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Uma manhã nublada, úmida e quase fria demais, após uma noite chuvosa digna de filme de terror, parecia o tempo perfeito para aproveitar uma soneca, mesmo no sofá estreito ou no saco de dormir mal guardado na saleta do Grupo de Pesquisa Cinematográfica. Afinal, como um gato, ele era capaz de desfrutar de um sono profundo e agradável por horas e horas a fio, e também se acomodava facilmente em quase toda sorte de lugares inusitados.



Mas, ao contrário do seu hábito, Yakumo Saitou não tirou aquela manhã para dormir. Seu cabelo negro e espesso estava tão revolto como sempre e trajava o mesmo jeans amarrotado, acompanhado da camisa branca mal fechada e dos tênis pretos, mas seu lindo rosto pálido e felino não tinha a expressão de tédio sonolento que ele afetava cotidianamente. Estava muito bem acordado, tenso e verdadeiramente aborrecido. Era o dia de visitar aquela pessoa.



É claro que nunca seria capaz de ter alguma coisa contra ele, seu coração rememorava o sentimento generoso de seu tio, enquanto subia as escadas que facilitavam o caminho do morro íngreme rumo ao templo. O antigo morador do recinto que ficava no topo da colina foi capaz de verdadeiramente adotá-lo, tratá-lo como um pai verdadeiro e amoroso cria e educa um filho. Lamentavelmente, desde sua infância perdida, já era um pouco tarde para ambos. A presença precoce da morte, dos sentimentos, pensamentos e atos de violência em vários níveis, das visões aterradoras dos mortos, e da experiência de quase ser assassinado pela própria mãe; enfim, todos os infortúnios que culminavam naquele olho vermelho, foram experiências que aceleraram a consciência adulta e desiludida na mente de Yakumo. Uma mente ampla, arguta, porém que se recusava a reconhecer a amplitude do trauma que o coração dolorido carregava, e a própria necessidade do amor paternal que Isshin oferecia.



Tanto amor e tanta gentileza, que ele foi capaz de morrer para salvá-lo. Yakumo nunca se sentiu pronto para tentar reconhecer ou retribuir aqueles sentimentos, nunca se veria digno da paz de uma família verdadeira, quanto menos da disposição altruísta de seu "pai adotivo" de sacrificar-se por ele. O perfume das hortênsias, flores espirituais, intensificado pela chuva e pelo orvalho da manhã, enchia o olfato sensível do rapaz tão parecido com um gato, e lembrava-lhe que, aquele monge, mesmo que estivesse numa forma diferente, continuava habitando o santuário. As emoções do religioso, a extrema gentileza e a teimosia que quase se igualava à do sobrinho, mantinham seu espírito no mesmo lugar que ocupava quando vivo.



E mesmo bem longe do portão Torii, o detetive psíquico já via e ouvia, bem demais para seu gosto, o alvoroço e a agitação de todas aquelas almas inconformadas com a morte. E aquele jovem de porte tranquilo, com a mesma lente vermelha no olho esquerdo, e os mesmos trajes tradicionais, conversava com aqueles espíritos penitentes e revoltados com o fim de suas vidas. Tinha todo o tempo do mundo para aquela convivência, tentava conversar, compreender e consolar cada um deles. Mas sua tarefa mais árdua era consolar a alma do sensitivo recém-chegado, o único vivo e o mais inconformado.



Yakumo sempre tentou enterrar seus sentimentos, ignorá-los, jogá-los para o mais longe possível. Aceitava de má vontade a maneira como Isshin entrou em sua vida, e detestava ainda mais o caminho por onde o espiritualista saíra dela. Como se atrevia a passar tanto tempo tentando lhe oferecer algum consolo? Ele nunca foi digno, nem necessitado de tais coisas! Não deveria sequer estar vivo, não após sua mãe quase matá-lo. Nunca o perdoaria por se sacrificar por ele, que não merecia sequer o direito à existência, quanto menos à felicidade.

O rapaz entrou no templo, colocou as oferendas nos lugares devidos, ajoelhou-se e acendeu incenso, junto do retrato, decorado com fitas pretas do luto na moldura, do jovem monge que era incumbido daquele local. Claro que Isshin não estava no retrato, mas bem ao lado do visitante.



– Olá, Yakumo-kun, como vai?



Ele falava com a expressão pacífica costumeira. Quem diria que aquele semblante doce, capaz de tranquilizar almas atormentadas, sondar delicadamente a baixinha problemática, ou conversar meigamente com a pequena Nao-chan, era capaz de dar uma ordem de morte para o espírito maníaco de Takashi Andou!



Saitou apenas ignorou a saudação, mas seu interlocutor fez de conta que não percebeu.



– Veja só que divertido, agora eu consigo vê-los,igualzinho a você! Não preciso mais da lente vermelha, mas continuo usando para não perder o hábito... Você já percebeu que eu não cuido mais do templo, mas dos outros que o visitam.– os olhos de falsa heterocromia se curvaram junto com os lábios finos, num sorriso doce e jovial - Parece que passei toda a minha vida cego para o meu verdadeiro dever, como monge...



O jovem universitário não entendia muito bem o motivo de voltar ao santuário mensalmente para repetir aquele ritual. Suas visões o faziam desacreditar de liturgias e exorcismos. Estava muito consciente de que não funcionavam, que nada tiraria seu parente daquele lugar. A única ação que funcionava em alguns casos, e que os leigos costumavam chamar de exorcismo, nada mais era que uma expulsão violenta do emaranhado de emoções que mantinha a pessoa na Terra, mesmo após o fim da vida. Sua consciência o via como um ato injusto, violento e desprezível comparável à expulsão de um morador de sua casa à força de pancadaria ou tiroteio.



– Para que você faz isso sei continua me ignorando como sempre, Yakumo-kun? Não consigo acreditar que você ainda está se culpando por aqueles acontecimentos! Você sabe muito bem que quem armou tudo aquilo foi o seu "pai"...



Talvez aquilo fosse uma tentativa tardia de oferecer mais do que incenso, oferendas ou visitas, mas respeito. Claro que ignorar a conversa do tio não era a melhor maneira de respeitá-lo. Mas não tinha o direito de conversar com ele.



– Então é por isso que o ditado antigo diz que os gatos guardam mágoas por muito tempo! Ahahaha, muito bem, vamos ver se você consegue ignorar a nossa próxima linda visitante.



A voz doce e educada se perdia devagar entre o burburinho da multidão de almas e emoções que movimentava a atmosfera daquele lugar espiritual. Yakumo estava distraído demais para perceber que o som de choro baixinho que vinha da porta, saía da garganta de uma pessoa viva.



Extremamente viva, ele constatou com tristeza, ao reconhecer o rosto redondo, de traços quase infantis de tão suaves, banhado em lágrimas como as hortênsias cobertas de orvalho à beira da escada. Haruka estava parada na porta deslizante, uma mão esfregando a fonte das lágrimas, outra carregando num pequeno balde raso de madeira, um ramo de crisântemos brancos.