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Ela tinha a mesma gentileza tola e inconsequente da pessoa que ele acabou de ignorar. Se ela também costumava desperdiçar tempo em visitá-lo em sua moradia improvisada atrás da universidade, claro que dedicar tempo e atenção a alguém que extraíra dela uma promessa idiota e impossível, mesmo que fosse alguém morto, era uma atitude cotidiana. A doçura inocente com que a pequena e linda encrenqueira à sua frente reagia diante da vida, faria com que ela tivesse um jeito totalmente diferente de ficar inconformada com a morte de Ishii.



Yakumo teve raiva da vontade de abraçar a visão doce e vulnerável de Haruka. Se no limite do seu campo de visão dos espíritos, ele via sutis esperanças ocultas sob a tristeza, pequenos traços de tons luminosos; na sua vida cotidiana, a meiga estudante aparecia como o próprio sol, que vinha acordá-lo e animá-lo a qualquer hora do dia, com barulhos, sorrisos, alimentos, até mesmo com casos de espíritos. Eram armadilhas onde ela caía por sua vontade ingênua de se redimir de um erro que nunca cometeu, por meio da conduta agradável, como uma aura que envolvia todos que se aproximavam dela, mesmo que por conveniência ou falsidade. Mesmo que sua vida estivesse ameaçada pelas trevas, Haruka emitia aquela luz cálida e gentil por onde passava.



E a amargura de ver aquele pequeno sol generoso nublado pelo choro fez o jovem Saitou se chocar com a própria vontade de dizer qualquer coisa capaz de tirá-la daquele estado, mesmo que fosse apenas para deixá-la brava a ponto de esquecer do luto por um instante. Sua mente e seu coração concordavam em enterrar novamente seus sentimentos solitários, para que ela não fosse ameaçada por eles, nem pelas consequências do olho vermelho, o infortúnio que trouxe a morte da outra pessoa que tentou amá-lo, seu tio.



O detetive felino sufocou a necessidade assustadora de consolar a pequena graciosa, numa tentativa inútil de se policiar, levantou-se e caminhou até ela, com as costumeiras palavras rudes:



– O que diabos você está fazendo aqui? Tem tanto tempo assim para desperdiçar?




Às vezes se eu me distraio
Se eu não me vigio um instante
Me transporto pra perto de você
Já vi que não posso ficar tão solta
Me vem logo aquele cheiro
Que passa de você pra mim
Num fluxo perfeito


Haruka planejava apenas uma passagem breve pelo templo, antes de ir para a escola onde fazia estágio; seu turno de trabalho seria mais curto, já que não havia aulas, mas apenas reuniões de professores naquele dia. Não precisava sequer desviar do caminho do serviço.



Mas qual foi sua surpresa, ao deparar-se com Yakumo! Nas poucas vezes em que o acompanhara àquele recinto, eles nunca ficaram por muito tempo. Ela tinha consciência da atmosfera opressiva que templos shinto tinham para ele. Nunca conseguiria imaginá-lo visitando aqueles santuários; quanto menos para levar flores, incenso e condolências. A jovem professora perdeu-se por um longo tempo, observando as lindas feições do rapaz felino curvado e com as mãos postas, diante do retrato decorado com as fitas pretas do luto; um retrato que ela não precisava ver para saber que era do antigo monge.



Uma empatia profunda, uma onda de tristeza dolorida, abalou seu coração, enquanto ela observava o amado. Ao invés da habitual expressão sonolenta e entediada, ele tinha o rosto rígido e os olhos bicolores nublados, perdidos em algum lugar no vazio. Não chorava, e teimoso como era, sua vontade óbvia era nunca fazer tal coisa. Mas depois de acompanhar seu gato solitário por tanto tempo, ela se aproximou dele como ninguém mais e conhecia-o muito bem. Tão bem que ela podia ler perfeitamente a dor oculta no olhar fixo e intenso dos orbes bicolores.

Enquanto você conversa e me beija
Ao mesmo tempo eu vejo
As suas cores no seu olho
Tão de perto



Em circunstâncias normais, Haruka ficaria furiosa, daria um peteleco nas costelas de Yakumo, ou entraria numa discussão inútil com ele. Mas desta vez, ela não conseguiu responder. Seu hábito de falar bastante, e sua incapacidade de mentir sempre eram divertidos para as pessoas à sua volta, e motivos de zombaria para o rapaz à sua frente. Mas sua mente estava incapaz de processar qualquer palavra naquele momento, em que ambos precisavam de apenas uma ação, um pensamento que saiu do coração de Haruka e foi ato contínuo obedecido pelos braços dela, que abraçaram e acalentaram Yakumo.


