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Quebra de Rotina

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É madrugada, está escuro lá fora. Pode ser entre uma e duas da manhã, ou três e quatro. Nenhum deles está contanto as horas, mesmo que talvez Dabi tenha tentado no começo da noite, só para se distrair.

Estão deitados num colchão surrado. Lado a lado. Olhando para o teto dessa sala vazia que fizeram de quarto, mas sem realmente verem nada além de sombras disformes se projetando nas paredes rachadas.

Esse é só mais um esconderijo temporário, mas não precisam de muito para se familiarizarem. Dabi aprendeu a se adaptar, é uma habilidade útil. Tomura parou de se importar semanas atrás.

Desde então fazem muito isso, passar horas a fio no escuro sem fazer muita coisa. Apenas deitados. Juntos, mas sozinhos com seus próprios pensamentos. Lidando com demônios internos e pesadelos que os mantêm acordados noite a dentro.

Eles nunca falam sobre essas coisas. Não precisam. Só que, em noites muito ruins, quando é demais para suportar sozinho, um deles desaba e soluça em silêncio num lamento que faz seus ombros tremerem e o corpo encolher.

Mas nenhum deles derrama lágrimas. Afinal, há muito tempo um deles não possui dutos lacrimais e o outro não sabe mais como fazer isso. Então, apenas ficam ali. Lado a lado. Oferecendo um consolo silencioso e um ombro onde se apoiar até essa enxurrada de emoções passar.

Nenhum deles pressiona. Não precisam de explicações extensas ou dos motivos. E não faz sentido botar os demônios em palavras quando se entendem bem, mesmo em silêncio.

Essa é uma noite particularmente calma. O som do trafego mal chega até eles, do lado de fora o céu está encoberto por nuvens carregadas e há uma brisa refrescante que entra pela janela quebrada.

Tomura sente os olhos arderem, percebe que os manteve abertos por tempo demais e então pisca. Suas mãos se contraem ao lado do corpo, um dedo sempre erguido no ar. Está assim há várias horas e quase sente câimbras se estenderem por suas mãos, assim como decay se espalha quando usa todos os dedos.

Isso também faz parte da rotina. Esse desconforto com que aprendeu a conviver.

Entretanto, algo quebra o momento. Algo fora do padrão.

Sentindo Dabi se mover ao seu lado, Tomura vira a cabeça só para encontrar aqueles olhos azuis brilhando no escuro. Quase parecem sobrenaturais. Ele se sente hipnotizado por eles, feito um inseto atraído pela luz.

Por um instante eles apenas se observam sem quebrar o encanto. Em silêncio.

Isso não faz parte da rotina, mas Tomura não vai questionar ainda.

- Acho que eu te amo. – Dabi confessa casualmente, sua voz não passa de um sussurro baixo e rouco nessa sala vazia.

Tomura franze a testa e crava os dentes no lábio inferior. Dabi quase acha engraçado. Ou, sendo mais ousado, é quase fofo a maneira que ele estreita os olhos numa mistura de aborrecimento e confusão.

- Não diz essa merda.

Ele não sabe como aceitar essas palavras. Não o ensinaram sobre isso. Então, não quer lidar com elas, ou pensar, mas claro que Dabi vai frustrá-lo.

- Posso dizer o que eu quiser, chefe. – ele retruca, um sorriso brincalhão puxa seus grampos e faz a pele saudável se esticar.

É desagradável de olhar. Parece doloroso. E faz algo possessivo/protetor se agitar no peito de Tomura. Então, ele desvia o olhar para o teto, onde há uma rachadura feia em diagonal, mas que faz parte da rotina.

- Idiota. – resmunga, teimosamente, sob a respiração. E apesar disso, não protesta quando dedos quentes entrelaçam os seus num encaixe esquisito para ser seguro.

Dabi não diz mais nada. Esfrega o polegar na pele seca de Tomura e vira a cabeça no travesseiro improvisado para volta a encarar o teto. As sombras continuam lá, assim como as rachaduras.

E a noite continua em silêncio até os primeiros raios de sol surgirem.