feng Xin.

— Então saia.

— Ahn?

— Se era isso que você tinha pra me dizer, então tudo bem, eu te perdoo, agora sai do meu apartamento.

— Você nem deixou eu me explicar? — fala Feng Xin, já irritado.

— Porque eu sei que você só vai começar a dar desculpas ridículas para tentar escapar da situação em vez de contar a verdade e eu não quero ouvir você dizendo como está arrependido-

— Eu não me arrependo, eu realmente quis beijar você.

Mu Qing se calou, arregalou os olhos, mas não por muito tempo, logo sua postura voltou ao normal, ele cruzou os braços, esperando pela explicação do outro.

— O que eu ‘tô querendo dizer é outra coisa, mas não é simples  — continuou Feng Xin. — Eu… ontem eu meio que… bem… não sei como falar isso de uma forma convincente.

— Tente.

— Argh! Ontem eu estava um pouco sedento demais e fiquei com medo.

Mu Qing revirou os olhos e bateu na própria testa, sinceramente, a maior parte da irritação que nasceu naquele momento para com Feng Xin era pelo fato de que o outro, em vez de simplesmente contar logo a maldita verdade, preferia rodeá-la com jogos de palavras, como se Mu Qing fosse burro demais para entender, porque é claro que nessa altura do campeonato ele já havia compreendido tudo.

Claro que não houve nem espaço para surpresa, por favor, Mu Qing havia passado semanas achando que era louco ou estava sendo vítima de alguma pegadinha de programa televisivo por desconfiar do comportamento realmente estranho de Feng Xin, ele já havia superado aquilo.

Por fim ele interrompeu as palavras gaguejadas que saiam por entre os lábios de Feng Xin, dizendo:

— Eu sei que você é.

— Ahn?

— Porra, Feng Xin, tu nunca assistiu Crepusculo? Agora você deveria falar “diga, alto e claro, diga” e eu ia responder “vampiro.”

Feng Xin piscou, sua expressão era hilária, camadas e mais camadas de confusão, se unindo até que ele atingiu o pico da própria compreensão.

— Ah, então... você descobriu.

— Você não é exatamente sutil, sabia? — diz Mu Qing, Feng Xin pareceu ter ficado envergonhado com seu comentário, encolhendo os ombros levemente. — Eu só não tinha certeza antes, mas todas as dúvidas morreram com essa sua tentativa lamentável de sair do armario. — Feng Xin parecia bastante ofendido. — O que vai ser agora? Vai dizer que tem que manter distancia de mim, porque você é uma fera cruel e vil que se alim-

— Eu não sou esfomeado assim.

— Mesmo? — Mu Qing diz, com uma expressão de quem não acredita em uma palavra.

— Não é como se eu fosse pular no seu pescoço para mordê-lo, não sou um animal. — ele bufou, e cruzou os braços numa posição muito parecida com a de Mu Qing naquele momento. —  Só queria te explicar isso , para que mais incidentes não acontecessem, já que nós estamos tendo esse lance.

Mu Qing parou por alguns segundos, coração a mil.

— Nós… estamos?

— Eu literalmente te beijei ? — Feng Xin pergunta e afirma ao mesmo tempo, incrédulo. — Sério que você vai ser teimoso sobre isso? Porque faz meses que eu ‘tô obviamente flertando contigo, ou você precisa de afirmações verbais pra absolutamente tudo no nosso relacionamento?

— Ajudaria — Mu Qing responde e Feng Xin o encara, seus olhos castanhos intensos como o inferno.

— Você… realmente… — ele começou, mas interrompeu a si mesmo. — Não, tudo bem, se você precisa tanto disso pra começar a agir feito gente : ontem eu te beijei porque me sinto atraído por você; eu gosto da sua companhia e estou romanticamente interessado por você; eu também bebo sangue humano e às vezes é melhor me afastar antes de perder a cabeça — Ele falou como se estivesse listando compras para o mercado, por fim ele estreitou os olhos — Quem você chamou de covarde ontem mesmo?

Mu Qing bufou, então ele segurou a gola da camisa de Feng Xin, puxando-o para um beijo. Este não foi urgente como o outro, foi doce e gentil, foi um alívio, como tirar um peso enorme das costas depois de um longo tempo carregando-o, foi como respirar profundamente e inspirar no meio de uma meditação, foi tranquilizante, como uma brisa de outono.

Eles se separaram, não muito, apenas alguns centímetros e Mu Qing disse:

— Então, essa é a sua forma de fazer um pedido de namoro?

Feng Xin piscou e, assim, tão proximo, aqueles olhos pareciam um oceano inteiro para Mu Qing mergulhar.

— Depende, você aceita?

Mu Qing fez um ruído, quase uma risada.

— Eu aceito se você aceitar.

Feng Xin riu daquela resposta idiota, então ele deu um selinho sobre os lábios de Mu Qing, e então outro, e outro.

— Eu aceito seu pedido de namoro estranho, Mu Qing — disse aquelas palavras entre cada pequeno beijo.

Eles dois passaram longos minutos daquele jeito, até que suas pernas começaram a doer. Feng Xin perguntou se poderiam assistir algum filme, e então tudo era como antes, o sofá  dividindo, o pote de pipoca, cafuné e carinho, a única diferença era que, além dos pequenos beijos que eram trocados vez ou outra, agora um tinha certeza absoluta do que havia no coração do outro.

 

++1.

— Então… o cheiro do meu sangue é tão bom assim?

Feng Xin olhou para ele com uma expressão muito engraçada.

— Isso parece uma frase solta de um romance de vampiros ruim.