Me balanço devagar

Como quando você me embala
O ritmo rola fácil
Parece que foi ensaiado
E eu acho que eu gosto mesmo de você
Bem do jeito que você é


Eu vou equalizar você

Numa frequência que só a gente sabe
Eu te transformei nessa canção
Pra poder te gravar em mim



Ela era tão pequena, tão doce, tão quente, tão confortável. E se encaixava perfeitamente em seu peito. Mas Yakumo não sabia se estava mais pasmo com a atitude inesperada de Haruka, ou com o próprio e dolorido autodesprezo que o atingiu naquele instante. Sentiu-se pior que o mais sórdido dos espíritos raivosos incapazes de entrar no recinto do templo. Não lhe bastava ser incapaz de proteger a pessoa mais importante de sua vida, que agora estava em seus braços, ainda fora incapaz de afastá-la de sua vida sem perspectiva, e para piorar tudo, ele a fez chorar. Quanto mais tentava se soltar, mais ela apertava os braços em volta de seu corpo. Como poderia pará-la?



– Porque você está chorando? Depois de todos os problemas que você me trouxe, já sabe muito bem que os mortos não podem afetar o mundo físico. E também não podem voltar. E se vier com alguma conversa fiada de que está chorando por mim, sabe ainda melhor que eu não preciso.



Haruka ergueu o rosto para olhar a expressão intensa nos olhos bicolores de Yakumo, uma emoção que desmentia as palavras duras articuladas pela voz linda e profunda. Ele definitivamente tinha uma língua muito afiada. Mas daquela vez, ela lamentou que aquelas palavras feriam mais a ele próprio que à ouvinte.


Adoro essa sua cara de sono
E o timbre da sua voz
Que fica me dizendo coisas tão malucas
E que quase me mata de rir
Quando tenta me convencer
Que eu só fiquei aqui
Porque nós dois somos iguais



– Você se lembra de quando nos conhecemos, Yakumo-kun? ... - ela sentiu que as lágrimas paravam de correr aos olhos, e mais aliviada, parou um pouco para erguer as mãos e afagar os cabelos negros e revoltos do jovem em seus braços. - E que, depois que você resolveu o caso daquela moça que tinha o mesmo nome da minha irmã, Ayaka-chan, você me passou uma mensagem dela e disse que eu não precisava mais me culpar? Eu não sou capaz de ver os mortos, não posso compreender o fardo que você carrega, e você sabe muito bem de tudo que Isshin-san me disse. Mas agora vou te dizer a mesma coisa: você não precisa se culpar.


Até parece que você já tinha
O meu manual de instruções
Porque você decifra os meus sonhos
Porque você sabe o que eu gosto
E porque quando você me abraça
O mundo gira devagar



O detetive psíquico lembrou-se, com amarga ironia, de que quando conheceu a pequena que tentava consolá-lo, ela acreditou que ele tivesse poderes estranhos e fosse capaz de adivinhar pensamentos. Mas ela acabou de fazer exatamente o oposto. Com uma única ação gentil, e poucas palavras simples, ela desvendou seu coração como se folheasse um livro.


E o tempo é só meu
E ninguém registra a cena
De repente vira um filme
Todo em câmera lenta


De repente, a presença dos espíritos e sua agitação sufocante, o olho vermelho e seu infortúnio, e o homem cruel e misterioso que gostava de tratá-lo como um rato de laboratório não tinham mais presença alguma em sua vida. Haruka nunca esteve tão perto dele. E assim como ele não se atrevia sequer a sonhar, ela cuidava dele, gostava de sua companhia, não se importava nem um pouco com suas visões horríveis; pelo contrário, algum motivo maluco a fez ver beleza em seu olho vermelho.


E eu acho que eu gosto mesmo de você
Bem do jeito que você é
Eu vou equalizar você
Numa frequência que só a gente sabe
Eu te transformei nessa canção
Pra poder te gravar em mim


Tudo que ele podia fazer era se deslumbrar com seu amor generoso, e tentar, ao menos por aquele instante, retê-la em sua vida. Aproximou-se do rosto feminino com muito cuidado, apreciando o brilho cálido dos olhos azuis gentis, e beijou-a com a lentidão e o afeto de que não se acreditava capaz. Os lábios trêmulos dela tinham o gosto das lágrimas derramadas há pouco tempo, e ele lamentou não poder saborear a linda boca pequena, recém aberta e arfante, ao sentir o sobressalto dela e os braços delicados soltando seu corpo tão de repente como o tinham abraçado.



– Haruka, - ele indagou, deliciado em ver como ela ficava adorável toda corada de vergonha, e admirada em ouvi-lo chamar seu nome - por que você ainda não desistiu de mim?



Ela apenas devolveu o olhar, sem saber se ficava desgostosa com a quase tranquilidade que ele aparentava depois de fazer algo tão inesperado, ou se ficava chocada com o extremo da própria incapacidade de mentir ou inventar um subterfúgio na resposta.



– É porque eu te amo, Yakumo-kun.



– Você deve ser mesmo muito burra para amar alguém como eu.



A aspirante a professora não conseguiu expressar sua raiva para o moço felino à sua frente, pois antes que pudesse tentar bater nele como de costume, ele segurou sua mão, antes de beijar, devagarinho, a palma, os dedos e pulso, e responder:



– Eu também te amo, sua baixinha encrenqueira. Mas me chame apenas pelo meu nome.


Eu vou equalizar você
Numa frequência que só a gente sabe
Eu te transformei nessa canção
Pra poder te gravar em mim